Itaú BBA - Na mesma toada

Orange Book

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Na mesma toada

Fevereiro 17, 2016

Em nossa visão, os dados de atividade fracos e os fundamentos sugerem que o quadro continuará difícil à frente.

Informações até 16 de fevereiro de 2016

Este relatório, publicado seis vezes por ano, resume relatos sobre o ambiente de negócios que ouvimos de contatos no setor real, especialistas e outras fontes fora do Itaú. Exceto pela seção ‘Nossa visão’, este relatório não reflete necessariamente a visão da área de pesquisa econômica do Itaú.

Seções:

Consumo e produção de bens e serviços                                                             
A maioria dos segmentos ligados ao consumo de bens e serviços reporta que o ano começou com queda adicional de atividade.

Investimento                                                                                                    
A recessão doméstica e as incertezas externas – realimentadas pela volatilidade nos mercados financeiros no início do ano – tornam o cenário desfavorável ao investimento.                                                                                                       

Mercado de trabalho, custos de produção e preços                                               
O foco da maioria dos setores para este ano continua sendo reduzir custos, para se adequar à nova realidade da demanda.

Mercado imobiliário                                                                                           
O ajuste no mercado imobiliário vem se intensificando. O ritmo de vendas segue fraco, limitado pela confiança em baixa e pelas condições de crédito mais restritas.

Commodities                                                                                                
O setor agrícola deve enfrentar uma recessão mais tênue do que o resto da economia este ano. Nos setores de siderurgia e petróleo, a atividade continua fraca e as incertezas seguem elevadas.

Nossa visão
Os dados de atividade econômica continuam mostrando queda, e os fundamentos sugerem que o quadro continuará difícil à frente. Esperamos agora uma recessão este ano pelo menos tão intensa quanto à de 2015.


Resumo

A maioria dos segmentos ligados ao consumo de bens e serviços reporta que o ano começou com queda adicional de atividade. O endividamento corporativo continua elevado em muitos setores, e os estoques estão altos nas fábricas e nos varejistas. Há pouca expectativa de recuperação da demanda em 2016, e a preocupação com a inadimplência segue crescente. Alguns segmentos já indicam que o orçamento, elaborado recentemente, não dever ser atingido. 

A recessão doméstica e as incertezas externas – realimentadas pela volatilidade nos mercados financeiros no início do ano – tornam o cenário desfavorável ao investimento privado. O investimento público também está em baixa, devido à crise fiscal dos governos regionais e central.

O foco da maioria dos setores para este ano continua sendo reduzir custos, para se adequar à nova realidade da demanda. Essa tendência sugere que as reduções de pessoal devem continuar. A preocupação com custo de combustíveis e energia elétrica vem diminuindo, em virtude da queda do preço do petróleo e do bom volume de chuvas durante o verão. Em contrapartida, muitos setores ainda sentem o repasse da depreciação cambial sobre insumos de produção.

O repasse de custos aos preços continua limitado pela demanda fraca.

O ajuste no mercado imobiliário vem se intensificando. O ritmo de vendas segue fraco, limitado pela confiança em baixa e pelas condições de crédito mais restritas. Os estoques permanecem elevados, levando o setor a discutir descontos maiores e estratégias de vendas mais ativas.

O setor agrícola deve enfrentar uma recessão mais tênue do que o resto da economia este ano, mas há preocupação com a rentabilidade e com o endividamento do setor. O endividamento também preocupa o setor.

No setor de siderurgia, a recessão prolongada na indústria manufatureira mantém as vendas domésticas comprimidas.

No setor de petróleo, a atividade continua fraca e as incertezas seguem elevadas.

Nossa visão: Os dados de atividade econômica continuam mostrando queda, e os fundamentos sugerem que o quadro continuará difícil à frente. A demanda doméstica deve continuar fraca.  Esperamos agora uma recessão este ano pelo menos tão intensa quanto à de 2015.

Consumo e produção de bens e serviços

A maioria dos segmentos ligados ao consumo reporta que o ano começou com queda adicional de atividade. O endividamento corporativo continua elevado em muitos setores, e os estoques estão altos nas fábricas e nos varejistas. Com o aumento do desemprego, os juros elevados e o consumidor final ainda alavancado, há pouca expectativa de recuperação da demanda em 2016. Alguns segmentos já indicam que o orçamento para este ano, elaborado recentemente, não dever ser atingido.

