Itaú BBA - Brasil: Lenta melhora da confiança

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Brasil: Lenta melhora da confiança

Fevereiro 8, 2013

Revisamos a projeção de crescimento do PIB de 3,2% para 3,0% em 2013, e de 4,0% para 3,5% em 2014. Elevamos a projeção de inflação ao consumidor (IPCA) de 5,7%.

Retomada dos investimentos depende da confiança

A recuperação da economia continua mais modesta do que o esperado. Revisamos a projeção de crescimento do PIB de 3,2% para 3,0% em 2013, e de 4,0% para 3,5% em 2014. Elevamos a projeção de inflação ao consumidor (IPCA) de 5,6% para 5,7% este ano. Para 2014, esperamos 6,0% de variação no IPCA. Após a divulgação da ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de janeiro, alteramos nossa estimativa para a taxa de juros Selic para manutenção em 7,25% ao ano até o final de 2014 (antes, 6,25%).

Projetamos 2,10 para a taxa de câmbio em dezembro (antes, 2,15), mesmo patamar que esperamos para 2014. Revisamos nossa projeção de saldo comercial de US$ 18 bilhões para US$ 14 bilhões este ano, especialmente devido à perspectiva de aumento das importações de gás e combustíveis e de uma trajetória de câmbio mais apreciada. Reduzimos nossa projeção para o superávit primário de 2,1% para 1,9% do PIB em 2013, e projetamos 0,9% do PIB em 2014.

Fraqueza da indústria e lenta melhora da confiança sugerem crescimento mais baixo em 2013

A atividade econômica continua surpreendendo para baixo. A produção industrial ficou estável em dezembro de 2012 e recuou no quarto trimestre, revertendo parte do avanço do trimestre anterior. Após crescer 1,0% no terceiro trimestre, em grande parte devido ao setor automobilístico, a atividade industrial não se sustentou e caiu 0,3% no quarto trimestre. Com a base baixa do final do ano passado, somente uma recuperação forte nos primeiros meses de 2013 levará a um crescimento da indústria no primeiro trimestre do ano.

Existem sinais mistos na indústria. A Sondagem Industrial da FGV mostra que os estoques estão mais ajustados e a perspectiva de aumento da produção tem tido um avanço firme. Porém, a mesma pesquisa revela que o aumento da confiança é o mais lento entre todos os ciclos de retomada dos últimos 20 anos. Baixa confiança resulta em menos investimento. E sem uma aceleração do investimento a expansão não se fortalece. Mesmo uma melhora imediata da aquisição de máquinas e equipamentos não deverá impulsionar rapidamente a produção de bens de capital. Esse setor é um dos que ainda possuem estoques elevados.

O que deve ajudar o desempenho do PIB no primeiro trimestre deste ano é a agropecuária. As perspectivas de safra para culturas com peso relevante nos primeiros três meses do ano são positivas. O maior destaque deve ser a soja. As estimativas do IBGE apontam para um aumento de 25% na safra de 2013 em relação a 2012. Para as culturas de milho e fumo, que também são relevantes no primeiro trimestre, as projeções são de alta de 7,2% e 5,8%, respectivamente.

A agropecuária ajuda, mas não deve evitar que o crescimento do PIB no primeiro trimestre seja um pouco mais baixo do que o esperado anteriormente. Revisamos de 0,9% para 0,8% a projeção de crescimento do PIB do primeiro trimestre em relação ao quarto trimestre do ano passado, após ajuste sazonal. Com a recuperação lenta da confiança, os investimentos devem se expandir com menos vigor. Além disso, nosso cenário não contempla mais uma queda adicional dos juros este ano.

Portanto, estimamos que o ritmo de crescimento do PIB ao longo dos próximos trimestres deve ficar mais próximo de 0,8% do que de 0,9% que projetávamos antes. Diante dessas perspectivas, revisamos de 3,2% para 3,0% a projeção de crescimento do PIB para este ano. Para 2014, revisamos de 4,0% para 3,5%. Grande parte do efeito da queda adicional dos juros que tínhamos no cenário ocorreria no crescimento de 2014.

No mercado de crédito, houve aumento das concessões tanto à pessoa física quanto à pessoa jurídica. As concessões à pessoa física subiram 3,5% em dezembro na comparação com novembro (ajustado para inflação e sazonalidade), segundo mês consecutivo de alta (1,1% em novembro). A média móvel de três meses das concessões ao segmento cresceu 1,0%, maior valor desde junho. Já as concessões a empresas aumentaram 4,6% no mês, recuperando-se da queda dos dois meses anteriores (-4,8% no acumulado entre outubro e novembro). A média móvel de três meses das concessões ao segmento segue essencialmente estável.

