Itaú BBA - O Europopulismo foi interrompido?

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O Europopulismo foi interrompido?

Março 28, 2017

Europopulismo na Europa pode enfraquecer, mas a situação na Itália preocupa.

Para o relatório completo com gráficos, favor acessar o pdf anexo.

O apoio aos partidos populistas na Europa parece ter atingido seu pico e tende a diminuir à medida que a economia continua se recuperando, os fluxos migratórios diminuem, os líderes da União Europeia (UE) compreendem a necessidade de devolver o poder de Bruxelas para os países membros e exemplos de governos populistas recentes começam a afetar a opinião dos eleitores.

No entanto, o cenário agregado pode esconder perigos a nível nacional.

Com um histórico de crescimento fraco e fortes fluxos de imigração, a Itália parece ser um elo mais fraco do que a França.

Há um consenso crescente ao redor do mundo de que o problema de curto prazo na Europa não é o desempenho econômico, pois o Produto Interno Bruto (PIB) vem crescendo ao ritmo constante de 0,3% a 0,5% t/t desde setembro de 2014.

É a situação política que preocupa, particularmente a ascensão de partidos eurocéticos e populistas observada ao longo dos últimos anos. Em muitos países da UE, um sentimento geral de revolta contra a política convencional, a austeridade, as reformas microeconômicas e a centralização das decisões políticas em Bruxelas tem afastado muitas pessoas do projeto Europeu.

Neste trabalho, portanto, nós definimos europopulismo como uma rejeição às políticas econômicas tradicionais, como livre comércio e banco central independente; apoio ao aumento da interferência política na vida econômica, incluindo a das empresas do setor privado; e, no contexto europeu, aversão a Bruxelas (incluindo medidas de austeridade, políticas de imigração e, em alguns casos, à moeda comum).

A deterioração da economia e as perspectivas sociais após a crise do euro, alinhadas às crescentes preocupações com imigração e terrorismo, levaram à busca de mais independência e controle de fronteiras. Isso resultou no Brexit e na ascensão do Partido pela Liberdade (PVV), liderado pelo ultradireitista Geert Wilders, na Holanda; em um maior suporte para a Frente Nacional (FN), de Marine Le Pen, na França, e para o Movimento 5 Estrelas (M5S) de Beppe Grillo, na Itália; e assim por diante.

No entanto, nem tudo está perdido. Vemos evidências de que o apoio aos partidos populistas pode ter atingido seu pico. Construímos um índice agregado da parcela de apoio aos partidos europopulistas relativa ao total de eleitores europeus, e o índice atingiu um pico em junho de 2016 após a votação do Brexit (ver Gráfico 1)[1].

Acreditamos que esse apoio geral aos partidos populistas ao redor da Europa pode continuar a cair, mas as diferenças entre países ainda são relevantes, conforme discutiremos a seguir.

Apoio ao europopulismo pode começar a cair

Vemos quatro principais razões que poderiam reduzir o apoio a partidos europopulistas.

Em primeiro lugar, a economia está se recuperando e o desemprego está em queda. O desemprego na zona do euro caiu de 12,1%, em abril de 2013, para 9,6%, em janeiro de 2017 (ver Gráfico 2). O crescimento do PIB aumentou de -0,9%, em 2012, para 1,7%, em 2016, e deve continuar crescendo a um ritmo semelhante em 2017. Os PMIs de manufatura, que servem como um indicador antecedente da atividade industrial e, portanto, da criação de emprego nos setores em que o discurso nacionalista eurocético causa mais impacto, vêm subindo em todas as principais economias da zona do euro e estão atualmente bem distantes das leituras fracas registradas a partir de julho de 2012, durante a crise da zona do euro. A recuperação dos dados de atividade é principalmente uma consequência do estímulo do Banco Central Europeu (BCE) e das reformas estruturais empreendidas em muitos países europeus, o que alivia parcialmente a pressão dos governos e a necessidade de medidas de austeridade extremas. Isso cria menos espaço para que políticos eurocéticos possam explorar as frustrações das pessoas e direcioná-las contra os governos tradicionais.

