Itaú BBA - Tensões entre EUA e China se acentuam

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Tensões entre EUA e China se acentuam

Maio 15, 2020

A possível continuidade da deterioração nas relações entre os dois países pode ameaçar a manutenção do acordo comercial em vigência.

 Ações por parte do governo americano elevam tensões com China

 Produção industrial chinesa se recupera em abril; demais setores ainda moderados

 Atualização de cenário: economia brasileira mais fraca em meio a desafios fiscais ainda maiores

 Nelson Teich deixa o Ministério da Saúde

Ações por parte do governo americano elevam tensões com China

Ações por parte do governo americano marcaram ao longo da semana uma nova deterioração do relacionamento entre EUA e China – um movimento que começou com contovérsias entre os dois governos envolvendo o tema do coronavírus, e acabou chegando à esfera comercial. A China indicou propensão a rever termos do acordo “fase 1” atingido no final de 2019, mas o presidente Trump respondeu não ter interesse em dialogar neste momento e chegou a sugerir que poderia “cortar totalmente a relação” entre os países. Na sequência, o departamento de comércio americano anunciou controles de exportações mais restritos, que afetam diretamente empresas de tecnologia chinesas, como é o caso do setor de telecomunicações. A possível continuidade da deterioração nas relações entre os dois países pode ameaçar a manutenção do acordo comercial em vigência.

China tem retomada mais rápida na indústria que em outros setores

A produção industrial na China se recuperou em abril ao avançar 3,9% na variação anual, acima das expectativas de mercado, ante queda de 1,1% no mês anterior. O investimento em ativos fixos recuou 10,3% entre em janeiro e abril comparado com o mesmo período do ano anterior (ante -16,1% em março). Dentre seus componentes, a melhora nos investimentos em propriedades e infraestrutura contribuíram para a diminuição da desaceleração do indicador, reflexo das medidas de estímulo econômico do governo, enquanto o componente de investimento em manufatura ainda segue contido. As vendas no varejo para abril ainda seguem desacelerando (-6%) na variação anual, e mostram resultados ambíguos entre seus componentes. De um lado houve melhora nas vendas de automóveis e telefones celulares, mas o desempenho nas frentes de serviços alimentícios, vestuário, móveis, entre outros, ainda seguem em ritmo modesto. Para o ano, reduzimos nossas projeções de crescimento de China para 2,0% (antes: 2,5%) em 2020 e para 7,5% em 2021 (antes: 8,0%), uma vez que as incertezas em torno da meta de crescimento da economia permanecem.

Atualização de cenário: economia brasileira mais fraca em meio a desafios fiscais ainda maiores

Publicamos nossa atualização mensal de cenário (acesse aqui). Diante da propagação continuada do Covid-19, agora vemos uma contração de 4,5% no PIB brasileiro em 2020 (anteriormente projetávamos -2,5%). Para 2021, esperamos crescimento de 3,5% (ante 4,7%), não apenas devido à menor herança estatística deste ano, mas também devido a condições financeiras menos favoráveis que resultam das crescentes preocupações sobre a dinâmica das contas públicas. A crise cria pressão por gastos mais altos (déficit de 10,2% este ano), algo compreensível neste momento, mas que pode prejudicar a trajetória de ajuste dos próximos anos, caso as medidas de estímulo assumam um caráter mais permanente. De fato, passamos a projetar um déficit primário maior em 2021, impulsionado por mais gastos sociais. A deterioração fiscal aumenta o risco-país e reduz o espaço para uma apreciação do real. Junto com juros mais baixos e uma contração econômica mais acentuada, isso resulta em previsões mais fracas para a taxa de câmbio, agora em R$ 5,75 por dólar no final deste ano e R$ 4,50 por dólar no próximo (anteriormente, 4,60 e 4,15). Finalmente, embora esse ambiente exija cautela, acreditamos que o recente aumento do hiato do produto permitirá um corte adicional da taxa de juros, levando a taxa Selic para 2,25% até o final do ano (2,50% anteriormente) (Tabela 1).

