Itaú BBA - Incertezas externas e domésticas afetam a economia em 2014

Orange Book

< Voltar

Incertezas externas e domésticas afetam a economia em 2014

Fevereiro 10, 2014

O consumo de bens e serviços vem desacelerando à medida que a demanda se mostra cada vez mais seletiva.

Informações até 07 de fevereiro de 2014

Este relatório, publicado seis vezes por ano, resume relatos sobre o ambiente de negócios que ouvimos de contatos no setor real, especialistas e outras fontes fora do Itaú. Exceto pela seção ‘Nossa visão’, este relatório não reflete necessariamente a visão da área de pesquisa econômica do Itaú.

Seções:

Consumo e produção de bens e serviços
O consumo de bens e serviços vem desacelerando à medida que a demanda se mostra cada vez mais seletiva.

Investimento
Muitos setores veem 2014 como um ano de incertezas globais e domésticas.

Mercado imobiliário
O setor imobiliário mostrou recuperação em 2013, ainda que o ritmo de crescimento não pareça acelerar neste ano.

Commodities
O clima quente e seco está afetando a produção agrícola brasileira.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços
A alta dos custos de produção continua preocupando. Empresas estão determinadas a reduzir custos.

Nossa visão
Os fundamentos domésticos sugerem que o primeiro semestre se manterá em ritmo lento.


Resumo

O consumo de bens e serviços vem desacelerando, em maior ou menor velocidade, à medida que a demanda se mostra cada vez mais seletiva.

O período entre o fim de 2013 e o início de 2014 vem sendo marcado pelo descolamento entre os setores ligados ao consumo de bens duráveis e não duráveis. De um lado, produtores de bens de consumo duráveis reportam demanda contida, desaceleração de pedidos e estoques elevados nos varejistas. De outro, produtores de bens de consumo não duráveis reportam atividade mais forte - ainda que em desaceleração frente a 2013 - beneficiados pelos ganhos de renda dos consumidores. Setores específicos, como bebidas e algumas linhas têxteis, são impulsionados também pelas altas temperaturas neste início de ano e pela proximidade da Copa do Mundo.

A Copa movimenta também setores de serviços, como hotelaria, operadoras de turismo, produção de eventos, mídia e transporte executivo. No entanto, o setor de serviços como um todo mantém a trajetória de desaquecimento observada ao longo de 2013.

Do lado do investimento, a confiança do empresário se mantém contida, embora haja algum sinal de melhora no início do ano. Muitos setores veem 2014 como um ano de incertezas globais e domésticas, o que leva a postergar decisões de investimento de maior porte. Mesmo setores que se beneficiam da evolução da classe média e mostraram muito vigor nos últimos anos dão sinais de desaceleração nos projetos de expansão

Apesar do clima cauteloso, o interesse por investir no País ainda se mantém. O tamanho do mercado consumidor e o potencial de produção de commodities tornam o Brasil estruturalmente atraente.

O setor de veículos pesados – ônibus, caminhões e máquinas agrícolas – vive um momento de recuo de vendas, depois das mudanças nas condições de financiamento do PSI, do BNDES. O setor espera alguma retomada em fevereiro e março, mas há dúvidas quanto à sustentabilidade da demanda ao longo do ano.

O setor imobiliário mostrou recuperação em 2013, ainda que o ritmo de crescimento não pareça acelerar neste ano. Apesar das vendas melhores, a perspectiva é de produção moderada este ano.

Entre as commodities, o clima seco está afetando a produção agrícola brasileira. A safra de 2013/14 como um todo ainda deve ser forte, mas há diferenças entre culturas. A produção de cana-de-açúcar e de café devem ser mais negativamente afetada pelo clima. Nos setores de siderurgia e mineração, a depreciação cambial e a perspectiva de recuperação da indústria global animam.

A alta dos custos de produção segue preocupando diferentes setores da economia. Salários seguem pressionados, com poucos sinais de acomodação. Empresas estão determinadas a reduzir custos, evitando contratações e buscando automação de seus processos.

Nossa visão: a economia fechou 2013 em desaceleração. Os fundamentos domésticos tanto da produção industrial quanto do consumo sugerem que o ritmo mais lento se manterá neste primeiro semestre. No cenário externo, o crescimento mais forte no G7 pode ser positivo para a economia brasileira, mas o ambiente mais negativo para as economias emergentes neste início de ano e a piora da situação econômica na Argentina preocupam.


