Itaú BBA - A desinflação de serviços está em linha com os fundamentos?

Macro Visão

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A desinflação de serviços está em linha com os fundamentos?

Outubro 10, 2016

Avaliamos que a evolução recente da inflação de serviços está em linha com fundamentos econômicos.

• Em comunicação recente, o Banco Central tem sinalizado reiteradamente que, para que ocorra a redução da taxa básica de juros, é necessário “que os componentes do IPCA mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica indiquem desinflação em velocidade adequada”. De acordo com o comitê, no entanto, os sinais acerca da velocidade de queda desses itens ainda são inconclusivos.

• Avaliamos que a evolução recente dos diferentes componentes da inflação de serviços está em linha com fundamentos econômicos.

• A deterioração do mercado de trabalho e a menor inércia inflacionária sugerem recuo da inflação de serviços, corroborando o nosso cenário início de ciclo de corte de juros ainda em 2016.

Evolução recente da inflação de serviços:

Desde o fim de 2015, a inflação no setor de serviços tem mostrado desaceleração. Em junho de 2016, este componente alcançou seu menor valor desde meados de 2010 (7,0%), mas voltou a avançar em julho e agosto, levantando questionamentos acerca do ritmo da desinflação.

A queda da inflação de serviços pode ser observada tanto a partir do índice cheio (gráfico 1), quanto a partir do indicador de inflação subjacente (gráfico 2) apresentado pelo Banco Central no último Relatório de Inflação. Este indicador é construído a partir da exclusão de quatro grupos de preços da inflação de serviços: turismo, serviços domésticos, cursos e comunicação[1]. Ao excluir estes grupos (com reajustes pouco frequentes ou cujo cálculo de variação sofreu alteração metodológica), fica mais fácil identificar a tendência inflacionária.

Os gráficos 1 e 2 apresentam a inflação acumulada entre janeiro e setembro de diferentes anos, desde 2004. Em 2016, a inflação de serviços recuou para 4,9% do 5,9%registrado no mesmo período de 2015, atingindo o menor valor acumulado no ano desde 2007. Comportamento similar é observado no indicador de inflação subjacente no setor de serviços, que recuou de 7,4% em 2015 para 5,0% no mesmo período em 2016.

A dinâmica da inflação de serviços está relacionada às condições do mercado de trabalho e à inércia inflacionária. Entre 2011 e meados de 2015, apesar do crescimento econômico ter diminuído, a taxa de desemprego permaneceu abaixo dos 9%[2], mantendo a inflação de serviços pressionada em torno de 8%-9% a.a. Foi apenas no início de 2015 que a taxa de desemprego começou a aumentar. Ainda assim, a inflação de serviços fechou o ano passado em 8,1%, reflexo da inércia inflacionária. A inflação passada determina o reajuste de diferentes preços na economia brasileira, entre eles o salário mínimo, de forma que os efeitos de uma inflação mais alta tendem a se propagar pelos anos seguintes.

O gráfico 3 mostra que a inflação de serviços é correlacionada tanto com a inflação passada (inércia) quanto com a taxa de desemprego. No último ano, o desemprego subiu, mas a inércia também aumentou, de forma que a inflação de serviços permaneceu alta. Este ano, no entanto, apesar da inércia ainda elevada, o alto grau de ociosidade da economia contribuiu para a queda da inflação de serviços, em linha com os fundamentos[3].

Considerando um exercício econométrico que leva em conta a inflação passada e o desemprego (ver tabela no apêndice), verificamos que se a inflação acumulada em 12 meses tivesse ficado em torno da média histórica (6,5%, média entre 1997 e 2015), a inflação de serviços acumulada em 12 meses em setembro de 2016 estaria em 4,7% (ao invés de 7,0%), dado o desemprego observado. Por outro lado, se o desemprego tivesse sido mais baixo no ano passado (10%, média entre 1997 e 2015), a inflação de serviços acumulada em 12 meses em setembro estaria em 7,7%, dada a inflação acumulada em 12 meses observada. Esse exercício reforça que de fato ambos os fundamentos estão impactando, em direções opostas, a evolução da inflação de serviços.

Evolução dos principais subitens que compõem a inflação de serviços:

Para verificarmos se a queda recente está relacionada com os fundamentos, analisamos a correlação de cada subitem da inflação de serviços com o índice que leva em conta tanto a inflação passada (inércia) quanto a taxa de desemprego. O gráfico 4 mostra que os subitens que mais recuaram entre novembro de 2015 e setembro de 2016 são os que têm a maior correlação com índice considerado, reforçando que a queda recente da inflação de serviços está relacionada com os fundamentos econômicos.

Um item da inflação de serviços merece a atenção. A alimentação fora do domicílio (que corresponde a 25% da inflação de serviços) é explicado tanto pela dinâmica da alimentação em domicílio quanto pelo mercado de trabalho (o exercício econométrico é apresentado no anexo). Ao longo de 2016, condições climáticas menos favoráveis resultaram num aumento de preços de diversos produtos in natura pressionando a inflação de alimentação em domicílio. Para frente, projetamos que a pressão de alimentos continuará se dissipando, contribuindo para a queda do subitem alimentação fora do domicílio e, consequentemente, da inflação de serviços.

Conclusão:

Avaliamos que a queda da inflação de serviços está ocorrendo em velocidade adequada, isto é, consistente com os fundamentos econômicos (mercado de trabalho e inércia inflacionária).. Adiante, ainda que a inflação continue pressionada, o nível ainda elevado de ociosidade da economia e a piora nas condições do mercado de trabalho estão resultando em uma moderação nos custos com salários. Ou seja, a recessão está tendo um peso importante para o recuo da inflação de serviços. Em suma, a inércia retarda, mas não inviabiliza, a desinflação dos preços de serviços.


 

Julia Gottlieb

Laura Pitta

Thales Caramella



[2] Taxa de desemprego medida pela Seade. Utilizamos essa medida por ser a série de desemprego mais longa disponível.

[3] O mesmo vale para a inflação de serviços subjacentes como pode ser observado no gráfico 6 no anexo.


 


 

 



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