Itaú BBA - Retomada se consolida, gargalos ficam mais evidentes

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Retomada se consolida, gargalos ficam mais evidentes

Março 27, 2013

Este relatório resume relatos sobre o ambiente de negócios

Informações até 26 de março de 2013

Este relatório, publicado seis vezes por ano, resume relatos sobre o ambiente de negócios que ouvimos de contatos no setor real, especialistas e outras fontes fora do Itaú. Exceto pela seção ‘Nossa visão’, este relatório não reflete necessariamente a visão da área de pesquisa econômica do Itaú.

Seções:

Consumo e produção de bens e serviços
A maioria dos setores reporta aceleração ou manutenção de vendas em patamares elevados. Alguns, no entanto, observam perda de dinamismo nos últimos meses.

Investimentos
A confiança dos empresários dá sinais de melhora. Mais setores revelam intenção de investir, apesar da aversão ao risco continuar elevada.

Mercado imobiliário
A velocidade de vendas é próxima de 2012 e continua sendo classificada entre “moderada e boa”. Estoques, em geral, ainda estão acima do desejado.

Commodities
A safra agrícola brasileira deve ser forte este ano. Os gargalos ao crescimento, no entanto, limitam os ganhos de renda do produtor. O setor de siderurgia e mineração reage, depois de um ano de 2012 fraco.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços
Diferentes setores conseguiram repassar preços no início do ano, aliviando boa parte da alta de custos do ano passado. Pressões de custo parecem menores para frente.

Nossa visão
A economia caminha para um crescimento mais elevado no primeiro trimestre. No entanto, avaliamos que a economia continuará em expansão, mas de forma moderada. A inflação segue como preocupação.


Resumo

A demanda por bens de consumo manteve o ritmo firme do final do ano passado. A maioria dos setores reporta aceleração ou manutenção de vendas em patamares elevados. Alguns, no entanto, observam perda de dinamismo nos últimos meses. Endividamento do consumidor e redução de incentivos tributários obtidos no passado recente estão entre as preocupações.

O setor de serviços observou estabilização na desaceleração recente. Em geral, a atividade corrente ainda é caracterizada como aquecida.

A confiança dos empresários melhorou. Mais setores revelam intenção de investir.  No entanto, a aversão ao risco ainda é elevada. Conforme a economia vai se recuperando, os gargalos ao crescimento ficam mais evidentes, trazendo preocupação com as condições de produção no futuro.

No mercado imobiliário, a velocidade de vendas continua sendo classificada entre “moderada e boa”, com aceleração nas vendas de unidades de faixas de preço intermediárias. Mas os estoques ainda estão acima do desejado.

A safra agrícola brasileira deve ser forte neste ano, mantendo o otimismo do setor. Expectativas favoráveis se reduziram um pouco devido às condições climáticas adversas. No setor agrícola, os gargalos ao crescimento são evidentes e limitam os ganhos de renda do produtor.

O setor de siderurgia e mineração observa crescimento no início de 2013, depois de um ano de 2012 fraco. Mas não há planos de expansão relevantes no curto prazo, dada a ociosidade ainda elevada.

Entre as commodities de energia (gás e petróleo) a atividade está aquecida, mas existe o risco de desaceleração dos investimentos (menores perfurações) por conta da exigência de conteúdo nacional na aquisição de equipamentos.

O mercado de trabalho segue apertado, com a maioria dos setores reportando dificuldade de contratação e reajustes salariais acima da inflação. Há alguns poucos sinais de acomodação.

Diferentes setores conseguiram repassar preços no início do ano, aliviando boa parte da alta de custos do ano passado. Pressões de custo parecem menores para a frente. Em contrapartida, as expectativas de inflação vêm se consolidando perto de 6%.

Nossa visão:A economia caminha para um crescimento mais elevado no primeiro trimestre. No entanto, avaliamos que a economia continuará em expansão, mas de forma moderada. A inflação deve ceder no curto prazo, mas segue representando uma preocupação.

Consumo e produção de bens e serviços

A demanda por bens de consumo manteve, entre fevereiro e março, o ritmo firme dos meses anteriores. Alguns setores reportam aceleração ao longo do trimestre, como alimentos, material de limpeza, e material de construção.

Setores como veículos e eletrodomésticos, que esperavam alguma queda depois de resultados fortes no quarto trimestre do ano passado, se surpreenderam com a manutenção dos níveis elevados. A retirada do incentivo do IPI reduzido e o maior endividamento do consumidor, no entanto, trazem dúvidas para adiante.