 

Consumo e produção de bens e serviços

O período entre o fim de 2013 e o início de 2014 vem sendo marcado pelo descolamento entre os setores ligados ao consumo de bens duráveis versus não duráveis. De um lado, bens de consumo duráveis reportam demanda contida, desaceleração de pedidos e estoques elevados nos varejistas. Aumento dos juros, preços mais elevados (especialmente por conta do câmbio), maior comprometimento da renda e receio de desaceleração do mercado de trabalho estão entre os fatores que, na visão desses setores, justificam a demanda mais cautelosa. O setor automobilístico tem um desafio maior nesse cenário. Os estoques estão particularmente elevados, e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) ainda reduzido não é mais percebido pelo setor como um estímulo. A piora recente da situação econômica na Argentina também preocupa. Produtores de autopeças avaliam o início de 2014 como "difícil".

De outro lado, produtores de bens de consumo semi e não duráveis, como produtos de limpeza, medicamentos e alimentos reportam atividade mais forte, embora em desaceleração frente a 2013. O mercado de trabalho ainda aquecido e a redução dos gastos com bens duráveis são apontados como o principal propulsor das vendas. Setores específicos, como bebidas e algumas linhas têxteis, são impulsionados também pelas altas temperaturas neste início de ano e pela proximidade da Copa do Mundo.

A Copa movimenta também serviços como hotelaria, operadoras de turismo, produção de eventos, mídia e transporte executivo, que continuam reportando atividade bastante aquecida. No entanto, o setor de serviços como um todo mantém a trajetória de desaceleração observada ao longo de 2013. Há menor movimento em restaurantes e shopping centers. A demanda, especialmente corporativa, está muito mais seletiva à medida que as empresas buscam uma gestão mais eficiente, com orçamentos mais apertados. Como apontado no último Orange Book, mesmo a demanda por serviços essenciais para as empresas, como segurança e transporte, tem sido redimensionada.

Em suma, o consumo de bens e serviços vem desacelerando, em maior ou menor velocidade, à medida que a demanda se mostra cada vez mais seletiva.

Investimento

A confiança do empresário se mantém contida, ainda que haja algum sinal leve de melhora no início do ano. Nosso indicador, feito a partir de uma base ampla de clientes, cresceu em janeiro depois de recuar no quarto trimestre.  No entanto, o patamar atual ainda é abaixo da média do primeiro semestre de 2013, e sensivelmente menor que o registrado entre 2010 e 2011.

As concessões de infraestrutura, a proximidade da Copa do Mundo e programas específicos do governo (para financiar máquinas e equipamentos para municípios) movimentam o setor da construção civil. O real mais depreciado frente à média do ano passado protege contra a concorrência dos importados, trazendo uma expectativa melhor para o setor de bens de capital.

Muitos setores enxergam 2014 como um ano de incertezas globais e domésticas, o que leva a postergar decisões de investimento de maior porte. No lado externo, os juros devem subir nos EUA, e as economias emergentes estão sendo levadas a fazer ajustes. No lado interno, os juros em alta, a volatilidade do câmbio e a perspectiva de retirada de alguns incentivos tributários trazem dúvida com relação à robustez da demanda no curto prazo.

Fatores do lado da oferta, como altos custos de produção (mão de obra, transporte, aluguel) e complexidade tributária também deixam empresários menos convictos em expandir a capacidade produtiva. Mesmo setores que se beneficiam da evolução da classe média e mostraram muito vigor nos últimos anos – entre eles saúde, educação, cuidados pessoais, higiene e limpeza – dão sinais de desaceleração nos projetos de expansão.

Apesar do clima cauteloso, o interesse por investir no País ainda se mantém. O tamanho do mercado consumidor e o potencial de produção de commodities tornam o Brasil estruturalmente atraente. Os projetos de infraestrutura oferecidos pelo governo no programa de concessões têm potencial de retorno e ajudam a aliviar gargalos de produção. A Copa do Mundo pode deixar um legado de internacionalização, importante para uma economia ainda fechada, com empresas (especialmente pequenas e médias) pouco globalizadas.

Dessa forma, sinais de que o País avança na correção dos entraves estruturais podem fazer com que, passadas as incertezas de curto prazo, os investimentos de maior porte e de mais longo prazo acelerem novamente.

O setor de veículos pesados – ônibus, caminhões e máquinas agrícolas – vive um momento de recuo de vendas, depois das mudanças nas condições de financiamento do PSI, do BNDES. Houve antecipação de vendas no fim de 2013, o que está moderando a demanda neste início de ano e gerando estoques elevados. As condições do PSI ainda relativamente favoráveis e a boa safra agrícola geram expectativas de recuperação para fevereiro e março, mas há dúvidas com relação à sustentabilidade da demanda ao longo do ano.

