Itaú BBA - A retomada de 2012

Orange Book

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A retomada de 2012

Fevereiro 15, 2012

A economia brasileira começou 2012 sentindo os efeitos da desaceleração do ano anterior. A incerteza externa também pesa.

Com informações até 14 de fevereiro de 2012

Seções:

Consumo e produção de bens e serviços
As vendas varejistas começaram o ano com crescimento mais lento, depois de um Natal de regular para bom. Serviços continuam sendo o destaque positivo.

Investimentos
A relativa melhora nos níveis de aversão ao risco em outubro e novembro frente ao pico de setembro trouxe algum reaquecimento no setor.            

Construção civil e mercado imobiliário
O setor da construção civil espera um crescimento em 2012 em torno de 5% - semelhante ao de 2011.

Commodities
Os segmentos ligados a metais e mineração voltaram a perceber reaceleração depois de um período de acomodação no final do ano passado.

Mercado de trabalho, salários e preços
O aquecimento do mercado de trabalho já não é apontado espontaneamente como um problema, embora haja preocupação.

Nossa visão
Esperamos que a economia volte a crescer ao longo do ano. O crescimento PIB no primeiro trimestre ainda será moderado, e deve acelerar no segundo semestre.


Resumo

A economia brasileira começou 2012 sentindo os efeitos da desaceleração do ano anterior. Condições de crédito ainda são percebidas como restritivas para alguns segmentos, e muitos setores mencionam a menor renda disponível como fator de restrição à demanda. A incerteza externa também pesa. Mas há otimismo com relação aos efeitos das políticas expansionistas do governo, e com o início dos projetos da Copa do Mundo.

A indústria de bens de consumo duráveis segue estocada, embora menos do que no final de 2011. Há a perspectiva de retomada mais sustentável das atividades a partir do segundo trimestre.  A preocupação com a concorrência de importados e com a política protecionista da Argentina aumentou nos últimos meses.

Os segmentos beneficiados por incentivo fiscal no final do ano passado, como linha branca, reportam aceleração em produção e vendas.

Com relação aos bens de consumo não duráveis, os sentimentos são mistos, dependendo do ramo de atividade. Alguns segmentos foram particularmente afetados pelas temperaturas relativamente baixas de janeiro.

Os serviços em geral continuam bem. Os segmentos que tiveram suas vendas afetadas pela incerteza de setembro/outubro de 2011 indicam normalização.

Os investimentos avançam em ritmo apenas moderado, ainda refletindo as incertezas na economia global, assim como a menor confiança do empresário. Setores como veículos pesados e máquinas agrícolas sentiram mais a desaceleração. Em compensação, a Copa do Mundo já gera efeitos positivos para a construção civil, e o interesse de empresas multinacionais em investir no Brasil continua elevado. 

O setor de commodities está mais otimista com a alta dos preços neste início de ano e com sinais de retomada da indústria global, embora algumas atividades tenham sido prejudicadas pelas quebras de safras na América do Sul.

O aquecimento do mercado de trabalho já não é apontado espontaneamente como um problema, embora muitos ainda mostrem preocupação quando questionados. Esforços passados de automação começam a gerar resultados. Ao mesmo tempo, alguns têm optado por não demitir no curto prazo, dada a perspectiva de retomada da economia este ano.

A perspectiva para aumento de preços varia. Setores de serviços programam (ou já implementaram) elevações entre 10 e 15%. Bens de consumo e imóveis, por outro lado, planejam apenas acompanhar a inflação. A alta recente das commodities e as medidas do governo para proteger alguns setores da indústria da concorrência externa são apontadas como riscos para a inflação este ano.

Nossa visão: Esperamos que a economia volte a crescer ao longo do ano. O aumento da demanda, motivada pelas políticas públicas, puxará a produção. O crescimento PIB no primeiro trimestre ainda será moderado: 0,8% sobre o trimestre anterior. E deve acelerar até atingir 1,7% na média do segundo semestre. A projeção para 2012 segue em 3,5%.


