Para o bom funcionamento da sua empresa, você já sabe, é fundamental acompanhar sua saúde financeira. Ou seja, se as finanças não estiverem organizadas e em dia, os investimentos a médio e longo prazo correrão riscos e a chance de entrar em déficit será grande. Nesta equação, a importância do Capital de Giro é enorme, e você precisa entender o que ele significa e qual o seu papel na gestão da sua empresa. Vamos lá?
Nesta primeira parte, você lerá:
– O que é exatamente o Capital de Giro
– Quais são os seus ciclos
Capital de giro e sua importância
No contexto mercantil a regra é: compre, venda, receba do cliente e só então pague ao fornecedor. Ou seja, o melhor é ser “bancado” pelo fornecedor. Como esta regra é muito difícil de ser seguida sempre, a função da gestão do capital de giro é justamente encontrar um equilíbrio entre financiar clientes (vendas a prazo) e a empresa ser financiada pelos fornecedores (compras a prazo).
O capital de giro é, portanto, o dinheiro que sustenta a operação de sua empresa no intervalo entre comprar/pagar o fornecedor e vender/receber do cliente. Em termos técnicos, é a parte do capital investido na empresa que não foi imobilizada em ativos fixos, ou seja, todos os bens essenciais para o funcionamento da empresa, como móveis e equipamentos, e nem em aplicações de longo prazo, mas ficou disponível para aplicação no Giro Operacional. Portanto, ele não é necessariamente todo o capital da operação, mas somente a parte do investimento de longo prazo feito na empresa que ficou disponível para a operação do dia a dia.
Atente-se!
“Não confunda com o Capital no Giro, que é a soma de todos os recursos aplicados para resgate de curto prazo – como o valor dos estoques (aplicação em estoque), saldo de contas a receber (financiamentos a clientes), saldo de caixa e bancos (disponibilidades) e eventualmente antecipação de pagamentos a fornecedores. Parte destes recursos provém do investimento feito na empresa, que é o Capital de Giro, e parte tem origem nos parceiros operacionais, como os fornecedores que vendem a prazo”, explica Cristiane Ferreira Fernandes, graduada em Ciências Contábeis e consultora em Gestão Financeira e Planejamento Empresarial junto ao SEBRAE/MS. O estoque, por exemplo, para ser capital de giro, precisa já ter sido vendido e recebido.
Os ciclos envolvidos
Para saber calcular o capital de giro e não ter problemas com uma parte tão importante para a saúde financeira de sua empresa, outros conceitos são necessários: os ciclos Econômico e Financeiro são alguns deles:
– O Ciclo Econômico: representa o tempo total entre um produto chegar na sua empresa até ser vendido e recebido do cliente. Ou, em outras palavras, é o período entre a compra (receber mercadorias ou serviços) e a venda (entregar produtos ou serviços), que envolve direitos e obrigações econômicas, mas sem transferências de dinheiro.
– O Ciclo Financeiro desconta o prazo necessário para pagar o seu fornecedor. Por exemplo: se seu Ciclo Econômico é de 80 dias, esse é o tempo entre adquirir uma mercadoria, estocá-la, vendê-la e receber. Mas se em 20 dias você tem que pagar o fornecedor pela mercadoria, então seu Ciclo Financeiro é de 80 – 20, ou 60 dias. É o tempo entre pagar o fornecedor (desembolsar dinheiro) e receber do cliente. Ou seja, é o tempo em que é preciso ter recurso disponível.
“Entender a natureza destes ciclos é importante, pois são eles que caracterizam o ambiente do Capital de Giro. Se a empresa compra algo, recebe e aplica, está sendo financiada pelo fornecedor até que pague pela compra. Da mesma forma, se vende, a empresa financia o cliente até receber o pagamento”, ressalta a consultora do Sebrae.
E quando a empresa opera no ciclo financeiro e realiza pagamentos ainda há algumas possibilidades de onde veio o dinheiro para fazer tais pagamentos:
– Se recebeu do cliente antes de pagar ao fornecedor, o fornecedor financiou a empresa (“emprestou” o valor correspondente ao que vendeu para a empresa: vendas a prazo).
