Itaú BBA - Receios seculares

Macro Latam Mensal

< Voltar

Receios seculares

Janeiro 18, 2016

Os movimentos do mercado são uma lembrança de que os riscos para a economia mundial ainda são significativos.

Para os demais textos, acessar o pdf em anexo.

Economia global
Ano novo, riscos antigos
Temores sobre o crescimento da economia global ressurgiram com a depreciação do yuan e a queda da bolsa da China. Nos EUA, esperamos uma segunda elevação de juros em março.

América Latina
Alta de juros em ambiente de crescimento baixo    
O crescimento se estabilizou (em níveis baixos) em alguns países, melhorou um pouco em outros e continua caindo no Brasil. Apesar do crescimento fraco, a inflação permanece sob pressão, levando os bancos centrais a deixar a política monetária mais contracionista.

Brasil
Desafio fiscal e recessão continuam    
A atividade econômica segue decepcionando, sugerindo que a recessão continua em 2016. Com a atividade fraca, o ajuste fiscal necessário para reequilibrar a economia, fica cada vez mais desafiador.

Argentina
Vida pós-desvalorização
O novo governo removeu muitos controles cambiais, permitindo uma desvalorização acentuada da moeda. O banco central subiu os juros e anunciou que planeja adotar um regime de metas de inflação.

México
Recuperação gradual, mas desafios permanecem
A economia continua melhorando, impulsionada principalmente pelo consumo privado. No entanto, a recuperação lenta dos EUA, o ajuste fiscal em curso e o petróleo em baixa trazem desafios importantes.  

Chile
Enfim uma estabilização?
O crescimento econômico está em torno de 2,0%. Esperamos uma retomada moderada da atividade em 2016 e 2017, à medida que os preços do cobre se recuperam.

Peru
Recuperação continua
Esperamos uma elevação do crescimento em 2016. O aumento da produção de cobre, a retomada do investimento dos governos regionais e a estabilização do investimento privado devem melhorar a atividade econômica.

Colômbia
Déficit em conta corrente difícil de ajustar
A queda adicional do preço do petróleo pressiona o já elevado déficit em conta corrente e deprecia a taxa de câmbio. Como resultado, a convergência da inflação para a meta será mais lenta, e o banco central deve continuar subindo os juros.

Commodities
Esperamos reversão parcial da queda dos preços
Projetamos recuperação parcial dos preços de commodities até o fim de 2016. Nosso cenário baseia-se no ajuste no mercado do petróleo no segundo semestre de 2016, na redução de capacidade de produção na China e no recuo do ‘Risco China’ aos níveis observados no 4T15.


 


Receios seculares

O ano começou movimentado. A turbulência causada pela depreciação do yuan revela que o mercado ainda teme uma desaceleração brusca na China, com efeitos sobre o crescimento global.  Os preços das commodities voltaram a cair, retornando a níveis próximos aos do início da década passada. As bolsas também caíram, assim como o valor das moedas das economias emergentes.

O nervosismo dos mercados nos parece temporário. Os dados na China continuam mostrando uma desaceleração gradual, e os fundamentos sugerem alguma recuperação parcial das commodities à frente, principalmente do petróleo. Apesar disso, os movimentos do mercado são uma lembrança de que os riscos para a economia mundial ainda são significativos.

A incerteza global não deve evitar que o Fed, o banco central dos EUA, continue aumentando os juros este ano. O mercado de trabalho americano vem se recuperando bem, ainda que o PIB esteja crescendo moderadamente. Continuamos acreditando que os juros subirão de forma bem gradual, ainda que mais rapidamente do que o apreçado nos mercados.

Com a turbulência neste início de ano, a depreciação cambial que esperávamos na América Latina para 2016 foi antecipada. Para a frente, esperamos uma relativa estabilidade das moedas (no México, no Chile e na Colômbia) apesar da alta de juros nos EUA.

Na América Latina, o crescimento se estabilizou num patamar bem abaixo do passado recente. A exceção é o Brasil, onde a recessão ainda não encontrou seu piso.

A inflação pressionada pelas depreciações cambiais ainda é uma preocupação, forçando os bancos centrais a prolongar o ajuste monetário.

