Itaú BBA - PIB brasileiro recua 1,5% no 1T20

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PIB brasileiro recua 1,5% no 1T20

Maio 29, 2020

Alguns setores se mostraram mais resilientes à crise, enquanto outros sofreram intenso impacto negativo.

 Impacto das medidas de distanciamento social foi heterogêneo entre os setores.

 Queda na taxa de participação impede elevação maior do desemprego em abril.

 Forte correção das contas externas em abril.

 Estado de São Paulo divulga plano de reabertura.

 Tensões entre EUA e China permanecem acirradas.

Impacto das medidas de distanciamento foi heterogêneo entre os setores

No 1T20, o PIB teve queda de 1,5% na comparação trimestral com ajuste sazonal, resultado em linha com as expectativas (mercado: -1,5%, Itaú: -1,4%) (Gráfico 1). Como esperado, o setor agrícola foi o único a registrar crescimento, da ordem de 0,6% em relação ao trimestre anterior, enquanto indústria e serviços recuaram 1,4% e 1,6%, respectivamente, afetados pelas medidas de distanciamento social iniciadas em meados de março. Na abertura pelo lado da oferta, alguns setores se mostraram mais resilientes à crise atual, enquanto outros sofreram intenso impacto negativo. Do lado de serviços, os setores residencial, financeiro e de administração pública resistiram um pouco melhor, enquanto transporte e outros serviços (como serviços prestados a famílias: hotéis, restaurantes etc.) tiveram queda acentuada. Na indústria, a atividade das empresas de eletricidade e saneamento básico se manteve relativamente estável, enquanto indústria de transformação, construção civil e mineração registraram resultados negativos.

Do lado da demanda, o consumo caiu 2,0% no trimestre, com ajuste sazonal, enquanto as despesas do governo aumentaram 0,2% e o investimento subiu 3,1%, impulsionado pelas importações de máquinas e equipamentos principalmente para o setor de petróleo e gás. As exportações diminuíram 0,9%, enquanto as importações avançaram 2,8%. Para o 2T20, projetamos queda do PIB de 10,6% na comparação trimestral com ajuste sazonal (não anualizado), considerando a vigência das medidas de distanciamento social na maior parte do período. No entanto, dados preliminares indicam que o nível de atividade econômica pode ter atingido seu ponto mais baixo em abril e começou a se recuperar levemente em maio. Esperamos aceleração do PIB a partir do 3T20 e prevemos uma queda de 4,5% em 2020, seguida de um crescimento de 3,5% em 2021.

Tímida elevação da confiança em maio 

A FGV divulgou nesta semana os resultados finais das sondagens de confiança para o mês de maio. O índice de confiança de serviços subiu 9,4 pontos em maio (para 60,5 pontos), após atingir em abril, o menor nível da série histórica. O indicador recuperou apenas 21,7% do recuo observado nos dois meses anteriores, reflexo de uma revisão positiva no componente de expectativas para o futuro. A confiança no comércio, que chegou a recuar 26,9 pontos em abriu, avançou 6,2 pontos no mês de maio para o patamar de 67,4 pontos. Na mesma direção, a confiança do consumidor avançou 3,9 pontos (para 62,1). Segundo a instituição, no momento presente, grande parte dos consumidores sentem os impactos da pandemia e avaliam piora na situação econômica geral e financeira das famílias. No setor industrial, o índice de confiança subiu 3,2 pontos (acima da variação de 2,4 pontos indicada pela prévia da sondagem). Segundo a FGV, 10 dos 19 segmentos industriais pesquisados apresentaram aumento da confiança em maio, reflexo de alta em ambos os indicadores de expectativas para o futuro (+ 5,3 pontos) e situação atual (+1,2 ponto). O nível de utilização da capacidade instalada na indústria subiu 3,0 p.p. (para 60,3%), um patamar muito baixo em termos históricos, mas mostrando alguma reação da indústria entre abril e maio. Por fim, a confiança na indústria avançou 3,0 pontos em maio, atingindo 68,0 pontos. Apesar do resultado positivo, o índice acumula queda de 26,2 pontos em relação a janeiro de 2020.