 

Consumo e produção de bens e serviços

As vendas varejistas começaram o ano com crescimento mais lento, depois de um Natal de regular para bom. Vendas de bens de consumo durável vêm sendo descritas como fracas ou razoáveis. Itens de tickets mais altos que dependem de crédito vêm mostrando desempenho mais fraco. Em alguma medida se materializou a preocupação com o aumento de estoques no varejo (resultado de encomendas elevadas e vendas abaixo da expectativa no Natal) que mencionamos na edição passada do Orange Book (nov/2011).

A exceção foram os setores beneficiados pelos incentivos fiscais do ano passado, como a linha branca, que reportaram aceleração de produção e vendas desde dezembro.

O setor automobilístico continua um destaque para o lado negativo, embora o início do ano esteja um pouco melhor tanto em vendas como em produção. Segmentos fornecedores do setor reportam encomendas ainda fracas e resultados abaixo do esperado neste primeiro trimestre. As vendas ao consumidor final mantêm o desempenho modesto, com exceção de modelos de alto luxo. O crédito ainda relativamente restrito, o endividamento do consumidor e a alta da inflação limitando a renda disponível são apontados como razões para esse desempenho.

O planejamento feito em conjunto entre montadoras e fornecedores prevê a normalização dos estoques e a retomada da produção no segundo trimestre de 2012. A alta do IPI para importados de fora da América Latina e a possibilidade do fim do acordo comercial com o México animam o setor.

A preocupação entre os produtores de bens duráveis com a concorrência de importados vem aumentando. O ingresso de produtos é cada vez mais diversificado. A política industrial protecionista da Argentina é outra fonte de preocupação entre os segmentos que têm parte da produção naquele país. Recentemente o governo argentino adotou restrições para restringir a importação de insumos e para conter a saída de capitais.

Quanto aos bens de consumo não duráveis, os alimentícios - especialmente bebidas - foram particularmente prejudicados pelas temperaturas relativamente baixas de janeiro (algo que afetou também a venda de outros produtos relacionados, como ar-condicionado). A situação vem se normalizando em fevereiro.

Produtos de limpeza e higiene e beleza, que sentiram pouco a desaceleração em 2011, seguem reportando vendas fortes este ano. 

No que diz respeito ao setor de bens de consumo em geral acredita-se que as medidas governamentais de incentivo à demanda farão efeito ao longo do ano, embora alguns já demonstrem preocupação com a provável necessidade de novo aperto em 2013.

Por fim, os serviços continuam sendo o destaque positivo. Os hotéis vêm mantendo elevada capacidade ocupada neste início de ano, inclusive no segmento corporativo. Outros serviços como administração de aluguéis, utilidades residenciais (energia elétrica, saneamento) e aqueles ligados à construção civil também mostram demanda forte. Os restaurantes, que sentiram uma redução de demanda entre setembro e outubro do ano passado, retornaram à normalidade.

Investimentos

A redução gradativa de volatilidade nos mercados financeiros desde setembro trouxe melhora na confiança dos empresários, e algum reaquecimento nos investimentos. Mas, de forma geral, os níveis de confiança até fevereiro seguem relativamente distantes dos picos do ano passado.

Os investimentos avançam em ritmo apenas moderado, ainda refletindo as incertezas na economia global e nas condições de crédito apertadas para algumas categorias, como capital de giro e exportações. Há a expectativa de uma postura mais ativa do BNDES este ano (programas pontuais já vêm sendo anunciados).

É importante destacar a continuidade do interesse de empresas estrangeiras dos mais diversos setores e origens em estabelecer ou ampliar a produção no Brasil. Os principais determinantes apontados são o mercado doméstico potencial e os incentivos governamentais à produção em território nacional.

Entre produtores de bens de capital, a preocupação com a competição de importados – fundamentalmente asiáticos – também é crescente. Produtos de qualidade semelhante chegam a custar até 40% menos que o similar nacional. No entanto, o favorecimento ao conteúdo nacional da política industrial brasileira traz conforto.

Do lado positivo, os produtores observam um gradual reaquecimento da demanda governamental e a continuidade da demanda robusta para equipamentos voltados à produção de recursos naturais.

