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Confiança e realidade

Julho 26, 2016

É fundamental que as reformas avancem para que a melhora da confiança se sustente e impulsione a economia.

Por Caio Megale – 26/07/2016 – Valor Econômico

Vem sendo um longo e frio inverno. A economia brasileira entrou em recessão no segundo trimestre de 2014 (antes mesmo do 7x1) e não saiu até agora. Se a projeção do Itaú para a variação do PIB do segundo trimestre estiver certa (-0,7%), a queda desde o pico terá sido próximo a 8%. A taxa de desemprego subiu quatro pontos percentuais no período.

O clima, no entanto, está mudando. As sondagens com indústria e consumidor começam a mostrar uma volta importante da confiança, especialmente por conta de expectativas melhores no futuro (veja o gráfico). Os estoques na economia vêm recuando e os custos de produção estão menos pressionados. A perspectiva de uma política econômica mais estável e eficiente, que leve à queda da inflação e das taxas de juros, reforça a percepção de melhora da economia.
 

O otimismo também contagiou o mercado financeiro. O Ibovespa subiu 30% este ano (50% desde o vale, em meados de janeiro) e a taxa de câmbio se valorizou quase 20%. O CDS spread, uma medida de risco país, caiu pela metade, de 500 para menos de 300 pontos. É verdade que parte deste movimento foi global, após a sinalização dos bancos centrais do G-7 (especialmente o Fed) de políticas monetárias ainda mais expansionistas. Mas os ativos brasileiros apresentaram um desempenho acima da média dos emergentes, por conta dos fatores domésticos.

As contas públicas seguem deficitárias e o grau de alavancagem pública e privada ainda é elevado

Esta melhora da confiança e do ambiente de mercado é fundamental para a retomada da atividade. A confiança desperta o "espírito animal" dos agentes econômicos, que voltam a investir e consumir, fazendo a roda da economia girar. No entanto, a confiança não funciona como instrumento mágico que, por si só, pode sustentar o crescimento. Como ensinava um professor do tempo do mestrado, não se trata de "hocus-pocus economics": as expectativas têm uma contrapartida direta com a realidade. Sem uma melhora dos fundamentos, cedo ou tarde as expectativas voltam a piorar.
 

E como estão os fundamentos da economia brasileira? Em boa parte, de fato melhores do que no passado recente. A taxa de câmbio está mais próxima de seu equilíbrio, o que permitiu o ajuste das contas externas. Os preços administrados se realinharam, e, depois de um período de alta, a inflação começa a recuar. O excesso de oferta gerado pela demanda artificialmente inflada vem sendo corrigido, ainda que com o penoso custo de demissões e fechamento de plantas e pontos comerciais. A política econômica parece mais coesa e alinhada com a busca da eficiência.

O fundamental ajuste das contas públicas, no entanto, ainda está por vir. Não adianta uma nova equipe de bordo, motor mais potente, ajustes na aerodinâmica, se persiste o rombo no casco do navio. O comprometimento da equipe econômica com o ajuste fiscal está claro, mas sabemos que o processo é longo e difícil. O limite para o crescimento dos gastos é importante, mas não basta. São necessárias medidas que tornem factível seu cumprimento. A lista é longa, começando pela reforma da previdência, desvinculações, e passando por racionalização de gastos em diversas frentes. É preciso também equacionar as finanças de Estados e municípios e de algumas empresas estatais.

E mesmo com estas medidas implementadas, o resultado primário (receitas menos despesas não financeiras) deve continuar negativo até 2020, pressionando a dívida pública. Para um ajuste mais tempestivo será importante acelerar as concessões públicas e buscar outras receitas extraordinárias. Um aumento de carga tributária também não foi descartado pelo governo.

Se o ajuste fiscal não progredir, o déficit se perpetuará, com reflexos na percepção de risco Brasil. Os ativos financeiros podem voltar a perder valor, especialmente a taxa de câmbio, pressionando a inflação. O espaço para cortes de juros ficaria menor, pesando sobre a retomada da economia. Juros mais altos e crescimento menor piorariam a dinâmica da dívida pública, realimentando as preocupações fiscais.

Desta forma, apesar dos avanços e das claras intenções da equipe econômica, é cedo para afirmar que o trem da economia brasileira voltou para o trilho. É compreensível que, antes das definições políticas de agosto, as medidas mais complexas fiquem de molho. Mas depois disso, o tempo é curto e a sensibilidade dos mercados pode ser maior. Especialmente se o cenário global mudar, por conta dos efeitos do Brexit, crise na Turquia, risco do Fed retomar alta de juros e/ou incerteza nas eleições americanas.

As perspectivas melhoraram para a economia brasileira, algo perceptível nas interações com o setor real e nos preços dos ativos financeiros. Há razões para o otimismo, mas é cedo para relaxar. As contas públicas seguem deficitárias e o grau de alavancagem pública e privada ainda é elevado. É fundamental que as reformas avancem para que a melhora da confiança se sustente e efetivamente impulsione a economia.


Caio Megale é economista do Itaú Unibanco
 



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