Em segundo lugar, a imigração está diminuindo. Até governos tradicionais estão adotando medidas mais fortes em relação à imigração e ao controle de fronteiras, o que ajuda a evaporar parte do combustível que impulsiona os movimentos eurocéticos nacionalistas. A recente derrota do partido eurocético PVV nas eleições da Holanda pode ser vista como um exemplo de que essa abordagem mais dura sobre a imigração está sendo bem recebida. Além disso, o acordo de março de 2016 referente à crise migratória entre UE e Turquia ajudou a reduzir a migração e a aliviar as pressões provenientes dessa questão. O número de pedidos de asilo mensais na UE, uma boa proxy para os dados de migração, vem caindo drasticamente desde agosto de 2016 (138.145 pedidos), e o número mais recente de janeiro de 2017 (26.040 pedidos) é o mais baixo desde junho de 2012 (24.875 pedidos) – (ver Gráfico 3).

Em terceiro lugar, os líderes de Bruxelas parecem ter percebido que alguma devolução de poder aos governos nacionais pode ser justificada. Os líderes da UE começaram a trabalhar juntos, ao mesmo tempo em que admitem a necessidade de descentralizar o poder. Em 1º de março, a Comissão Europeia propôs cinco cenários focados na construção do futuro da Europa. O destaque é que alguns dos cenários favorecem uma maior descentralização do poder hoje concentrado em Bruxelas, com muitos líderes da EU manifestando preferência pela proposta que dita que "aqueles que querem mais, fazem mais", por ocasião da conferência informal realizada nos dias 8 e 9 de março. Além disso, o acordo compartilhado sobre as medidas para conter a migração, finalizar a união bancária e assumir uma linha dura nas negociações do Brexit mostra que a UE está focada em permanecer unida, fomentando a integração com representação.

Por fim, as recentes vitórias europopulistas não estão conseguindo chegar à altura das expectativas dos eleitores. Na Grécia, o aparente fracasso do governo liderado pelo partido de esquerda Syriza em recuperar a economia grega está causando conflitos constantes com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e os credores da dívida. Na Itália, o governo confuso que o M5S vem protagonizando em Roma deve começar a impactar o apoio ao partido entre os eleitores. Por último, mas não menos importante, o iminente acionamento do artigo 50 do Tratado de Lisboa e o início subsequente das negociações do (hard) Brexit devem ter resultados prejudiciais para a economia britânica, o que prejudicaria ainda mais o apoio aos eurocéticos.

Diferenças entre os países devem ser monitoradas

Vamos agora analisar questões específicas dos membros da União Europeia.

Olhando para os fatores que impulsionam o apoio ao europopulismo, destacamos que a Alemanha possui os maiores fluxos de imigração, ao passo que a Grécia apresenta a crise econômica mais profunda. Em 2016, a Alemanha recebeu cerca de 745 mil pedidos de asilo (Gráfico 5), quase 60% do total do ano e cerca de 0,9% da população do país (Gráfico 4). A Grécia não enfrenta desafios significativos em termos de migração, mas possui um dos piores desempenhos econômicos desde a adesão ao euro, culminando na maior taxa de desemprego do bloco, em 23% (Gráfico 6).

A França também enfrenta um desafio significativo. O país tem uma das maiores taxas de desemprego da Europa (Gráfico 6), sendo também o destino de uma quantidade considerável de pedidos de asilo (Gráfico 5).

O Reino Unido tem problemas intra-União Europeia. Olhando para a redução da participação dos pedidos de asilo no período 2014/16 (Gráfico 4), bem como o crescimento alto e o desemprego baixo (Gráfico 6), pode-se perguntar como o euroceticismo conseguiu crescer e levar o povo britânico a votar a favor do Brexit. No Reino Unido, foram os níveis elevados de imigração intra-UE, provenientes da Europa Oriental (especialmente da Polônia), que alimentaram o desejo de sair da UE, e esse fluxo não está representado nesse gráfico.

