Itaú BBA - Economia desacelera, racionamentos são riscos adicionais

Revisão de Cenário Brasil

< Voltar

Economia desacelera, racionamentos são riscos adicionais

Fevereiro 13, 2015

Os números de dezembro mostraram desaceleração da atividade econômica e piora das contas fiscais.

• A deterioração da atividade econômica, já visível nos dados de dezembro, deve continuar nos próximos meses. Os planos de investimento e produção da indústria petrolífera devem sofrer cortes, o mercado de trabalho perde força, afetando o consumo das famílias, e as incertezas domésticas deprimem a confiança empresarial. Assim, reduzimos nossas projeções de crescimento do PIB de 0,1% para 0% em 2014, e de 0,2% para retração de 0,5% em 2015.

• Há um alto risco de racionamento de eletricidade e cortes no abastecimento de água. Em nossa avaliação, um evento conjunto de racionamento de energia e redução do abastecimento de água, durando até a próxima temporada de chuva, teria um impacto esperado adicional sobre o nível de atividade de -0,6 ponto percentual do PIB.   

• Elevamos a projeção para a inflação deste ano de 7,1% para 7,4%, em razão da maior pressão dos preços administrados, particularmente da energia elétrica. Revisamos a projeção dos preços administrados de 10,4% para 11,7%, com ajuste na projeção para as contas de luz, de alta de 30% para 40%. Para os preços livres, mantivemos a projeção em 6,1%, o que é consistente com o nosso cenário de atividade mais fraca e o aumento previsto para a taxa de desemprego. Projetamos desaceleração da alta da alimentação no domicílio e dos serviços. Para 2016, reduzimos a projeção para o IPCA de 5,7% para 5,5%, com revisão na inflação dos preços livres, tendo como pano de fundo um cenário de atividade econômica mais fraca e preços mais baixos de commodities. Em um cenário alternativo, marcado pela ocorrência de racionamentos de água e energia, a nossa projeção para o IPCA recuaria para 5,3% em 2016.

• O Banco Central (BC) enfrenta um cenário desafiador no curto prazo com a perspectiva de a inflação ultrapassar o teto da meta neste ano. No horizonte mais longo, a fraqueza da economia deve fazer a inflação a convergir para a meta do governo. O Banco Central encontra-se próximo do fim do ciclo de aperto monetário. 

• O ponto de partida mais desfavorável (déficit primário de 0,6% do PIB em 2014) e a perspectiva de queda na atividade econômica este ano tornam o objetivo de atingir a meta fiscal um desafio maior. Mantemos a projeção de superávit primário em 1,2% do PIB este ano, mas reconhecemos os riscos de não atingi-la, tanto pelo custo político de implementação do ajuste fiscal quanto pela fraqueza adicional da economia se houver racionamentos de energia e água.

• O déficit em conta corrente avançou para 4,2% do PIB em 2014, pressionado pelo resultado negativo da balança comercial, requerendo um real mais depreciado. Para os próximos anos, o câmbio mais depreciado e a atividade doméstica em ritmo mais lento atuam na direção de um ajuste gradual das contas externas brasileiras.


A economia já desacelera. Em breve, ficará claro se haverá racionamento de energia e água

Os números de dezembro mostraram desaceleração da atividade econômica e piora das contas fiscais. O mês de dezembro trouxe surpresas negativas na produção industrial, nas vendas no varejo e na criação de empregos formais, indicando que a atividade econômica tem perdido momentum, e nas contas fiscais, indicando que o ajuste fiscal deve ser mais profundo do que esperávamos, dado um ponto de partida pior.

A queda nos preços do petróleo e os problemas na indústria petrolífera e nas construtoras prenunciam desaceleração da atividade em 2015.

No setor de petróleo, os cortes em investimento e a redução na projeção de crescimento da produção vão impactar a atividade econômica. Consideramos também que as dificuldades envolvendo algumas construtoras impactarão o ritmo de execução de suas obras de infraestrutura no curto prazo.

