Itaú BBA - Consumo mais fraco, investimento um pouco melhor

Orange Book

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Consumo mais fraco, investimento um pouco melhor

Outubro 30, 2013

A confiança do empresário se mantém contida.

Informações até 29 de outubro de 2013

Este relatório, publicado seis vezes por ano, resume relatos sobre o ambiente de negócios que ouvimos de contatos no setor real, especialistas e outras fontes fora do Itaú. Exceto pela seção ‘Nossa visão’, este relatório não reflete necessariamente a visão da área de pesquisa econômica do Itaú.

Seções:

Consumo e produção de bens e serviços         
A desaceleração em segmentos ligados ao consumo e serviços continuou nos últimos meses. 

Investimento       
A confiança do empresário se mantém contida. O cenário para setores ligados ao investimento, contudo, é mais favorável dado o investimento publico.

Mercado imobiliário         
As vendas vêm gradualmente se recuperando. Do lado da produção, a expectativa é de crescimento relativamente baixo.

Commodities         
Nas commodities agrícolas, a safra de 2013/2014 deve bater novo recorde de produção. Em siderurgia e mineração, a depreciação do real traz perspectivas mais otimistas.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços    
Os custos de produção seguem em alta neste semestre. A compressão de margens leva a busca de eficiência e redução de custos, o que passa, em alguns casos, por redução do quadro de funcionários.

Nossa visão        
Os últimos dados sugerem que a contração do PIB no terceiro trimestre pode ter sido um pouco menor do que projetamos. E a melhora nas condições financeiras aponta uma retomada do crescimento a partir deste quarto trimestre.


Resumo

A desaceleração em segmentos ligados ao consumo continuou nos últimos meses. Relatos sugerem crescimento mais baixo ou estabilidade em relação ao ano passado. Em geral, o comércio varejista observa um ritmo menor do que o esperado de abertura de lojas. A desaceleração atinge também o setor de serviços. Restaurantes e hotéis indicam aumento da ociosidade.

A confiança do empresário se mantém contida. A postura da maioria segue cautelosa, preferindo postergar as decisões de investimento privado. O cenário para setores ligados ao investimento, contudo, é mais favorável dado o investimento publico. Há sinais de retomada das obras de infraestrutura, e o câmbio mais depreciado aumenta a proteção do setor de bens de capital contra a concorrência de importados.

O setor imobiliário está mais otimista este ano. As vendas vêm gradualmente se recuperando. Do lado da produção, a expectativa é de crescimento relativamente baixo. Ainda há estoques, e o custo para aquisição de terrenos inibe o empreendedor.

Nas commodities agrícolas, a safra de 2013/2014 deve bater novo recorde de produção. Destaque para a soja que, com preços favoráveis, vem ganhando terreno sobre a área de milho. No setor sucro-alcooleiro, a safra deste ano deve ser novamente volumosa. A qualidade, no entanto, tende a ser um pouco inferior a do ano passado.

Em siderurgia e mineração, a depreciação cambial e o crescimento mais estável nos EUA e China trazem perspectivas mais otimistas.

Os custos de produção seguem em alta neste semestre, pela alta ainda elevada de salários e pelos efeitos defasados da depreciação cambial. O repasse para preços ainda é difícil. A compressão de margens leva a busca de eficiência e redução de custos, o que passa, em alguns casos, por redução do quadro de funcionários.

Nossa visão: Os últimos dados sugerem que a contração do PIB no terceiro trimestre pode ter sido um pouco menor do que projetamos. E a melhora nas condições financeiras aponta uma retomada do crescimento a partir deste quarto trimestre.

 Consumo e produção de bens e serviços

A desaceleração em segmentos ligados ao consumo continuou nos últimos meses. Relatos sugerem crescimento mais baixo ou estabilidade em relação ao ano passado. Na maioria dos casos, o desempenho está abaixo do planejado no início do ano. Ainda assim, com a recuperação da confiança do consumidor desde julho, o mercado de trabalho ainda aquecido e a expectativa de gradual retomada do crédito em alguns segmentos, o clima é de certo alívio frente ao temor de queda mais profunda que marcou a virada do semestre.

Bens de consumo de ticket médio mais baixo ou de primeira necessidade, como higiene e beleza, farmacêuticos e alimentos, ainda sustentam um ritmo de vendas considerado razoável ou bom. Mas os empresários ainda sentem a demanda mais seletiva, de forma que não enxergam espaço para repasse substancial de custos. Alguns segmentos de bens de consumo mais supérfluos, como acessórios pessoais e alimentos não essenciais, notam uma desaceleração mais intensa de vendas.