Apesar da maioria dos segmentos reportar um desempenho positivo, alguns notam certa perda de dinamismo, entre eles vestuário e cama, mesa e banho. Em geral, esses setores notam que seus consumidores estão endividados, ou comprometeram a renda com itens beneficiados por desonerações tributárias (veículos, linha branca, materiais de construção).

Nas últimas duas edições do Orange Book (novembro/2012 e janeiro/2013), reportamos que o setor de serviços começava a dar sinais de desaceleração. Depoimentos mais recentes revelam estabilidade deste processo. Em geral, o setor de serviços avança em ritmo menor do que o da média dos últimos anos, porém a atividade recente ainda é caracterizada como aquecida. Como apontado nas edições anteriores do Orange Book, os serviços ligados a gargalos da produção – logística, educação, treinamento de pessoal – são os destaques.

Alguns produtores de bens e serviços, que vinham operando com margens mais estreitas no ano passado devido ao aumento de custos (salários, depreciação cambial, aumento do preço dos insumos), aumentaram seus preços no início do ano. A reação inicial dos compradores - varejistas ou consumidor final, dependendo do produto – foi de reduzir a demanda. Mas ao longo do trimestre a situação se normalizou, e o aumento de preços se sustentou.

O bom desempenho das vendas e a recomposição de margens estimulam planos de investimento, tanto na produção como no comércio (abertura de novas lojas). No entanto, a incerteza com relação à disponibilidade dos meios de produção – mão de obra, transporte, energia, locação – faz muitos postergarem os planos.

Investimentos

A confiança dos empresários dá sinais de melhora. Nosso indicador, feito a partir de uma base ampla de clientes, subiu entre fevereiro e marco, e atingiu o nível mais alto em 20 meses. O índice de confiança, no entanto, ainda está 14% abaixo da média de 2010, revelando que a recuperação ainda é, por ora, modesta.

É maior o número de setores que reportam intenção de investir. Entre eles, comércio varejista, imobiliário, produção de bens de consumo, agronegócio, transporte, serviços diversos.

Produtores de bens de capital observam aceleração moderada de pedidos neste ano. O destaque ainda é o setor agrícola, embora a demanda dos segmentos ligados à infraestrutura, indústria de base e construção venha melhorando. Setores fornecedores de insumos para bens de capital também reportam um primeiro trimestre mais aquecido, reforçado o sinal positivo. Apesar da aceleração das vendas, os estoques ainda estão acima do normal. O setor mostra também preocupação com a queda das exportações.

Entre os setores ligados ao investimento, o de veículos pesados segue sendo o mais positivo. A aceleração nas vendas observada desde meados de 2012 se mantém. Segundo montadoras, os pedidos já recebidos garantem a produção até o início do segundo semestre. O principal propulsor das vendas são os juros subsidiados do BNDES, embora haja também a percepção de melhora da atividade econômica, gerando demanda por transporte. A maior preocupação do setor, no curto prazo, é a capacidade de suprir a demanda. Muitos fornecedores de insumos não estão conseguindo atender aos pedidos (em parte por baixo investimento em 2011 e 2012), interrompendo a cadeia de produção.

Os sinais mais concretos de recuperação da demanda e melhores condições de financiamento estimulam o ambiente de investimento. No entanto, a aversão ao risco ainda é elevada. Grande parte dos investimentos planejados nos anos passados ainda está em espera. Conforme a economia vai se recuperando, os gargalos ao crescimento vão ficando mais evidentes, trazendo preocupação com as condições de produção no futuro. O aumento da burocracia - especialmente para aqueles dependentes de insumos de importação - e a incerteza com relação às regras tributárias também são frequentemente apontados como fatores inibidores do investimento.

Mercado imobiliário

Construtoras esperam, para 2013, vendas de imóveis residenciais em patamar similar ao de 2012, ou ligeiramente acima. A velocidade de vendas continua sendo classificada entre “moderada e boa”. Há uma clara aceleração nas vendas de unidades de faixas de preço intermediárias – por volta de 200-300 mil reais. Também se verifica aceleração importante das vendas de imóveis comerciais de menor porte (em torno de 50 m2). O movimento é consistente com a consolidação do ambiente de taxas de juros reais mais baixas.

A maior parte das construtoras iniciou 2013 com estoques ainda acima do desejado. Assim, o número de lançamentos em 2013 deve ficar em patamar similar ao de 2012 – inferior à média dos anos anteriores. A queda passada de lançamentos vem se refletindo em um ritmo de obras mais moderado, gerando menos pressão sobre fornecedores de insumos e limitando o aumento dos custos de produção.

