Itaú BBA - Coronavírus impacta economia global

Semana em Revista

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Coronavírus impacta economia global

Março 20, 2020

O Covid-19 se espalhou globalmente, e pode levar o mundo a registrar recessão em 2020.

 Contágio da doença se estabilizou na China e outros países asiáticos, mas se espalhou globalmente

 Reações fortes de política econômica ao redor do mundo

 Banco Central do Brasil reduz a taxa Selic para 3,75% a.a.

 Governo brasileiro solicita decretação de calamidade pública

Contágio da doença se estabilizou na China e outros países asiáticos, mas se espalhou globalmente

O número de novos casos de Covid-19 na China começou a cair por volta da primeira metade de fevereiro, cerca de um mês após as primeiras notícias sobre aceleração do surto. A pandemia também já perde força no resto da Ásia, mas está acelerando na Europa e parece apenas estar começando nas Américas (acesse aqui nosso informativo semanal sobre o progresso da pandemia). Os eventos das últimas semanas mostram que será muito difícil evitar a escolha entre priorizar a saúde pública e salvaguardar a atividade econômica no curto prazo. A grande maioria dos governos irá, nesse contexto, priorizar a saúde da população, adotando, como na China, medidas de distanciamento social. Diante deste cenário, revisamos nossas projeções de crescimento do PIB: de 2,7% para -0.4% em nível global; de 5,3% para 3,3% na China; de 0,6% para -2,2% na Europa; de 2,0% para 0,1% nos EUA; e de 0,8% para -2,2% na América Latina. 

Nossa interpretação é que o choque da pandemia e as medidas de controle representam uma restrição de oferta, mas que acaba tendo consequências muito relevantes sobre a demanda, ao afetar variáveis como consumo e investimento. Avaliamos que, apesar de muito intenso, o choque é transitório e, com respostas adequadas, a recuperação deve ser acelerada. Tal cenário é bem distinto de 2008, quando houve danos persistentes ao balanço das famílias e bancos em economias maduras, o que levou a uma recuperação muito lenta dos países (excluindo a China). Assim sendo, as respostas de política econômica anti-crise, de natureza fiscal e monetária, segundo a capacidade de cada país, devem visar facilitar essa travessia, respeitando as restrições impostas pelo objetivo de salvaguardar a saúde pública. 

Vemos como políticas adequadas neste momento aquelas que visam atenuar os impactos da alavancagem financeira e operacional da economia por este período de restrições de oferta e de demanda. Nesse cenário, o PIB mundial experimentará uma forte desaceleração em 2020, a primeira recessão global desde a grande crise financeira de 2008, mas que deve voltar a crescer em torno de 6% em 2021.

Reações fortes de política econômica ao redor do mundo

Bancos centrais em diversos países desenvolvidos anunciaram uma forte e sincronizada, ainda que não totalmente coordenada, expansão monetária, que envolveu cortes de juros, nos casos em que isso era viável (EUA, Reino Unido, Austrália, Canadá, entre outros) bem como expansão quantitativa (EUA, Reino Unido, área do euro, Japão, entre outros). Também no caso chinês, houve redução pequena da taxa de juros que é referência para os empréstimos e aumento dos limites para financiamento de pequenas e médias empresas. Do lado fiscal, os estímulos também estão a caminho. Os Estados Unidos anunciaram um pacote de estímulo equivalente a 3,3% do PIB; a Zona do Euro apresentou um programa de 1,2% do PIB; e a Itália, de 1,4%. 

Na América Latina, não há muito espaço para respostas de política fiscal, uma vez que os níveis de dívida na maioria dos países da região já são altos. Por outro lado, está em andamento um maior afrouxamento da política monetária. O banco central do Brasil reduziu a taxa Selic em 0,50 p.p. em sua reunião programada de março. No Chile, o banco central reduziu a taxa de referência em 0,75 p.p. (para 1,0%) em uma reunião extraordinária. O banco central do Peru cortou a taxa de juros numa reunião extraordinária (para 1,25%, de 2,25%). No México, o banco central também cortou a taxa de juros (para 6,5%, de 7,0%).