A Itália é o país com a combinação mais preocupante de fluxos migratórios altos, desemprego alto e crescimento baixo, fatores que alimentam o europopulismo. Sendo uma porta de entrada para a Europa, a Itália tem sido um dos países mais afetados pelos fluxos migratórios (ver Gráficos 4 e 5), enquanto sua economia estruturalmente fraca luta para competir com os outros membros da zona do euro. A taxa composta de crescimento anual (CAGR, na sigla em inglês) da Itália desde a adoção do euro registrou apenas 0,3%, enquanto a taxa de desemprego atual é de 11,9%, atrás apenas da Grécia e da Espanha (ver Gráfico 6).

Riscos de populismo em outros países parecem modestos de acordo com esta análise. A Espanha, no momento, mostra crescimento elevado e pouca afluência de imigração. A taxa de desemprego de 18% ainda é bastante elevada, mas caiu significativamente em relação aos níveis observados em 2013, em torno de 26%. O alto crescimento deve continuar à frente, à medida que o hiato do produto fecha, limitando a ascensão do partido europopulista Podemos. Portugal enfrenta problemas econômicos, mas quase nenhum afluxo de imigração. Por fim, a Holanda enfrenta alguma imigração, mas possui fundamentos econômicos fortes. Não é nenhuma surpresa, portanto, que o primeiro-ministro Mark Rutte tenha vencido as eleições de 15 de março fazendo alguns ajustes à sua posição frente à questão da imigração.

Olhando para as principais economias com eleições se aproximando, nós acreditamos que o principal risco está na Itália (e não na França), enquanto a Alemanha pode ter surpresas positivas.

Vamos agora olhar mais de perto a situação política desses três países.

França – A insurgência de Marine Le Pen não é nova

Graças à sua presença de longa data no espectro político francês, Marine Le Pen conseguiu construir uma base leal de aliados ao longo dos anos. Não é nenhuma surpresa, portanto, que a sua fatia das intenções de voto não tenha se alterado desde a definição de todos os candidatos presidenciais (ver Gráfico 7). Por outro lado, o candidato independente Emmanuel Macron conseguiu subir de 16% das intenções de voto no início de dezembro de 2016 para 26% em março de 2017. Isso foi devido à queda do republicano François Fillon, após alegações de nepotismo, e à aliança forjada com o centrista François Bayrou no fim de fevereiro. Em 20 de março tiveram início os debates ao vivo, e é provável que outros candidatos ganhem força, enquanto Le Pen continua com sua parcela estabelecida das intenções de votos.

A rejeição à extrema-direita na França remonta à década de 1970 (ou mesmo à de 1940). Le Pen, a líder nacionalista de extrema-direita, vem puxando o movimento antissistema, reforçando que o Brexit, a eleição de Trump e o referendo italiano no ano passado são sinais de que as pessoas precisam de alguém que consiga fazer a transição de velhos modelos políticos para um novo tipo de governo. No entanto, seu partido não é assim tão recente: a Frente Nacional vem defendendo medidas populistas de extrema-direita, desde sua fundação em 1972, e se opôs à UE desde a sua criação. A própria sra. Le Pen integra o partido desde 1986 e assumiu sua liderança em 2011, tomando o lugar de seu pai, Jean-Marie Le Pen, fundador da FN. Jean-Marie foi derrotado pelo republicano Jacques Chirac no segundo turno das eleições presidenciais de 2002 por 82% a 18%.

Se a aparentemente entrincheirada aversão dos eleitores franceses à extrema direita se mantiver, é altamente improvável que as eleições francesas resultem em vitória para o euroceticismo. Examinando as pesquisas de segundo turno, podemos observar que tanto Macron quanto Fillon têm fortes chances contra Le Pen (ver Gráfico 8). É razoável concluir que o sistema eleitoral de dois turnos na França foi desenvolvido especialmente para bloquear candidatos extremistas, e esse sistema ainda não falhou.

