Abrir um negócio não é fácil. Certamente, poucos têm noção dos obstáculos que você superou e supera todos os dias para conseguir manter seu empreendimento a todo vapor. Então não é de se estranhar que você queira realizar as tarefas com grande zelo, proporcional ao cuidado e trabalho dispensado para manter tudo funcionando. Só que você é apenas uma pessoa, e quando seu negócio cresce fica difícil tomar conta de tudo, sendo necessário delegar tarefas a outras pessoas.
Esse é um dos grandes desafios no dia a dia de todos que estão empreendendo, porque não é mesmo fácil dar responsabilidades e autonomia sem perder a liderança, e ainda garantir a manutenção da qualidade do produto ou serviço. Mas acredite, delegar é necessário (muitas vezes inevitável) e seu negócio só sai ganhando com isso.
“O benefício mais óbvio é a capacidade de liberar tempo para fazer outras coisas relacionadas à empresa, mas empreendedores e líderes de equipe também têm uma função importante de desenvolver pessoas”, resume Tatiana Iwai, professora de Comportamento Organizacional e Liderança do Insper, em São Paulo.
Focar no que importa
Tenha em mente algo simples, mas essencial: seu tempo é muito valioso. Você, empreendedor, empreendedora, olha seu negócio de maneira global e garante que ele continue não apenas funcionando, mas crescendo. Por isso, é preciso escolher muito bem quais são as tarefas às quais você vai se dedicar pessoalmente. Aquelas que são imprescindíveis de serem feitas através de sua expertise. Todo o resto pode ser assumido por funcionários ou empresas terceirizadas, por exemplo (se você tiver os recursos, é claro). Como explica Tatiana Iwai, o seu papel é olhar do negócio para fora, buscando atrair novos clientes, parceiros e fornecedores.
Isso não quer dizer que você vai abandonar as operações, apenas que está ajustando o seu foco. É aí que entra em cena um componente muito importante: confiança. Delegar nada mais é do que dividir as responsabilidades e confiar em outras pessoas para realizar tarefas que antes cabiam a você. Isso não quer dizer fazer igual a você, pelo simples fato de que as pessoas são diferentes.
De acordo com Tatiana: “todo mundo gosta de autonomia e de ter liberdade para decisão, mas se olharmos pelo outro lado vemos que ceder autonomia não é simples. Podem existir inúmeros motivos para um(a) líder não ter confiança em relação aos liderados por acharem que eles não serão tão engajados quanto ele(a). Nesses contextos, é importantíssimo que não pensemos na autonomia como um conceito radical, em que ou se dá ou não se dá, e sim como algo gradual”, garante a professora do Insper.
Não se esqueça: confiança se constrói
Faça um paralelo com qualquer relacionamento: não assumimos altos riscos logo de início, mas sim conforme adquirimos confiança no outro, conforme observamos como ele reage em determinadas situações. A ideia de autonomia, segundo Tatiana Iwai, é similar. “Você oferece um pouco e, se a pessoa demonstra maturidade e prontidão suficientes, a responsabilidade aumenta. Se não mostra, você segura”.
Nesse processo, atente-se também para não ser você o motivo pelo qual sua equipe pode não ter proatividade. É um círculo vicioso: um líder que se porta de maneira controladora não deixa espaço para que sua equipe ou colaborador consiga amadurecer e assumir responsabilidades. “Às vezes reclamamos, mas educamos os sujeitos a esperar a resposta”, resume Tatiana. Ou seja: a liderança pode ser tão controladora que a equipe já entende que não adianta agir de maneira independente, já que todas as tarefas terão que ser refeitas para se adequar às vontades de quem gere a equipe. A equipe, então, passa a sempre esperar orientações.
Sendo a liderança que você quer ver no mundo
Ao delegar tarefas, lembre-se: você está desenvolvendo e engajando pessoas nas funções que elas executam. Isso significa plantar autonomia e protagonismo e colher um trabalho mais rico e com propósito. “Se sua equipe não apenas obedece ao que foi pedido, mas sim tem um senso de engajamento e responsabilidade com o trabalho, você está fazendo com que ela amadureça, o que é uma responsabilidade muito maior”, diz Tatiana Iwai. O resultado final é fruto de sua postura. Postura essa que envolve prover suporte contínuo, mas sem um controle excessivo.
E não adianta, não há outro jeito de ser esse tipo de líder sem investir em comunicação clara e efetiva. Se você tem expectativas em relação ao trabalho de sua equipe e ao que ela deve alcançar, verbalize. “Só se pode cobrar resultados se no início você foi capaz de deixar claro o que era esperado”, acrescenta Tatiana Iwai. “E não apenas as metas objetivas, que todos comunicam, mas também as expectativas de como o trabalho deve ser feito e que não estão embutidas nestas métricas objetivas”.
Nesse sentido, uma dica importante é dar feedbacks construtivos ao longo de todo o processo, não apenas no final de um ciclo. Outro lembrete é que empatia é essencial: mostre-se aberta e solidário com a equipe, compreendendo os entraves que eventualmente podem comprometer entregas e resultados. Ver na liderança um apoio, e não meramente uma cobrança, fortalece a confiança em você e inspira sua equipe.
Outra dica importante: delegar não mina seu poder em seu próprio negócio, menos ainda diminui a sua importância. Lembre-se de todas as funções que você assume e o quanto depende da sua decisão. Ter uma equipe capaz de trabalhar sozinha indica muito mais que a sua liderança é efetiva do que o contrário. Indica que seu papel é de apoio e suporte e não de um general – até porque, a bem da verdade, é impossível ter total controle de tudo.