Itaú BBA - Atividade fraca, emprego em desaceleração

Orange Book

< Voltar

Atividade fraca, emprego em desaceleração

Novembro 24, 2014

A recuperação do consumo vem se mostrando de curta duração na maioria dos setores.

Informações até 21 de novembro de 2014

Este relatório, publicado seis vezes por ano, resume relatos sobre o ambiente de negócios que ouvimos de contatos no setor real, especialistas e outras fontes fora do Itaú. Exceto pela seção ‘Nossa visão’, este relatório não reflete necessariamente a visão da área de pesquisa econômica do Itaú.

Seções:

Consumo e produção de bens e serviços         
A recuperação do consumo vem se mostrando de curta duração na maioria dos setores, indicando um fim de ano entre moderado e fraco.   

Investimento        
As decisões de investimento, em geral, continuam no aguardo de maior clareza sobre o cenário econômico externo e doméstico.  
 
Mercado de trabalho, custos de produção e preços    
Por conta do baixo crescimento econômico e do aumento da capacidade ociosa, é crescente o número de setores que reduziram ou pretendem reduzir seus quadros.

Mercado imobiliário         
O setor imobiliário vem mantendo o desempenho mais fraco observado ao longo do segundo semestre.

Commodities         
A expectativa é de uma safra de grãos boa em termos de volume, mas com preços internacionais baixos. No setor de siderurgia, os sinais de melhora na demanda global e a depreciação da taxa de câmbio animam o setor.

Nossa visão    
No curto prazo, os fundamentos econômicos impõem obstáculos a uma retomada mais robusta da atividade econômica. Para o ano que vem, o desafio é equilibrar a economia, restaurar a confiança e voltar a crescer.  


Resumo:

A recuperação do consumo vem se mostrando de curta duração na maioria dos setores. As vendas apresentaram alguma recuperação depois da expressiva queda observada entre o fim do primeiro semestre e início do segundo, mas vêm perdendo força desde outubro, indicando um fim de ano entre moderado e fraco.

A confiança do empresário se mantém em baixa. As decisões de investimento, em geral, continuam no aguardo de maior clareza sobre o cenário econômico externo e doméstico. A volatilidade recente dos mercados financeiros, especialmente da taxa de câmbio, adiciona incerteza ao cenário.

Com o enfraquecimento da demanda, muitos setores reportam capacidade ociosa elevada, o que reduz a urgência de novos investimentos.

A desaceleração no mercado de trabalho continua. Por conta do baixo crescimento econômico e do aumento da capacidade ociosa, é crescente o número de setores que reduziram ou pretendem reduzir seus quadros.

A desaceleração econômica traz uma moderação da inflação de custos. Em contrapartida, a depreciação cambial preocupa os setores importadores. A maioria reporta que os preços praticados estão alinhados com a taxa de câmbio entre 2,20 e 2,40 reais por dólar.

O setor imobiliário vem mantendo o desempenho mais fraco observado ao longo do segundo semestre. No segmento residencial, a demanda está mais fraca tanto para imóveis destinados a investimento quanto para o consumo final. No segmento comercial, o desaquecimento da economia e o volume acelerado de lançamentos nos últimos anos levaram a um desbalanceamento mais estrutural, que deve levar mais tempo para ser corrigido.

O plantio da safra de grãos 2014/2015 evoluiu de forma satisfatória a partir da normalização das chuvas em outubro. A expectativa é de uma safra boa em termos de volume, embora a rentabilidade possa ser prejudicada pelos preços internacionais baixos.

No setor de siderurgia, os sinais de melhora na demanda global – especialmente nos EUA – e a depreciação recente da taxa de câmbio animam o setor.

Nossa visão: Os dados recentes têm demonstrado a fragilidade do crescimento. No curto prazo, os fundamentos econômicos impõem obstáculos a uma retomada mais robusta da atividade econômica. Para o ano que vem, o desafio é equilibrar a economia, restaurar a confiança e voltar a crescer. Nosso cenário contempla um conjunto de ajustes mínimos – incluindo contração fiscal, realinhamento de preços administrados e altas de juros –, suficiente apenas para evitar uma deterioração da economia.

Consumo e produção de bens e serviços

A recuperação do consumo vem se mostrando de curta duração na maioria dos setores. As vendas apresentaram alguma recuperação depois da expressiva queda observada entre o fim do primeiro semestre e o início do segundo, mas vêm perdendo força desde outubro, indicando um fim de ano entre moderado e fraco.

