Itaú BBA - Bem-estar do brasileiro seguiu melhorando, ainda que a taxas menores

Macro Visão

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Bem-estar do brasileiro seguiu melhorando, ainda que a taxas menores

Setembro 12, 2013

O Índice Itaú de Bem-Estar Social é composto por três subindicadores: condições econômicas, condições humanas e desigualdade social.

Resumo: esta nota traz uma atualização do Índice Itaú de Bem-Estar Social. O índice visa medir a evolução do ganho de bem-estar obtido pela sociedade ao longo dos últimos anos, através de variáveis que vão além do crescimento do PIB. Nesta segunda edição do índice incorporamos os dados de 2011, com inclusão de algumas variáveis importantes de segurança e meio ambiente, e fizemos uma simulação com os dados de 2012. Os resultados mostram o importante avanço de bem-estar observado no Brasil nos últimos anos, mas confirmam alguma desaceleração desde 2008.

I – Introdução

Há evidências de que as medidas tradicionais de desempenho econômico, como PIB e consumo, não necessariamente refletem a evolução do bem-estar da sociedade. Nos últimos anos, muito esforço prático e teórico tem sido feito em busca de indicadores alternativos para medir avanços de bem-estar, qualidade de vida e felicidade das pessoas.

No ano passado a equipe de pesquisa econômica do Itaú Unibanco entrou nesse debate. Construímos um indicador para o Brasil – o Índice Itaú de Bem-Estar Social – que leva em consideração, além das condições econômicas, as condições humanas e a distribuição de renda[1]

Nesta nota, apresentamos uma atualização do índice, incorporando dados para 2011 e dando indicações para os resultados de 2012.

Esta edição do Índice Itaú de Bem-Estar Social traz avanços frente à edição do ano passado. Algumas variáveis foram incluídas para melhor caracterizar algumas dimensões já presentes em 2012, como a taxa de encarceramento no bloco da “segurança” e a taxa de analfabetismo no bloco da “educação”, ambas dentro do subindicador de “Condições Humanas”[2] .

E incluímos uma nova dimensão do bem-estar: o meio ambiente. Para caracterizá-lo, usamos variáveis de saneamento básico já presentes no índice do ano passado e agregamos um indicador novo: a emissão de gases de efeito estufa (em toneladas) como uma medida de poluição ambiental. 

Os resultados mostram que o avanço de bem-estar e de qualidade de vida, que marcou as últimas décadas, continuou nos anos recentes. No entanto, reforçam a percepção – já observada na edição do ano passado – de alguma desaceleração desde 2008. Esse crescimento menor, aliado ao patamar relativamente baixo de alguns aspectos do bem-estar no Brasil, pode ser uma das explicações para as manifestações de insatisfação popular que tomaram as ruas do País desde junho deste ano.

II – Índice Itaú de Bem-Estar Social – atualizações frente à primeira edição

O Índice Itaú de Bem-Estar Social é composto por três subindicadores: condições econômicas, condições humanas e desigualdade social. Essa estrutura não mudou. No entanto, fizemos alguns ajustes dentro dos subindicadores, incluindo e reagrupando algumas das variáveis.

Subindicador de condições econômicas

As variáveis escolhidas para caracterizar as condições econômicas não mudaram frente ao ano passado. O subindicador de condições econômicas segue dividido em dois blocos: consumo e emprego.

Em 2011, as condições econômicas mantiveram a grande evolução dos últimos anos. As boas condições do mercado de trabalho foram fundamentais para esse ganho de bem-estar.

Em 2012, apesar do crescimento mais fraco do PIB (0,9%), o desemprego seguiu baixo e o consumo se manteve aquecido. No entanto, houve desaceleração no crescimento da população ocupada. A inflação, outra variável importante do ambiente econômico, se consolidou em patamar médio mais elevado.

Dessa forma, o avanço das condições econômicas se deu de forma mais lenta.

Subindicador de condições humanas

O bloco de condições humanas foi o que sofreu as maiores alterações. Incluímos novas variáveis e reorganizamos os blocos que o compõem, com a criação de um bloco dedicado ao meio ambiente.

No bloco “educação”, inserimos a taxa de analfabetismo e a taxa de concluintes do ensino superior, a fim de verificar a existência de concentração na distribuição dos anos de escolaridade.

O bloco “Saúde e Saneamento” foi dividido em dois: “Saúde” e  “Meio Ambiente”.

O bloco “Meio Ambiente” foi criado com a variável acesso a tratamento de esgoto, a da porcentagem da população sem acesso à coleta de lixo e a da variável de emissão de gases de efeito estufa, que busca uma medida de poluição ambiental – uma novidade frente à versão anterior do indicador.