Indicadores de atividade mostram impacto inicial da pandemia em março

Os índices de vendas no varejo e volume de serviços, divulgados pelo IBGE, assim como  o IBC-Br, pelo Banco Central, recuaram diante do impacto das medidas de distanciamento social iniciadas em meados de março. As vendas no varejo ampliado recuaram 13,7% em março na comparação mensal com ajuste sazonal, um pouco acima das expectativas do mercado (-14,5%) e da nossa projeção (-16,0%) (Gráfico 1). Como esperado, as vendas no segmento de “hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo” e de “artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos” avançaram no mês (+14,6% e +1,6%, respectivamente), enquanto os demais componentes recuaram fortemente. A queda nas vendas do varejo restrito (que exclui veículos e material de construção) foi mais leve (-2,5%), uma vez que as vendas nos supermercados têm peso maior no segmento (50%). Os destaques de queda foram observados nos setores de “tecidos, vestuário e calçados” (-42,3%), “veículos, motocicletas, partes e peças” (-36,4%), “livros, jornais, revistas e papelaria” (-36,1%) e “móveis e eletrodomésticos” (-25,9%). O índice de volume do setor de serviços (PMS) caiu 6,9% em março, em comparação com fevereiro, alcançando o pior resultado do setor na série histórica (Gráfico 2). Todas as cinco atividades pesquisadas tiveram quedas, com destaque para serviços prestados às famílias (-31,2%) e transportes, serviços  auxiliares aos transportes e correio (-9%). Por fim, o índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br) também apresentou recuo, de 5,9% no mês, influenciado pelo desempenho negativo na produção industrial, vendas no varejo e setor de serviços. Em comparação a março de 2019, o índice teve queda de 1,52%. 

Em linhas gerais, avaliamos que os dados de março já mostram forte impacto das medidas de distanciamento social na atividade econômica. Nossas projeção preliminar para o PIB indica uma queda de 1,4% com ajuste sazonal no primeiro trimestre do ano (não anualizado). No segundo trimestre, projetamos um declínio de 10,6% em relação ao trimestre anterior (não anualizado). Vemos o início de um processo de recuperação da atividade econômica no terceiro trimestre, com o PIB contraindo 4,5% este ano e crescendo 3,5% no próximo ano.

Ata do Copom sugere novo corte de 0,75 p.p., apesar de riscos fiscais

A ata do Copom mostra o racional para a decisão de cortar a taxa Selic em 0,75 p.p. na última reunião, e traz informações adicionais sobre como as autoridades estão avaliando a atual crise. O texto indica que o comitê vê a pandemia e seus efeitos econômicos como um choque fortemente desinflacionário no horizonte relevante para a política monetária. Acertadamente, o comitê reconhece o risco de deterioração fiscal, mas indica que, enquanto as expectativas de inflação não forem afetadas, esses riscos não serão suficientes para alterar as decisões de política monetária. Há uma discussão sobre um limite inferior para a taxa Selic, mas entendemos que o foco na meta de inflação e nas prováveis quedas adicionais das expectativas de inflação prevalece, e aponta para outro corte de 0,75 p.p. na próxima reunião do Copom (16 e 17 de junho), o que levaria a taxa básica de juros para o nível final de 2,25% a.a. Evidentemente, conforme observado pelas autoridades, as estimativas agora estão envoltas por uma incerteza acima do usual.

Nelson Teich deixa o Ministério da Saúde

Segundo o noticiário, Nelson Teich pediu demissão do cargo de Ministro da Saúde, antes de completar um mês à frente da pasta. Até o momento da publicação desse relatório, não havia sido definido o nome de seu substituto.

Destaques da próxima semana

No Brasil, além da evolução dos casos, será importante acompanhar as medidas dos governos estaduais em relação à duração das medidas de distanciamento social e planejamento de reabertura. Segundo o noticiário, é possível que o presidente Jair Bolsonaro participe de uma videoconferência com governadores para tratar do veto ao dispositivo que permite reajuste salariais aos servidores público. Ainda segundo a imprensa, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o ministro da Economia, Paulo Guedes, participarão do encontro. Adicionalmente, o Senado pode retomar a sessão que discute projeto sobre limite de juros para cartões de crédito e cheque especial. A Casa também pode decidir se irá pautar ou não o projeto de lei que aumenta a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) de bancos. Na agenda de divulgações econômicas, a prévia da confiança da indústria da FGV, para o mês de maio, deve ser divulgada na quinta-feira.

Do lado internacional, o Fed divulga a ata referente à sua última reunião de política monetária na quarta-feira. No dia seguinte, o presidente do Fed, Jerome Powell, fará pronunciamento em evento sobre o impacto da pandemia na atividade econômica americana. Além disso, a Comissão Europeia pode apresentar proposta sobre a criação de fundo de recuperação econômica para o bloco.
 

Para o relatório completo com gráficos e tabelas, favor acessar o pdf em anexo.



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