Os setores de bens duráveis, em recessão há mais tempo, parecem mais ajustados ao cenário.  A maioria desses setores tomou ações para redimensionar a produção, com fechamento de plantas, redução de efetivo e prolongamento de férias coletivas. As vendas e a produção, depois de quedas fortes em 2014 e 2015, parecem começar a se estabilizar.  O risco, no entanto, continua de baixa. Se houver nova queda na demanda ao longo do ano, novos ajustes precisarão ser feitos.

O mesmo não acontece com segmentos de bens semi e não duráveis, como vestuário, materiais de escritório, alimentos e materiais de limpeza. A fraqueza adicional das vendas nos últimos meses surpreendeu e vem exigindo ações mais claras de redução de custos e da estrutura produtiva, especialmente entre as pequenas e médias empresas. Há um claro movimento do consumidor final de busca por produtos de menor valor agregado. A maioria desses setores ainda sente a alta dos insumos importados e o aumento do custo da energia elétrica.

Os custos e a queda adicional da demanda afetam também o setor de serviços. O movimento reportado em shopping centers, hotéis, restaurantes é bem abaixo da média dos últimos anos. A maioria das cadeias de varejo planeja uma redução no número de lojas no País, algo que não acontecia faz anos.

A inadimplência é uma preocupação generalizada entre os setores de bens e serviços. Os pedidos de aumento de prazos de varejistas à indústria continuam aumentando. Esse movimento intensifica a preocupação com liquidez na economia, particularmente face ao elevado custo de financiamento. O número de pedidos de recuperação judicial vem aumentando, especialmente entre empresas pequenas e médias.

Existe a expectativa que a depreciação cambial possa beneficiar a produção local. No entanto, como a demanda interna segue fraca, esse efeito ainda é tímido e concentrado em segmentos de alta renda.  As exportações também tendem a ajudar na recuperação ao longo do tempo, mas, com exceção do setor de alimentos básicos, o movimento é lento.

Investimento

A confiança do empresário segue contida em nível baixo, com algum sinal de estabilização na margem. Nosso indicador, feito a partir de uma base ampla de clientes, vem apresentando uma volatilidade mensal elevada, mas interrompeu a tendência de queda observada até meados do ano passado. O indicador está cerca de 25% abaixo do último trimestre de 2014, e 10% abaixo do primeiro trimestre de 2015. A maioria dos setores pesquisados reporta que os estoques permanecem elevados.

Os sinais de estabilização da confiança não têm se traduzido, no entanto, em intenção de retomar o investimento. A recessão doméstica e as incertezas do cenário global – realimentadas pela volatilidade nos mercados financeiros no início do ano – tornam o cenário desfavorável ao investimento privado.   A elevada ociosidade observada em muitos setores reduz a urgência de incrementos de capacidade. O investimento público também está em baixa, devido à crise fiscal dos governos regionais e central.  

Nos setores de bens de capital e veículos pesados a demanda segue baixa também em virtude da antecipação de compras durante o período de crédito subsidiado. Muitos setores da economia reportam um volume importante de máquinas e caminhões ociosos em seus parques produtivos.

A exportação tem sido uma opção para muitas empresas desses setores, especialmente para as multinacionais, que têm um acesso mais bem estabelecido com outros mercados. Tanto o setor de veículos como o de maquinário reportam que, com a taxa de câmbio aos níveis atuais, os produtos brasileiros voltaram a ser competitivos, especialmente na América Latina.

O real mais depreciado e a dificuldade financeira por que passam diversos segmentos da economia vêm aguçando o interesse de empresas (especialmente as multinacionais) em comprar novos ativos no País, aumentando ou diversificando seus ramos de atividade. A postura é cautelosa, dados os riscos de curto prazo, mas o número de negócios vem aumentando.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços

O foco da maioria dos setores para este ano é reduzir custos, para se adequar à nova realidade da demanda. Essa tendência sugere que as reduções de pessoal devem continuar, especialmente no setor de serviços e entre empresas pequenas e médias. De fato, em nossa sondagem com clientes, o indicador de “emprego previsto” apresenta uma tendência de queda contínua desde janeiro de 2014, sem sinais de estabilização. A maioria dos setores tem fechado acordos salariais abaixo da inflação passada.

A preocupação com custo de combustíveis e energia elétrica vem diminuindo, em virtude da queda do preço do petróleo e do bom volume de chuvas durante o verão. Em contrapartida, muitos setores ainda sentem o repasse da depreciação cambial sobre insumos de produção. Existe ainda o receio, em alguns segmentos, de aumento de impostos para recompor as receitas fiscais do governo.

