Itaú BBA - Sinais promissores em meio à cautela

Orange Book

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Sinais promissores em meio à cautela

Agosto 21, 2012

Um número maior de setores voltados ao consumo passou a reportar recuperação de produção e vendas.

Informações até 17 de agosto de 2012

Este relatório, publicado seis vezes por ano, resume relatos sobre o ambiente de negócios que ouvimos de contatos no setor real, especialistas e outras fontes fora do Itaú. Exceto pela seção ‘Nossa Visão’, este relatório não reflete necessariamente a visão da área de pesquisa econômica do Itaú. 

Seções:

Consumo e produção de bens e serviços
Um número maior de setores voltados ao consumo passou a reportar recuperação de produção e vendas. Mas o clima ainda é de cautela.

Investimentos
A confiança dos empresários segue contida. Mas os sinais de retomada nas vendas em alguns setores reduzem a apreensão percebida nos últimos meses, e trazem otimismo.

Mercado imobiliário
As vendas evoluem a um ritmo considerado razoável, mas ainda destinadas à redução de estoques que continuam relativamente elevados. Deve haver um menor número de lançamentos este ano.

Commodities
A alta dos preços, a depreciação cambial e a boa safra do meio do ano estão trazendo resultados positivos ao setor agrícola brasileiro. Siderurgia e mineração também se beneficiam do real mais fraco.

Mercado de trabalho, salários e preços
As informações sobre o mercado de trabalho estão mais mistas, embora em geral ainda sugiram aquecimento.

Nossa visão
A economia pode se beneficiar dos estímulos do governo.  Esperamos uma retomada gradual ao longo deste semestre.  Sinais recentes reforçam esta expectativa.


Resumo

Entre julho e agosto, um número maior de setores voltados ao consumo passou a reportar recuperação de produção e vendas. Particularmente aqueles beneficiados por incentivos governamentais. Mas o clima ainda é de cautela.

A indústria automotiva reporta resultados melhores, enquanto os segmentos de eletrodoméstico e linha branca esperam desaceleração ante o primeiro semestre.

Segmentos ligados à renda corrente, como perfumaria, remédios e bebidas observam vendas aquecidas no início do segundo semestre. Como em outras edições do Orange Book, o setor de serviços continua em destaque positivo.

No lado dos investimentos, a confiança dos empresários segue contida, mas os sinais de retomada nas vendas em alguns setores reduzem a apreensão dos últimos meses. Os investimentos em infraestrutura continuam se beneficiando da proximidade da Copa do Mundo, e passaram a sentir mais claramente o impulso das eleições municipais.

No mercado imobiliário, as vendas evoluem a um ritmo considerado razoável, mas ainda destinadas à redução de estoques, que continuam relativamente elevados. Deve haver um menor número de lançamentos este ano frente a 2011.

A alta dos preços dos grãos, a desvalorização cambial e a boa safra do meio do ano estão trazendo resultados positivos ao setor agrícola brasileiro. Câmbio favorável e menos volátil também beneficia outros setores de commodities, como siderurgia e mineração.

As informações sobre o mercado de trabalho estão mais mistas, embora em geral ainda sugiram aquecimento. Aumento de custos laborais continua um problema para muitos setores. O aumento de salários e a variação cambial não devem se converter em pressões generalizadas aos preços, dada a concorrência nos mercados consumidores.

Nossa visão:A economia pode se beneficiar dos estímulos do governo – passados e futuros. Esperamos uma retomada gradual ao longo deste semestre. Há riscos, que devem ser monitorados. Mas, em geral, os sinais recentes sugerem que os estímulos já se fazem sentir, gerando resultados positivos em diferentes setores da economia.


 

Consumo e produção de bens e serviços

Entre julho e agosto, um número maior de setores voltados ao consumo passou a reportar recuperação de produção e vendas. Particularmente aqueles beneficiados por incentivos governamentais. Mas o clima ainda é de cautela. A diferença regional descrita na última edição do Orange Book permanece, com relatos do Norte e Nordeste mais favoráveis do que Sul e Sudeste.

Estoques parecem mais ajustados, salvo casos pontuais – como eletrônicos e a linha branca. Nossa sondagem proprietária mostra que aumentou o número de empresas com estoque ideal, embora o percentual de empresas com estoque excessivo ainda seja superior aos níveis pré-2011.

