Itaú BBA - Como é a retomada após uma recessão forte?

Macro Visão

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Como é a retomada após uma recessão forte?

Julho 26, 2016

Encontramos que, após a recessão, países emergentes e da América Latina crescem mais rápido do que a média.

Para o relatório completo com gráficos e tabelas, favor acessar o pdf anexo.

• Analisamos o comportamento do crescimento do PIB em países que passaram por uma recessão forte, com queda acumulada de no mínimo 5% do PIB.

• Encontramos que, após a recessão, a média anual do crescimento do PIB dos primeiros três anos de retomada é de 4,7%. 

• Em média, as recessões duram 3,6 anos e os países levam 4,6 anos para recuperar o nível do PIB antes da recessão.

• Países emergentes e da América Latina historicamente apresentam um ritmo de crescimento maior pós-recessão e com isso, se recuperaram mais rápido.

• Países cujo juro real da economia cai em relação ao período pré-recessão apresentam taxas de crescimento maiores. O mesmo vale para países que tiveram depreciação real da taxa de câmbio.

Como ocorreu a retomada do crescimento do PIB em outros países?

O Brasil atualmente enfrenta uma recessão profunda, em que o PIB retraiu 3,8% no ano passado e uma queda semelhante é esperada para 2016[1]. Com dados do Banco Mundial desde 1980, analisamos o crescimento do PIB de países[2] que, assim como o Brasil, passaram por um período de recessão de pelo menos dois anos consecutivos de contração do PIB, gerando uma queda acumulada de no mínimo 5% do PIB. A amostra inclui 26 países e 34 observações.

No primeiro ano após uma forte recessão, o crescimento médio do PIB é igual a 4,4%, subindo para 5,1% no segundo ano, e chegando a 4,7% no terceiro ano pós-recessão. Assim, a média do crescimento do PIB dos primeiros três anos é de 4,7%.

Quanto crescem os países emergentes e da América Latina após uma recessão?

Dos 26 países da amostra completa, consideramos dois grupos: emergentes[3], que representam 53% da amostra completa, e países da América Latina (LatAm), que representam 56% da amostra completa (alguns países entram nas duas categorias).

A recuperação dos emergentes é mais intensa, com a média do crescimento dos três anos pós-recessão sendo de 5,9%, 1,2 ponto percentual maior do que a amostra completa. O crescimento dos países LatAm segue atrás dos emergentes, igual a 5,1% na média dos três anos pós-recessão, acima do crescimento da amostra completa por 0,4 p.p.

Quanto tempo levam as recessões e as recuperações?

Em média, as recessões que levaram a uma queda acumulada do PIB de no mínimo 5% duram 3,6 anos. Para recuperar o crescimento perdido, os países levam em média 4,6 anos. O gráfico abaixo mostra a distribuição da recuperação na amostra. Os países emergentes e LatAm tendem a se recuperar um pouco mais rápido do que a amostra completa (Tabela 1).

Como as principais variáveis macroeconômicas se relacionam com a recuperação do PIB?

Investigamos a trajetória do juro real, câmbio real e inflação para os países em observação nos cinco anos que antecedem o ano “pico”, ou seja, o ano antes da recessão, e também nos cinco anos após o início da recessão. Analisamos a taxa média de juros dos bancos para empréstimos de curto e médio prazo, e calculamos o juro real - ajustado pela inflação realizada do mesmo ano. Os países cuja média dos juros pós ano pico foi mais baixa em relação à média dos cinco anos antes do pico apresentaram contrações menores e crescimento consideravelmente mais forte do que os países que tiveram juros mais altos no mesmo período.

Além disso, analisamos a taxa de câmbio real, medida em moeda local dólar. Países cujo câmbio depreciou em termos reais nos cinco anos após o pico da atividade se recuperaram mais rapidamente do que os países cujo câmbio real apreciou no mesmo período.

Por fim, a amostra considerada abrange episódios da década de 80, quando alguns países passaram por hiperinflação. Para isolarmos esses episódios, consideramos como hiperinflação países que nos cinco anos após o pico da atividade registraram taxas de inflação maiores que 100% por pelo menos dois anos seguidos. Encontramos que esses países apresentam taxas de crescimento menores do que aqueles que não passaram por hiperinflação.

O padrão brasileiro

Analisamos períodos de recessão no Brasil definidos pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (CODACE). De 1980 até a recessão atual, o Brasil nunca passou por duas contrações do PIB consecutivas (a única foi durante a Grande Depressão de 1929). No entanto, na recessão entre 1981 e 1983, o PIB contraiu 7,2%. Nos três anos que seguiram a crise, a economia apresentou crescimento médio de 7,1%. A duração desta recessão foi de três anos, e o PIB demorou dois anos para recuperar o nível anterior. Na recessão entre 1990 e 1992 (que começou no 3º trimestre de 1989), o PIB contraiu 2,1%. A duração desta crise foi de dois anos e meio, e nos três anos que seguiram a crise, a economia apresentou crescimento médio de 4,8%, levando um ano para recuperar o nível pré-recessão. Apesar de menos profundas, as crises no Brasil desde 1980 apresentam recuperações mais intensas do que os outros grupos de países.

As recessões mais recentes (após 1996) duraram menos do que dois anos. Analisando na frequência trimestral desde 1996, ocorreram quatro episódios de recessão. Nestes casos, a média do tempo de recuperação ao nível do trimestre anterior à recessão é de dois trimestres. Como o gráfico abaixo mostra, a recessão atual que teve início no segundo trimestre de 2014 já dura nove trimestres, bem acima do tempo médio de duração das crises que ocorreram nos últimos vinte anos. Considerando o nosso cenário, o Brasil deve recuperar o nível do PIB pré-recessão apenas em 2019.

Conclusão

É comum ver países que passaram por recessões fortes crescerem a ritmos elevados nos anos seguintes. Esta taxa de crescimento é em média, 4,7% nos três anos após a recessão. As recessões duram, em média, 3,6 anos, e os países como um todo demoram em média 4,6 anos até recuperarem seus níveis pré-recessão. Países emergentes e LatAm apresentam um ritmo de crescimento maior pós-recessão. Países cujo juro real da economia cai em relação ao período pré-recessão apresentam crescimento mais forte, e o mesmo vale para os países que tiveram depreciação real da taxa de câmbio.

O Brasil no atual ciclo possui alguns elementos semelhantes aos países que tiveram uma retomada mais acelerada, como a depreciação cambial. Esperamos que, caso o processo de ajustes econômicos - principalmente no âmbito fiscal - continue ganhando forma, o país pode voltar a ter taxas de crescimento mais fortes.


 

Laura Pitta
Lourenço Paiva



[2] O grupo de países selecionados inclui países desenvolvidos (OECD, alta renda determinando pelo Banco Mundial e FMI), emergentes, latino-americanos, e aqueles cuja população é maior que um milhão. Excluímos grandes episódios de crises financeiras (México, Tailândia e mais recentemente, alguns países da zona do euro), e episódios de guerra, situações que não se aplicam ao caso brasileiro. Não incluímos aqueles países que não existem dados suficientes pré/pós-recessão.

[3] Normalmente listados por instituições: IMF, Brics + Next Eleven, FTSE, MSCI, S&P, EM bond index, Dow Jones, Russell, Columbia University EMGP, BBVA


 

Para o relatório completo com gráficos e tabelas, favor acessar o pdf anexo.


 

 



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