Itaú BBA - Desaceleração do consumo, investimento melhor

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Desaceleração do consumo, investimento melhor

Maio 28, 2013

Depois de um início de ano classificado como forte, muitos segmentos de bens de consumo e serviços observaram uma desaceleração em abril e maio.

Informações até 26 de maio de 2013

Este relatório, publicado seis vezes por ano, resume relatos sobre o ambiente de negócios que ouvimos de contatos no setor real, especialistas e outras fontes fora do Itaú. Exceto pela seção ‘Nossa visão’, este relatório não reflete necessariamente a visão da área de pesquisa econômica do Itaú.

Seções:

Consumo e produção de bens e serviços         
Depois de um início de ano classificado como forte, muitos segmentos de bens de consumo e serviços observaram uma desaceleração em abril e maio.

Investimentos        
O investimento está em recuperação. A velocidade e o objetivo dos dispêndios, no entanto, diferem entre os setores.

Mercado imobiliário         
O setor imobiliário continua focando nas vendas dos estoques. A retomada gradual em algumas regiões do país, no entanto, sugere um número maior de lançamentos em 2013.

Commodities         
A maioria dos segmentos ligados ao setor agrícola reporta bom desempenho em função da safra recorde este ano. Nos setores de siderurgia e mineração, no entanto, o quadro é mais desafiador.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços    
O aumento dos custos de produção segue preocupando o setor real. O mercado de trabalho continua caracterizado por muitos setores como aquecido, com poucas exceções.

Nossa visão        
Acreditamos que a economia continuará se expandindo moderadamente ao longo do ano, a taxas menores do que a observada no primeiro trimestre.                                                                                                                                                                  


Resumo

Depois de um início de ano classificado como forte, muitos segmentos de bens de consumo e serviços observaram uma desaceleração em abril e maio. O comércio varejista percebe o consumidor mais cauteloso. No sentido oposto, o setor de veículos mantém o ritmo do início do ano.

O investimento está em recuperação. A velocidade e o objetivo dos dispêndios, no entanto, diferem entre os setores. Um grupo (ligado à infraestrutura, agricultura) está investindo mais fortemente para expandir a capacidade produtiva. Outro grupo investe cautelosamente na melhoria da capacidade já instalada. Em geral, a confiança do empresário segue contida.

O setor imobiliário continua focando nas vendas dos estoques. A retomada gradual em algumas regiões do país, no entanto, sugere um número maior de lançamentos em 2013, com relação ao baixo patamar de 2012.

A maioria dos segmentos ligados ao setor agrícola reporta bom desempenho em função da safra recorde este ano. Mesmo com as restrições logísticas e o encarecimento do frete, a comercialização da safra tem sido boa. Nos setores de siderurgia e mineração o quadro é mais desafiador. A atividade ainda modesta e a ociosidade elevada da produção local reduzem as perspectivas de investimento.

O aumento dos custos de produção segue preocupando o setor real. Aluguéis e custos laborais continuam a subir este ano. O mercado de trabalho continua caracterizado por muitos setores como aquecido, com poucas exceções.

Nossa visão: A atividade econômica acelerou no primeiro trimestre. No entanto, ainda observamos alta concentração do crescimento. Acreditamos que a economia continuará se expandindo moderadamente ao longo do ano, a taxas menores do que a observada no primeiro trimestre.

Consumo e produção de bens e serviços

Depois de um início de ano classificado como forte, muitos segmentos de bens de consumo e serviços observaram uma desaceleração entre abril e maio. Entre eles, supermercados, têxteis, acessórios pessoais e restaurantes. Alguns produtores de bens de consumo duráveis reportam menores pedidos do varejo, enquanto varejistas notam relativo aumento de estoques. O menor ritmo de vendas afeta produtos voltados para todas as faixas de renda. Entre as regiões, a desaceleração parece mais clara no sul e sudeste.