Após um primeiro semestre bastante fraco, a indústria automotiva passou a reportar resultados melhores. A redução do IPI impulsionou as vendas a partir de junho, e a produção começou a reagir em julho e agosto. O segmento de autopeças vem recebendo maior volume de encomendas, confirmando a tendência. Não há, no entanto, euforia.

Na direção contrária, os segmentos de eletrodoméstico e linha branca esperam desaceleração ante o primeiro semestre, à medida que o impacto inicial das desonerações tributárias do início do ano se reduza. Estoques voltaram a se elevar, sugerindo produção em ritmo menor à frente.

Segmentos ligados à renda corrente, como perfumaria, remédios, alimentos e bebidas observam vendas aquecidas no início do segundo semestre. Mas os resultados ainda estão em linha ou abaixo do planejado no ano passado.

Como em outras edições do Orange Book, o setor de serviços continua em destaque positivo. Segmentos como restaurantes, hotelaria, educação e serviços terceirizados (limpeza, segurança patrimonial) reportam atividade continuamente aquecida. No setor de turismo, os recentes investimentos do governo federal e da iniciativa privada, especialmente visando à Copa do Mundo da FIFA®, têm trazido boas perspectivas ao setor no Brasil.

No lado da oferta, a produção continua limitada por elevação de custos e concorrência externa. A desconfiança acerca da sustentabilidade da retomada da demanda (receio de endividamento das famílias) e o cenário internacional complexo também pesam sobre a decisão de produção. Os sinais de retomada na demanda e os estímulos de política econômica implementados, contudo, favorecem uma retomada gradual da produção nos próximos trimestres.

Investimentos

A confiança dos empresários segue contida. Nosso indicador, construído a partir de sondagem com uma base ampla de clientes, está estagnado desde meados de 2011 – cerca de 15% abaixo do final de 2010. Mas os sinais de retomada nas vendas em alguns setores reduzem a apreensão percebida nas últimas edições do Orange Book.

O cenário externo complexo e a incerteza quanto à retomada doméstica continuam pesando sobre a confiança e a decisão de investir. As frequentes medidas tributárias setoriais também geram alguma perda de previsibilidade, retardando os desembolsos.

Mesmo em segmentos que reportam vendas aquecidas, a decisão de investir não é imediata. No ciclo de 2010/2011 muitas dessas empresas se prepararam para um crescimento ainda mais acelerado do que o atual, e, portanto, ainda observam capacidade ociosa.

Ao mesmo tempo, algumas medidas governamentais começam a fazer efeito positivo. Os benefícios ao conteúdo nacional melhoram a perspectiva de investimento estrangeiro direto em setores como bens de capital e automobilístico. A redução da volatilidade da taxa de câmbio e a acomodação em patamar mais depreciado trazem otimismo para alguns setores, especialmente commodities e aqueles que competem com importados.

Os investimentos em infraestrutura vêm se beneficiando da proximidade da Copa do Mundo e passaram a sentir mais claramente o impulso das eleições municipais. Mas a percepção não é de uma grande mudança na infraestrutura urbana, mas de um alívio marginal nos gargalos. O processo por vezes complexo para a aprovação das obras (licença, processo de licitação, etc.) é apontado como um obstáculo à aceleração dos investimentos. Contratação de mão de obra e custos de energia também estão entre os principais desafios.

No setor de veículos pesados o quadro segue desafiador. Os compradores continuam pouco dispostos a adquirir caminhões com a nova tecnologia Euro 5  (menos poluentes e de custo de produção mais elevado) dado que ainda não têm garantia de que vão encontrar o combustível compatível nos postos. Os donos de postos, por sua vez, estão pouco dispostos a ter o novo combustível, dada a demanda incerta e alta perecibilidade do produto.

Em contrapartida, o momento favorável do setor agrícola favorece o setor. As vendas de caminhões e máquinas agrícolas em algumas regiões (no Centro-Oeste, por exemplo) seguem melhorando, especialmente com a intensificação dos programas de incentivo do governo.

Mercado imobiliário

A atividade no setor imobiliário continua a se expandir em ritmo moderado. As vendas evoluem a um ritmo considerado razoável, mas ainda destinadas à redução de estoques, que continuam relativamente elevados. Deve haver um menor número de lançamentos este ano frente a 2011. O setor entende que o balanço entre oferta e demanda segue equilibrado, preços de imóveis devem se manter relativamente estáveis este ano.

