Itaú BBA - Atividade moderada, foco em ganhos de eficiência

Orange Book

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Atividade moderada, foco em ganhos de eficiência

Abril 24, 2014

Entre os setores ligados ao consumo, permanece a tendência divergente entre bens de consumo duráveis

Informações até 23 de Abril de 2014

Este relatório, publicado seis vezes por ano, resume relatos sobre o ambiente de negócios que ouvimos de contatos no setor real, especialistas e outras fontes fora do Itaú. Exceto pela seção ‘Nossa visão’, este relatório não reflete necessariamente a visão da área de pesquisa econômica do Itaú.

Seções:

Consumo e produção de bens e serviços                                                         
Permanece a tendência divergente entre bens de consumo duráveis, que reportam desaceleração mais intensa, e bens não duráveis e serviços, que ainda mantêm ritmo relativamente forte.                                                                           

Investimento                                                                                                
A confiança do empresário continua contida. O foco tem sido em ganhos de eficiência.                                    

Mercado imobiliário                                                                                         
O setor imobiliário residencial reporta velocidade de vendas considerada boa. O segmento comercial, em contrapartida, está menos otimista.

Commodities                                                                                                 
O clima quente e seco afetou a produção agrícola brasileira.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços                                           
Os custos de mão de obra ainda são um fator de preocupação entre diferentes setores da economia.

Nossa visão                                                                                                      

Mantemos nossa expectativa de atividade apenas moderada este ano.     


Resumo

Entre os setores ligados ao consumo, permanece a tendência divergente entre bens de consumo duráveis, que reportam desaceleração mais intensa, e bens não duráveis e serviços, que ainda mantêm ritmo relativamente forte, ainda que menor do que no ano passado.

O setor de serviços, como um todo, mantém a desaceleração observada ao longo de 2013. No entanto, o ritmo de crescimento parece se estabilizar, suportado pelo mercado de trabalho. Serviços ligados à Copa do Mundo reportam a esperada aceleração.

Pelo lado do investimento, a confiança do empresário continua contida. Nosso indicador, feito a partir de uma base ampla de clientes, voltou a recuar em abril, mantendo a tendência de queda dos últimos meses. Este ainda é visto como um ano de incertezas globais e domésticas, o que leva empresas a postergar decisões de investimento de maior porte. De forma generalizada entre setores e regiões do País, o foco tem sido cada vez mais ganhar eficiência na gestão de custos e na alocação dos recursos disponíveis.

O setor imobiliário residencial reporta velocidade de vendas considerada boa, dependendo da localização e características do empreendimento. O segmento comercial, em contrapartida, está menos otimista. Em algumas regiões, especialmente no Sul e Sudeste, o excesso de oferta preocupa.

O clima quente e seco afetou a produção agrícola brasileira. A safra de grãos ainda é considerada boa, mas aquém das expectativas iniciais. Os preços vêm respondendo à menor oferta. Destaque para a alta expressiva do café, que vem animando o setor. A aceleração da inflação de alimentos gera um efeito colateral negativo no setor sucroalcooleiro, na medida em que reduz a probabilidade da alta da gasolina no curto prazo.

Custos de mão de obra ainda são reportados como um fator de preocupação entre diferentes setores da economia. Alguns setores indicam que está um pouco mais fácil contratar, mas os salários seguem pressionados. Outros custos em elevação, como alimentos e transporte, e a possibilidade de reajustes de energia elétrica e combustíveis à frente também preocupam. Dessa forma, as pressões inflacionárias na economia continuam, embora a demanda contida limite a capacidade de repasses.

Nossa visão: a economia cresceu mais do que esperávamos nos dois primeiros meses do ano. No entanto, há sinais de acúmulo indesejado de estoques, e a confiança do empresário segue baixa.  Sendo assim, mantemos nossa expectativa de atividade apenas moderada neste ano. Do ponto de vista mais estrutural, ainda vemos gargalos de infraestrutura e produtividade pesando sobre o potencial da economia brasileira.

Consumo e produção de bens e serviços

Entre os setores ligados ao consumo, permanece a tendência divergente entre bens de consumo duráveis, que reportam desaceleração mais intensa, e bens não duráveis e serviços, que ainda mantêm ritmo relativamente forte, ainda que menor do que no ano passado.  Alguns segmentos de bens duráveis reportaram uma aceleração de produção e vendas neste primeiro trimestre, mas o movimento não é percebido como sustentável.