Portanto, alteramos nossa projeção de crescimento do PIB de 0,2% para retração de 0,5% em 2015.

A temporada de chuvas tem desapontado, e os riscos de racionamento de eletricidade e água nunca foram tão altos. Anualmente, a temporada de maior pluviosidade no Sudeste começa em outubro, atinge o ápice em fevereiro e dura até abril. Portanto, o nível dos reservatórios no fim de abril determina a capacidade do sistema de gerar eletricidade e prover água até a próxima temporada de chuva. Com a escassez de chuva até o fim de janeiro, a probabilidade de racionamento aumentou significativamente.

Em nossa avaliação, um evento conjunto de racionamento de energia e redução do abastecimento de água, durando até a próxima temporada de chuva, teria um impacto esperado sobre o nível de atividade de -0,6 p.p. do PIB.[1]

Chuva fraca em janeiro eleva os riscos para energia elétrica e abastecimento de água

As chuvas de janeiro corresponderam às previsões pessimistas e ficaram muito abaixo da média histórica. O volume de chuva ponderado por reservatórios de energia elétrica ficou em 64% da média histórica, levando a energia natural afluente (ENA) a ficar em 50,4% da média de longo termo (MLT). O índice pluviométrico no Sistema Cantareira, crucial para o abastecimento de água na região da Grande São Paulo, ficou em 55% da média histórica.

A previsão para fevereiro é de chuvas próximas à média histórica. A perspectiva é de chuvas fortes até o dia 11 de fevereiro, em particular na Região Sudeste, seguidas de redução da umidade sobre a região por um novo bloqueio atmosférico. O saldo para o mês deve ser de chuvas ligeiramente acima da média histórica tanto para os reservatórios das usinas hidrelétricas quanto para as bacias dos sistemas Cantareira e Alto Tietê.

Chuvas próximas da média histórica são insuficientes e riscos devem aumentar. Nosso arcabouço de avaliação dos riscos de racionamento de energia elétrica[2] sugere que, mesmo em um cenário de normalização das chuvas entre fevereiro e abril, os reservatórios agregados chegariam ao fim do período chuvoso abaixo de 40% da capacidade. Da mesma forma, chuvas próximas da média devem ser insuficientes para evitar uma redução adicional da retirada de água das bacias dos sistemas Cantareira e Alto Tietê, reduzindo a oferta de água para a capital e demais cidades atendidas. Por fim, há evidências de problemas no abastecimento de água de outras sub-regiões do Sudeste, inclusive na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Atividade desacelera em dezembro

Os números já divulgados de dezembro apontam para fraqueza da atividade econômica, revisamos nossa projeção de crescimento do PIB em 2014 para zero. A produção industrial atingiu seu menor nível desde 2009 em decorrência de uma acentuada retração de 2,8% em dezembro, ante novembro, após ajuste sazonal. Vendas no varejo ampliado também caíram fortemente, com uma retração de 3,7% em dezembro, na mesma comparação. A criação de empregos formais também decepcionou, com a destruição de 555 mil postos de trabalho em dezembro. Ademais, os dados seguem apresentando fraqueza em janeiro. O setor automobilístico, que representa 10% do total da indústria, teve sua quarta retração consecutiva na produção, além de nova queda no nível de emprego e vendas em declínio pelo segundo mês seguido. Os indicadores de atividade no comércio da Serasa apontam para baixo nível de atividade do setor de serviços em janeiro.

Os índices de confiança empresariais atingem mínimos históricos. Em janeiro, apenas o índice de confiança da indústria apresentou melhora. Todos os demais grandes setores da atividade econômica (serviços, construção civil e comércio) não apenas mostraram retração no índice de confiança como também atingiram seus respectivos mínimos históricos. Os riscos de racionamento de água e energia aumentam a incerteza na economia e devem deprimir a confiança dos empresários nos próximos meses e postergar investimentos.

