Aplicar práticas de diversidade nas empresas pode impactar diretamente os seus resultados, trazendo diversos benefícios. Independentemente do porte e do ramo de atuação, formar e manter uma equipe plural tem se mostrado uma atitude fundamental para aumentar a produtividade no ambiente de trabalho e, consequentemente, o desempenho financeiro das organizações.
Neste sentido, fortalecer a representatividade racial nas empresas ultrapassa seu valor de prática de responsabilidade social para se tornar uma atitude estratégica. Afinal, em um país no qual cerca de 56% da população é composta por pessoas negras, de acordo com dados de 2021 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), refletir essa realidade nas equipes pode aumentar a pluralidade de ideias na empresa e melhorar a aderência dos seus produtos e serviços a diferentes públicos.
A falta de diversidade étnico-racial não apenas restringe a capacidade de inovação e adaptação aos diferentes mercados, mas também pode resultar na perda de oportunidades de negócio e na dificuldade em criar conexões mais profundas com uma ampla gama de clientes. Por isso, esta questão exige atenção de todos os empreendedores e empreendedoras.
O valor da representatividade racial nas empresas
Fortalecer a representatividade racial enriquece a cultura do corpo institucional e tem o poder de promover equidade e de posicionar a empresa como uma parceira na luta contra o racismo. Mas, para além do discurso, é relevante destacar que esta questão racial no Brasil tem ainda uma dimensão econômica.
Do ponto de vista empresarial, realizar práticas de inclusão racial é a melhor estratégia. Segundo pesquisa do Instituto Locomotiva (2020), esta parcela da população corresponde a 40% do consumo no país, totalizando R$1,09 trilhões anuais.
São muitos os estudos que evidenciam como a diversidade racial nas empresas não é apenas um reflexo de representatividade, mas um catalisador para melhores resultados de negócios. Um deles, realizado pelo Instituto Identidades do Brasil (IDBR), em março de 2023, constatou, por exemplo, que um acréscimo de 10% na diversidade étnico-racial de uma empresa tem a capacidade de resultar em um aumento de 4% na produtividade.
A grande questão é que, mesmo com o entendimento sobre a importância de se aplicar a diversidade racial, muitas lideranças empresariais permanecem com uma dúvida: como inserir essas práticas inclusivas no meu negócio?
Qual é o caminho para uma inclusão racial efetiva?
As comunicadoras Tânia Chaves e Juliana Gonçalves, que têm trabalhos ligados à promoção da diversidade racial em empresas, veem a educação sobre o tema como um ponto primordial para se pensar em práticas que levem a uma inclusão efetiva de pessoas negras nos negócios.
De acordo com Chaves, que é especialista em Diversidade e Inclusão na Globo e fundadora da Academia da Diversidade – uma consultoria sobre Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) -, é necessário que tanto as lideranças quanto membros das equipes tenham o entendimento sobre a questão de raça no Brasil para que essas políticas sejam efetivas: “Nosso país é muito miscigenado e, em consequência disso, há uma negação muito forte do racismo”.
O problema citado pela especialista evidencia uma forma enraizada de racismo existente no Brasil: o racismo estrutural. Ele acontece quando a discriminação racial se infiltra nas normas e sistemas de uma sociedade, influenciando desde decisões públicas e empresariais até interações do dia a dia.
No Brasil, essa forma de racismo se mistura com a diversidade cultural, tornando-se menos óbvia, mas igualmente prejudicial. O racismo estrutural vai além de ações individuais, estando presente na maneira como as organizações funcionam e tomam decisões, por isso, reconhecê-lo é tão importante para que qualquer empresa possa promover uma verdadeira inclusão racial.
Contribuindo para o debate, Juliana Gonçalves, que é cofundadora da Firma Preta – uma plataforma voltada à divulgação de vagas de empregos, bolsas, editais e cursos para pessoas negras e indígenas -, acredita que a garantia de um processo seletivo sem margens para preconceitos e que ofereça oportunidades igualitárias é essencial para a formação de um ambiente de trabalho mais diverso.
A jornalista, que também atua como coordenadora de Comunicação do Observatório da Branquitude, acrescenta que o maior desafio para a implementação dessas práticas pode ser a necessidade de reconhecimento, por parte de pessoas brancas, de que existe uma desigualdade de oportunidades. Pode ser inclusive desconfortável o processo crítico necessário para entender esta desigualdade e corrigir a situação.