Adicionalmente, a Copa do Mundo já gera oportunidades para venda e aluguel de máquinas e equipamentos para construtoras. Existem hoje quase mil máquinas - como guindastes, retroescavadeiras, carregadeiras e caminhões fora-de-estrada - operando na construção ou na modernização das arenas que vão abrigar os jogos.

O setor de veículos pesados sentiu maior seletividade na demanda em 2011, e uma necessidade de fazer um esforço maior de vendas para manter os volumes. O quadro segue inalterado nos primeiros meses deste ano, embora a perspectiva seja um pouco melhor. Neste ano existe ainda o desafio de adaptar a produção à nova regulamentação ambiental (Euro 5), que encarece o produto. Essa mudança vem gerando uma retração corrente da demanda (muitos anteciparam suas compras em 2011 para se beneficiar do preço mais baixo da regulamentação anterior). Com isso, a expectativa do setor é que as vendas do segundo trimestre - normalmente fortes - sejam mais fracas este ano.

Do lado das exportações de veículos pesados, estas vêm sendo prejudicadas por: i) matrizes ocupando market share das subsidiárias brasileiras; e ii) política de restrição à importações na Argentina. Em compensação, a demanda para destinos como México e Colômbia segue aquecida.

Construção civil e mercado imobiliário

O setor da construção civil espera um crescimento em torno de 5% este ano - semelhante ao de 2011. Os principais fatores propulsores são as obras ligadas à Copa do Mundo (como mencionado na seção anterior) e os incentivos do governo à demanda residencial privada – juros menores e programas como o “Minha Casa Minha Vida”.

As vendas de imóveis residenciais desaceleraram ao longo de 2011 de um ritmo muito acelerado, no início do ano, para uma velocidade classificada como “de razoável para boa”, no segundo semestre. Na virada do ano houve desaceleração adicional, mas entre janeiro e fevereiro a velocidade de vendas está voltando ao patamar compatível com o segundo semestre do ano passado.

A manutenção dos níveis baixos de desemprego, mesmo com desaceleração do PIB, é outro determinante favorável da demanda. Mas existe a preocupação com relação à capacidade de tomada adicional de crédito pelo consumidor. 

Nos ramos mais populares a atividade permanece robusta, em parte pelos programas “Minha Casa Minha Vida” 1 e 2 (cuja burocracia dos processos vem marginalmente se reduzindo, embora seja ainda um gargalo para o segmento).

Independentemente da faixa de renda, parece estabelecida no setor residencial a visão de que as taxas de crescimento agressivas ficaram no passado – o momento é de consolidação.

Commodities

Os segmentos ligados a metais e mineração voltaram a perceber reaceleração do nível de atividade, depois de um período de acomodação no final do ano passado. O balanço entre oferta e demanda segue apertado, o que fundamenta a alta de preços recente (para além do efeito da política monetária mais expansionista nos EUA). Entre os produtos com maior aceleração de demanda, destaque para cobre e estanho.

No setor de energia os investimentos em extração de petróleo mantêm o ritmo forte. A manutenção dos elevados preços internacionais de petróleo e derivados (como resina industrial) e a perspectiva de retomada da produção industrial no Brasil e em algumas regiões do mundo favorecem o setor. A produção da indústria plástica brasileira, por exemplo, deve crescer de cerca de 2% este ano segundo representantes do setor, revertendo a queda de 2011.

Dois movimentos que podem mudar a estrutura do setor energético brasileiro vêm merecendo destaque. Primeiro, o crescimento da oferta de fontes alternativas. Estimativas apontam que o consumo de energia eólica como proporção do total consumido no Brasil deve subir de 1% para 4% até meados desta década. Existe capacidade ociosa, e o custo chega a um quarto de fontes tradicionais como a energia térmica. Em segundo lugar, os desdobramentos sobre a matriz energética americana e mundial da descoberta de gás de xisto (Shale Gas), abundante na América do Norte, que é mais barato que o gás convencional.