Também o índice de confiança dos consumidores reporta queda significativa, com um recuo de 6,7% em janeiro, e está em seu patamar mais baixo desde o início da série em 2005. Com baixa confiança e desaceleração da massa salarial, acreditamos que o consumo das famílias continue apresentando fraqueza, como nos últimos trimestres.

Adicionalmente, esperamos reduções nos planos de investimento e produção da indústria petrolífera. Reduzimos nossa projeção de crescimento da produção de petróleo de 8,8% para 4,5%. Também reduzimos nossa projeção de investimento por essa indústria em 10%.

Alteramos nossa projeção de crescimento do PIB de 0,2% para retração de 0,5% em 2015. Tanto os últimos dados quanto os fundamentos são condizentes com um cenário de deterioração da atividade econômica nos próximos meses. Assim, revisamos nossa projeção de crescimento do PIB em 2015 de 0,2% para retração de 0,5%. Para 2016, projetamos um crescimento modesto de 1,0%, em grande parte devido à herança estatística desfavorável das seguidas contrações do PIB que contemplamos ao longo de 2015.

Projetamos um aumento da taxa de desemprego ao longo do ano para 6,3% no fim de 2015, após ajuste sazonal (anteriormente, 6,0%). A despeito da queda na taxa de desemprego de 5,2% em novembro para 5,0% em dezembro (usando nosso ajuste sazonal), esperamos para os próximos meses aumentos da taxa de desemprego. A população economicamente ativa (PEA) continua em tendência de crescimento nos últimos meses, e a deterioração da atividade econômica deve fazer com que o mercado de trabalho permaneça fraco.

O crédito continuou fraco em dezembro. A média diária das concessões de crédito livre cresceu 1,3% em termos reais e com ajuste sazonal ante o mês anterior. Por outro lado, a média diária das concessões do crédito direcionado teve queda de 4,2%. Em relação ao estoque de crédito total, o crescimento anual desacelerou em termos reais de 4,8% em novembro para 4,6% em dezembro. Na mesma comparação, o estoque das modalidades com recursos livres seguiu retraindo (-1,7%), enquanto o direcionado desacelerou de 13,2% para 12,3%. A inadimplência do sistema caiu 0,1 p.p., para 2,9%. Tanto as taxas de juros quanto os spreads apresentaram quedas no crédito livre e no direcionado.

Impacto potencial da crise hídrica: corte adicional de -0,6 p.p. na projeção do PIB

Diante dos riscos elevados de restrição de energia elétrica e abastecimento de água, estimamos um impacto adicional de -0,6 p.p. no PIB em 2015, no caso de um cenário que combine racionamento de 5% de energia elétrica com redução adicional de 25% do abastecimento de água para parte do Estado de São Paulo, durando até a próxima temporada de chuva.

O corte necessário de energia depende de quanto os reservatórios estão abaixo do limiar de racionamento. Um corte de 5% no consumo de energia elétrica por seis meses é suficiente para evitar que os reservatórios cheguem ao mínimo operacional até o inicio do próximo período chuvoso, se os reservatórios agregados atingirem 36% ao fim de abril. Já um corte de 10% pelo mesmo período é suficiente, se os reservatórios atingirem 30% ao fim de abril.

A alta nas tarifas e a retração que projetamos na atividade econômica contribuem para limitar o consumo de energia elétrica. A sinalização do governo de repassar para as tarifas elétricas os custos associados ao setor deve levar a novas altas dos preços em 2015 – projetamos uma alta média de 40% ao longo do ano. A alta das tarifas e a retração da atividade econômica tendem a reduzir a intensidade de um eventual programa de redução de consumo de energia elétrica.

Estimamos que uma redução de 5% da energia elétrica tenha impacto negativo de 0,5 p.p. no crescimento em 2015. A estimativa se baseia em um modelo que incorpora o efeito de aumentos nos preços de energia (já incorporados ao cenário básico) e a eventual redução da oferta de energia elétrica, combinados em um índice de disponibilidade de energia. O impacto causal de choques nesse índice no PIB é estimado[3] com o uso do nível agregado dos reservatórios como variável instrumental.