– Se em uma operação teve de pagar ao fornecedor antes de receber do cliente, então o dinheiro veio de fora dessa operação.
– Se a demora em fabricar ou vender os estoques e de receber dos clientes não permite que a empresa seja “bancada” pelos fornecedores, significa que o negócio utilizou recurso deixado pelos sócios na operação para pagar os fornecedores (Capital de Giro). Se esse recurso foi insuficiente, então ela necessariamente teve de tomar dinheiro emprestado – o que coloca em risco o lucro da operação e pode até inviabilizar a empresa se este desequilíbrio for muito grande.
Como calcular o Capital de Giro?
Existem algumas fórmulas que te ajudam a calcular o Capital de Giro – mais especificamente o Capital de Giro, a Necessidade de Capital de Giro e o Saldo de Tesouraria, três conceitos que, segundo Cristiane Fernandes, graduada em Ciências Contábeis e consultora em Gestão Financeira e Planejamento Empresarial junto ao SEBRAE/MS, são essenciais. Para entendê-los, é preciso ter em mente alguns conceitos explicados abaixo. Após os conceitos, usaremos exemplos que facilitam a compreensão do cálculo utilizado para saber o capital de giro.
Segundo a consultora do Sebrae/MS, a forma mais clara de abordar a gestão do Capital de é através do balanço patrimonial, que explica a origem (passivo) e a destinação (ativo) dos recursos da empresa. De onde eles foram captados e onde serão aplicados. Para entender melhor:
– Se a captação foi com os sócios, o capital investido na empresa pelos sócios não será devolvido, mas “recuperado” na forma de lucros gerados, portanto são capitais destinados ao uso permanente pela empresa, e são denominados de PATRIMÔNIO LÍQUIDO (PL).
– Captar recursos para devolução a longo prazo (mais de 12 meses) é o “PASSIVO NÃO CIRCULANTE”. Exemplos disso são os financiamentos bancários, empréstimos de empresas e de pessoas, quando a data de ressarcimento estiver acima de 12 meses. Em outras palavras, o Passivo Não Circulante consiste nos recursos captados de terceiros para devolução no longo prazo mais o capital investido pelos sócios. E quando estes recursos entram na empresa eles são destinados para três tipos de aplicações:
a) Aplicações que serão resgatadas no curto prazo (antes de 12 meses) chamadas de Ativo Circulante: aplicações no caixa, conta corrente, estoque e contas a receber de clientes.
b) Aplicações que serão resgatadas no longo prazo (mais de 12 meses) chamadas de Ativo Não Circulante: Realizável a longo prazo: investimentos em bolsa de valores, compra de ações de empresas.
c) Aplicações permanentes, chamadas de “Ativo Não Circulante: permanente”: máquinas, equipamentos e instalações, bens para ser utilizados e não vendidos. Recurso não imobilizado.
Dessa maneira, explica Cristiane, o Capital de Giro (CG) é o recurso que não foi imobilizado e ficou disponível para circulação. Ou: Capital de Giro = Passivo Não Circulante (-) Ativo Não circulante.
Agora, vamos ao exemplo prático: Em uma empresa, os sócios aplicaram R$200.000, e destes, R$180.000 foram usados na compra de equipamentos, máquinas e reforma das instalações (imobilizado). Restaram assim R$20.000 para operações como caixa, conta corrente e estoque. No nosso exemplo, o Capital de Giro é de R$20.000, já que os R$200.000 aplicados pelos sócios são o Patrimônio Líquido (PL) e, R$180.000 foram usados na compra de equipamentos, máquinas e reforma das instalações (ou seja, em aplicações permanentes).
