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Educação, produtividade e crescimento

Janeiro 26, 2016

A educação parece ser a estratégia mais segura para garantir o crescimento do país no longo prazo.

Artigo publicado no dia 26/01/2015 no Valor Econômico.

Em meu artigo anterior neste espaço, falei sobre a evolução do bem-estar dos brasileiros nos últimos anos, medido pelo índice que calculamos na área econômica do Itaú. O índice mede aspectos econômicos, sociais e de distribuição de renda. Neste artigo quero me aprofundar um pouco mais em um dos componentes que considero mais importantes do índice, a educação. Mais precisamente, uma dimensão da educação que tem sido objeto mais atento de estudo da literatura econômica nos últimos anos e que pode ser determinante para o bem-estar de um indivíduo ao longo de toda sua vida: a educação na primeira infância, ou seja, do nascimento até o início da escola

É bem estabelecido na literatura de psicologia e economia que os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento pessoal e de renda de um indivíduo. Crianças expostas à estimulação adequada, acompanhamento próximo dos pais ou responsáveis e a um ambiente saudável - o que envolve inclusive boas condições de saúde, saneamento e alimentação - têm maior probabilidade de desenvolver sua capacidade cognitiva, ou seja, de competência para interpretar, refletir, raciocinar, assimilar ideias complexas, etc. E o aumento da cognição está correlacionado com melhor desempenho escolar e, por conseguinte, maiores chances de sucesso profissional na vida adulta.

Estudos recentes vão além e analisam os ganhos de longo prazo do desenvolvimento de aspectos não cognitivos na primeira infância. Em artigo publicado neste começo de ano ("Early Childhood Education and Social Mobility") o vencedor do prêmio Nobel, James Hackman, e outros argumentam que habilidades socioemocionais - como capacidade de gerir emoções, controlar impulsos, socializar, tomar decisões autônomas, etc - podem ser até mais importante no desenvolvimento intelectual do que as capacidades cognitivas.

Outro artigo, de dois pesquisadores da Universidade de Maryland (Bullying in Teenagers: The Role of Cognitive and Noncognitive Skills), mostra que estudantes com bom desenvolvimento socioeconomocional têm chances bem menores de sofrerem "bulling" ou "cyberbulling" durante a adolescência. "Bulling", segundo o artigo, leva a consequências muito negativas, ao aumentar significativamente a evasão escolar e a probabilidade de suicídio entre jovens. Na Coreia do Sul, um país aclamado por seu avanço na educação nas últimas décadas, principalmente pelo desenvolvimento das habilidades cognitivas dos estudantes, um adolescente (entre 10 e 19 anos) se suicida por dia.

O Brasil esteve atento para a importância da educação e as condições de saúde e saneamento na primeira infância, com avanços importantes nas últimas décadas. Entre 2001 e 2013, o percentual de crianças de 0 a 3 anos em creches subiu de 14% para 28%. Entre 4 e 5 anos, o percentual já se aproxima de 90%. O número de creches aumentou consideravelmente no período, abrindo espaço para esta melhora. As condições de saneamento das famílias (e, por conseguinte, das crianças) também melhoraram. O percentual da população com banheiro em domicílio supera 95%. A população com acesso a saneamento básico avançou de 39% em 1992 para 58% em 2014.

Com condições iniciais melhores, somadas a outras políticas, os resultados vem aparecendo. A taxa de mortalidade infantil até 5 anos caiu de 61 (em mil) em 1990, para 16 em 2014. Partindo de condições melhores na primeira infância, as crianças/adolescentes acabam ficando mais tempo na escola. Em 1992 os brasileiros estudavam 4,8 anos, em média.

Em 2014, o número subiu para 8 anos.

Com esses resultados, a produtividade da mão de obra no Brasil deveria estar aumentando, contribuindo para o crescimento do PIB potencial do país. No entanto, as estimativas de evolução da produtividade calculadas a partir das contas nacionais e dos números do mercado de trabalho sugerem que, na melhor das hipóteses, a produtividade ficou constante. Por que isso acontece?

Existem algumas possíveis explicações. Primeiro, em que pese os avanços, as condições socioeconômicas para dar às crianças boas condições de desenvolvimento no Brasil ainda estão longe dos padrões internacionais.

Segundo, houve avanço na quantidade de pessoas na escola e de tempo de permanência, mas não há sinais de que houve melhora na qualidade do ensino. A nota dos alunos brasileiros no Pisa (Programa Internacional de avaliação de alunos), por exemplo, vem se mantendo constante desde a década de 90, em níveis significativamente inferiores à média da OCDE. Terceiro, o país ainda não parece ter encontrado a melhor forma de gerar incentivos, via legislação, na direção de aumentos de produtividade. Desta forma, o impulso gerado pela educação, em países com legislações mais flexíveis, pode estar amortecido no Brasil.

Esses fatores sugerem que os avanços recentes não bastam. Isto, aliado à sólida evidência empírica de que habilidades cognitivas e não cognitivas impulsionam o desenvolvimento individual, deveriam trazer a educação e os cuidados com a primeira infância para o centro do debate público brasileiro. De fato, esta parece ser a estratégia mais segura para garantir o crescimento do país no longo prazo.


Caio Megale, mestre em economia pela PUC-RJ, é economista do Itau-Unibanco


 

 



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