Itaú BBA - Coronavírus é declarado pandemia

Semana em Revista

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Coronavírus é declarado pandemia

Março 13, 2020

Mercados globais passaram nessa semana por uma correção intensa de preços de ativos.

 Países começam a adotar medidas de estímulo econômico

 Petróleo recua fortemente diante de impasse entre Arábia Saudita e Rússia

 Real continua pressionado

 Derrubada de veto presidencial pelo Congresso amplia base de acesso ao BPC

Coronavírus derruba mercados, países começam a adotar medidas de estímulo econômico

Mercados globais passaram nessa semana por uma correção intensa de preços de ativos, com alguns dos movimentos mais fortes já observados após a crise de 2008.

A Organização Mundial de Saúde declarou nesta semana a pandemia de Covid-19, reconhecendo que a epidemia se disseminou globalmente, após atingir mais de 100 países. Segundo o órgão, o número de pacientes infectados, de mortes e de países atingidos deve aumentar nos próximos dias e semanas. Vale notar que, apesar da estabilização do surto na China e do recuo do número de novos casos na Coréia do Sul, dados indicam que a epidemia ainda deve piorar. Europa e Américas tendem a ver aumentos expressivos ao longo dos próximos dias. Já no Brasil, há 98 casos confirmados até o momento, segundo o Ministério da Saúde.

Além de um grande problema de saúde pública, a epidemia afeta preços de ativos e as cadeias de produção global. Como resposta à substancial elevação da aversão ao risco e aos impactos do vírus e das medidas de contenção, autoridades em diversos países começaram a avaliar estímulos econômicos, a fim de se evitar um aperto adicional de condições financeiras e, consequentemente, uma desaceleração mais forte da atividade econômica. Nos EUA, o Fed de Nova York ofereceu US$ 1,5 trilhão em liquidez ao sistema financeiro através de suas operações de recompras de títulos (repo). Também anunciou que vai estender seu ritmo mensal de compra de títulos do Tesouro americano (equivalente a U$ 60 bilhões) para todos os vencimentos (antes era somente em vencimentos mais curtos), como forma de lidar com as disfuncionalidades no mercado. Além disso, o presidente Trump declarou oficialmente uma emergência nacional, iniciativa esta que liberará quase US$ 50 bilhões para ajudar estados e cidades. Demais medidas de estímulos fiscal e/ou monetário também foram anunciadas na Europa e Japão. 

Por conta do coronavírus, segundo o noticiário, o Ministério da Economia brasileiro anunciou algumas medidas até o momento: (i) antecipação da primeira parcela do 13º salário de aposentados e pensionistas; (ii) suspensão por 120 dias da prova de vida dos beneficiários; (iii) redução de juros do consignado do INSS; (iv) preferência tarifária para produtos médico-hospitalares; (v) desembaraço aduaneiro de produtos médico-hospitalares, entre outros.

Petróleo recua diante de impasse entre Arábia Saudita e Rússia

Em meio à turbulência provocada pelo novo coronavírus, as principais commodities globais, inclusive o petróleo, foram negativamente influenciadas pela expectativa de desaceleração da economia global. Concomitantemente a forte redução da demanda por commodities, a Arábia Saudita e Rússia passaram a elevar a produção de petróleo, provocando a maior queda nos preços do produto desde a Guerra do Golfo (1991). O impasse teve início uma vez que a Rússia se opôs na semana passada à proposta da OPEP, liderada pela Arábia Saudita, de estabilizar os preços do petróleo por meio de cortes na produção maiores e mais longos. Em reação a ausência de acordo, a Arábia Saudita cortou os preços de exportação de seu petróleo e anunciou que elevaria sua produção diária para 12,3 milhões de barris em abril, ante 9,7 milhões atualmente. A Rússia reagiu indicando que também tem capacidade para elevar sua produção da commodity. Os preços do petróleo do tipo Brent chegaram a cair mais de 30%, para cerca de US$ 30 por barril, e se encontram em US$ 34 até o momento da publicação deste relatório. Acreditamos que há riscos de que uma guerra de preços entre os dois países dure pelas próximas semanas ou até meses, mas existe um custo fiscal associado a esta estratégia, uma vez que os países estão abrem mão de receitas com a venda de petróleo. Portanto, há incentivos econômicos para que ambas as partes cheguem a um acordo, colocando fim a esta disputa que pressiona o preço da commodity para baixo. 

Diante desse cenário de preços baixos, a Petrobras indicou que irá reduzir em 9,5% o preço do litro da gasolina e em 6,5% o litro do diesel nas refinarias, a partir desta sexta-feira. Em nossa visão, a medida deve reduzir a inflação de abril em cerca de 0,13 p.p., tudo o mais constante. Mesmo com o reajuste, avaliamos que os preços da gasolina doméstica se encontram em patamar 25% maior que aquele praticado no Golfo do México (EUA), sugerindo novo corte em magnitude similar dentro das próximas semanas. 