Já a Necessidade de Capital de Giro (NCG) é a quantidade de recursos demandada pela operação da empresa além dos recursos captados de terceiros participantes da operação. É o valor necessário para manter a empresa funcionando no ciclo entre comprar/pagar e vender/receber, mas descontando o crédito dos fornecedores. Para entender melhor, vamos destrinchar mais alguns conceitos:
– Passivo circulante, ou captações para devolução no curto prazo, pode ser dividido em dois grupos: Passivo Circulante Financeiro (PCF) e Passivo Circulante Operacional (PCO):
a) O Passivo Circulante Financeiro: é formado por recursos captados na forma de dinheiro vivo ou créditos, como os empréstimos bancários, empréstimos de empresas ou de pessoas.
b) O Passivo Circulante Operacional: é representado por recursos derivados da própria operação da empresa, como compras a prazo, impostos a recolher gerados nas operações de venda e os recebimentos antecipados de clientes. Ou seja, são capitais não na forma de dinheiro vivo, ou que ainda estejam atrelados a uma operação.
Da mesma forma, o ativo circulante pode também ser dividido em dois grupos: o Ativo Circulante Operacional (ACO) e o Ativo Circulante Financeiro (ACF):
a) O Ativo Circulante Operacional é formado por recursos que exigem operações para serem resgatados, como estoque (necessita de operação de venda), vendas a prazo ou contas a receber (necessita da operação de recebimento dos clientes).
b) Já o Ativo Circulante Financeiro é formado pelos recursos já na forma de dinheiro ou créditos, como o dinheiro no caixa, em conta corrente de bancos e as aplicações financeiras de curto prazo.
Vamos ao exemplo: Se no fim do mês a empresa tem um saldo em estoque de R$50.000 e saldo de Contas a Receber de R$40.000, isso significa um Ativo Circulante operacional (ACO) de R$90.000. Se ao fim do mês a empresa devia para fornecedores ou tinha contas a contas a pagar de R$60.000, ela tem um Passivo Circulante Operacional (PCO) de R$60.000. Nesse caso, a Necessidade de Capital de Giro (NCG) é de 90.000 – 60.000 = R$30.000. Ou: NCG = ACO – PCO.
Dos R$90.000 aplicados na operação (ACO) ou no “giro”, R$60.000 foram cedidos por fornecedores (PCO). Então os R$30.000 restantes vieram de um “outro lugar” do passivo, que não o PCO. E é o Saldo de Tesouraria (ST) que diz de onde eles vieram. O Saldo de Tesouraria diz respeito a disponibilidade do seu recurso em caixa e é calculado da seguinte maneira: ST = CG – NCG.
Se o ST for negativo, é sinal de que a empresa teve de buscar recursos adicionais para financiar a operação, além dos recursos do Capital de Giro e dos recursos dos terceiros participantes da operação. Se for positivo, a empresa dispunha de recursos de Capital de Giro para financiar a operação.
Voltando ao nosso exemplo: a empresa tem R$20.000 de capital de giro. Esse valor não imobilizado (ativo não circulante) foi deixado no giro (ativo circulante). Mas a operação no mês em questão utilizou R$30.000 a mais do que foi captado dos parceiros operacionais, ou seja, o PCO. Então, estes R$30.000 vieram das duas únicas origens possíveis: dos sócios (o Capital de Giro) ou de terceiros na forma de dinheiro vivo ou créditos (empréstimos de socorro). ST = 20.000 (CG) – 30.000 (NCG) = – 10.000.
“Neste caso, podemos afirmar que a empresa está “financiando clientes e investindo em estoque” mais do que seus fornecedores a financia. Está consumindo todo o Capital de Giro aplicado pelos sócios. Para honrar seus compromissos do dia a dia ela precisa de empréstimos de socorro, um tipo de dinheiro muito caro por conta dos juros”, evidencia Cristiane Fernandes.
O cálculo pode não ser dos mais simples, mas é necessário, afinal de contas um descontrole financeiro pode pôr em risco o seu negócio! A boa notícia é que todos estes conceitos já fazem parte do seu dia a dia, basta organização e disciplina para mantê-los na ponta do lápis.