Bens de consumo de tickets elevados, mais dependentes do crédito, tem notado maior dificuldade em manter o ritmo de venda. Como boa parte destes bens são importados ou tem alto conteúdo de insumos importados, o repasse da variação cambial é mais intenso, afetando a demanda (produtores e varejistas dizem preferir repassar o custo, ainda que percam volume).  O programa “Minha Casa Melhor” mantém aquecido segmentos como linha branca e utensílios domésticos. Mas há indicação de que este efeito incremental está gradualmente se esgotando.

Relatos do setor automobilístico sugerem perda de ímpeto em outubro. Os estoques seguiram se elevando nos últimos meses e segmentos fornecedores do setor, como autopeças, reportam retração nas encomendas.  A expectativa do setor é que haja prorrogação do desconto do IPI em 2014. Não se espera aceleração de vendas se o IPI reduzido for mantido, mas há o risco de desaceleração adicional de vendas se o imposto voltar a subir.

Em geral, o comercio varejista observa um ritmo menor do que o esperado de abertura de lojas. A percepção de demanda menos robusta, em meio aos custos ainda em alta (mão de obra e aluguéis) atenuam o ímpeto do empreendedor. A vacância em Shopping Centers vem aumentando, tornando a negociação do ponto de vendas mais favorável ao lojista.

A desaceleração atinge também o setor de serviços. Restaurantes e hotéis indicam aumento da ociosidade. Como apontado pelo último Orange Book, setores prestadores de serviços à indústria e ao comércio não conseguem renovar na plenitude seus contratos, haja vista a busca por corte de custos em diferentes setores da economia. Mesmo a demanda por serviços essenciais, como segurança e transporte, tem sido redimensionada. 

Em suma, a desaceleração do consumo parece mais evidente e disseminada pela economia. Demanda mais seletiva e custos ainda em alta preocupam os diversos segmentos. Não ouve, no entanto, a parada brusca que o choque negativo da virada do semestre poderia sugerir.

Investimento

A confiança do empresário se mantém contida. Nosso indicador, feito a partir de uma base ampla de clientes, voltou a cair em outubro, devolvendo boa parte da recuperação observada em agosto e setembro. O patamar atual é apenas ligeiramente superior ao de julho deste ano e da média do segundo semestre de 2011, os níveis mais baixos da série iniciada em 2010. Custos de produção e incerteza tributária seguem entre as principais preocupações. Destaque para o aumento do custo de transporte, gerado, entre outros fatores, pela mudança da legislação trabalhista no setor.

Desde junho o risco para a atividade econômica se reduziu, com a melhora das condições financeiras e dos indicadores de crescimento mundial. Em contrapartida, há sinais de menor confiança na sustentabilidade da demanda interna nos próximos meses e receio da volatilidade que pode ser gerada pela corrida eleitoral de 2014.

Desta forma, a maioria dos setores ainda segue com postura cautelosa, preferindo postergar as decisões de investimento em ampliação de capacidade. O esforço, na maioria dos setores, é em ganhar eficiência operacional e cortar custos.

Apesar do clima ainda cauteloso, o cenário para setores ligados ao investimento é mais favorável. A proximidade da Copa do Mundo e do ano eleitoral traz aceleração de obras públicas. A recuperação da demanda e o real mais depreciado frente à média do ano passado, que protege contra a concorrência dos importados, anima o setor de bens de capital para obras de infraestrutura.

Fornecedores de bens de capital para indústria de bens de consumo, por sua vez, não reportam aceleração da demanda. O semestre está melhor do que os anteriores em função da proteção cambial, mas ainda não se se caracteriza uma recuperação do setor. 

O setor de veículos pesados – ônibus, caminhões e máquinas agrícolas – foi importante propulsor do investimento no primeiro semestre. O desempenho foi uma combinação de safra agrícola favorável e taxas de juros subsidiadas oferecidas no âmbito do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), do BNDES. Entre agosto e setembro as vendas esfriaram, mas outubro voltou a ser forte. A perspectiva de nova safra recorde, especialmente de grãos, está por trás das vendas ainda robustas. O setor teme, contudo, as novas condições de financiamento do PSI, que devem ser mais restritas em 2014.

 Mercado imobiliário

O setor imobiliário está mais otimista este ano. As vendas vêm gradualmente se recuperando, tendência que se manteve entre setembro e outubro. A retomada continua sendo puxada por imóveis residenciais de médio porte, voltados para a classe média. O novo limite para o Sistema Financeiro da Habitação (SFH) não é fundamental, mas ajuda nas vendas do estoque. Outro segmento que segue bastante aquecido é o de altíssimo luxo, fundamentalmente por restrição de oferta.