Alemanha – Ambos os resultados são positivos para a Europa

O partido eurocético alemão Alternativa para a Alemanha (AfD) tem ido mal nas pesquisas de intenção de votos (ver Gráfico 9), o que deixa as eleições de 24 de setembro na Alemanha com dois possíveis resultados pró-Europa. Se o União Democrata-Cristã (CDU), de Angela Merkel, vencer as eleições, podemos esperar manutenção da posição da Alemanha, o que é positivo para a Europa apesar da postura relativa à austeridade. Por outro lado, sua derrota pode abrir caminho para uma Alemanha menos rígida no aspecto fiscal, pois o candidato do Partido Social Democrata (SPD), Martin Schulz, vê o superávit em conta corrente alemão de 9% do PIB como muito alto para o bem do país e planeja aumentar os gastos fiscais no maior país da zona do euro, o que traria efeitos positivos pelo lado da demanda para o restante do bloco. Tendo sido presidente do Parlamento Europeu até novembro de 2016, Schulz é um político pró-Europa que trabalharia duro para aumentar a integração intra-UE.

Itália – O verdadeiro elo fraco 

Voando sob o radar, já que nenhuma eleição está marcada para este ano, encontra-se o dilema político da Itália. Após o fracasso dramático da reforma política com o resultado do referendo de 4 de dezembro de 2016 e a subsequente renúncia de Matteo Renzi, houve especulações de que novas eleições ocorreriam imediatamente, trazendo a possibilidade de ascensão do comediante que virou político, Beppe Grillo, ao poder, sob a bandeira eurocética do M5S. Enquanto temos consistentemente defendido a posição de que não haverá nenhuma antecipação de eleição, estamos cada vez mais preocupados com o fato de que a tentativa de Renzi de unificar seu Partido Democrático (PD) em torno de uma bandeira reformista acabe lhe custando não só a liderança do partido (a ser votada em 30 de abril de 2017), mas também as eleições gerais de maio de 2018. De fato, um grupo de dissidentes mais ligados à esquerda rompeu com o PD em 25 de fevereiro para formar o Movimento Democratas e Progressistas (MDP), e há riscos de uma maior fragmentação dentro do PD. O resultado é que as pesquisas indicam agora que o M5S assumiu a liderança da corrida presidencial, com o enfraquecimento do PD (ver Gráfico 10). Embora concordemos com o consenso de que a Itália precisa de reformas microeconômicas que a permitam alcançar a competitividade necessária para aumentar seu crescimento potencial, as implicações políticas de curto prazo podem significar um aumento das chances de uma vitória europopulista.

Investidores poderão relaxar e relevar a ameaça do europopulismo? 

Como discutimos acima, o quadro geral pode melhorar. Tudo depende da contínua desaceleração da imigração, da recuperação liderada pela demanda interna e da manutenção por parte dos líderes europeus de sua linha mais dura relativa à imigração, ao mesmo tempo em que trabalham para concluir a união bancária e fiscal.

O risco é o timing, uma vez que a paisagem política continuará moldando o futuro de curto prazo da Europa. Enquanto as eleições francesas devem resultar em uma vitória clara para o candidato que disputar o segundo turno contra Le Pen, o cenário italiano é muito mais nebuloso, e a luta política interna conduzida por Renzi e seus reformistas pode acabar aumentando o risco de entregar a terceira maior economia da zona do euro nas mãos de um partido populista.


 

Vitor Fonseca Ferreira



[1] O índice foi criado usando dados de pesquisas nacionais. Apesar da crítica válida quanto a sua eficiência, após terem falhado em prever o Brexit (e a eleição de Donald Trump nos EUA), as pesquisas ainda são úteis na identificação de tendências. O índice usa dados de pesquisas nacionais na França (FN), Itália (5SM), Alemanha (AfD), Espanha (Podemos), Grécia (Syriza), Holanda (PVV), Áustria (FPO), Portugal (Socialistas), Reino Unido (UKIP), Finlândia (Finns) e Dinamarca (DPP). Note que incluímos tanto partidos de esquerda como de direita nessa amostra, de acordo com nossa definição de europopulismo. 


 

Para o relatório completo com gráficos, favor acessar o pdf anexo.

 



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