A evolução das emissões de gases de efeito estufa está no Gráfico 3. O ano em que a poluição foi mais elevada foi o de 1995, quando houve um grande aumento no desmatamento. A partir de 2005, a série começou a recuar e, em 2009, atingiu seu menor valor no período analisado. Desde então, as emissões voltaram a subir. A inclusão dessa variável sugere uma evolução menos intensa das condições humanas do bem-estar ao longo do tempo.

No bloco “segurança”, incluímos a taxa de encarceramento, dada pelo número de prisões para cada 100 mil habitantes. Em relação a essa variável há certa ambiguidade, pois o aumento dos encarceramentos pode ser tanto positivo, indicando um aumento da eficiência policial, quanto negativo, se for consequência do aumento mais do que proporcional do número de criminosos. A literatura especializada[3] sugere que o primeiro efeito prevalece sobre o segundo, indicando que quanto maior o número de prisões efetuadas, maior a sensação de segurança de um país. A abordagem adotada na construção do índice do bem-estar segue essa premissa.

O indicador de segurança piorou em 2012, em razão do aumento no número de homicídios. Essa deterioração é compatível com a percepção popular sobre a segurança pública no País. Segundo pesquisas da CNI Ibope, o percentual da população que aprova a segurança pública no País vem recuando (Gráfico 4).

Quando consideramos todos os aspectos das condições humanas, o indicador melhorou em 2011, especialmente pelo avanço contínuo em saúde, saneamento e educação. Mas, assim como nas condições econômicas, há uma perda de ritmo do crescimento nos últimos anos. Para 2012 ainda temos poucos dados, embora a piora nas condições de segurança (representada pelo aumento da taxa de homicídios) sugira que, se houve avanço, continuou sendo a taxas menores.

Subindicador de desigualdade social 

O subindicador de desigualdade social não mudou em relação ao ano passado, e a desigualdade permaneceu sendo medida pelo Índice de Gini e pelo Índice de Theil.

Feitas as agregações, o resultado para essa dimensão do índice está no Gráfico 5. A redução da desigualdade social no Brasil – praticamente uma constante, especialmente a partir de 2003 – se manteve em 2011. Para esse indicador ainda não temos dados para 2012.

III – Bem-estar em 2011 e 2012: avanço continua, a taxas menores

O Gráfico 6 mostra o resultado do índice para 2011 e para 2012.

Em 2011, houve um ganho no bem-estar, em relação a 2010. Alguns indicadores do índice seguem com crescimento robusto, como a taxa de encarceramento, a taxa de concluintes do ensino superior, os indicadores de desigualdade e o rendimento médio.

No entanto, o aumento do índice em 2011 (0,050) foi menor do que o observado em 2010 (0,057), e do que a média anual observada desde 2008 (0,056).

A análise histórica mostra que os maiores saltos anuais do bem-estar foram verificados entre 1993 e 1996, período marcado pelo fim da hiperinflação. Esse crescimento pronunciado, no entanto, foi seguido por um período de avanços mais moderados. 

A partir de 2003, o bem-estar passou a avançar de forma consistente. No entanto, de 2008 em diante, a desaceleração observada nas condições econômicas e humanas se reflete no índice agregado. Entre 2003 e 2007, o crescimento anual médio do indicador foi de 0,136, enquanto, entre 2008 e 2011, o avanço anual médio foi de 0,056.

Para 2012, utilizando os dados disponíveis, obtivemos um valor para o índice superior ao de 2011, mas cujo crescimento (0,018) é bastante inferior ao do ano anterior.

Em suma, os resultados de 2011 e de 2012 confirmam a evolução positiva do bem-estar, com tendência de avanço mais moderado nos últimos anos. 

IV – Bem-estar vs. PIB 

Para compararmos o Índice Itaú de Bem-Estar Social ao PIB, fizemos uma normalização da série do PIB real a preços de mercado. A comparação entre as duas séries está no Gráfico 7.

As duas séries têm uma evolução parecida até 2007, quando começa a haver um descolamento. O PIB, especialmente em 2008 e em 2010, cresceu acima do bem-estar.

Em 2012, essa distância entre o PIB e o índice foi semelhante à observada nos dois anos anteriores. Por um lado, o bem-estar provavelmente continuou a se expandir a uma taxa baixa. Por outro, o resultado do PIB de 2012 foi fraco, influenciado pelo mau desempenho da produção industrial.  

