Itaú BBA - Desaceleração se aprofunda

Orange Book

< Voltar

Desaceleração se aprofunda

Abril 28, 2015

A tendência de enfraquecimento da demanda parece ter se acentuado no segundo bimestre do ano.

Informações até 27 de abril de 2015

Este relatório, publicado seis vezes por ano, resume relatos sobre o ambiente de negócios que ouvimos de contatos no setor real, especialistas e outras fontes fora do Itaú. Exceto pela seção ‘Nossa visão’, este relatório não reflete necessariamente a visão da área de pesquisa econômica do Itaú.

Seções:

Consumo e produção de bens e serviços             
O enfraquecimento da demanda por bens de consumo parece ter se acentuado no segundo bimestre do ano. Uma preocupação tem sido o atraso nos pagamentos e o incremento da inadimplência ao longo das cadeias produtivas.

Investimento             
Os efeitos de curto prazo dos ajustes econômicos e da Operação Lava Jato e a capacidade ociosa em muitos setores vêm restringindo as decisões de investimento.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços   
É crescente o número de setores que fizeram ou pretendem fazer redução de quadros. A pressão de custo advinda de energia elétrica, impostos, câmbio e salários nominais preocupa.

Mercado imobiliário              
A desaceleração no mercado imobiliário vem se aprofundando nos primeiros meses do ano. O nível de vacância segue elevado e os preços vêm recuando.    

Commodities                                                                                                     
O regime de chuvas melhorou a partir de fevereiro, minimizando o impacto negativo da seca do início do ano sobre a agricultura. Em mineração, a perspectiva vem se tornando menos favorável com a do queda do preço do minério de ferro.

Nossa visão 
Dados recentes apresentam contração nos mais diversos setores da atividade econômica. Em nosso cenário base, o desempenho do PIB no segundo trimestre será o pior do ano  


Resumo:

A tendência de enfraquecimento da demanda por bens de consumo parece ter se acentuado no segundo bimestre do ano. Os setores de bens duráveis continuam os mais fracos, mas a desaceleração nos segmentos de bens semi e não duráveis e serviços vem se acentuando. Uma preocupação crescente tem sido o atraso nos pagamentos e o incremento da inadimplência ao longo das cadeias produtivas, causando problemas de liquidez.

A confiança do empresário segue em baixa. Os efeitos de curto prazo dos ajustes econômicos e da Operação Lava Jato e a ampla capacidade ociosa em muitos setores vêm restringindo as decisões de investimento. Em contrapartida, a percepção de que o governo irá persistir nos ajustes econômicos, aliada à depreciação cambial recente e à perspectiva de custos de produção menos pressionados, já desperta o interesse para investimentos de mais longo prazo.

Segue crescente o número de setores que fizeram ou pretendem fazer redução de quadros. A maioria dos reajustes salariais reportados já tem ficado perto de zero em termos reais. Mas o ajuste nominal acima de 8% em meio à demanda fraca preocupa. A pressão de custo, advinda da alta de energia elétrica, do aumento de impostos e da depreciação cambial também é relevante.

A desaceleração no mercado imobiliário vem se aprofundando nos primeiros meses do ano. O nível de vacância segue elevado e os preços vêm recuando.

O regime de chuvas melhorou a partir de fevereiro, minimizando o impacto negativo da seca do início do ano sobre a agricultura.  No setor de siderurgia, a desaceleração dos investimentos em infraestrutura e na produção de bens de consumo duráveis mantém as vendas domésticas comprimidas. Em mineração, a perspectiva vem se tornando menos favorável com a tendência de queda do preço do minério de ferro. No setor de petróleo, as incertezas continuam elevadas. 

Nossa Visão: Dados recentes apresentam contração nos mais diversos setores da atividade econômica. Os fundamentos econômicos - desaceleração da massa salarial real, baixa confiança dos consumidores e piora no mercado de trabalho - sugerem que a economia continuará enfraquecendo nos próximos meses. Em nosso cenário base, o desempenho do PIB no segundo trimestre será o pior do ano.

Consumo e produção de bens e serviços

A tendência de enfraquecimento da demanda parece ter se acentuado no segundo bimestre do ano. A maioria dos setores ligados ao consumo reporta queda no volume de vendas frente ao ano passado e ao planejado para os primeiros meses do ano. Os estoques de bens de consumo duráveis continuam elevados.