No entanto, gradualmente, os efeitos positivos da queda das taxas de juros começam a aparecer. O setor vem observando aumento na demanda por imóveis – residenciais e comerciais – para investimento.

O aumento dos custos laborais continua preocupando o setor. O custo dos demais insumos de produção, no entanto, têm se mantido estáveis.

Commodities

A alta dos preços dos grãos nos mercados internacionais, a acomodação da taxa de câmbio em patamar mais desvalorizado e a boa safra do meio do ano estão trazendo resultados positivos ao setor agrícola brasileiro. A produção brasileira de grãos deve atingir 182,8 milhões de toneladas em 2012/2013, 10,2% acima do recorde obtido em 2011/2012. Estoques estão baixos nos EUA e China, o que deve manter o mercado pressionado. A falta de infraestrutura para exportações gera filas nos portos e impede o pleno aproveitamento do momento favorável.

O bom desempenho do setor agrícola se reflete também no segmento de fertilizantes. O setor vem observando crescimento acima da média de outros países altamente demandantes, como a China. Por ora, os preços internacionais de fertilizantes não acompanharam a alta do preço dos grãos, o que torna o produto relativamente barato ao agricultor.

O setor sucroalcooleiro não compartilha dos bons resultados dos demais segmentos agrícolas. A produtividade da cana está baixa, e as chuvas prejudicaram o setor na virada do semestre. Não há cana suficiente para o processamento, as usinas estão com cerca de 40% da capacidade ociosa. Para a frente, o ambiente de preços regulados é apontado como um fator inibidor aos investimentos.

A taxa de câmbio mais estável e desvalorizada beneficia também os segmentos de commodities industriais, como siderurgia e mineração. A rentabilidade das exportações vem se recuperando (ainda que os volumes sigam baixos), e o concorrente importado perdeu competitividade no mercado local. A siderurgia se beneficia ainda da redução de IPI para produtos da linha branca e automóveis, produtos intensivos em aço. Desta forma, o setor vem reportando aceleração de vendas nos últimos meses.

Mercado de trabalho, salários e preços

As informações sobre o mercado de trabalho estão mais mistas, embora em geral ainda sugiram aquecimento. Em resposta ao crescimento baixo da economia, alguns setores manifestam a intenção de reduzir o quadro de funcionários depois de segurar demissões nos últimos trimestres. Em alguns casos, o processo já começou. 

A maioria dos setores, no entanto, ainda reporta dificuldade de contratar e necessidade de aumentar salários acima da inflação para reter mão de obra. Aumento de custos laborais continua um problema para muitos setores, desde serviços até a construção civil e mesmo alguns segmentos industriais. 

Setores que começam a perceber uma a retomada mais clara estão gradativamente reduzindo a probabilidade de programas de demissão. Mesmo entre aqueles em que a atividade está fraca, muitas vezes a preferência ainda é por férias coletivas ao invés de demissões. 

A produtividade do trabalho ainda é considerada relativamente baixa. Dessa forma, muitos setores vêm acelerando esforços de automação e de treinamento de pessoal. Os frutos destas iniciativas tendem se materializar mais a médio e longo prazos.   

O aumento de custos laborais e a variação cambial não devem se converter em pressões aos preços ao consumidor no curto prazo. A concorrência elevada incentiva empresas a aumentar a eficiência e a cortar outros custos para evitar compressão adicional de margens.

Essa realidade deve inclusive manter limitados os efeitos inflacionários da alta dos preços internacionais de grãos.

Nossa visão

A economia pode se beneficiar dos estímulos do governo – passados e futuros – especialmente para promover investimentos e reduzir custos na indústria. Esperamos uma retomada gradual ao longo deste semestre.

Há riscos. Um enfraquecimento do mercado de trabalho, por exemplo, pode abortar o ciclo de retomada do consumo. Uma possível deterioração do cenário internacional, por seu turno, também tornaria mais difícil a recuperação do crescimento nos próximos meses.

Mas, em geral, as últimas informações sugerem que esses riscos vêm se reduzindo marginalmente. Há sinais de que os estímulos de política econômica finalmente se fazem sentir, gerando resultados positivos em diferentes setores da economia.



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