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Aconteceu em Israel

Janeiro 31, 2017

O comprometimento com o regime de metas de inflação e controle fiscal, permitiu a Israel alcançar a estabilidade de preços.

Por Mario Mesquita – 15/12/2016 – Valor Econômico

Israel é uma economia moderna, avançada e altamente integrada nas correntes de comércio internacional. Conta também com um setor de alta tecnologia dinâmico, que se beneficia do elevado nível educacional da população. A economia vive plena estabilidade de preços e tem mantido taxas de inflação e juros consistentes com seus principais parceiros comerciais - a União Europeia e os EUA - desde o início do século.

Mas nem sempre foi assim. A economia israelense experimentou um período de inflação muito elevada nos anos 70 e 80 do século passado, A inflação, em trajetória parecida àquela observada no Brasil, saiu de 12% em 1972 para 56% em 1974, depois da Guerra do Yom Kippur e do primeiro choque do petróleo. A inflação dobrou para a casa dos 100-130% ao ano após o segundo choque do petróleo e acelerou fortemente em 1983 e 1984, após a Guerra do Líbano.

Israel acabou adotando um plano de estabilização, em julho de 1985, que combinava intervenções heterodoxas no sistema de preços e ajuste fiscal (visando restaurar a sustentabilidade das contas públicas), bem como limites à monetização de déficits fiscais. Este plano logrou acabar com a hiperinflação, a taxa média de variação dos preços ao consumidor saiu de 191% em 1983 para 445% em 1984, retrocedeu para 185% em 1985, o ano do plano, e atingiu 19,6% em 1986. Ao contrário do Brasil do Cruzado, o plano heterodoxo israelense funcionou, pois foi apoiado por um forte ajuste fiscal (o déficit público caiu de 13% do PIB para zero entre 1984 e 1986) e contou também com apoio externo.

Experiência israelense sugere que desindexação completa não é condição necessária para atingir a estabilidade de preços

Mas o processo de desinflação desacelerou marcadamente após um período inicial. Israel de fato parece ter migrado de um processo de hiperinflação para uma inflação crônica, definido na literatura acadêmica como inflação entre 15 e 30% ao ano por pelo menos três anos - a inflação variou de 17,8% a 24,8% ao ano entre 1986 e 1991. A partir de 1992, com a introdução de uma âncora cambial, e com o benefício da expansão da oferta de trabalho ocasionada por uma importante onda imigratória, a inflação caiu para a vizinhança dos 10% ao ano, onde estacionou. Finalmente, a partir de 1997 a inflação caiu para níveis de um dígito. É esse segundo degrau, de cerca de 10% para algo em torno de 2%, que pode ser visto como uma definição operacional de estabilidade de preços, que me parece mais interessante como exemplo do que pode vir a ocorrer por aqui.

Cabe notar que a desinflação da faixa de 10% para 2% não coincidiu com um programa amplo de desindexação. Houve um aumento da competição no setor de telecomunicações, o que propiciou queda de preços no setor, mas não a eliminação de mecanismos de indexação nos mercados de trabalho e capital. Isso não quer dizer que a indexação deixe de atrapalhar e aumentar o custo da desinflação, mas a experiência israelense sugere que desindexação completa não é condição necessária para o atingimento da estabilidade de preços - e muito menos pode servir de desculpa para postergar esse movimento.

A mudança do marco legal do Banco de Israel só ocorreria em 2010, bem depois da etapa final de desinflação, mas o banco vinha atuando com autonomia de fato pelo menos desde os anos 1990. A partir de 1997, o governo se comprometeu a reduzir o déficit público, dando suporte à desinflação. Mais importante, a ambiguidade pré-existente em relação ao papel da política monetária, defender uma banda cambial ou atingir meta para a inflação, foi resolvida em favor da segunda de forma clara, com a ampliação e posterior eliminação da banda. A maioria das análises dessa etapa final da desinflação israelense atribui grande importância ao amadurecimento do regime de metas para a inflação.

A economia israelense sofreu uma forte reversão cíclica na virada do século, associada ao final do boom de tecnologia da informação nos EUA, bem como certo recrudescimento de problemas geopolíticos. O crescimento do PIB se deslocou de 8,9% em 2000 para -0.1% em 2001 - a expansão anual média do produto foi de apenas 0,5% em 2001-03, ante 4,7% entre 1980 e 2000. A taxa de desemprego também subiu, atingindo um máximo histórico em 2003.

A recessão ocasionou um aumento do hiato de produto e, consequentemente, pressões desinflacionárias. O Banco de Israel reagiu mantendo uma postura de política monetária conservadora, e, com isso, conseguiu convencer o público sobre seu compromisso com a estabilidade de preços - as taxas de juros reais curtas tiveram média próxima a 6% ao ano em 2002-03. E, na medida em que a inflação corrente cedeu, as autoridades israelenses procuraram travar taxas de inflação permanentemente mais baixas, e reduziram a meta de 7-10% em 1998 para 4% em 1999 e 3-4% em 2000.

O comprometimento com o regime de metas para a inflação e com o controle fiscal, em um contexto recessivo, permitiu a economia israelense alcançar a estabilidade de preços antes de completar a desindexação e de aprimorar o arcabouço legal do Banco de Israel.

A combinação de uma recessão profunda e prolongada, com mudanças institucionais importantes, como o recém- aprovado limite para o crescimento dos gastos públicos, e uma política monetária apropriada, pode levar o Brasil a experimentar uma mudança de patamar inflacionário. Aconteceu em Israel, pode acontecer aqui também, mas vai ser preciso reduzir a meta.
 

Mario Mesquita é economista-chefe do Itaú Unibanco



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