As taxas de inadimplência não caíram como esperado. A taxa dessazonalizada acima de 90 dias à pessoa física subiu 0,1 ponto percentual em dezembro, para 7,9%, e ao segmento pessoa jurídica ficou estável em 4,1%. As taxas de juros e os spreads voltaram a diminuir, especialmente no segmento pessoa jurídica.

Câmbio: vários objetivos

Ao fim de janeiro, o câmbio rompeu o patamar de 2,00 reais por dólar, algo que não ocorria desde julho de 2012. Esse nível foi ultrapassado após o Banco Central (BC) rolar um swap cambial quando o dólar era cotado a 2,03 reais. A opção pela rolagem demonstrou conforto com um movimento de apreciação da moeda a partir daquele nível.

Em nossa visão, a política cambial continua buscando promover maior competitividade à indústria e fomentar um superávit comercial mais elevado. Entretanto, no curto prazo, combater a inflação é um objetivo adicional. A alta dos preços ao consumidor acelerou entre o final do ano passado e o início deste ano, o que deve levar a inflação acumulada em 12 meses para próximo da banda superior da meta de inflação. Contudo, a inflação mensal deve ceder nos próximos meses, algo que pode dar um conforto à busca gradual por uma taxa de câmbio mais depreciada.

Portanto, mantemos nossa projeção de um câmbio mais desvalorizado ao fim de 2013, embora em patamar ligeiramente menor do que em nosso último cenário (projetamos uma taxa de câmbio de 2,10 reais por dólar em dezembro deste ano; antes, 2,15).

Importação de gás e combustíveis reduz projeção de saldo para 2013

O déficit em conta corrente de dezembro atingiu US$ 8,4 bilhões, com uma contribuição relevante da conta de serviços. Com isso, o déficit em transações correntes de 2012 somou 2,4% do PIB, resultado financiado com folga pelo investimento estrangeiro direto (IED), que atingiu 2,9% do PIB ou US$ 65,3 bilhões. Para este ano, mantemos nossa visão de investimentos estrangeiros diretos ainda fortes, somando US$ 64 bilhões (2,8% do PIB).

O déficit comercial de janeiro alcançou US$ 4 bilhões, influenciado por operações de importação de combustíveis realizadas em 2012, mas apenas registradas este ano, devido a uma alteração na legislação. De acordo com órgãos oficiais, esse efeito deve se estender até março deste ano. Entretanto, há uma tendência de aumento das importações de combustíveis devido à demanda crescente. Somando-se esse efeito à nossa projeção de utilização da capacidade integral das usinas termelétricas este ano, o que demanda a importação de gás, e ao câmbio um pouco mais apreciado, revisamos nossa projeção para o saldo comercial de 2013. Agora, esperamos superávit de US$ 14 bilhões (antes, US$ 18 bilhões). Com isso, a projeção de déficit em transações correntes se altera ligeiramente, de 2,4% para 2,5% do PIB. Para 2014, projetamos US$ 15 bilhões de saldo comercial.

Política fiscal: superávit primário menor em 2013

O superávit primário alcançou 2,4% do PIB em 2012, abaixo do saldo de 3,1% registrado em 2011. O resultado de dezembro evitou um superávit ainda menor. No último mês de 2012, o setor público registrou um superávit primário de 22,3 bilhões de reais, o maior resultado mensal desde setembro de 2010. Houve a influência de um expressivo volume de receitas atípicas, utilizadas para garantir o alcance da meta ajustada proposta pela LDO de 2012. Além disso, o governo lançou mão também de uma forte (mas temporária) contenção de gastos, além de uma reclassificação de despesas do PAC (permitindo maiores deduções).

Nossas estimativas para o superávit primário recorrente – que exclui receitas e despesas atípicas – aponta para um saldo de 1,8% do PIB em 2012, inferior aos 2,7% registrados no ano anterior. Os números mostram uma postura fiscal mais expansionista, conclusão que é reforçada por nossas estimativas (ainda preliminares) de superávit estrutural, que indicam um resultado entre 1,0–1,5% do PIB para 2012.