O repasse de custos ao consumidor continua limitado pela demanda fraca. A tensão ao longo das cadeias produtivas para absorver os custos continua elevada. Ao longo do tempo, esse processo melhora a eficiência. Mas, por ora, a compressão de margens aumenta o estresse na economia.

Mercado imobiliário

O ajuste no mercado imobiliário vem se intensificando. No segmento residencial o ritmo de vendas segue fraco, limitado pela confiança do consumidor em baixa e pelas condições de crédito mais conservadoras. Os estoques permanecem elevados, levando o setor a discutir descontos maiores e estratégias de vendas mais ativas. O risco é o aumento do distrato, o que poderia tornar ainda mais difícil o reequilíbrio do mercado.  O volume de lançamentos continua, em geral, sendo revisto para baixo.

O desequilíbrio maior, no entanto, continua no segmento comercial. O nível de vacância é elevado, especialmente em escritórios comerciais, e existem ainda muitos projetos em construção, especialmente na Região Sudeste. Os preços e aluguéis seguem em baixa, o que vem sendo uma opção para as empresas reduzirem custos.

No segmento de shopping centers, o movimento continua enfraquecendo, em linha com a queda do varejo em geral. A gestão de custos dos lojistas tornou-se mais complexa, e a ociosidade continua elevando-se. Como ressaltado no último Orange Book, apenas os shoppings mais maduros mantêm o movimento, especialmente aqueles voltados à alta renda, que se beneficiam do redirecionamento da demanda gerado pelo câmbio depreciado.

Commodities

O setor agrícola deve enfrentar uma recessão mais tênue do que o resto da economia este ano.  A perspectiva é de volumes semelhantes aos do ano passado. A produtividade de algumas culturas, como a soja, deve ser melhor do que em anos anteriores. Há um risco do lado da rentabilidade, uma vez que a depreciação do câmbio aumentou o custo dos insumos para este ano, enquanto o preço em dólar dos grãos recuou. Apenas os segmentos cuja vantagem comparativa do Brasil é muito clara, como o de celulose, devem manter rentabilidade elevada.

A gestão de caixa também preocupa o setor. A disponibilidade de crédito diminuiu, limitando a capacidade de investimentos e prejudicando os segmentos mais endividados, como o sucroalcooleiro.

No setor de siderurgia, a recessão prolongada na indústria manufatureira mantém as vendas domésticas comprimidas. A competitividade da produção local melhorou com a desvalorização do real, mas afeta a gestão de caixa das empresas, uma vez que o setor tem dívidas em dólar.  Na mineração, a preocupação maior é com o cenário externo. As economias emergentes, especialmente a China, seguem desacelerando, o que torna as perspectivas de preço e volume menos favoráveis.

No setor de petróleo, a atividade continua fraca e as incertezas seguem elevadas. Os preços em baixa e o endividamento do setor continuam afetando a cadeia produtiva. A possibilidade de vendas de ativos públicos e de mudanças no marco regulatório do setor mantém as empresas do setor atentas. No entanto, não há sinais de melhora.

Nossa visão

Os dados de atividade econômica do último trimestre de 2015 foram piores que o esperado, e os indicadores disponíveis para o primeiro trimestre sugerem uma nova queda do PIB.

Para o restante do ano, os fundamentos indicam que o quadro seguirá difícil. A incerteza, os custos de produção pressionados e a elevada capacidade ociosa devem manter o investimento em queda. No consumo, a tendência de queda iniciada no ano passado deve se aprofundar. A deterioração do mercado de trabalho continuará pesando sobre as decisões dos consumidores. Com a depreciação cambial, o setor externo tende a contribuir positivamente, como aconteceu em 2015. No entanto, o crescimento global modesto limita esse impacto.

Nesse cenário, esperamos agora uma contração do PIB em 2016 pelo menos tão intensa quanto a observada em 2015.

Há sinais incipientes de que a economia pode se estabilizar no segundo semestre deste ano. O índice de confiança dos empresários e consumidores interrompeu a tendência de queda e apresentou alta em janeiro. Os estoques estão altos, mas vêm sendo ajustados de forma consistente. Outros indicadores antecedentes, como nosso índice de difusão, ainda sugerem retração da atividade, mas em menor intensidade.


 



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