As perspectivas para o setor de shopping centers continuam muito favoráveis. As empresas no setor vêm apresentando bons resultados. O valor do aluguel cobrado está subindo e, ainda assim, a taxa de vacância está em patamares muito baixos. Para 2013, 47 novos shoppings devem ser inaugurados. O setor vem se capitalizando para anunciar novos projetos de expansão para os próximos anos.

Commodities

A safra agrícola brasileira deve ser forte neste ano, mantendo o otimismo do setor. Soja e arroz estão entre as culturas com maior crescimento frente ao ano passado. No entanto, no último mês as expectativas foram revistas um pouco para baixo devido às condições climáticas adversas: excesso de chuva na região Centro-Oeste e a seca no Nordeste do país. A safra de soja é a mais impactada pelo clima.

No setor sucroalcooleiro, o rendimento dos canaviais de São Paulo será de 4% a 12% maior na safra 2013/2014, ante o observado no ciclo anterior, variando de acordo com cada região. Os níveis satisfatórios de chuvas nos dois primeiros meses do ano contribuíram para o desenvolvimento adequado dos canaviais.

No setor agrícola, os gargalos ao crescimento são mais evidentes. Os ganhos de renda do setor são limitados por: i) congestionamento de estradas e portos; ii)  elevação dos custos de frete; iii) falta de caminhões novos; iv) nova regulamentação trabalhista para os caminhoneiros.

A demanda externa segue forte, especialmente com a Argentina limitando exportações para aliviar pressões inflacionárias domésticas. No entanto, os gargalos reduzem a capacidade de exportação.

A safra boa impulsiona a demanda do segmento de fertilizantes e defensivos agrícolas, e as vendas vêm acelerando ao longo do trimestre. A produção do setor deve subir cerca de 2% no ano. O preço da matéria prima (majoritariamente importada) está subindo, por conta do câmbio depreciado e pelo aumento do preço das commodities químicas no mercado internacional. A demanda permite repasse apenas parcial para os preços, uma vez que os ganhos de renda do demandante estão limitados pelos gargalos estruturais.  

Em 2013, o setor da carne bovina vem contrariando a sazonalidade. O início de ano costuma ser marcado pelo enfraquecimento da demanda e por uma queda leve nas exportações, mas este primeiro trimestre tem registrado exatamente o contrário.

O setor de siderurgia e mineração observa crescimento no início de 2013, depois de um ano de 2012 bastante fraco. Além do câmbio mais favorável, que vem melhorando os resultados desde o ano passado, a demanda externa (China) voltou a acelerar, e a construção civil dá sinais de retomada. Contudo, como a incerteza local e externa permanece, não parece haver investimentos relevantes para 2013. A ociosidade ainda é, em geral, elevada.

Entre as commodities de energia (gás e petróleo) a atividade está aquecida, mas existe o risco de desaceleração dos investimentos (menores perfurações). A exigência de conteúdo nacional nos equipamentos representa uma restrição ao aumento do investimento, em razão da falta do similar nacional. Em alguns casos, esta exigência tem sido afrouxada.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços

O mercado de trabalho segue aquecido, com a maioria dos setores ainda reportando dificuldade de contratação e reajustes salariais acima da inflação. Há alguns poucos sinais de acomodação. Em alguns casos, as dificuldades advindas do mercado de trabalho levam algumas empresas a desistir de planos de expansão.

No ano passado, os custos de produção subiram por diferentes fatores. Houve ganhos de salário real acima da produtividade, pressão de aluguéis, desvalorização cambial e alta de commodities (especialmente agrícolas) no mercado internacional. Desde o final do ano passado, vários setores apontavam que as margens estavam comprimidas, e que seria necessário um aumento de preços. A melhora da atividade econômica permitiu este ajuste em muitos casos. Ao mesmo tempo, desonerações tributárias (energia elétrica, cesta básica) reduzem custos. Desta forma, as pressões de inflação desta natureza parecem menores adiante.

Em contrapartida, as expectativas de inflação nos planos orçamentários para os próximos anos vêm se consolidando mais perto de 6% em diferentes setores.

Nossa visão

Avaliamos que a economia caminha para um crescimento mais elevado no primeiro trimestre de 2013. No entanto, avaliamos que esse ritmo mais intenso está associado a fatores que tendem a ser temporários, e que impactaram a atividade na indústria e no setor agropecuário. Projetamos que a economia continuará em expansão adiante, mas em linha com uma trajetória de crescimento moderado e compatível com um aumento do PIB de 3,0% neste ano.

Com relação à inflação, esperamos uma moderação à frente, em parte pela menor pressão de alimentos, em parte pelo efeito das desonerações tributárias. Mas há também uma maior disseminação no aumento de preços corrente. Mercado de trabalho aquecido e expectativas mais altas elevam o nível da inflação e sua resistência.



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