Revista Personnalité

10/07/2014

CORAÇÃO ROCK'N ROLL

Entre o guitarrista e o escritor, o ídolo de rock e o detetive policial, Tony Bellotto recupera o “espírito de garagem” que marca o melhor de sua produção.

BELLOTTO

Março de 2006, 19ª Bienal do Livro de São Paulo. O guitarrista e escritor Tony Bellotto – pai do detetive Remo Bellini – está sentado ao lado de uma lenda dos romances policiais, o norte-americano Lawrence Block, autor do clássico Quando nosso boteco fecha as portas (1986). Os dois realizam uma palestra no Salão das Ideias sobre a literatura de suspense. Em meio a divagações sobre sequências narrativas e construção de personagens, Block vira para Bellotto e faz uma pergunta sincera: “Eu tenho amigos músicos. Eles passam a noite inteira tocando e se divertem muito. Isso é algo que você nunca vai ouvir de um escritor. Escrever é exaustivo e entediante. Então, Tony, me responde: por que você escreve?” O titã deu uma risada.

Dezembro de 2013, apartamento de Tony Bellotto, Rio de Janeiro. A reportagem de Revista Personnalité repete o questionamento de Block. Tony, desta vez, responde sem rodeio: “Essa pergunta é ridícula, nem deveria ser feita. É óbvio que tocar dá muito mais prazer. Escrever é uma sensação muito pequena perto do prazer que é tocar para 50 mil pessoas cantando uma música que você fez. Mas é um impulso interior, uma coisa de realização pessoal, de você se resolver consigo e dizer: ‘Ah, consegui fechar um livro’”.

A resposta se torna ainda mais intrigante diante de um guitarrista que já era bem-sucedido aos 20 e poucos anos e só aos 32 atinou de começar uma carreira literária, atividade exigente e solitária. Hoje, já com sete títulos, Bellotto retoma seu primeiro personagem, o detetive particular Remo Bellini, que protagonizou três romances. Ainda no primeiro semestre, lança Bellini e o labirinto, 4º livro da série.

O ALTER EGO

Imagine-se Tony Bellotto por um dia. Você acorda na sua cobertura em Ipanema. A primeira imagem que vê é Malu Mader, sua esposa há 25 anos. Toma café ao lado dos seus dois filhos . Em seguida, vai fazer cooper na lagoa Rodrigo de Freitas, a apenas dois quarteirões do seu prédio – ou na praia de Ipanema, a cinco. Volta e diante de si tem duas possibilidades. Uma é ensaiar com a banda, uma das mais estáveis do rock brasileiro, que mantém há 32 anos com os seus amigos de infância. A outra é trancar-se no seu escritório e passar horas desenvolvendo ficção ou compondo músicas com a guitarra em alto volume. Diante de uma realidade dessas, com o que você fantasiaria?

No caso de Tony Bellotto, com indivíduos menos afortunados, com vidas destroçadas, com cenários decrépitos, com Remo Bellini. “O fracasso e a solidão são coisas que enxergo como uma possibilidade muito próxima”, conta. “Sempre senti uma tendência muito grande a ficar só, acho que até me viraria muito bem vivendo assim. Mas alguma coisa em mim me impeliu para o lado oposto.”

Ao ressuscitar sua criação mais célebre, Bellotto teve de remontar a atmosfera decadente que também sobrevoa os personagens das outras obras do autor, tal qual Teo Zanquis, o guitarrista fracassado e mulherengo de No buraco (2010). O interessante é que basta sentar por 5 minutos diante do artista para perceber como Tony Bellotto é tudo menos Remo Bellini, um indivíduo desiludido, cínico e por vezes arredio. O engenheiro de som norte-americano Jack Endino, que descobriu a banda Nirvana e produziu cinco discos dos Titãs, tem um punhado de adjetivos para classificar o guitarrista. “Ele é simplesmente um cara legal”, diz. “É um cavalheiro, um autêntico ‘sweetheart’.”

Pois então: como consegue criar tramas tão nebulosas e sedutoras? — cada título vende, em média, 20 mil exemplares. Ou além: por que esse doce de coco, quando toma uma guitarra para escrever canções, o faz no máximo volume, com letras que gritam coisas como “bichos escrotos”? Nesse sentido, talvez Tony possa ser comparado a Lou Reed, que canta na faixa “Rock’n’roll heart”, de 1976: “Pois bem lá no fundo, eu tenho um coração rock’n’roll”.

É seguro dizer que Remo Bellini é o coração rock’n’roll que ainda pulsa no paulistano Tony Bellotto. Por meio do seu alter ego, o escritor elabora seus traços mais particulares. É como se a vida real, tingida com luzes tão douradas, obrigasse à imaginação um equilíbrio soturno. Em Bellini, Bellotto vê-se diante de um espelho desses que deformam. Há algo de terapêutico nesse processo.

 

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