A economia adicional na retirada de água das bacias dos sistemas Cantareira e Alto do Tietê teria impacto negativo de 0,1 p.p. no crescimento em 2015. A estimativa se baseia na participação do PIB das áreas abastecidas pelas duas bacias, nos setores mais expostos do volume de água (e sua relevância para as cidades afetadas) e em hipóteses de exposição de cada setor a um corte brusco no fornecimento de água. O impacto considera uma economia adicional de 25% na retirada de água dos dois mananciais.

Elevamos a projeção para o IPCA deste ano de 7,1% para 7,4%, por conta dos preços administrados, mas reduzimos a projeção para 2016 de 5,7% para 5,5%

O IPCA subiu 1,24% em janeiro, em linha com a nossa projeção e com a mediana das expectativas de mercado, com forte pressão dos preços administrados. As maiores contribuições de alta vieram da energia elétrica residencial (implantação do sistema de bandeiras tarifárias), do transporte público (reajustes nas tarifas em várias capitais) e de alguns itens alimentícios (alimentos in natura, feijão e refeição fora do domicílio). Com esse resultado, a taxa em 12 meses do IPCA subiu para 7,14%.

A nossa projeção preliminar para o IPCA de fevereiro indica variação de 1,10% (ante 0,69% em fevereiro de 2014), o que resultaria numa aceleração da taxa em 12 meses para 7,6%. As maiores contribuições de alta virão dos grupos transportes, em função da alta nos preços da gasolina decorrente da elevação nas alíquotas de PIS/Cofins, e educação, refletindo o reajuste anual das mensalidades escolares (em sua maior parte apropriada pelo IBGE no mês de fevereiro). Por outro lado, o grupo alimentação deve mostrar desaceleração em relação ao resultado de janeiro.

Para 2015, elevamos a projeção para o IPCA de 7,1% para 7,4%, em razão da maior pressão dos preços administrados, particularmente da energia elétrica. Prevemos alta de 11,7% para os preços administrados (anterior: 10,4%), em função da revisão na projeção para energia elétrica (de 30% para 40%). Essa revisão levou em conta a previsão da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) para o déficit na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) de 2015, orçado em R$ 21,8 bilhões. Esperamos que uma parte importante do reajuste das contas de luz prevista para o ano ocorrerá ainda no primeiro trimestre, diante da sinalização da ANEEL de que haverá uma revisão tarifária extraordinária no mês de março e que repassará para as tarifas o custo da energia de Itaipu e o déficit da CDE. Também no mês de março, verificaremos o impacto do aumento no valor da bandeira tarifária vermelha (de R$ 3,00 para R$ 5,50 a cada 100 quilowatt-hora (kWh) consumidos no mês). Para os outros preços administrados de maior peso na inflação, projetamos alta de 10,5% da gasolina (em função de elevação da Cide e do PIS/Cofins), de 11,6% dos ônibus urbanos, de 9,4% dos planos de saúde, de 8,7% da taxa de água e esgoto, de 5% dos remédios e uma queda de 4% da telefonia fixa (em função da redução nas tarifas para as ligações feitas de telefones fixos para celulares).

