Itaú BBA - Desaceleração se espalha, sem parada brusca. Custos seguem em alta.

Orange Book

< Voltar

Desaceleração se espalha, sem parada brusca. Custos seguem em alta.

Agosto 14, 2013

Os segmentos ligados ao consumo mantiveram a desaceleração observada desde maio.

Informações até 12 de agosto de 2013

Este relatório, publicado seis vezes por ano, resume relatos sobre o ambiente de negócios que ouvimos de contatos no setor real, especialistas e outras fontes fora do Itaú. Exceto pela seção ‘Nossa visão’, este relatório não reflete necessariamente a visão da área de pesquisa econômica do Itaú.

Seções:

Consumo e produção de bens e serviços         
Os segmentos ligados ao consumo mantiveram a desaceleração observada desde maio.    

Investimentos        
O investimento pode estar perdendo o momento favorável do primeiro semestre.    

Mercado imobiliário         
A atividade no setor imobiliário residencial segue moderada, sustentada por imóveis de médio porte. O segmento de imóveis comerciais sente mais o baixo crescimento da economia.

Commodities         
A maioria dos setores ligados ao agronegócio segue com bom desempenho. O quadro também é desafiador para siderurgia e mineração. O cenário é favorável para papel e celulose.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços    
Os custos de produção continuaram em alta no País.  Há pressões de inflação para o segundo semestre.

Nossa visão        
Queda da confiança e piora das condições financeiras apontam para economia fraca no segundo semestre. A inflação limita o espaço da política monetária.  


Resumo

Os segmentos ligados ao consumo mantiveram a desaceleração observada desde maio. E a demanda deve continuar cautelosa à frente. Confiança do consumidor em queda, preços ao consumidor pressionados (especialmente pelo repasse da depreciação cambial) e o risco do desemprego preocupam o setor. Não há, no entanto, indicações de uma parada brusca na atividade.

O investimento pode estar perdendo o momento favorável do primeiro semestre. A confiança do empresário vem recuando desde maio. O bom desempenho do setor de bens de capital é concentrado em máquinas agrícolas e veículos pesados. Outros segmentos reportam desaceleração intensa das encomendas.

A atividade no setor imobiliário residencial segue moderada, sustentada por imóveis de médio porte destinados à classe média. Vendas para a alta e baixa renda estão mais fracas. O segmento de imóveis comerciais sente mais o baixo crescimento da economia.

A maioria dos setores ligados ao agronegócio segue bem, com boas safras e exportação elevada. O risco para o setor é o de excesso de oferta. No setor sucroalcooleiro os resultados são limitados por preços externos e internos desfavoráveis. O quadro também é desafiador para siderurgia e mineração. Para papel e celulose, em contrapartida, o cenário é favorável.

Os custos de produção continuaram em alta no País, com reajustes de salários acima da produtividade e depreciação adicional da taxa de câmbio. Há pressões de inflação para o segundo semestre. A demanda sensível faz com que empresas busquem ganhos de produtividade para evitar o repasse aos preços.

Nossa visão: Queda da confiança de empresários e consumidores e piora das condições financeiras apontam para economia fraca no segundo semestre. O alto e persistente nível da inflação limita o espaço para que a política monetária possa ser alterada para evitar um crescimento mais baixo da economia.

Consumo e produção de bens e serviços

Os segmentos ligados ao consumo mantiveram a desaceleração observada desde maio. Os relatos são heterogêneos, dependendo do ramo de atividade, da região do país e mesmo da estratégia de vendas das empresas. Mas a percepção geral é de que o consumo perdeu vigor nos últimos meses e a demanda deve se manter cautelosa à frente.  Confiança do consumidor em queda, preços ao consumidor pressionados (especialmente pelo repasse da depreciação cambial) e o risco do aumento do desemprego são as principais preocupações dos setores ligados ao consumo. Ainda assim, não há indicações de parada brusca na atividade.

Os segmentos que mais sentem são aqueles de preço médio elevado, particularmente os de bens duráveis como veículos, linha branca e linha marrom. As vendas vêm perdendo vigor e os estoques estão se acumulando. A inevitável alta de preços gerada pelo real mais fraco (a maioria dos produtos tem grande parte dos componentes importados) pode prejudicar ainda mais as vendas no segundo semestre.  A exceção são os produtos ligados diretamente a programas governamentais, como o “Minha Casa Melhor”, e produtos eletrônicos como smartphones e tablets, cujas vendas seguem aceleradas.

O setor automobilístico vinha sendo destaque de vendas entre os segmentos do varejo. A prorrogação do IPI reduzido e as condições de crédito favoráveis para algumas linhas impulsionaram o primeiro semestre. Os sinais, contudo, são de perda de fôlego. Estoques voltaram a subir nas montadoras, e há possibilidade de férias coletivas. Segmentos fornecedores do setor, como o de autopeças, indicam encomendas em queda para o segundo semestre.