O comércio varejista percebe o consumidor mais cauteloso. Entre as razões para esta postura estão o endividamento mais elevado (e seus efeitos) e o aumento recente da inflação. A alta das taxas de juros ainda não foi sentida pelo consumo, mas é uma preocupação para o segundo semestre.

Apesar da desvalorização cambial de 2012, muitos segmentos do consumo continuam observando concorrência de importados. Mesmo mais caros, muitos produtos importados ainda são mais baratos (ex: pneus, vestuário) ou de melhor qualidade que o similar nacional, o que lhes garante ainda bom espaço no mercado.

A desaceleração atingiu também os serviços. Intensivo em mão de obra, o setor segue pressionado por custos. Mas o repasse ao consumidor final não tem sido trivial como nos anos anteriores. Segmentos como restaurantes, hotelaria, cursos, informática e fornecimento de mão-de-obra terceirizada vêm trabalhando com margens mais estreitas ou menor demanda. Apesar da perda de ímpeto, o setor ainda caracteriza o nível de atividade como “aquecido”.

No sentido oposto da maioria dos setores ligados ao consumo, o setor de veículos mantém o ritmo do início do ano. A prorrogação do IPI reduzido e a gradual expansão da oferta de crédito vêm mantendo o nível de vendas elevado, ainda que relativamente volátil. O segmento de motocicletas iniciou uma reação depois de um longo período de baixa, embora haja desconfiança com relação à sustentabilidade da retomada. O aquecimento do setor de veículos se reflete também nas encomendas de seus fornecedores. Produtores de auto-peças observaram vendas fortes até abril, embora alguns tenham sentido um  arrefecimento em maio.

Investimentos

A confiança do empresário reverteu parte da tendência de melhora observada no início do ano. Nosso indicador, feito a partir de uma base ampla de clientes, recuou em abril e maio, e se encontra próximo do nível observado no início do ano. Aumento dos custos de produção, inflação e volatilidade tributária (que geram custos de adaptação e incertezas futuras) estão entre as preocupações. Há também percepção de que a retomada ainda é excessivamente dependente dos estímulos governamentais.

Apesar da confiança ainda contida, o volume de investimento está em recuperação. A velocidade e o objetivo dos dispêndios, no entanto, diferem entre os setores.

Um primeiro grupo de setores está acelerando o investimento, buscando expansão da capacidade produtiva. São aqueles ligados ao agronegócio, beneficiados pela safra recorde, e aqueles ligados às obras de infraestrutura, impulsionados pela proximidade da Copa do Mundo e do ano eleitoral. Entre estes setores estão veículos pesados (caminhões, máquinas agrícolas), fertilizantes e insumos da construção civil.

Um segundo grupo, que representa uma gama mais diversificada de setores, faz investimentos de forma mais cautelosa, e foca na melhoria da capacidade já instalada. O foco tem sido mais na operação – melhorar produtividade e baixar custos - do que no crescimento. Em alguns casos, o investimento em uma nova planta (mais moderna, melhor localizada) tem como objetivo abandonar a planta anterior.

Empresas reportam ainda investimento maior em máquinas e equipamentos, na tentativa de suprir a falta de mão de obra.  Em geral, a percepção da maioria dos setores é de que a aceleração do investimento agregado observado no primeiro trimestre continuará ao longo do ano, porém a taxas mais baixas.

Mercado imobiliário

Construtoras e incorporadoras imobiliárias seguem focando nas vendas dos estoques. A retomada gradual da atividade no setor, no entanto, sugere um número maior de lançamentos em 2013, com relação ao baixo patamar de 2012.

O desempenho do setor difere entre as regiões do país. Por um lado, empresas em cidades como Salvador, Curitiba, Brasília e Manaus ainda reportam estoques elevados e baixo nível de produção e demanda. Por outro, as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro continuam apresentando boas vendas para a maior parte dos empreendimentos. Destaque para vendas de imóveis de pequeno porte (em torno de 50 m²), em parte reflexo do estímulo dos juros baixos aos investimentos imobiliários.