V – O Bem-estar e as manifestações populares

Em junho de 2013 o País viveu uma onda de manifestações populares que mobilizou milhões de pessoas em diversos estados. Inicialmente motivada pela insatisfação com o aumento da tarifa dos transportes, a pauta das manifestações foi se tornando mais abrangente. A qualidade da saúde, da educação e da segurança pública, entre outras reivindicações, foi frequentemente mencionada.

Como compatibilizar o avanço do nosso indicador de bem-estar com a insatisfação da população nas ruas?

Há (pelo menos) duas possíveis explicações. A primeira é que, apesar de continuar avançando, a melhora do bem-estar perdeu ímpeto nos últimos anos. Indicadores como anos de estudo e percentual da população com acesso à rede de esgoto avançam mais lentamente, e ainda mostram uma defasagem importante na comparação internacional (Tabela 1). A inflação subiu e a taxa de homicídios aumentou em 2012. Como vimos, a evolução do nosso indicador de bem-estar não acompanhou o crescimento do PIB desde 2008.

A sensação de que a melhora no bem-estar está perdendo força, em um nível absoluto ainda relativamente baixo, pode ajudar a entender os movimentos populares.

A segunda explicação é que o Índice Itaú de Bem-Estar Social ainda não capta completamente um aspecto importante da vida cotidiana: a “saturação do ambiente físico”. Conseguimos caracterizar a poluição do ar com as emissões de gases de efeito estufa, mas ainda não usamos uma medida mais abrangente da qualidade do ar nos grandes centros, nem a poluição de rios e mares. Outros aspectos da “saturação”, como o congestionamento em ruas e estradas, a lotação do transporte e dos hospitais públicos, etc., também não foram considerados por falta de dados. E, de fato, esses podem estar entre os motivos da insatisfação popular. Pesquisa do Instituto Datafolha, por exemplo, mostra queda da avaliação da qualidade do transporte público nos últimos anos em São Paulo (Gráfico 8).

O avanço contínuo do bem-estar nos últimos anos no Brasil, à primeira vista, não é consistente com as manifestações de insatisfação popular. Porém, uma análise mais aprofundada dos aspectos do bem-estar no País dá indicações de que os dois fenômenos podem ser compatíveis.

VI – Conclusão 

Nas últimas décadas o Brasil conseguiu crescer com melhor distribuição de renda e condições de vida. O Índice Itaú de Bem-Estar Social indica que esse avanço se mantém quando são incorporados os dados para 2011 e as informações disponíveis para 2012.

Nos últimos anos, particularmente desde 2008, o avanço do bem-estar tem se dado a taxas menores. Alguns aspectos das condições econômicas e humanas cresceram menos ou pioraram marginalmente. Essa dinâmica pode ser uma das explicações por trás das manifestações públicas que tomaram as ruas do País em junho.

De qualquer forma, o avanço das condições de bem-estar no Brasil nas últimas décadas merece destaque. Isso é fruto da estabilização da economia, de instituições mais sólidas e do avanço nos aspectos sociais e humanos. O cenário internacional favorável da última década também contribuiu. Adiante, o desafio é enfrentar os gargalos em infraestrutura, ampliar a qualidade da educação e buscar eficiência no setor público e privado. Mas sem deixar de lado dimensões cada vez mais importantes do bem-estar, como qualidade dos serviços públicos, preservação do meio ambiente e uso eficiente dos recursos naturais.

Caio Megale
Economista

Paula Yamaguti, Fernando Barbosa, Axel Mange


 


 


 

Apêndice I: estrutura e metodologia

I – Estrutura do Índice Itaú de Bem-Estar Social 

A escolha dos componentes do índice muitas vezes acaba sendo restringida pela disponibilidade de dados. Além disso, o indicador deve ser um bom medidor do avanço do bem-estar da população como um todo, e não de um grupo social específico ou de um morador de uma determinada cidade.

Escolhemos estruturar o indicador com base em três pilares – ou subindicadores: condições econômicas, condições humanas e igualdade social. Cada subindicador é, por sua vez, composto por variáveis que o caracterizam. A seguir, uma breve descrição de cada um deles.

Condições Econômicas

O subindicador de condições econômicas é subdividido em dois blocos: consumo, que foi incluído porque o aumento do poder de compra representa uma parcela importante da qualidade de vida de uma sociedade; e emprego, que também é fundamental para o bem-estar, não apenas pela renda auferida, mas pela segurança de poder pagar as contas no fim do mês.

Condições Humanas

As condições humanas são divididas em quatro blocos: saúde, educação, segurança e meio ambiente.