Intensa destruição de empregos formais em março e abril 

Segundo o Ministério da Economia, a criação de empregos formais (Caged) foi negativa em 241 mil postos de trabalho em março e 860 mil em abril. Ajustado sazonalmente, houve queda de 212 mil e 935 mil postos de trabalho em março e abril, respectivamente. A contração foi disseminada entre os principais setores da economia brasileira, impactando de forma mais acentuada, como esperado, o setor de serviços, enquanto o setor agrícola foi o mais resiliente (Gráfico 2). 

Queda na taxa de participação impede alta maior do desemprego em abril

A taxa de desemprego atingiu 12,6% em abril, abaixo das expectativas do mercado (13,3%) e da nossa projeção (13,9%), devido a uma queda acentuada na taxa de participação (de 61,0% para 59,1%, com ajuste sazonal). Ajustada sazonalmente, a taxa de desemprego aumentou de 11,6% para 12,1% (Gráfico 3). Supondo a taxa de participação constante no nível de fevereiro, a taxa de desemprego teria atingido 16,0%, ajustada sazonalmente. A população ocupada em empregos formais recuou em 836 mil com ajuste sazonal em abril – perto do número divulgado ontem pelo Ministério da Economia (Caged) – enquanto a população ocupada em empregos informais diminuiu em 2,3 milhões. 

Vale notar que o emprego formal, com salários mais altos, vem ganhando participação no emprego total, de modo que o salário real médio tem aumentado (+1,3% ajustado sazonalmente de março para abril, +2,7% na comparação com abril de 2019). Isto contribui positivamente para a massa salarial real (população ocupada multiplicada pela média do salário real), que declinou apenas 2,0% com ajuste sazonal em abril (-0,8% contra o mesmo período do ano passado).

IPCA-15 recua 0,59% em maio e atinge 2,0% em 12 meses

O IPCA-15 de maio registrou deflação de 0,59%, resultado próximo da nossa projeção    (-0,56%) e abaixo do esperado pelo mercado (-0,48%). Destaque para queda nos preços dos combustíveis (-8,5%) e passagens aéreas (-27,1%). No sentido contrário, a maior contribuição de alta veio de alimentação no domicílio. No ano, o IPCA-15 acumula alta de 0,35%. Já no acumulado dos últimos 12 meses, a taxa recuou para 1,96% (de 2,92% até abril) (Gráfico 4). As medidas de núcleo de inflação seguem em patamares baixos e desacelerando na margem. A inflação de industriais subjacente recuou 0,09%, com o acumulado em doze meses passando de 0,8% para 0,5%. A inflação de serviços subjacente também desacelerou nessa base de comparação, passando de 3,2% para 2,8%. Em nossa visão, as próximas leituras do IPCA devem seguir baixas. Projetamos deflação de 0,42% em maio e alta de 0,19% em junho e 0,36% em julho. Para o ano, esperamos alta de 2,0% no IPCA em 2020 e 3,0% em 2021.

Forte correção das contas externas em abril

As transações em conta corrente registraram superávit de US$ 3,8 bilhões em abril de 2020, acima da nossa expectativa (US$ 3,2 bilhões) e das expectativas de mercado (US$ 3 bilhões). Este foi o segundo mês consecutivo de superávit em conta corrente. Acumulado em 12 meses, o déficit em conta corrente recuou de US$ 50,1 bilhões em março para US$ 44,4 bilhões, ou 2,6% do PIB, em abril (Gráfico 5). Vale notar que a atividade econômica mais fraca e o câmbio mais depreciado, bem como o aumento do isolamento social, impactaram as transações correntes: houve recuo expressivo nos déficits de viagens internacionais e de lucros e dividendos. Os próximos meses devem ser marcados por continuidade da queda do déficit em conta corrente. Projetamos saldo em conta corrente perto de zero nos próximos anos. No que diz respeito ao financiamento da conta corrente, o investimento estrangeiro direto recuou, mas segue como principal fonte de financiamento da conta corrente e as saídas do mercado local de capitais foram menos intensas em abril.