Apesar da retomada ainda moderada e heterogênea de novos lançamentos este ano, o ritmo acelerado de produção e vendas dos anos passados (2011) ainda gera reflexo positivo para fornecedores do setor. O segmento de materiais de acabamento, por exemplo, ainda observa forte demanda, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.

Empresas que atuam no segmento de baixa renda, tanto construtoras como fornecedoras de insumos, seguem beneficiadas pelos efeitos do programa Minha Casa Minha Vida.

Commodities

A maioria dos segmentos ligados ao setor agrícola reporta bom desempenho em função da safra recorde este ano. Mesmo com as restrições logísticas e o encarecimento do frete causado pela nova regulamentação trabalhista de caminhoneiros, a comercialização da safra tem sido boa. A exportação se beneficia do funcionamento 24 horas/dia dos portos.

A temperatura e o volume de chuvas se mantiveram favoráveis para a segunda safra de milho. A produtividade foi elevada na maioria das regiões, com exceção do Norte e Nordeste, afetados pela estiagem.

O produtor, bem capitalizado, retardou a venda da produção à espera de preços mais favoráveis. No entanto, alguns preços (açúcar, café) vêm caindo pela oferta elevada (Brasil e mundo) e problemas de estocagem. Preços menores afetam a perspectiva de lucros e reduzem o apetite por investimentos, o que pode ser um risco para safras futuras.

A boa safra gera demanda por fertilizantes e defensivos. O incremento de vendas vem sendo suprido por importações, que cresceram entre abril e maio quase 50% frente ao ano passado. A produção local, em contrapartida, está menor do que os níveis observados em 2012.

Nos setores de siderurgia e mineração o quadro é mais desafiador. A proteção contra importações (câmbio, conteúdo local) e a aceleração da produção automobilística beneficiam o setor siderúrgico. No entanto, a demanda externa vem desacelerando, especialmente pelo menor crescimento na China, e a sustentabilidade da retomada doméstica ainda é incerta. A atividade ainda modesta tanto para siderurgia como mineração, e a ociosidade elevada da produção local, reduzem as perspectivas de investimento.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços

O aumento dos custos de produção segue preocupando o setor real. Aluguéis e custos laborais continuam a subir este ano. O custo de energia se reduziu com a queda de impostos, mas em proporções menores do que o esperado. A substituição de parte da tributação em folha por faturamento beneficiou muitos setores, mas também acabou onerando outros (menos intensivos em mão-de-obra). As mudanças tributárias mais frequentes aumentaram ainda alguns custos de gestão (com advogados, contadores).

O mercado de trabalho continua caracterizado por muitos setores como aquecido, com poucas exceções. Salários vêm sendo reajustados acima da inflação, embora os ganhos reais sejam menores do que nos anos anteriores.

Não há sinais de demissões. Mas a disposição de contratar ou aceitar reajustes muito acima da inflação é cadente. Muitos preferem reduzir a produção ou, no caso se setores muito intensivos em trabalho, desistir de planos de expansão.

Investimentos em treinamento e automação estão acelerando. Buscar fontes particulares de mão-de-obra, como estrangeiros e egressos do sistema prisional, vêm se mostrando boa estratégia. A dificuldade burocrática de trazer profissionais estrangeiros, no entanto, é frequentemente observada.

Nossa visão

O crescimento econômico acelerou no Brasil no primeiro trimestre, impulsionado por acentuado crescimento da formação bruta de capital fixo, pelo lado da demanda, e pelo crescimento da safra agrícola, do lado da oferta. No entanto, continuamos observando alta concentração do crescimento, ou seja, não há disseminação suficiente nos indicadores relacionados à atividade econômica para que o crescimento do primeiro trimestre se mantenha adiante. De fato, a expansão nos primeiros três meses do ano deve ter sido bastante dependente da agropecuária e do investimento, que devem crescer a taxas menores adiante. Os primeiros sinais do segundo trimestre já são de um avanço mais lento da economia.

Acreditamos que a economia continuará se expandindo moderadamente ao longo do ano, a taxas menores do que a observada no primeiro trimestre.



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