Para os preços livres, mantivemos a projeção em 6,1%, que parece consistente com o nosso cenário de atividade econômica mais fraca e de aumento da taxa de desemprego. A desaceleração da inflação dos preços livres em relação ao ano passado (6,7%) será determinada pelas altas menores da alimentação no domicílio e dos serviços. Projetamos altas de 6,0% para os alimentos no domicilio neste ano (ante 7,1% em 2014) e de 7,3% dos serviços (ante 8,3% em 2014). No caso da alimentação, trabalhamos com um cenário favorável para a oferta de produtos agrícolas, particularmente dos grãos, em meio à perspectiva de boas safras e de recuperação do nível global de estoques. Preços bem-comportados dos grãos no ano passado e neste ano devem proporcionar alívio no setor de proteína animal e nos derivados de trigo. No caso das carnes, que subiram 22% no ano passado, esperamos um comportamento mais benigno para a inflação deste ano, com alta abaixo dos 10%. De todo modo, uma estiagem mais extensa na Região Sudeste pode naturalmente resultar em pressões sobre os preços de alguns alimentos ao longo do ano. Em particular, contemplamos riscos de alta temporária nos preços dos alimentos in natura se houver limitações ao abastecimento de água. Para os serviços privados, mantemos a avaliação de que a desaceleração será determinada pela acomodação das condições do mercado de trabalho e do setor imobiliário, levando à moderação nos custos com salários e aluguéis.

Para 2016, reduzimos a projeção para o IPCA de 5,7% para 5,5%, com revisão para baixo na inflação dos preços livres. A projeção para os preços livres passou de 5,8% para 5,5%, diante de um cenário de atividade econômica mais fraca e de preços mais baixos de commodities. Para os preços administrados, mantivemos a projeção do ano em 5,5%.

Em um cenário alternativo, marcado pela ocorrência de racionamentos de água e energia, a queda da inflação dos preços livres em 2016 seria provavelmente maior. A nosso ver, nessa situação, o efeito negativo sobre a demanda impactaria a alta dos preços livres em 2016. Nesse caso, nossa projeção para o IPCA recuaria para 5,3% em 2016.

O Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) subiu 0,76% em janeiro, com a taxa em 12 meses atingindo 4,0%. O Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA-M) – o componente de maior peso no IGP-M (60%) – segue com resultados mais bem- comportados, ao apresentar variação de 0,56% no mês e de 2,3% em 12 meses, com altas de 1,35% dos preços agrícolas (5,9% em 12 meses) e de 0,26% dos preços industriais (1,1% em 12 meses). O Índice de Preços ao Consumidor (IPC-M) – com participação de 30% no IGP-M – subiu 1,35% em janeiro, com a taxa em 12 meses avançando para 7,3%. As maiores pressões no IPC-M vieram de energia elétrica, transporte público, alimentos in natura e mensalidades escolares. Já o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M) – com peso de 10% no IGP-M – variou 0,7% no mês e 6,7% nos últimos 12 meses.

Para este ano, mantivemos a projeção para o IGP-M em 5,3%. Em termos desagregados, projetamos alta de 4,3% para o IPA-M, de 7,4% para o IPC-M e de 6,8% para o INCC-M. Para 2016, prevemos variação de 5,5% para o IGP-M.

Copom: cenário desafiador no curto prazo, desinflação no horizonte

O Banco Central (BC) enfrenta um cenário desafiador no curto prazo com a perspectiva de a inflação ultrapassar o teto da meta neste ano. No horizonte mais longo, a fraqueza da economia deve fazer a inflação a convergir para a meta do governo. O Banco Central encontra-se próximo do fim do ciclo de aperto monetário. 

A inflação ficará acima do topo da banda de tolerância este ano, mantendo o Copom “especialmente vigilante”. Com a antecipação do aumento das tarifas públicas e a depreciação cambial, a inflação de 2015 ficará provavelmente bem acima do topo da banda. Nesse ambiente, membros do Copom têm alertado que o Comitê está “especialmente vigilante para garantir que as pressões de curto prazo não se propaguem para os horizontes mais longos".

A atividade deprimida reduz os riscos dos efeitos secundários dos choque inflacionários. Com a atividade econômica deprimida, entendemos que os efeitos da alta de preços administrados e da depreciação cambial sobre os demais preços da economia tendem a ser limitados. De fato, em pronunciamentos recentes, o presidente do BC, Alexandre Tombini, vem enfatizando que, apesar do aumento da inflação corrente, as expectativas de inflação de mais longo prazo começaram a recuar.