Novas reduções no esforço fiscal deverão ocorrer ao longo de 2013–2014, com foco nas desonerações. Até o momento, as desonerações já anunciadas ou orçadas para 2013 totalizam cerca de 1,0% do PIB para este ano. Projetamos para 2013 um superávit primário de 1,9% do PIB (projeção anterior: 2,1%). Para 2014, projetamos 0,9% do PIB, com o menor resultado refletindo novas isenções tributárias. O superávit primário recorrente provavelmente ficará na faixa de 1,0–1,5% do PIB no período.

Nossa revisão para o resultado fiscal deste ano incorpora uma retomada mais lenta na arrecadação, em função dos dados recentes de atividade econômica e receitas tributárias. Também estamos esperando gastos um pouco mais elevados no início do ano, como compensação à retenção repentina de despesas em dezembro.  

Reduções de impostos limitarão o espaço para expandir gastos. Projetamos assim um crescimento real de 5% para as despesas do governo central em 2013, ritmo semelhante ao observado em 2012. Nos anos de 2004 a 2010, a rápida expansão das receitas permitiu manter crescimento das despesas da ordem de 8–9% ao ano.

Menores reajustes do salário mínimo esperados para o biênio 2013–14, em função da regra de reajustes reais baseadas no PIB de dois anos antes (válida até 2015), devem criar espaço para uma melhora qualitativa no gasto. Avaliamos que há espaço para o gasto crescer menos nas contas de transferências e custeio, e mais nas linhas de investimento público. 

Inflação começa o ano pressionada, mas deve recuar a partir de fevereiro

Em dezembro, a inflação foi acima do esperado e seguiu pressionada no início do ano. Em janeiro, o IPCA subiu 0,86%, mesmo sendo beneficiado pelo adiamento de alguns reajustes de preços (ônibus urbano no Rio de Janeiro e em São Paulo) e pela antecipação da queda na tarifa da conta de luz. Acumulado em 12 meses, o IPCA subiu para 6,15%.

Esperamos algum alívio no curto prazo. A inflação deve desacelerar em fevereiro. Apesar da pressão a ser exercida pelo reajuste das mensalidades escolares e da gasolina, esperamos alívio da pressão nos preços de alimentos e a apropriação da maior parte do desconto na energia elétrica (contribuição estimada de -0,50 p.p. no IPCA de fevereiro). Não obstante, para o primeiro trimestre deste ano, projetamos variação de 1,8% do IPCA, ante 1,2% no mesmo período de 2012.

Para este ano, elevamos ligeiramente a projeção do IPCA de 5,6% para 5,7%. Incorporamos nas projeções a utilização das térmicas para geração de energia ao longo de todo o ano (Ver Macro Visão - Racionamento: riscos dependem da chuva e dos preços), o que compensa parte da redução inicial na conta de luz (-18,4%). Projetamos alta de 6,6% dos preços livres (também 6,6% em 2012), e de 2,9% dos preços administrados (3,7% em 2012).

Esperamos altas menores nos preços da alimentação neste ano, diante da perspectiva de uma boa safra agrícola e da provável queda nos preços de grãos. Por outro lado, devemos observar pressão de alta do grupo transportes, como reflexo do fim da redução de IPI para automóveis, do reajuste da gasolina e da tarifa de ônibus em São Paulo.

Para o IGP-M, nossa projeção foi ajustada de 4,8% para 4,7%. Os preços agrícolas devem apresentar baixa variação de preços neste ano, após forte alta no ano passado (19%). Grande parte desse movimento virá da devolução de parte das altas nos preços da soja (67%) e do milho (27%) verificadas em 2012.

Queda de juro não é mais a solução

A taxa de juros deve permanecer no atual patamar por um período prolongado. Na ata da última reunião, o Copom reconheceu a piora no balanço de riscos para a inflação e que estímulos adicionais de política monetária teriam efeito limitado sobre a economia (devido a “limitações no campo da oferta”). Em compensação, o Copom reforçou sua visão de que a queda do juro real foi estrutural e que as pressões de inflação recentes são de curto prazo.

Após a divulgação da ata, revisamos nossa projeção para a taxa de juros nos próximos meses. Diante do reconhecimento do Copom de que o baixo crescimento está relacionado com fatores de oferta, com implicações sobre a eficácia dos instrumentos de estímulo à demanda, inclusive os monetários, e da inflação acima do esperado neste início do ano, esperamos agora que a Selic permaneça estável em 7,25% ao ano até o final de 2014.

Projeções: Brasil 

Fonte: FMI, IBGE, BCB, Haver e Itaú


 



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