O bloco de saúde foi incluído, pois a falta de acesso a condições mínimas de higiene para prevenção de doenças e a tratamento de saúde adequado reduz o bem-estar da população. Há também um efeito indireto da saúde no bem-estar, uma vez que pessoas doentes ficam impossibilitadas de trabalhar e obter renda. A inclusão de um bloco para educação dispensa motivação, especialmente no Brasil, onde anos adicionais de escolaridade trazem ganhos sensíveis de renda. O nível de segurança pública foi incluído por constituir outra grande preocupação da sociedade. Por fim, o meio ambiente é um fator relevante, à medida que crescimento acompanhado de aumento da poluição, ou ausência de acesso à rede de esgoto ou à coleta de lixo, não necessariamente melhora o bem-estar.

Desigualdade Social 

Optamos por criar um subindicador apenas para desigualdade social, o que na prática significa aumentar sua importância no Índice Itaú de Bem-Estar Social.

Ao contrário dos outros dois subindicadores anteriores, a desigualdade social não necessariamente é uma característica que melhore diretamente o bem-estar individual. O ganho de bem-estar pode vir indiretamente, através da vida cotidiana em uma sociedade mais equânime. Nos dias de hoje, em que é elevada a preocupação com a sustentabilidade do crescimento e da melhora de vida, o aspecto da desigualdade social nos parece particularmente importante.

II – Metodologia 

Coletamos dados anuais desde 1992 e normalizamos as séries para ficarem comparáveis (com valores que variem de 0 a 1). Em seguida, invertemos as séries nas quais quedas são fatos positivos, como inflação e desemprego, por exemplo[4] . Finalmente, agregamos em médias simples em dois estágios: primeiro, dentro de cada bloco e, depois, entre os blocos. Dessa forma, consumo e emprego têm, cada um, peso de 50% no subindicador de condições econômicas, e; saúde, educação, segurança e meio ambiente têm peso de 25% dentro do subindicador de condições humanas.


 

Apêndice II: descrição das séries

Condições econômicas:

Consultas ao Sistema de Proteção ao Crédito (SPC). Fonte: ACSP

Vendas anuais de veículos (em unidades). Fonte: FENABRAVE

Variação anual do Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA). Fonte: IBGE

Rendimento médio. Fonte: IBGE

Taxa de desemprego. Fonte: IBGE

Taxa de participação. Fonte: IBGE

Condições humanas:

Expectativa de vida ao nascer. Fonte: IBGE

Mortalidade infantil (em cada 1000 nascimentos). Fonte: IBGE

Casos de tuberculose reportados como proporção do total estimado. Fonte: Banco Mundial

Percentual da população que tem banheiro ou sanitário no domicílio ou na propriedade. Fonte: PNAD IBGE

Percentual da população sem eletricidade no domicílio. Fonte: PNAD IBGE

Anos médios de escolaridade. Fonte: PNAD IBGE

Percentual de analfabetos na população. Fonte: PNAD IBGE

Percentual de concluintes do ensino superior. Fonte: PNAD IBGE/INEP

Taxa de homicídio (em 100 mil). Fonte: Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos

Taxa de encarceramento (em 100 mil). Fonte: Comissão de Constituição e Justiça

Emissão de gases de efeito estufa (em toneladas per capita). Fonte: Ministério da Ciência e Tecnologia

Percentual da população com acesso à rede de esgoto no domicílio. Fonte: PNAD IBGE

Percentual da população sem coleta de lixo no domicílio ou na propriedade. Fonte: PNAD IBGE


 

Desigualdade social:

Índice de desigualdade de Gini. Fonte: Ipeadata

Índice de desigualdade de Theil. Fonte: Ipeadata


 


 


[1] Para saber mais detalhes sobre a metodologia de construção do índice, consulte o Apêndice I.

[2] Para ver a publicação original, acesse:

http://cdn.itaubba-economia.com/download/20120416_MACRO_VISO_IBE_IU.pdf

[3] SASCHIDA, A.; MENDONCA, M. J. C. Evolução e Determinantes da Taxa de Homicídios no Brasil. Texto para discussão. Brasília, janeiro de 2013.

[4] Para normalizar as séries, usamos a mesma metodologia do IDH. Para variáveis sem tendência, como taxa de desemprego ou taxa de homicídios, cada observação normalizada no período t (ONt) é calculada como a variável original (Ot) menos o menor valor da série (MeV), dividido pelo maior valor (MaV) menos o menor valor da série. Assim, ONt =(Ot-MeV)/(MaV-MeV). Para séries com tendência, como vendas de veículos ou massa salarial real, faz-se o mesmo procedimento com a série em Logaritmo Natural.

A inversão é feita operando 1-(Ot). Desta forma, a variável que com valor “0” vira “1”, “0,2” vira “0,8”, e assim por diante.

 



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