Segundo ela, é preciso implementar uma estratégia para entender o perfil das pessoas da equipe, tanto no corpo operacional quanto nas lideranças, quando se tratam de negócios de porte mais robusto.
“Vemos muitas empresas abrirem processos seletivos para vagas de estágio e trainee voltadas para pessoas negras, terem um corpo operacional composto por pessoas negras, mas com lideranças majoritariamente brancas. Quando isso acontece, quer dizer que não há de fato um processo de diversidade implementado. Reconhecer a desigualdade racial demanda também lidar com o desconforto de ver que quando pessoas negras ocupam posições de gestão, pessoas brancas deixam de ocupá-los”.
Em empresas de médio porte, que contam com mais pessoas na equipe, Tânia Chaves reforça inclusive que é importante realizar um censo interno para avaliar o perfil dos funcionários e funcionárias e os cargos que ocupam.
Para que esta pesquisa seja mais efetiva, a especialista reafirma a necessidade de um maior entendimento sobre raça para garantir respostas precisas: “Quando falamos sobre isso e trazemos esse tema ao nível da consciência, as barreiras do preconceito são quebradas”, destaca Tânia.
Ela explica que a falta de conhecimento sobre raça pode gerar respostas equivocadas no censo e impactar diretamente nas ações de diversidade pensadas para a empresa: “Já vi casos de pessoas que são negras retintas [termo utilizado pelo movimento negro para se referir a pessoas negras de pele mais escura], mas que na certidão têm escrito ‘parda’ e que, por isso, declaram-se como ‘pardas’ em todos os lugares”.
Como implementar a diversidade racial na prática
Para formar um ambiente de trabalho inclusivo é preciso que cada pessoa do time se sinta valorizada e respeitada em suas singularidades. Além disso, a liderança deve ter em mente que este processo é contínuo e requer constante adaptação.
Veja algumas dicas de como implementar a inclusão racial com base nos ensinamentos de Tânia Chaves e Juliana Gonçalves:
- Crie projetos de sensibilização e educação contra o racismo: desenvolva programas de treinamento que abordem temas como empatia, inclusão e letramento racial. Mentorias e grupos de debate também são ótimas ferramentas para garantir que as pessoas da equipe sejam ouvidas e suas experiências sejam valorizadas.
- Recrutamento inclusivo: considere publicar vagas em plataformas acessíveis a um amplo espectro de candidatos e garantir um processo seletivo justo. Juliana Gonçalves sugere práticas para abrir as portas da empresa para a diversidade racial e descobrir novos talentos. “É importante ter pessoas negras participando do processo de recrutamento e desenvolvimento de descrições de vagas, além de criar projetos educacionais sensíveis às questões raciais,” diz.
- Desenvolvimento de carreira e políticas de inclusão: além do recrutamento, é importante focar no desenvolvimento de carreira. Juliana Gonçalves ressalta a importância de implementar políticas que assegurem as mesmas oportunidades de evolução profissional a todos os colaboradores, especialmente aqueles contratados por meio de vagas afirmativas;
- Estimule a afinidade entre os colegas: crie um ambiente dinâmico em que cada pessoa possa compartilhar suas experiências e celebrar suas diferentes culturas e tradições;
- Garanta um ambiente seguro para as pessoas negras do seu time: com uma cultura de inclusão bem aplicada, a empresa é vista pelas pessoas como um lugar seguro onde elas podem recorrer caso sofram discriminação racial. Para isso, é importante ter um canal aberto para denúncias, trabalhar o acolhimento e uma política de tolerância zero a casos de racismo;
- Engajamento das lideranças e time diverso: garantir a representatividade negra em cargos de liderança e supervisão;
- Parcerias estratégicas: avalie a possibilidade de firmar parcerias com organizações dedicadas à equidade racial, como organizações do terceiro setor ou movimentos de combate ao racismo, que podem fornecer orientações sobre o tema;
Tânia Chaves frisa que, para romper as diferenças de raça, é preciso investir na intencionalidade dessas ações, atingindo um nível de consciência sobre as questões raciais. Ou seja, é importante acreditar no valor deste movimento de inclusão racial.
Inserir diversidade, equidade e inclusão na cultura da sua empresa é o primeiro passo para deixar o ambiente de trabalho mais representativo e comprometido com a diversidade.