Nos segmentos ligados a commodities agrícolas, tanto a produção quanto a logística de transporte vêm sentindo no curto prazo os efeitos das quebras de safra no Brasil e na Argentina causados pelo fenômeno "La Niña". A comercialização de máquinas agrícolas está estagnada desde o final de 2011 e os investimentos no setor devem ser postergados.

No que tange a culturas específicas, o milho deve trazer bons resultados ao País. Os preços estão elevados pelas quebras de safra do início do ano, e a safrinha de inverno pode compensar, em parte, as perdas já contabilizadas. A soja, também muito afetada pela quebra de safra, sente mais pelo fato de não haver outra safra no ano. Quanto ao trigo, o País novamente produzirá menos do que o necessário, e com baixa qualidade. As importações de Argentina, Canadá e EUA continuarão significativas.

Finalmente em relação safra brasileira de cana de açúcar, a expectativa é de aumento na produção de 2012/13 em torno de 15%.  O grande índice pluviométrico observado na Região Sudeste deve favorecer o segmento. No entanto, a produção ainda não chega aos níveis de 2010/11 devido à falta de renovação do canavial, o que acarretará outro ano de alta competição entre as produções de açúcar e etanol no mercado brasileiro. 

Os segmentos de defensivos agrícolas e de fertilizantes registraram desempenho recorde no Brasil em 2011 e devem manter os níveis conquistados, mas sem crescimentos expressivos em 2012.

Mercado de trabalho, salários e preços

O aquecimento do mercado de trabalho já não é apontado espontaneamente como um problema, embora muitos ainda demonstrem preocupação quando questionados. A maior dificuldade agora parece estar concentrada em trabalhadores especializados.

A maioria dos setores planeja um aumento salarial inferior em termos nominais ao de 2011. Alguns segmentos da produção industrial começam a colher os resultados de investimentos em automação e produtividade feitos ao longo de 2011.

Ao mesmo tempo, há sinais de labor hoarding (poupança de trabalho): dada a dificuldade de contratação enfrentada no passado e à perspectiva de reaquecimento da economia adiante, alguns preferem não demitir no curto prazo, mesmo que isso implique manter o recurso parcialmente ocioso.

No lado dos preços, a maior pressão segue nos setores de serviços, que vêm reportando elevação de 10 a 15%, com pouca resistência da demanda. A necessidade de repasse do aumento do salário mínimo explica parte da alta. Entre os bens industrializados, o risco de inflação é mais claro em setores impactados pelas altas das commodities e pelas políticas do governo de proteção à indústria doméstica.

Setores expostos à competição externa, por sua vez, continuam vendo pouco espaço para repasse de preços.

Os preços de imóveis seguem relativamente estáveis nos últimos trimestres, depois de fortes altas até 2010. A perspectiva do setor é de que a estabilidade se mantenha este ano. Na cidade de São Paulo as vendas de imóveis residenciais novos vêm crescendo em ritmo inferior à oferta desde meados de 2011, gerando alguma ociosidade. Os custos de insumos (fora mão de obra) subiram pouco nos últimos meses e vêm deixando de ser uma preocupação. Os dissídios devem voltar a ser elevados este ano (planejados entre 6% e 8%), embora mais baixos do que os de 2011 (ao redor de 10%).

Nossa visão

Esperamos que a economia volte a crescer este ano, depois de estagnar no segundo semestre de 2011. A produção industrial cresceu 0,9% em dezembro (dado dessazonalizado), com destaque para crescimento de veículos e a "linha branca", esta última beneficiada com a redução de IPI no início de dezembro. O varejo também voltou a crescer e deve seguir em bom ritmo, agora embalado pelo impacto do salário mínimo na demanda.

A produção de veículos recuou quase 10% em janeiro, indicando nova pausa na produção industrial. Os estoques altos começaram a se normalizar. Porém, é de se esperar que, nos próximos meses, o aumento da demanda puxará a oferta. Nossa projeção para o PIB do primeiro trimestre continua a mesma: 0,8% de crescimento sobre o trimestre anterior, acelerando nos trimestres subsequentes até atingir 1,7% na média do segundo semestre. A projeção para 2012 segue em 3,5%.

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