Como nos meses anteriores, os setores de bens duráveis, como automóveis, motos, linha branca e eletrônicos, continuam sendo os mais fracos entre os segmentos do consumo. O aumento das taxas de juros, a oferta de crédito mais limitada, a retirada dos estímulos fiscais, a aceleração da inflação corrente e a percepção de enfraquecimento do mercado de trabalho vêm pesando sobre a decisão do consumidor. Há sinais de estabilidade depois do forte recuo dos últimos trimestres, mas não há indícios de recuperação.

Nos segmentos de bens semi e não duráveis, como vestuário, materiais de escritório, alimentos e materiais de limpeza, a desaceleração vem se acentuando. As taxas de crescimento anual, em geral ainda positivas até o primeiro bimestre, vêm dando lugar a taxas próximas de zero ou negativas. O mesmo fenômeno ocorre em setores de serviços. Segmentos como restaurantes, transportadores e hotelaria reportam queda de demanda e aumento da capacidade ociosa. Apenas bens e serviços de primeira necessidade, como medicamentos, segurança patrimonial e educação, têm demonstrado maior robustez, ainda que alguns sintam os ajustes fiscal e parafiscal do governo. 

Uma preocupação crescente entre os diversos setores ligados à produção de bens de consumo tem sido o aumento dos atrasos nos pagamentos e o incremento da inadimplência ao longo das cadeias produtivas, causando problemas de liquidez.

Diante do cenário de demanda fraca, crédito restrito e problemas de liquidez, produtores de bens de consumo finais e produtores de insumos intermediários vêm estudando redimensionar sua capacidade produtiva e cortando serviços terceirizados não essenciais para atravessar o período de baixa atividade.

Do lado positivo, o câmbio mais depreciado vem estimulando os varejistas a buscar mais fornecedores locais, aumentando a demanda por produção doméstica em diferentes ramos do consumo. Produtores de bens de consumo com bom mercado exportador também já se beneficiam do real mais depreciado, reportando aumento de vendas nos mercados externos. 

O cenário está mais positivo também para setores focados em operações de baixo custo, como comércio eletrônico e outros serviços online, que tem aproveitado o cenário de demanda mais restritiva e seletiva para ganhar mercado.

Investimento

A confiança do empresário segue em baixa. Nosso indicador, feito a partir de uma base ampla de clientes, mostrou recuo expressivo em março. O indicador está cerca de 20% abaixo do último trimestre de 2014 e 40% inferior ao de março de 2014.

As incertezas externas e domésticas e os efeitos de curto prazo dos ajustes econômicos e da Operação Lava Jato têm pesado sobre a confiança, restringindo as decisões de investimento. Ao mesmo tempo, com o enfraquecimento da demanda, muitos setores reportam ociosidade elevada, o que reduz a urgência de incrementos de capacidade. Setores como veículos pesados (caminhões e máquinas agrícolas) e de bens de capital (máquinas, equipamentos) seguem com vendas e produção deprimidas, sem sinais de retomada.

Em contrapartida, a percepção de que o governo irá persistir nos ajustes econômicos, aliada à depreciação cambial recente e à perspectiva de custos de produção menos pressionados, já desperta o interesse de empresas (especialmente multinacionais) no Brasil. As oportunidades de investimentos de longo prazo no País permanecem atraentes, especialmente quando comparadas a outros países emergentes de grande porte.  No entanto, o clima ainda é de cautela, evidenciando a importância dos ajustes econômicos de 2015 e dos efeitos das investigações ora em curso.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços

O número de setores que fizeram ou pretendem fazer redução de quadros continua aumentando. Empresas que precisam contratar já reportam maior facilidade em encontrar mão de obra, mesmo especializada. Muitos setores veem este momento de enfraquecimento do mercado de trabalho como uma oportunidade para estimular ganhos de produtividade dos trabalhadores. 

A maioria dos reajustes salariais reportados já tem ficado perto de zero em termos reais. Empresas e fornecedores de mão de obra terceirizada também estão aceitando rever os contratos e se adequar a uma fase diferente do ciclo econômico. No entanto, como a inflação passada é elevada, o ajuste nominal acima de 8% em meio à demanda fraca preocupa. Essa realidade pode exigir um aumento de rotatividade da mão de obra, para que seja possível uma redução dos custos laborais.

A pressão de custo, advinda da alta de energia elétrica, do aumento de impostos e da depreciação cambial, também gera preocupação em diversos setores. Como não há perspectiva de repasse relevante ao consumidor, vem aumentando a tensão ao longo das cadeias produtivas para absorver os custos mais elevados. Setores com participação mais elevada de insumos importados já redirecionam sua demanda para produtores domésticos. 