Déficit primário de R$ 94,3 bilhões em abril

O setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 94,3 bilhões em abril, próximo ao consenso de mercado e a nossa projeção (em R$ 96,6 bilhões e R$ 95,0 bilhões, respectivamente). O governo central registrou déficit de R$ 92,9 bilhões pela metodologia do Tesouro Nacional (a partir da diferença entre receitas e despesas), melhor que nossa expectativa de R$ 111 bilhões. Excluindo as medidas de receitas e despesas para combate a crise do coronavírus, o déficit primário teria sido de R$ 4,8 bilhões. No acumulado em 12 meses, o déficit primário consolidado aumentou de 0,9% para 2,3% do PIB (Gráfico 6). A dívida bruta do governo geral subiu de 78,5% para 79,7% do PIB entre março e abril, e a dívida líquida subiu de 51,7% para 52,7% do PIB. Em linhas gerais, a contração da atividade econômica e as medidas tomadas para suavizar o impacto da crise do coronavírus levarão a uma forte piora nos resultados fiscais de 2020, mas é fundamental que não sejam criadas despesas permanentes, de modo que o ajuste fiscal gradual proporcionado pelo teto de gastos seja retomado de 2021 em diante.

Reajuste a servidores públicos é vetado; MP 936 avança na Câmara

Dentre as medidas relacionadas ao enfrentamento às consequências do Covid-19 na economia brasileira, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a lei de auxílio financeiro a estados e municípios, além de vetar o trecho que abria a possibilidade de reajuste para servidores públicos. Na Câmara dos Deputados, foi aprovada a medida provisória 936, que permite a redução de salários e da jornada de trabalho ou a suspensão do contrato trabalhista durante o estado de calamidade pública relacionado ao coronavírus. Dentre as medidas aprovadas junto a MP 936, o relatório prorroga o fim da desoneração da folha de pagamento para determinados setores de dezembro de 2020 para 31 de dezembro de 2021. O próximo passo da medida provisória é seu envio para apreciação pelo Senado.

Estado de São Paulo divulga plano de reabertura

O governo do estado de São Paulo apresentou um plano de reabertura econômica com início previsto a partir de 1° de junho. Segundo o noticiário, a flexibilização da quarentena ocorrerá em cinco fases, e será aplicada em diferentes momentos para cada região (a capital do estado, por exemplo, se encontra na fase 2), condicionada a critérios como: (i) ocupação de UTIs para pacientes com Covid-19; (ii) leitos de UTI para Covid-19 por 100 mil habitantes; (iii) número de casos, hospitalizações e mortes. O governo apresentou uma série de protocolos que devem ser adotados para a reabertura. Segundo anunciado, este processo também se combinará a medidas de distanciamento social e outras medidas relacionadas à saúde, como o uso de máscaras em locais públicos e limites de capacidade em estabelecimentos comerciais que lidam com o público.

Tensões entre EUA e China permanecem acirradas

As relaçãos entre as duas potências seguiram tensas nos últimos dias, particularmente após parlamentares na China aprovaram a lei de segurança nacional em Hong Kong, que traz consigo ameaças à autonomia da região. Após este evento, segundo declaração do Ministro de Estado americano, Mike Pompeo, os EUA não mais reconhecem Hong Kong como uma região autônoma da China. Em pronunciamento em rede nacional, o presidente americano, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira que revogará o tratamento especial dado pelo país a Hong Kong. Segundo o pronunciamento, Trump determinou a criação de um grupo de trabalho para começar a eliminar os benefícios dados a Hong Kong em termos de comércio e tarifas. O presidente também afirmou que os EUA podem tomar medidas de sanção à representantes do Partido Comunista Chinês e do governo de Hong Kong, responsáveis pelas ações para minar a autonomia do território.

Destaques da próxima semana

No Brasil, a evolução dos casos de COVID-19 continua no centro das atenções. Também será importante acompanhar novas medidas dos governos estaduais em relação à duração e estratégias relacionadas ao distanciamento social, assim como o planejamento de reabertura. Na agenda política, destaque para a apreciação da MP 936 pelo Senado Federal. Na agenda de divulgações econômicas, a balança comercial de maio será conhecida na segunda-feira. Na quarta-feira, o IBGE publica a produção industrial de abril.

Do lado internacional, as sondagens de atividade industrial (ISM e PMI) para maio das economias dos EUA e China, serão divulgadas na segunda-feira. Na quinta-feira, o Banco Central Europeu se reúne para sua decisão de política monetária. No dia seguinte, as atenções estarão voltadas para os dados de mercado de trabalho dos EUA referentes ao mês de maio.


 

Para o relatório completo com gráficos e tabelas, favor acessar o pdf em anexo.



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