Itaú BBA - Bem-estar piorou em 2015

Nossos Artigos

< Voltar

Bem-estar piorou em 2015

Dezembro 22, 2015

É preciso celeridade nos ajustes e consenso político para que se possa minimizar esse período de dificuldades

Há evidências crescentes de que as medidas tradicionais de desempenho econômico, como PIB e consumo, não refletem adequadamente a evolução do bem­estar da sociedade. Nos últimos anos, muito esforço prático e teórico tem sido feito em busca de indicadores alternativos para medir avanços de bem­estar, qualidade de vida e felicidade das pessoas.

O assunto é cada vez mais relevante. A premiação do Nobel de Economia deste ano a Angus Deaton, que se dedicou a desenvolver um entendimento mais profundo entre a relação entre níveis de consumo e bem­estar econômico, é evidência disso. Neste sentido, a equipe econômica do banco Itaú construiu em 2012 um índice ­ Índice Itaú de Bem­Estar Social ­ para contribuir com esse campo crescente de pesquisa.

O índice é composto por três subindicadores de igual peso: condições econômicas, condições humanas e desigualdade social. O bloco de condições humanas contempla aspectos como educação, saúde e saneamento, segurança, meio ambiente e tempo para lazer. As condições econômicas incluem medidas de emprego, renda e consumo. O subindicador de desigualdade inclui uma medida de desigualdade de renda ­ o tradicional índice de Gini ­ e métricas que buscam medir desigualdade de gênero, como participação das mulheres no mercado de trabalho e diferença salarial entre homens e mulheres.

Algumas das estatísticas que compõem o indicador são publicadas em alta frequência. É o caso dos dados de emprego e consumo, das condições econômicas. Outros, no entanto, demoram a vir a público. Com a publicação da detalhada pesquisa PNAD 2014 em outubro, um raio­x dos domicílios brasileiros feito pelo IBGE, foi possível completar o índice de Bem­Estar para 2014.

 Os resultados mostram que, até o ano passado, o bem­estar do brasileiro seguia melhorando.

Os principais responsáveis por essa melhora eram os subindicadores de condições econômicas e de desigualdade. Até 2014, os indicadores econômicos seguiam muito positivos. No último trimestre do ano passado, a taxa de desemprego atingiu o patamar mais baixo das últimas décadas. O consumo seguiu crescendo, impulsionado por estímulos fiscais e parafiscais. Do lado da desigualdade, o índice de Gini manteve sua tendência de queda, chegando a 0,489 em 2014, frente a 0,495 em 2013 e 0,496 em 2012 (o indicador é calculado de forma que números menores indicam menor desigualdade de renda).

A desigualdade de gênero também mantém uma tendência de melhora contínua, ainda que seus ganhos tenham desacelerado nos últimos anos. A diferença de salários pagos a homens e mulheres tem diminuído consistentemente desde 1995, provavelmente devido à grande diferença existente na década de 1990, quando o salário médio pago às mulheres era equivalente a aproximadamente 50% do salário médio pago aos homens. A diferença tem diminuído significativamente, chegando a 70,4% em 2014, frente a 69,8% em 2013 e 69,1% em 2012.

Porém, é possível que, quando essa diferença estiver próxima ao patamar observado na maioria dos países desenvolvidos, o indicador comece a estagnar. Já a taxa de participação das mulheres na força de trabalho aumentou de forma importante na década de 1990 e 2000. Desde então, se estabilizou em patamares ainda abaixo dos observados em países desenvolvidos.

Nos indicadores de condições humanas, especialmente nos quesitos educação, lazer e saúde e saneamento, também houve melhora até 2014, mas muito mais tímida. Esses aspectos, que foram um grande impulsionador do bem­estar do brasileiro até o início dessa década, parecem estar se estabilizando. O número médio de anos de estudo, por exemplo, aumentou marginalmente para 8,05 em 2014, contra 7,93 em 2013 e 7,83 em 2012. A taxa de analfabetismo ficou em 7,6% em 2014, relativamente estável desde 2011. Com relação ao lazer, os brasileiros estão trabalhando menos horas, porém gastando mais tempo no deslocamento até o local de trabalho. Essas tendências opostas levaram o indicador a permanecer relativamente estável, também contribuindo para reduzir os ganhos do subindicador de condições humanas.

Para 2015 há estatísticas disponíveis apenas para as condições econômicas. Como se sabe, elas não são favoráveis. A taxa de desemprego já escalou mais de três pontos percentuais, a inflação ultrapassa os dois dígitos e o consumo das famílias está em queda pela primeira vez em 11 anos. A intensidade da piora da economia deve fazer com que as medidas de bem-estar recuem em 2015, ainda que haja melhora em outros aspectos. Além disso, apesar dos subindicadores do bem­estar não andarem necessariamente juntos no curto prazo ­ é exatamente isso que faz os indicadores amplos como esse serem oportunos ­ no longo prazo eles acabam se encontrando. Como é muito provável que essa piora nas condições econômicas se mantenha em 2016, mais cedo ou mais tarde ela pode afetar os demais aspectos do bem­estar.

Nas últimas décadas, a qualidade de vida do brasileiro melhorou sensivelmente. No entanto, já havia sinais de que os avanços nos últimos anos estavam desacelerando, ou necessitavam de estímulos contínuos para continuar avançando. Este ano, com o fim do espaço para estímulos e a crise econômica, vamos recuar pela primeira vez em muitos anos. É preciso celeridade nos ajustes e consenso político, para que possamos minimizar esse período de dificuldades e retomar o avanço.

Caio Megale, mestre em economia pela PUC­RJ, é economista do Itau­Unibanco

 



< Voltar