Real continua pressionado

O dólar voltou a atingir máximos históricos, em um contexto de elevada aversão ao risco global. A taxa de câmbio ultrapassou a faixa de 5,00 reais por dólar, e segue cotada a 4,82 reais por dólar até o momento da publicação deste relatório, uma depreciação de 3,5% na semana. Contribui nesta direção tanto a incerteza global, como os impactos negativos sobre o preço das commodities, assim como fatores idiossincráticos domésticos, entre eles, as expectativas com relação a agenda de reformas. Para evitar disfuncionalidade no mercado de câmbio, o Banco Central (BCB) interveio a partir da venda de swaps cambiais, leilões de linha e venda direta de dólares no mercado. As pressões de mercado também se fizeram refletir no mercado de juros, levando o Tesouro Nacional a anunciar um programa de compra e venda de títulos públicos, em uma ação coordenada com o BCB. 

IPCA sobe 0,25% em fevereiro e atinge 4,01% em 12 meses

O IPCA de fevereiro registrou alta de 0,25%. O dado veio acima da nossa projeção e da mediana das expectativas do mercado, em 0,17% e 0,15%, respectivamente. No grupo de educação, destaque para o reajuste anual das mensalidades escolares. Os cursos regulares apresentaram variação de 4,4% (impacto de 0,20 p.p.), enquanto os cursos diversos subiram 2,7% (impacto de 0,02 p.p.). O grupo de habitação apresentou deflação de 0,39% em fevereiro, com destaque para o item de energia elétrica (-1,7% no mês), com o acionamento da bandeira tarifária verde em fevereiro (de amarela em janeiro). O grupo de transporte apresentou deflação de 0,23% em fevereiro, reflexo da queda nos preços de gasolina (-0,7%) e passagens aéreas (-6,9%). No acumulado dos últimos 12 meses, a taxa recuou para 4,01% (4,19% até janeiro). Em linhas gerais, as recentes divulgações do IPCA são consistentes com nossa visão de que a inflação segue em trajetória benigna, com todas as medidas de núcleo em patamares confortáveis, ao redor de 3% ao ano. Contribuem neste sentido tanto o elevado nível de ociosidade na economia, quanto o comportamento da própria inflação, seja na forma de inércia ou de expectativas ancoradas.

Produção industrial cresce 0,9% com ajuste sazonal em janeiro

A produção industrial cresceu 0,9% em janeiro, na comparação mensal com ajuste sazonal (Itaú: +0,8%; mercado: +0,6%). Na comparação anual, a produção industrial recuou 0,9% (Itaú e mercado: -1,0%). Em relação às principais categorias econômicas, a produção de bens de capital foi destaque. Após recuar 12,3% na comparação mensal em dezembro, ela avançou 12,6% em janeiro. A produção de insumos para a construção civil, outro componente relacionado ao investimento, também cresceu no mês (+0,8%). Os dados do 1T20 sugerem desaceleração, cuja intensidade ainda é incerta. No entanto, acreditamos que a atividade econômica continuará em um processo moderado de aceleração impulsionado pelo crescimento do crédito privado, que afeta o consumo e o investimento. O risco negativo para esse cenário é um desempenho pior, tanto da economia global quanto da doméstica, devido à epidemia do novo coronavírus, que se intensificou nas últimas semanas.

Derrubada de veto presidencial pelo Congresso amplia base de acesso ao BPC

O Congresso derrubou veto presidencial sobre o Benefício de Prestação Continuada (BPC), aumentando a faixa de renda per-capita familiar elegível para receber o benefício – equivalente a um salário mínimo mensal – de um quarto (R$261) para meio salário mínimo (R$ 523). Com isso, estimamos um impacto de aumento de despesa de cerca de R$ 12 bilhões ao ano. Segundo o noticiário, o governo acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal de Contas da União (TCU) para que seja desfeita a derrubada do veto pelo Congresso. Ainda segundo o noticiário, é possível que o governo busque um acordo com o Legislativo, aumentando de maneira controlada o número de pessoas que passarão a ter direito ao benefício. Em linhas gerais, o cumprimento das regras fiscais do teto de gastos e da meta de resultado primário exige disciplina, que passa pela continuidade do ajuste fiscal pelo lado do gasto. 

Destaques da próxima semana

No Brasil e no mundo, as atenções continuarão voltadas para a evolução e potenciais implicações do coronavírus nos agregados macroeconômicos, além de novos sinais de coordenação de política econômica entre os países desenvolvidos. Destaque para a decisão de política monetária do Banco Central americano na quarta-feira, que pode anunciar mais estímulos. No mesmo dia, em seguida ao Fed, o Copom também realizará sua decisão de política monetária. Na quinta-feira, o Banco Central do Japão se reúne para decisão de política monetária. Ao longo da semana, o Ministro da Economia, Paulo Guedes, pode anunciar novas medidas para combater os efeitos do coronavírus no Brasil.

Para o relatório completo com gráficos e tabelas, favor acessar o pdf em anexo.



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