Bens semi e não duráveis, como vestuário e alimentos, e materiais de construção e acabamento reportam vendas em ritmo ainda relativamente bom, embora menor do que no início do ano. As paralisações de junho afetaram pontualmente as vendas, mas não induziram a mudança de tendência. Regionalmente, o Nordeste e o Centro-Oeste ainda mostram demanda acima da média do País. Para o ano, a maioria dos segmentos espera vendas reais similares a 2013.

As vendas também estão boas entre outros segmentos de bens de preço médio menor, ou de primeira necessidade. Entre eles, cuidados pessoais, medicamentos e produtos de limpeza. Serviços como entretenimento, restaurantes e hotelaria também continuam reportando bons resultados, embora a demanda esteja mais resistente a aumentos de preços. Segmentos que prestam serviços à indústria e ao comércio, como mão de obra terceirizada, consultoria, tecnologia da informação, etc., não conseguem renovar na plenitude seus contratos.

Em suma, a desaceleração do consumo continuou nos últimos meses. Não há indicações de parada brusca nas vendas, mas a demanda tem se mostrado ainda mais seletiva e sensível a preços. Estoques em alta em diferentes segmentos sugerem perda de vigor na produção industrial de bens de consumo nos próximos meses. Nesse ambiente, o grande desafio é evitar que a alta de custos – salários, desvalorização cambial – se traduza em preços mais elevados ao consumidor. O investimento na operação vem se tornando um diferencial importante; empresas que melhoram a produtividade conseguem manter os resultados. Em alguns casos, no entanto, alguma remarcação de preços é inevitável, o que pode levar à queda dos volumes comercializados.

Investimentos

A confiança do empresário recuou sensivelmente desde maio. Nosso indicador, feito a partir de uma base ampla de clientes, registrou queda em junho e julho, voltando aos níveis baixos do segundo semestre de 2011. Além das preocupações que vinham sendo apontadas em pesquisas anteriores – custos de produção, inflação, incerteza tributária – a alta de juros e a volatilidade dos ativos financeiros (especialmente câmbio) afetam a confiança.

Os segmentos de bens de capital continuam mostrando o bom desempenho do primeiro semestre, mas agora concentrando em máquinas agrícolas e veículos pesados (caminhões e ônibus). Setores fornecedores desses segmentos continuam reportando encomendas em alta, embora a elevação de custos gerada pela depreciação cambial (que será sentida apenas mais adiante) preocupe.  As demais linhas de máquinas e equipamentos reportam desaceleração relativamente intensa dos pedidos nos últimos meses, inclusive com a suspensão de pedidos já contratados. O custo do maquinário aumenta com juros mais elevados e real mais fraco. E a demanda já sente a queda da confiança empresarial. Mesmo assim, a necessidade de automação nas empresas e as baixas taxas de juros dos financiamentos do BNDES devem manter alguma demanda para máquinas e equipamentos em geral no segundo semestre.

Os setores ligados à infraestrutura – aço, cimento e outros materiais de construção –  têm sido sustentados pelo consumo “formiguinha”, ou seja, aquele composto por pequenos demandantes, particularmente pessoas físicas. Dependendo do setor, o varejo chega a representar até 50% das vendas. Já a demanda para grandes obras, tanto públicas como privadas, está mais fraca, especialmente passada a parte mais intensa dos projetos ligados à Copa do Mundo de 2014.

As perspectivas de investimentos no setor de commodities vinham melhorando com a desvalorização cambial (que beneficia diretamente o faturamento do setor), o plano do governo de concessões ao setor privado e a perspectiva de aceleração das obras em infraestrutura. Nos últimos meses, no entanto, a desaceleração na China e a percepção de que obras de infraestrutura podem ser postergadas moderaram o otimismo.  E ainda há capacidade ociosa em muitos segmentos, especialmente em siderurgia e mineração. Assim, não se espera mais a aceleração dos investimentos indicada na última edição do Orange Book.

Do ponto de vista do investimento externo, o Brasil continua um destino considerado, especialmente pelo tamanho do mercado. O crescimento baixo do País é percebido mais como resultado de gargalos de oferta do que de falta de demanda. No entanto, o questionamento vem aumentando, com a alta de custos de produção, a queda da confiança de empresários e consumidores e as manifestações públicas desde junho. Na margem, algumas empresas multinacionais vêm postergando a decisão de investimento, ou têm preferido investir em outros países da região, como México e Colômbia.

Mercado imobiliário

A atividade no setor imobiliário residencial segue moderada. As vendas de imóveis de porte intermediário, voltados à classe média, continuam em bom ritmo. No entanto, imóveis voltados para a alta ou baixa renda sentem mais dificuldades, seja pelo preço elevado dos empreendimentos (especialmente no caso da alta renda), ou pela redução de poder de compra da demanda (endividamento e risco de desemprego, no caso da baixa renda).

Em geral, os estoques se mantêm elevados, e a expectativa de aceleração dos lançamentos ao longo de 2013 – mencionada na última edição do Orange Book – não vem se confirmando.