O cenário a partir de 2016 é mais favorável. A atividade econômica fraca vem contribuindo para reduzir o nível de utilização da capacidade instalada na economia e para enfraquecer o mercado de trabalho, abrindo espaço para a redução da inflação de serviços. A antecipação da alta de preços administrados para 2015 também deixa o cenário menos carregado para a frente. Dessa forma, em que pese a inflação alta de 2015, o cenário para 2016 está se tornando mais desinflacionário.

A política fiscal migrando para o campo contracionista também contribui para a redução da inflação à frente. A busca pelo cumprimento da meta fiscal este ano deixará a política fiscal contracionista, reduzindo o peso sobre a política monetária. Na ata de sua última reunião, o Copom afirma que “o balanço do setor público tende a se deslocar para a zona de neutralidade”, mas “não descarta a hipótese de migração para a zona de contenção”.

Diante desse cenário, acreditamos que o Copom está próximo do fim do ciclo de aperto monetário. De fato, o Copom afirmou na ata que “o cenário de convergência da inflação para 4,5% em 2016 tem se fortalecido”, embora tenha registrado que “os avanços alcançados no combate à inflação (...) ainda não se mostram suficientes”. Diante do cenário desafiador de crescimento negativo do PIB e da necessidade de um ajuste fiscal importante, entendemos que a busca para alcançar o centro da meta de inflação possa ser prorrogada para 2017/18.

Mantemos nosso cenário de uma elevação final de 0,25 ponto percentual em março e de manutenção da taxa Selic em 12,50% até o fim de 2016. Entretanto, com a recente depreciação maior do real, aumenta a possibilidade de o Copom elevar a taxa básica de juros (Selic) em 0,50 p.p na próxima reunião.

Fiscal: largando dos boxes – ajuste fiscal parte de -0,6%

Os resultados fiscais surpreenderam para baixo novamente em dezembro. O setor público registrou um déficit primário de R$ 12,9 bilhões em um mês que é sazonalmente positivo para o desempenho fiscal. As principais surpresas negativas foram a queda na receita (devido à fraqueza da atividade econômica) e o elevado déficit dos governos regionais.

Não há evidência de que a surpresa negativa em dezembro tenha sido resultado do pagamento de despesas atrasadas. O resultado ainda se beneficiou de receitas extraordinárias de R$ 5 bilhões com a outorga de serviços de telecomunicações (4G) e de R$ 1,4 bilhões do Refis. Similarmente, as surpresas negativas de novembro vieram de gastos discricionários de investimento e custeio, o que também não evidencia pagamento de resultados atrasados.

Em 2014, o setor público registrou déficit primário de 32,5 bilhões, ou -0,6% do PIB – seu pior resultado desde 1997. A nossa estimativa de resultado recorrente que exclui as receitas e despesas atípicas terminou o ano passado em -1,2% do PIB. O déficit nominal alcançou 6,7% do PIB, enquanto o déficit nominal recorrente foi de 7,3% do PIB. A dívida líquida do setor público subiu de 36,2% em novembro para 36,7% do PIB em dezembro (em 2014, a dívida líquida subiu 3,1 p.p. do PIB). A dívida bruta do governo geral aumentou para 63,4% do PIB (63,0% em novembro) e, em 2014, acumulou alta de 6,6 p.p. do PIB.

A queda no superávit primário foi resultado de uma postura fiscal expansionista via receita e despesa, além da desaceleração da atividade econômica. A postura fiscal já está mudando (com o anúncio das medidas recentes de restrição fiscal), mas a fraqueza da atividade econômica continuará a impactar negativamente a arrecadação cíclica neste ano.

