Itaú BBA - Quanto as expectativas de inflação de 2017 podem cair?

Macro Visão

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Quanto as expectativas de inflação de 2017 podem cair?

Julho 15, 2016

Acreditamos que, no prazo de 3 meses, os ganhos nas expectativas de 2017 podem ser de 40-50 pontos-base

O Banco Central (BC) vem reafirmando o compromisso de levar a inflação para a meta de 4,5% a.a. no fim de 2017, ou seja, no prazo de um ano e meio a partir de agora. 

Construímos uma medida de expectativa de inflação nesse horizonte (18 meses à frente) e mostramos que a sua evolução depende da inércia, do hiato do mercado de trabalho, da ancoragem das expectativas de inflação e das expectativas dos agentes em relação à taxa de câmbio.

Acreditamos que, no prazo de três meses até a divulgação do próximo relatório de inflação, os ganhos nas expectativas de 2017 podem ser de 40-50 pontos-base, caso a taxa de câmbio estabilize num patamar próximo a 3,25 reais por dólar e as expectativas de inflação de prazos mais longos (2018 e 2019) estejam ancoradas na meta.

O papel das expectativas de inflação e sua recente evolução

No Relatório Trimestral de Inflação (RTI) do segundo trimestre, publicado no fim de junho, o Banco Central afimou que, diante das condições atuais, não há espaço para redução de juros. A autoridade monetária enfatizou que a continuidade nos avanços do combate a inflação depende, entre outros fatores, da aprovação e implementação de ajustes, principalmente os fiscais. Se aprovadas, essas medidas fiscais devem ter efeitos positivos sobre o risco-país e a taxa de câmbio, impactando as expectativas de inflação.

Ao longo dos últimos meses, as expectativas de inflação vêm recuando (ver Tabela 1 e Figura 1)[1]. Para o fim de 2016, a média das estimativas de mercado caiu de 7,6%, em março, para 7,3%, no início de julho. A queda foi ainda mais intensa para prazos mais longos: a média das expectativas de 2017 recuou para 5,4% (ante 6,1% em março), e a de 2018, para 4,9% (ante 5,6%). Ainda assim, o BC indicou que precisa ver quedas maiores nas expectativas de inflação nos próximos meses para ter espaço para flexibilizar a política monetária.

De forma a determinar quais podem ser os ganhos de expectativa de inflação nos próximos meses, construímos uma série histórica da inflação esperada nos próximos 18 meses[2] (Figura 2). Focamos no horizonte temporal de um ano e meio, que coincide, hoje, com o fim de 2017. Esse prazo é importante já que o BC reafirmou no relatório de inflação o propósito de convergência da inflação para a meta de 4,5% em 2017.

Determinantes das expectativas de inflação 18 meses à frente:

Regredimos as expectativas de inflação 18 meses à frente em quatro fatores:

  1. Uma medida de hiato no mercado de trabalho[3];
  2. Inércia inflacionária;
  3. Expectativas de inflação três anos à frente como proxy para meta de inflação percebida pelos economistas como perseguida pelo BC[4];
  4. Variação da taxa de câmbio esperada um ano à frente[5].

A Tabela 2 mostra que essa regressão tem alto poder explicativo.

Um aumento de 1 ponto percentual na inflação acumulada nos últimos 12 meses aumenta as expectativas de inflação em 0,15 p.p., enquanto o mesmo aumento na meta percebida pelos economistas como a meta de inflação perseguida pelo BC aumenta as expectativas em 0,9 p.p.

Se os agentes passarem a projetar um câmbio 10% mais apreciado um ano à frente, por sua vez, as expectativas de inflação recuam 0,25 p.p.

Quais devem ser os ganhos das expectativas de inflação um ano e meio à frente nos próximos meses?

Os ganhos nas expectativas nos próximos meses dependem de dois fatores:

  1. Ancoragem das expectativas de inflação para que a meta percebida pelos economistas como aquela perseguida pelo BC (expectativas de inflação três anos à frente) recue para 4,5% a.a. (dos atuais 4,8%).
  2. Taxa de câmbio esperada pelos agentes de mercado um ano à frente seja mais apreciada, o que, por sua vez, depende da taxa de câmbio corrente (ver Tabela 3 no Anexo).

Considerando que:

  1. As expectativas de inflação três anos à frente convergirão para 4,5% em razão do discurso recente da autoridade monetária de comprometimento a levar a inflação para a meta.
  2. Os agentes de mercado vão levar em conta o real mais apreciado (no nível de 3,25[6]) nas suas projeções.

O ganho de expectativas pode chegar a 40-50 p.b. nos próximos três meses (Figura 3).

Vale destacar, no entanto, que ganhos de 40-50 p.b. nas expectativas de inflação 18 meses à frente num intervalo de três meses são historicamente raros (Figura 4). Tais ganhos ocorreram somente em momentos de reversão abrupta do nível de atividade (crise de 2008/2009) e quando o governo sinalizou maior intenção de ajuste fiscal e corte de gastos (início de 2015 e mais recentemente).


 

Julia Gottlieb



[1] Ao longo deste relatório utilizamos a média das expectativas de inflação, e não a mediana (mais comumente utilizada). A escolha pela média foi feita em razão dos movimentos mais suaves do que os da mediana.

[2] Expectativa de inflação 18 meses à frente é uma média simples entre a expectativa de inflação 12 e 24 meses à frente. As expectativas 12 meses à frente são divulgadas pelo Banco Central. Para construir a inflação esperada 24 meses, ponderamos pelo número de dias decorridos no ano as expectativas de inflação no fim do ano seguinte e no fim de dois anos à frente.

Por exemplo, a inflação esperada 24 meses à frente em um determinado momento de 2016 será uma média ponderada entre as expectativas de inflação para o fim de 2017 (o peso é o numero de dias decorridos em 2016) e para o fim de 2018 (o peso é o numero de dias que faltam para completar 2016). Assim, no último dia de 2016, o peso total será dado para as expectativas do fim de 2018.

[3] Desvios do indicador de dificuldade de conseguir emprego da Fundação Getulio Vargas (FGV) em relação a sua média histórica.

[4] Acreditamos que as expectativas de inflação três anos à frente reflitam a visão dos economistas (que elaboram a pesquisa Focus) sobre a meta perseguida pelo Banco Central.

[5] Construída com base nas informações da Focus, da mesma forma que as expectativas de inflação.

[6] Projetamos taxa de câmbio de 3,25 reais por dólar ao fim de 2016.


 

 



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