O segmento de imóveis comerciais parece sentir mais o baixo crescimento da economia. As vendas estão mais fracas do que em anos anteriores, e a vacância de imóveis comerciais para locação vem subindo. A desaceleração do varejo reduz a demanda para locação em shopping centers, mudando o balanço de forças nas negociações entre lojistas e shoppings.

Do lado da produção, assim como em muitos setores da economia, há pressões de custos. A mão de obra continua com reajustes acima da produtividade estimada para o setor, embora em ritmo mais moderado do que em anos anteriores. O preço de algumas matérias primas, como ferragens, placas de aço e materiais de acabamento é afetado pela desvalorização cambial. O preço dos terrenos está mais estável, mas em patamares elevados.

Commodities

A maioria dos setores ligados ao agronegócio segue com bom desempenho: boas safras, exportação elevada (apesar dos gargalos logísticos) e taxa de câmbio depreciada, compensando a queda dos preços internacionais. O risco para o setor é o excesso de oferta, dado que os produtores, bem capitalizados, investiram muito para a safra deste ano. Nesse sentido, se houver oferta acima do esperado também em outras regiões do mundo, os preços internacionais podem cair ainda mais, comprometendo parte dos ganhos.

A safra elevada mantém aquecido o segmento de defensivos agrícolas. A depreciação cambial pressiona os custos, já que a maior parte dos insumos é importada, mas beneficia o produtor agrícola. Os resultados seguem positivos.

O setor sucroalcooleiro continua enfrentando dificuldades. Como o Brasil é um grande produtor mundial, sua safra maior e o real desvalorizado abriram espaço para queda no preço internacional do açúcar. Do lado do etanol, os preços internos regulados limitam o retorno. Dessa forma, os resultados em geral são modestos, e o investimento no setor é pequeno. Parte do setor tem dívidas denominadas em dólar, o que torna o cenário mais complexo.

Nos setores de siderurgia e mineração, o quadro também é desafiador. A queda da demanda externa, especialmente da China, agora é acompanhada de uma perspectiva menos favorável também da demanda doméstica, especialmente se a desaceleração da produção no setor automobilístico se confirmar. A depreciação cambial favorece, mas não o suficiente para estimular os investimentos nesses setores, especialmente com a ociosidade ainda elevada da produção local e o excesso de oferta no mundo.

Em contrapartida, o cenário está favorável para o segmento de papel e celulose. O setor no Brasil tem custos em moeda local e receitas em dólar, e uma demanda diversificada ao redor do mundo. As exportações, nos últimos meses, mantiveram o bom ritmo do início do ano.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços

Apesar da redução do ritmo da atividade econômica, os custos de produção continuam aumentando no Brasil. Em diferentes setores, os aumentos nominais de salários neste ano voltaram a ser entre 8% e 10%. Setores de diferentes naturezas – como fertilizantes, bens de consumo duráveis e aviação comercial – têm uma parcela relevante de seus custos em dólar e já sentem os efeitos do real mais desvalorizado.

Com relação à mão de obra, a alta dos salários reduz o ímpeto de contratar, e algumas empresas incluem metas de redução de quadro em seus projetos para ganhar eficiência. Mas não há sinais generalizados de demissões. Pelo contrário, muitos setores ainda revelam falta de pessoal e afirmam ver o possível enfraquecimento do mercado de trabalho como uma oportunidade para voltar a contratar.

Os custos elevados se transmitem ao longo da cadeia. Gerentes de compras vêm apontando alta sensível dos serviços que contratam para suas empresas, como transporte, pessoal terceirizado (limpeza, segurança) e planos de saúde. Quando possível, os serviços são cancelados.

Há pressões de inflação. Muitos setores – especialmente produtores de bens de consumo –ainda estão vendendo estoques produzidos com a taxa de câmbio próxima a 2,05 reais por dólar. Ao longo do segundo semestre os preços precisarão ser reajustados. O mesmo vale para o repasse da alta adicional de salários e de outros serviços contratados.

Em compensação, a competição e a demanda mais reticente têm dificultado os repasses. Diante desse quadro, os setores se dividem entre aqueles que vão repassar de qualquer forma, mesmo aceitando queda em volumes, e aqueles que vão tentar intensificar os cortes de custo e os ganhos de produtividade para evitarem nova compressão de margens.

Nossa visão

Queda da confiança de empresários e consumidores e piora das condições financeiras apontam para economia fraca no segundo semestre. A volatilidade dos ativos financeiros, protestos populares, inflação em patamar persistentemente elevado e incertezas sobre a condução da política fiscal contribuem para o enfraquecimento da confiança. Desse modo, os investimentos ficam menos atrativos e as fontes de financiamentos ficam mais restritas. Os prêmios de risco também subiram, e as taxas de juros mais longas ficaram mais altas.

Nesse ambiente, não esperamos que a economia entre em recessão, mas esperamos recuo do investimento no segundo semestre. O consumo, especialmente de bens duráveis, também deve desacelerar.

O alto e persistente nível da inflação limita o espaço para que a política monetária possa ser alterada para evitar um crescimento mais baixo da economia.



< Voltar