Mercado imobiliário

O setor imobiliário mostrou recuperação em 2013, ainda que o ritmo de crescimento não pareça ter acelerado nos últimos meses. A velocidade de vendas é considerada boa, mas já há sinais de que os juros mais elevados vêm afetando a demanda – especialmente de imóveis cuja demanda final é tradicionalmente formada por investidores, como salas comerciais e residenciais de pequeno porte. Em algumas regiões, especialmente Sul e Sudeste, o nível de vacância ainda se mantém relativamente elevado. O segmento de alto luxo permanece bastante aquecido e imune à volatilidade de curto prazo, fundamentalmente pela oferta limitada.

Apesar das vendas melhores, a perspectiva é de produção modesta, em função de estoques ainda elevados, alto custo de terrenos para novos empreendimentos e incerteza com a demanda futura. De fato, segmentos fornecedores da construção imobiliária, como acabamentos e louçaria, reportam um início de ano morno, com a demanda "calma".

Commodities

O clima quente e seco está afetando a produção agrícola brasileira. A safra de 2013/2014 como um todo ainda deve ser forte, mas há diferenças entre culturas. A produção de soja e algodão deve ficar acima da produção do ano passado, enquanto as de milho e café devem ser menores. A produção limitada e os preços em queda no mercado internacional – em razão da safra favorável nos EUA – reduzem as margens do produtor local. Em contrapartida, a taxa de câmbio mais depreciada favorece, mesmo com o consequente encarecimento do preço de insumos químicos (fertilizantes e adubo).

O fator climático desfavorável deve afetar mais a cana-de-açúcar e o café, em virtude da localização geográfica das lavouras. A conjuntura desfavorável se soma ao baixo investimento nos últimos anos, tornando o cenário difícil para essas culturas. No caso da cana, o investimento vem sendo baixo devido à rentabilidade limitada pelos preços fixados de gasolina. No caso do café, a dificuldade está na alta dos custos de produção nos últimos anos, relacionada ao fato de esta ser uma cultura mais mão de obra intensiva que as demais.

Para o setor de fertilizantes e defensivos, a combinação de safra como um todo ainda elevada com clima desfavorável é positiva. A falta de chuvas atrai insetos às lavouras, exigindo uma utilização maior de defensivos. O setor não vê dificuldades para o repasse da depreciação cambial ao produtor agrícola.

Dois fatores externos preocupam o setor agrícola brasileiro: uma eventual redução da demanda na China, em função de seus estoques elevados; e a depreciação cambial na Argentina, que torna mais competitiva a produção do país vizinho.

Nos setores de siderurgia e mineração, a depreciação cambial e a perspectiva de recuperação da indústria global animam. Mas, como destacado no último Orange Book, não há planos palpáveis de investimento no setor. Do lado da demanda interna, o quadro é misto. Por um lado, obras de infraestrutura vêm ganhando alguma tração. Por outro, a produção de bens de consumo duráveis, especialmente carros e linha branca, deve ser limitada pelos estoques elevados e pelo crescimento mais modesto esperado para o consumo.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços

A alta dos custos de produção continua preocupando diferentes setores da economia. Salários seguem pressionados, com poucos sinais de acomodação. As negociações salariais devem ser duras neste ano. Por um lado, a taxa de desemprego se mantém em nível historicamente baixo, e a Copa do Mundo aquece o setor de serviços, que é particularmente intensivo em mão de obra. Por outro, empresas estão determinadas a reduzir custos, evitando contratações e buscando automação de seus processos. Como enfatizado na última edição do Orange Book, muitos setores reportam que, se não houver surpresas nas projeções de crescimento para este ano, haverá alguma ociosidade de mão de obra, inclusive especializada.

Alguns segmentos da indústria de bens de consumo reportam que planejam fazer algum repasse aos preços no primeiro trimestre, embora a demanda mais seletiva possivelmente não permita a transmissão integral.

Nossa visão

A economia fechou 2013 em desaceleração. A indústria mostrou recuo expressivo em dezembro, e os fundamentos não sugerem uma retomada no curto prazo: juros mais altos, estoques acima do desejado, confiança empresarial ainda contida e maior volatilidade nos mercados financeiros. No lado do consumo, as vendas no varejo se mantêm relativamente fortes, mas os fundamentos também sugerem desaceleração. Crescimento mais lento da massa salarial real, menor nível da confiança dos consumidores, aumento das taxas de juros reais e crescimento mais moderado do crédito são compatíveis com um ritmo mais lento de expansão do varejo neste ano.

No cenário externo, o crescimento mais forte nas economias do G7 pode ser positivo para a economia brasileira. Em compensação, o ambiente mais negativo para os mercados emergentes neste início de ano, e a piora da situação econômica na Argentina preocupam.

Do ponto de vista mais estrutural, ainda vemos gargalos de infraestrutura e produtividade pesando sobre o potencial da economia brasileira. A aceleração das concessões ao setor privado pode ajudar, embora o impacto deva ser sentido mais claramente a partir de 2015.



< Voltar