Produtores de bens de consumo duráveis seguem reportando estoques elevados nos varejistas e demanda cada vez mais restritiva. Aumento de juros, preços mais elevados, maior comprometimento de renda e receio de desaceleração do mercado de trabalho estão entre os fatores que, na visão desses setores, justificam a demanda mais cautelosa. A recente apreciação do câmbio tenderia a ser um fator positivo, mas a percepção entre muitos segmentos é de que o movimento seja temporário. As vendas de duráveis ligados à Copa do Mundo (especialmente televisores) ainda não decolaram.

O setor automobilístico continua enfrentando um cenário particularmente desafiador. Montadoras reportam estoques elevados, e fornecedores do setor (autopeças, pneus) relatam produção e encomendas praticamente estagnadas.  O Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) ainda reduzido não é mais percebido pelo setor como um estímulo, de forma que sua prorrogação não parece um fator de melhora para o segundo semestre.

Entre produtores de bens de consumo semi e não duráveis — como produtos de limpeza, medicamentos e alimentos — há relatos de atividade mais forte, embora em desaceleração frente a 2013. Supermercados observam vendas firmes, especialmente nas regiões em que as temperaturas seguem elevadas.  Segmentos ligados ao ensino (papelaria, livrarias, editoras) reportaram uma “volta às aulas” forte, embora a mudança de calendário devido à Copa tenha interferido no planejamento.  O mercado de trabalho ainda aquecido e a redução dos gastos com bens duráveis continuam apontados como o principal propulsor das vendas para os segmentos de não duráveis em geral. A alta da inflação de alimentos, que reduz a renda real disponível, preocupa alguns setores.

O setor de serviços, como um todo, mantém a desaceleração observada ao longo de 2013. No entanto, o ritmo de crescimento parece se estabilizar, suportado pelo mercado de trabalho. Serviços ligados à Copa (hotelaria, operadoras de turismo, produção de eventos, mídia e transporte executivo) reportam a esperada aceleração. O FIES (programa governamental de financiamento à educação superior) impulsiona alguns segmentos do setor de educação.

Investimento

A confiança do empresário continua contida, com recuos adicionais na margem. Nosso indicador, feito a partir de uma base ampla de clientes, voltou a recuar em abril, mantendo a tendência de queda dos últimos meses. O patamar atual está cerca de 10% abaixo da média do quarto trimestre de 2013 e sensivelmente menor do que o registrado entre 2010 e 2011.

As concessões de infraestrutura — e a consolidação da percepção da necessidade de aliviar os gargalos de oferta — continuam motivo de otimismo para a construção civil e produtores de máquinas e equipamentos. Em contrapartida, a Copa do Mundo e programas específicos do governo (para financiar máquinas e equipamentos para municípios) vão gradualmente deixando de estimular a demanda. A recente apreciação do real preocupa, ainda que, assim como nos setores ligados ao consumo, a percepção seja de movimento temporário.

Em que pese a menor volatilidade dos mercados financeiros, 2014 ainda é visto como um ano de incertezas globais e domésticas, o que leva a postergar decisões de investimento de maior porte. A avaliação de que ajustes macroeconômicos terão que ser feitos em 2015 (juros, impostos, preços administrados) corrobora a cautela da demanda por investimento. Fatores do lado da oferta, como altos custos de produção (mão de obra, transporte, aluguel, terrenos) e complexidade tributária também deixam empresários menos convictos em expandir a capacidade produtiva. Construtoras reportam produção fraca de galpões e centros logísticos neste ano.

De forma generalizada entre setores e regiões do País, o foco dos gestores tem sido cada vez mais em ganhar eficiência na gestão de custos e na alocação dos recursos disponíveis.

Como enfatizado no último Orange Book, apesar do clima cauteloso, o interesse por investir no País ainda se mantém. O tamanho do mercado consumidor e o potencial de produção de commodities tornam o Brasil estruturalmente atraente. Os projetos de infraestrutura oferecidos pelo governo no programa de concessões têm potencial de retorno e ajudam a aliviar gargalos de produção.