Por outro lado, o crescimento baixo e o aumento da ociosidade da economia vêm trazendo a acomodação de alguns custos, como aluguéis, frete rodoviário, maquinário e serviços terceirizados.

Mercado imobiliário

A desaceleração no mercado imobiliário vem se aprofundando nos primeiros meses do ano. No segmento residencial, o ritmo de vendas de março e abril vem sendo reportado como ainda mais fraco do que no primeiro bimestre do ano. A queda da confiança do consumidor e as condições de crédito mais conservadoras seguram a demanda. Os estoques permanecem elevados no setor, e os preços, em média, seguem em tendência de acomodação.

No segmento comercial, o desbalanceamento entre oferta e demanda é mais estrutural, gerado pela combinação de desaquecimento da atividade econômica e volume acelerado de lançamentos (tanto os que já aconteceram como os programados). O nível de vacância é elevado, especialmente em escritórios comerciais, o que sugere que o processo de ajuste pode ser longo. Os preços vêm recuando de forma relevante desde o ano passado, o que já é visto como uma opção para as empresas reduzirem custos.  

No segmento de shopping centers, o movimento continua se enfraquecendo, tornando mais difícil a gestão de custos dos lojistas. O nível de vacância segue elevado, abrindo espaço para descontos no aluguel. Varejistas ligados a segmentos mais defensivos, como alimentos voltados à alta renda e medicamentos, vêm o momento como uma oportunidade de expansão de pontos de vendas.

Commodities

O regime de chuvas melhorou a partir de fevereiro, minimizando o impacto negativo da seca do início do ano sobre a agricultura no Sudeste do País. O risco de atraso no plantio de soja, que afetaria a safra de inverno de milho (“safrinha”), não se confirmou. Do lado dos preços, a depreciação cambial compensa parte da queda de preços, mantendo parte da rentabilidade do produtor. Nesse cenário, a expectativa de safra de grãos brasileira é positiva.

O principal destaque na agricultura, no entanto, é a cana-de-açúcar. As chuvas melhores aumentaram a produtividade da safra atualque, aliada ao real mais depreciado e à perspectiva de aumento do mercado doméstico de etanol, reduzem o pessimismo. As dificuldades financeiras mais estruturais permanecem, depois de anos de políticas desfavoráveis de preço e baixos investimentos. Mas a perspectiva começa a melhorar. 

Do lado dos custos, a queda do preço do petróleo compensa a depreciação cambial, evitando alta de preço de defensivos e fertilizantes. A percepção de oferta gradualmente maior de mão de obra também beneficia o setor.

No setor de siderurgia, a desaceleração dos investimentos em infraestrutura e na produção de bens de consumo duráveis mantém as vendas domésticas comprimidas. Em contrapartida, as vendas externas continuam melhorando em resposta ao câmbio mais depreciado e à retomada do crescimento das economias desenvolvidas. Em mineração, a perspectiva vem se tornando menos favorável com a tendência de queda do preço do minério de ferro nos mercados internacionais.

No setor de petróleo, as incertezas continuam elevadas. O setor está mais cauteloso sobre investimentos no curto prazo. O interesse de longo prazo, no entanto, se mantém, especialmente se houver maior  6autonomia para o setor privado no setor. 

Nossa visão

Dados recentes apresentam contração nos mais diversos setores da atividade econômica. Nosso índice de difusão, baseado em um conjunto amplo de dados, incluindo confiança do empresário e consumidores, vendas no varejo e demanda por crédito, terminou fevereiro em patamar semelhante ao da crise financeira de 2008. Em março, o indicador apresentou uma pequena melhora, mas continua fraco. Os índices de confiança de consumidores e dos empresários de todos os grandes setores da atividade econômica (indústria, serviços, construção civil e comércio) seguem em queda. As vendas permanecem em um baixo patamar relativamente aos últimos meses, sobretudo no conceito ampliado.

Os fundamentos econômicos - desaceleração da massa salarial real, baixa confiança dos consumidores e piora no mercado de trabalho - sugerem que a economia continuará enfraquecendo nos próximos meses. Em nosso cenário base, o desempenho do PIB no segundo trimestre será o pior do ano, com queda de 1% frente ao trimestre anterior. Para o segundo semestre esperamos alguma estabilidade, embora ainda sem sinais de retomada.  



< Voltar