Atualização de cenário Brasil: choque temporário, mas incerteza aumenta

Publicamos nossa atualização mensal de cenário para Brasil (acesse aqui). Reduzimos nossa projeção de crescimento para -0,7% em 2020 (de 1,8%), devido aos efeitos negativos da epidemia de Covid-19 no primeiro semestre do ano. Como esperamos um impacto temporário, revisamos nossa projeção de 2021 para 5,5% (ante 3,0%). A moeda brasileira deve seguir pressionada nos próximos meses, mas vemos espaço para apreciação, na medida em que o choque seja dissipado, e projetamos que o real termine 2020 em 4,60 por dólar (antes 4,15) e 2021 em 4,15 por dólar (sem mudanças). Com a queda no preço de combustíveis e piora na atividade econômica na primeira metade do ano, revisamos nossa projeção de inflação para baixo em 2020, de 3,3% para 2,9%, e em 2021, de 3,5% para 3,3%. Neste cenário, vemos mais espaço para o Banco Central cortar juros em reação ao choque: projetamos agora que a taxa Selic seja cortada para 3,25% a.a. ao final de 2020 e encerre 2021 em 3,75% a.a. Do lado fiscal, esperamos déficits temporariamente maiores (3,1% em 2020 e 0,8% em 2021) para contemplar medidas de combate aos impactos do coronavírus.

Banco Central do Brasil reduz a taxa Selic para 3,75% a.a.

Em sua reunião de março, as autoridades acabaram por entregar o resultado que era, em grande medida, consistente com os preços de mercado – um corte de 0,50 p.p. na taxa de juros, em decisão unânime. Com isso, a taxa Selic recuou para 3,75% a.a. (esperávamos um recuo mais moderado). No comunicado de sua última reunião, o Copom indicou explicitamente que, neste momento, vê como adequada a manutenção da taxa Selic em seu novo patamar. Com um cenário particularmente incerto, a autoridade monetária ressaltou que reduções adicionais dos juros podem ser contraproducentes se resultarem em aperto das condições financeiras. Acreditamos, no entanto, que dado o cenário benigno de inflação e da forte queda da atividade econômica esperada para os próximos meses, uma vez que a maior parte do estresse nos mercados financeiros derivado da pandemia de coronavírus tenha se dissipado, haverá espaço para reduções adicionais da taxa de juros − não necessariamente na próxima reunião de política monetária (em maio). 

Governo brasileiro solicita decretação de calamidade pública

O Palácio do Planalto solicitou o reconhecimento de estado de calamidade pública, que permite ao governo não cumprir a meta fiscal deste ano, aumentando sua margem para ampliar gastos com o objetivo de enfrentar a pandemia do novo coronavírus e acomodar perda de receita com arrecadação de impostos. O Congresso Nacional aprovou o pedido, com efeitos até de 31 de dezembro de 2020. 

Em linhas gerais, esperamos déficits primários de 3,1% do PIB (R$ 230 bilhões) para 2020 e de 0,8% do PIB (R$ 70 bilhões) para 2021, frente 1,1% (R$ 85 bilhões) e 0,6% (R$ 45 bilhões) anteriormente. A piora em 2020 decorre de 0,7% do PIB (R$ 50 bilhões) em gastos e medidas para o combate aos impactos do coronavírus e de 1,3% do PIB (R$ 95 bilhões) em queda de receitas, em razão da atividade econômica mais fraca e de menores preços de petróleo. Esperamos que as medidas tomadas não criem despesas permanentes, de modo que o ajuste fiscal gradual proporcionado pelo teto de gastos seja retomado de 2021 em diante.

Destaques da próxima semana

As atenções continuarão voltadas para a evolução e potenciais implicações do coronavírus nos agregados macroeconômicos, além de novos sinais de coordenação de política econômica entre os países.

Na agenda de divulgações econômicas, do lado internacional, o índice PMI industrial da Zona do Euro para março será divulgado na terça-feira, trazendo novas informações sobre o impacto do Covid-19 na atividade econômica da região. Ao longo da semana, bancos centrais de diversos países realizarão reuniões para condução de suas respectivas políticas monetárias. São eles: Hungria (24/03); Tailândia (25/03); Reino Unido (26/03); República Tcheca (26/03); Colômbia (27/03).

No Brasil, saberemos mais sobre a estratégia do Copom com a divulgação da ata de sua reunião, na terça-feira, e relatório trimestral de inflação, na quinta-feira. O IBGE divulga a inflação do IPCA-15 de março na quarta-feira. Do lado da atividade econômica, os indicadores de vendas no varejo (PMC) serão publicados na terça-feira, os de receita do setor de serviços (PMS) no dia seguinte, e o índice de atividade econômica do BCB (IBC-Br) na quinta-feira (todos referentes ao mês de janeiro). Ainda sem data definida, os dados de criação de emprego formal (Caged) para janeiro podem ser conhecidos. Ao longo da semana, a FGV divulga seus indicadores de confiança setoriais para o mês de março, que já devem capturar parte do choque relacionado ao Covid-19 no sentimento dos empresários. Por fim, os dados de contas externas e relatório de crédito do BCB (ambos para fevereiro) serão conhecidos na sexta-feira.


 



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