No setor de veículos pesados – caminhões e máquinas agrícolas – a produção melhorou no início do ano, mas as vendas não acompanharam.  Dessa forma, o setor espera uma correção na produção nos próximos meses.  O setor vive um momento de recuo de demanda, depois das mudanças nas condições de financiamento do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), do BNDES. A falta de mão de obra (motoristas) é outro limitador da demanda. Em contrapartida, as vendas para o setor agrícola vêm sustentando o setor. 

Mercado imobiliário

O setor imobiliário residencial reporta velocidade de vendas considerada boa, dependendo da localização e características do empreendimento. A demanda mais restritiva reflete os preços mais elevados e a alta das taxas de juros, que afeta não apenas as condições de crédito como também o custo de oportunidade de aquisição do imóvel. Ainda assim, o setor indica que este ano será melhor que 2013.

O segmento comercial, em contrapartida, está menos otimista. Em algumas regiões, especialmente no Sul e Sudeste, o excesso de oferta preocupa. O nível de vacância já é considerado elevado, e há lançamentos marcados para os próximos meses tanto de lajes comerciais como de shopping centers.

No segmento de shopping centers, a indicação é de que o investimento será baixo nos próximos dois a três anos. O movimento nos shoppings segue elevado, mas a disposição de lojistas para investir é menor do que nos últimos anos.

Commodities

O clima quente e seco afetou a produção agrícola brasileira. A safra de grãos como um todo ainda é considerada boa, mas aquém das expectativas iniciais.   A produção de soja e algodão deve ficar acima da do ano passado, mas milho e café devem ser menores. Os preços vêm respondendo à menor oferta. Destaque para a alta expressiva do café, que vem animando o setor (pois muitos produtores ainda guardam estoques da safra passada).

A aceleração da inflação de alimentos gera um efeito colateral negativo no setor sucroalcooleiro, na medida em que reduz a probabilidade da alta da gasolina no curto prazo. Preços de combustíveis restritos no mercado doméstico e excesso de oferta de açúcar no mercado internacional reduziram o incentivo ao investimento. O setor busca diversificar, apostando na geração de energia a partir do bagaço de cana.

Nos setores de siderurgia e mineração, a recente apreciação do câmbio incomoda.  O nível atual de câmbio ainda é favorável para as exportações, mas não desperta planos mais palpáveis de investimento. Do lado da demanda interna, os primeiros meses do ano foram aquecidos, mas as expectativas estão contidas. A produção de bens de consumo duráveis, especialmente carros e linha branca, deve ser limitada pelos estoques elevados e pelo crescimento mais modesto esperado para o consumo.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços

Os custos de mão de obra ainda são um fator de preocupação entre diferentes setores da economia. Alguns setores indicam que está um pouco mais fácil contratar, mas os salários seguem pressionados. As negociações salariais estão mais duras do que no ano passado, mas em geral resultam em ganhos salariais reais.

Outros custos em elevação, como alimentos e transporte, e a possibilidade de reajustes de energia elétrica e combustíveis à frente também preocupam. Dessa forma, as pressões inflacionárias na economia continuam, embora a demanda restritiva limite a capacidade de repasses.  A acomodação recente da taxa de câmbio também contribui para aliviar as pressões inflacionárias, embora alguns segmentos indiquem que os preços ainda não refletem completamente a depreciação cambial dos últimos dois anos.

Nesse ambiente, muitos setores revelam determinação em reduzir custos, evitando contratações e buscando automação de seus processos.

Nossa visão

A economia cresceu mais do que esperávamos nos dois primeiros meses do ano. No entanto, há sinais de acúmulo indesejado de estoques na indústria, e a confiança do empresário segue em nível baixo, indicando que a surpresa na produção no começo do ano não foi acompanhada por melhora dos fundamentos do setor. Do lado do varejo, o cenário de juros em alta, menor crescimento da massa salarial e recuo na confiança do consumidor indica ritmo de expansão moderado das vendas à frente. Sendo assim, mantemos nossa expectativa de atividade apenas moderada neste ano.

Do ponto de vista mais estrutural, ainda vemos gargalos de infraestrutura e produtividade pesando sobre o potencial da economia brasileira. A aceleração das concessões ao setor privado pode ajudar, embora o impacto deva ser sentido mais claramente a partir de 2015.



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