Com o ponto de partida mais desfavorável e a perspectiva de queda na atividade econômica, medidas adicionais são necessárias para atingir a meta de superávit primário. Para aumentar o superávit primário para R$ 66 bilhões neste ano (meta do setor público consolidado), o ajuste total terá que ser de quase R$ 100 bilhões. Para isso será necessário um novo anúncio de aumento da carga tributária, com impacto positivo de R$ 25 bilhões neste ano, de acordo com nossos cálculos. Do lado da despesa, esperamos queda de 4,6% em termos reais, alcançado através do corte já anunciado nos benefícios trabalhistas, do corte no auxílio à CDE e de um ajuste significativo nas despesas discricionárias (investimento e custeio discricionário). Nossa projeção também conta com o sucesso em atingir a meta fiscal pelos governos regionais (R$ 11 bilhões), o que significaria um ajuste de quase R$ 20 bilhões (0,4% do PIB) de 2014 para 2015 na esfera regional.

Dessa forma, mantemos a projeção de superávit primário em 1,2% do PIB neste ano, mas reconhecemos os riscos de baixa em torno dessa projeção. Há dificuldades de ordem política para implementar as medidas de ajuste fiscal. Em um cenário alternativo, com racionamentos de energia e água, a fraqueza da atividade econômica torna o quadro fiscal ainda mais desafiador e requer medidas adicionais de ajuste.

Câmbio mais depreciado e ajuste gradual nas contas externas

Os ambientes interno e externo contribuem para um real mais depreciado. No cenário internacional, os preços de commodities mais baixos e o possível aumento de juros nos Estados Unidos devem ter impacto sobre o nível da taxa de câmbio ao longo do ano. Domesticamente, pesa o déficit em conta corrente elevado.

Assim, projetamos a taxa de câmbio em 2,90 reais por dólar ao fim de 2015 e em 3,00 reais por dólar ao fim de 2016. A rápida depreciação cambial dos últimos dias é, portanto, em linha com os fundamentos, ainda que tenha ocorrido de forma mais rápida que o esperado.

O déficit em conta corrente avançou de 3,6% do PIB em 2013 para 4,2% do PIB em 2014, principalmente devido à contribuição negativa da balança comercial, que saiu de um superávit de US$ 2,4 bilhões em 2013 para um déficit de US$ 3,9 bilhões em 2014. O déficit na conta de serviços e rendas também aumentou ao longo do último ano, mas em ritmo menor do que no ano anterior. Na conta financeira, o investimento estrangeiro direto (IED) permaneceu elevado (2,9% do PIB), mas insuficiente para cobrir a totalidade do déficit em conta corrente, aumentando assim a necessidade de outras modalidades de financiamento externo, como os fluxos de portfólio, que são tipicamente mais voláteis e dependentes das condições de liquidez global.

Para 2015 e 2016, projetamos uma recuperação do saldo comercial. De um lado, o câmbio mais depreciado e o cenário de atividade econômica mais fraca contribuem para conter as importações, especialmente de bens de capital e intermediários, insumos tipicamente utilizados na indústria. De outro, o corte nas estimativas de produção de petróleo bruto e nas estimativas de capacidade de refino, somado à revisão para baixo nos preços de minério de ferro, atua no sentido de diminuir o valor das exportações. A resultante dessas forças é um superávit comercial em 2015 e 2016, apesar da concomitante queda na corrente de comércio. Mantemos, assim, a nossa projeção de saldo comercial de US$ 6 bilhões em 2015 e de US$ 13 bilhões em 2016.

Se houver racionamentos de energia e água, projetamos um superávit comercial maior (US$ 7,5 bilhões em 2015 e US$ 14 bilhões em 2016). Com o recuo maior do PIB e do investimento, as importações tendem a desacelerar ainda mais em função do desempenho pior do setor industrial, principal demandante dos bens intermediários e de capital (que, juntos, representam quase 70% das importações brasileiras).

Para os outros itens da conta corrente, revisamos as nossas projeções incorporando o cenário de retração do PIB em 2015 e crescimento mais baixo em 2016. A conta de serviços e rendas deve registrar déficit menor do que projetávamos inicialmente, fazendo com que o déficit em conta corrente recue para 3,8% do PIB em 2015 (ante 3,9%) e para 3,5% do PIB em 2016 (ante 3,6%).

 



< Voltar