Os setores de bens duráveis, como automóveis, motos, linha branca e eletrônicos, continuam os mais fracos entre os segmentos do consumo. Apesar dos sinais de estabilização desde novembro, a maioria está com um nível de produção e vendas significativamente abaixo dos observados no fim de 2013. Os segmentos de semi e não duráveis, como vestuário, alimentos e cosméticos, reportam uma demanda mais resistente, mas também sentem a desaceleração da economia. As vendas caíram consideravelmente ao longo do segundo semestre, trazendo preocupação para 2015.

No setor de serviços, a atividade também vem perdendo força. O setor reporta algum crescimento frente ao ano passado, mas bem abaixo do esperado no início do ano. A demanda desacelerou, e os custos – especialmente de mão de obra – ainda estão elevados, tornando as margens mais apertadas.

Como enfatizamos no último Orange Book, os setores ligados ao consumo mantêm a confiança com relação ao potencial do mercado interno brasileiro. Empresas multinacionais continuam demonstrando interesse estratégico no País. Mas, no curto prazo, a expectativa é  que o Natal seja modesto, e que 2015 será desafiador. O consumidor continua criterioso, procurando comprar apenas o essencial. Tanto produtores de bens de consumo finais como produtores de insumos intermediários vêm estudando redimensionar sua capacidade produtiva e cortando serviços terceirizados não essenciais para atravessar o período de baixa atividade.

Investimento

A confiança do empresário se mantém em baixa. Nosso indicador, feito a partir de uma base ampla de clientes, mostrou um pequeno crescimento em novembro frente a outubro (mês em que o índice atingiu o resultado mensal mais baixo da série histórica, iniciada em 2009), mas se encontra 3% abaixo da média do terceiro trimestre e 15% abaixo do quarto trimestre de 2013.

 As decisões de investimento, em geral, continuam no aguardo de maior clareza sobre o cenário econômico externo e doméstico. A volatilidade recente dos mercados financeiros, especialmente da taxa de câmbio, adiciona incerteza ao cenário. De toda forma, com o enfraquecimento da demanda, muitos setores reportam capacidade ociosa elevada, o que reduz a urgência de novos investimentos.

O setor de veículos pesados – caminhões e máquinas agrícolas – continua reportando vendas e produção em nível baixo, dada a baixa propensão ao investimento e a antecipação de vendas dos últimos.

Produtores de bens de capital também reportam atividade modesta, limitada pelo adiamento das decisões de investimento e pela desaceleração do setor de construção civil. O fim do programa de encomendas governamentais para prefeituras contribuiu para a atividade mais fraca neste fim de ano. Nesse sentido, há ansiedade com relação à política fiscal e parafiscal (oferta de financiamento por parte de bancos públicos) a partir de 2015. Do lado mais positivo, setores ligados a commodities (energia, mineração) retomaram as encomendas.

Apesar do clima de maior preocupação, o interesse de longo prazo no País se mantém. O tamanho e a diversidade do mercado consumidor e o potencial de geração de renda a partir da produção de commodities mantêm o Brasil estruturalmente atraente. No entanto, o questionamento sobre a recuperação do crescimento vem aumentando, evidenciando a importância dos ajustes macroeconômicos de 2015 para a retomada dos investimentos no país.

Mercado de trabalho, custos de produção e preços

A desaceleração no mercado de trabalho continua. Por conta do baixo crescimento econômico e do aumento da capacidade ociosa, é crescente o número de setores que fizeram ou pretendem fazer redução de quadros. O tamanho dos ajustes depende do setor, mas, em média, não é profundo. Mas o sinal é de que novos movimentos podem ocorrer, se o baixo crescimento e a volatilidade da economia continuarem em 2015. Setores que aumentam sazonalmente as contratações no verão (varejo, bebidas) reportam que as contratações não acontecerão, ou serão menores do que nos anos anteriores.

Do lado dos salários, as negociações são intensas, com as empresas deixando claro que não conseguem acomodar um aumento salarial significativo. A maioria dos resultados tem ficado perto de zero em termos reais. 