Em contrapartida, imóveis cuja demanda final é tradicionalmente formada por investidores – salas comerciais, residenciais de pequeno porte – tem observado queda importante na velocidade de vendas. No passado, os juros baixos e o risco de inflação aqueceu este mercado, incentivando a oferta. O ambiente econômico mudou, levando a retração da demanda e aumento dos estoques.

Do lado da produção, a expectativa é de crescimento relativamente baixo. Primeiro, pelos estoques de imóveis comerciais e residenciais ainda serem considerados elevados. Segundo, pelo elevado custo dos terrenos, que desincentiva novas aquisições (algo que pode demorar a se ajustar, dada a relativa rigidez para baixo de preços de terrenos).

No caso do mercado de São Paulo, outro fator inibidor da oferta é o novo plano diretor (ainda em aprovação), que impõe exigências aos novos empreendimentos - como um limite de vagas na garagem. Este fator pode gerar maior demanda por imóveis usados, provocando aceleração de seus preços.

Commodities

A safra agrícola de 2013/2014, que está sendo plantada agora, deve bater novo recorde de produção. Destaque para a soja que, com preços favoráveis, vem ganhando terreno sobre a área de milho. As condições de chuva estão favoráveis neste início de safra.

A produção elevada gera pressão negativa sobre preços. Com custos elevados, o setor dependerá de câmbio mais depreciado para melhorar a rentabilidade. A taxa de câmbio próxima (ou abaixo) de 2,20 reais por dólar deixa o agronegócio apertado. Poucos aproveitaram o pico recente do câmbio para travar suas exportações. Neste ambiente, há um esforço do agronegócio como um todo para ganhar eficiência. 

No setor sucro-alcooleiro, a safra deste ano deve ser novamente volumosa. A qualidade, no entanto, tende a ser um pouco inferior a do ano passado. Em função da relação de preços entre etanol e açúcar, há a expectativa de que o balanço seja mais voltado à produção de álcool do que nas anteriores. O setor segue com pouco investimento, dada a limitação da flutuação dos preços. Em dois anos, a capacidade produtiva se reduziu em cerca de 5%.

Nos setores de siderurgia e mineração, a depreciação cambial e o crescimento mais estável nos EUA e China trazem perspectivas mais otimistas. Não há planos palpáveis de investimento no setor, mas em empresas com capacidade ociosa estão gradualmente retomando a produção. Do lado da demanda interna, o quadro é misto. Por um lado, obras de infraestrutura estão ganhando tração. Por outro, a produção de bens de consumo duráveis, especialmente carros e linha branca, deve ser limitada pelos estoques elevados e pelo crescimento mais modesto esperado para o consumo nos próximos trimestres.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços

Os custos de produção seguem em alta neste semestre, pela alta ainda elevada de salários e pelos efeitos defasados da depreciação cambial. Parte do aumento de custos está sendo repassado para o consumidor final. No entanto, a maioria dos setores relata dificuldade no repasse, tanto por demanda mais seletiva quanto pela competição elevada.

A compressão de margens leva a busca de eficiência e redução de custos, o que passa, em alguns casos, por redução do quadro de funcionários. Alguns setores já fizeram isso em 2013, outros planejam para 2014. Muitos reportam que, se não houver surpresas nas projeções de crescimento para o ano que vem, haverá alguma ociosidade de mão-de-obra, inclusive especializada. Mesmo entre os que já fizeram o ajuste, são poucos os que reportam planos de aumento de efetivo para 2014.

Nossa visão

Acreditamos que a atividade econômica tenha recuado no terceiro trimestre. O crescimento do PIB da agropecuária e da indústria provavelmente foi negativo, devolvendo parte do avanço observado no primeiro semestre. A fraqueza da indústria afeta os transportes, os serviços prestados às empresas e as atividade de comunicação, ou seja, afeta o setor de serviços.

No entanto, os últimos dados de vendas no varejo e criação de emprego formal surpreenderam para cima, sugerindo que a contração do PIB pode ter sido um pouco menor. E a melhora nas condições financeiras (prêmio de risco País, volatilidade do câmbio, preços de ações) aponta uma retomada do crescimento a partir deste quarto trimestre. Um fator que segura à velocidade da retomada da economia é o nível elevado de estoques, particularmente no setor industrial.

Do ponto de vista mais estrutural, ainda vemos gargalos de infraestrutura e produtividade pesando sobre o potencial da economia brasileira.



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