Além de moderar o mercado de trabalho, a desaceleração econômica traz também a acomodação de outros custos de produção, como aluguéis, frete rodoviário e serviços terceirizados. Em contrapartida, a depreciação cambial preocupa os setores importadores. A maioria reporta que os preços praticados estão alinhados com a taxa de câmbio entre 2,2 e 2,4 reais por dólar. Segmentos de bens de consumo duráveis, como eletrônicos e linha branca, indicam um repasse para o início do ano que vem, independentemente das condições de demanda.

A depreciação cambial e fatores climáticos também devem gerar pressão de preços de alimentos no curto prazo, especialmente em grãos, carnes e alimentos in natura. No caso específico da carne bovina, a tendência internacional de alta de preços continua, adicionando pressão nessa categoria.

Mercado imobiliário

O setor imobiliário vem mantendo em novembro o desempenho mais fraco observado no semestre. No segmento residencial, o ritmo de vendas segue abaixo do observado no primeiro semestre, e significativamente menor do que nos anos anteriores. Com a elevação das taxas de juros, os imóveis tradicionalmente destinados a investimento, como estúdios e apartamentos compactos, perdem atratividade. A demanda final também moderou, na expectativa de que a desaceleração da economia traga oportunidades melhores para aquisição de imóveis residenciais adiante. De fato, os estoques permanecem relativamente elevados no setor, e os preços, em média, seguem recuando marginalmente.

No segmento comercial, o desaquecimento da economia e o volume acelerado de lançamentos nos últimos anos levaram a um desbalanceamento mais estrutural do setor. O nível de vacância continua crescendo, sugerindo que o processo de ajuste pode ser mais prolongado do que no segmento residencial.

No segmento de shopping centers, a indicação continua de investimento baixo nos próximos dois a três anos. O movimento, especialmente nos shoppings mais novos, segue abaixo do esperado. Muitos shoppings permanecem com vacância elevada, oferecendo descontos para atrair lojistas. A notícia positiva é que, em resposta aos descontos, lojistas estão começando a identificar oportunidades. O movimento, no entanto, é cauteloso, dada a incerteza acerca do desempenho do varejo em 2015.

Commodities

O plantio da safra de grãos 2014/2015 começou atrasado devido ao tempo seco em outubro, mas evoluiu de forma satisfatória a partir da normalização das chuvas no fim do mesmo mês. A expectativa é de uma safra boa em termos de volume, embora a rentabilidade possa ser prejudicada pelos preços internacionais baixos. A depreciação recente da taxa de câmbio compensa, em parte, a queda dos preços, embora também acarrete aumento de custos de insumos, como defensivos e fertilizantes.  O atraso no plantio da soja gera um risco para a safra de inverno do milho (que pode avançar no inverno e ser prejudicada pelas baixas temperaturas).

No setor sucroalcooleiro a colheita está quase terminando no Centro-Sul. A expectativa do setor é de uma melhor política de preços para o ano que vem, embora o reajuste recente dos preços dos combustíveis, abaixo do esperado, não tenha sido um sinal animador.

No setor de siderurgia, os sinais de melhora na demanda global – especialmente nos EUA – e a depreciação recente da taxa de câmbio animam o setor. Do lado da demanda interna, a queda na produção de bens de consumo duráveis, especialmente carros e linha branca, mantém o setor cauteloso.

Nossa visão

Os dados recentes têm demonstrado a fragilidade do crescimento. No curto prazo, os fundamentos econômicos impõem obstáculos a uma retomada mais robusta da atividade econômica. A confiança dos consumidores e empresários segue em baixo patamar, apesar da pequena melhora na confiança dos empresários da indústria, serviços e comércio em outubro. A geração de empregos tem sido baixa nos últimos meses, e os estoques na indústria permanecem altos, refletindo que ainda devem ocorrer ajustes na oferta nos próximos meses. Pelo lado da demanda, o crescimento da massa salarial tem arrefecido e deve limitar o crescimento do consumo adiante.

Para o ano que vem, o desafio é equilibrar a economia, restaurar a confiança e voltar a crescer. Nosso cenário contempla um conjunto de ajustes mínimos – incluindo contração fiscal, realinhamento de preços administrados e altas de juros – , suficiente apenas para evitar uma deterioração da economia. Em 2015, o crescimento deve seguir modesto, a inflação próxima ao limite da meta e a taxa de câmbio em depreciação. A volta do crescimento nos anos seguintes depende da extensão dos ajustes.  O cenário de ajustes mínimos é consistente com crescimento ainda limitado à frente.



< Voltar