No Brasil, o cenário é complexo. A atividade econômica segue decepcionando, sugerindo que a recessão continua em 2016. Com a atividade ruim, o ajuste fiscal necessário para reequilibrar a economia fica cada vez mais desafiador. As expectativas de inflação continuam subindo, refletindo as incertezas fiscais e o reajuste mais intenso de preços administrados.

Nesse cenário, em que pese o aprofundamento da recessão, esperamos agora que o Banco Central volte a subir a taxa Selic.

Na Argentina, o novo governo segue trabalhando para corrigir as distorções da economia. A taxa de câmbio se depreciou rapidamente com a remoção de boa parte dos controles cambiais, em linha com o esperado. O banco central subiu os juros e indicou que pode adotar um regime de metas para a inflação. No curto prazo, a recessão deve continuar. Mas, a partir de 2017, esperamos uma gradual retomada da atividade, com a economia com menos distorções.


 


Economia global

Ano novo‎, riscos antigos

• Temores sobre o crescimento da economia global ressurgiram, à medida que o yuan se depreciou aproximadamente 1,5% em relação ao dólar e a bolsa chinesa caiu 17% desde o começo do ano.

• Os dados da China seguem consistentes com a  desaceleração moderada do crescimento. Assim, é provável que diminua a aversão a risco global vista no início do ano. Porém, preocupações em relação a um “pouso forçado” da economia chinesa podem voltar ocasionalmente.

• Nos EUA, esperamos uma segunda elevação de juros pelo Federal Reserve em março, uma vez que o mercado de trabalho permanece robusto.

• Na zona do euro a recuperação segue firme, enquanto o crescimento no Japão tem sido instável. Em ambas as regiões, o risco ainda é de inflação abaixo do esperado, podendo demandar medidas adicionais de estímulo pelos bancos centrais.

Dúvidas sobre a China

O ano começou negativo nos mercados, em meio a uma onda de aversão a risco causada por preocupações em relação ao crescimento econômico mundial. Os movimentos bruscos dos mercados financeiros chineses reforçaram essa preocupação. O yuan se depreciou aproximadamente 1,5% em relação ao dólar, e a Bolsa de Xangai caiu 17% em 2016. Nos EUA, o índice de volatilidade VIX saltou de 16, no fim de 2015, para 27, enquanto o índice acionário S&P 500 chegou a recuar 8,5%.

O episódio de aversão a risco reflete principalmente temores em relação à economia chinesa. É possível que a queda das ações chinesas tenha sido causada por mudanças regulatórias, e não por dados econômicos ruins. Ainda assim, o que importa para a confiança do investidor é a capacidade da China de administrar o desaquecimento da economia.

Os investidores também tentam extrair das decisões das autoridades chinesas sinais sobre o estado da economia. A depreciação do yuan, por exemplo, é interpretada como um sinal de fraqueza. 

A incerteza foi reforçada pelos receios de estagnação secular nos EUA. O crescimento do PIB americano desacelerou para uma taxa trimestral anualizada de 1,25% no quarto trimestre, enquanto a criação de empregos ficou em 284 mil, o que evidencia o crescimento lento da produtividade.

Além disso, o preço do petróleo caiu mais, sinalizando continuidade do excesso de oferta no mercado de energia. A cotação do barril WTI recuou mais 19% este ano, para cerca de US$ 30.

Ainda esperamos desaceleração moderada da economia chinesa e manutenção do yuan pelo banco central em patamar relativamente estável em relação a uma cesta de moedas. ‎Saídas de capital estão pressionando o yuan no momento, mas esse movimento deve ser atenuado à medida que os investidores ganhem confiança na nova política cambial do país. Ademais, a China tem US$ 3,3 trilhões em reservas internacionais para evitar grandes flutuações no câmbio ‎.

Assim, acreditamos que o movimento de venda de ativos do início do ano vai perder força em breve.‎ ‎A produtividade nos EUA tende a se recuperar em 2016, e o petróleo vai encontrar um piso ao redor de US$ 35 no primeiro semestre, avançando para US$ 52 até o fim do ano. Ambos os eventos contribuirão para a melhora da perspectiva sobre a economia global ao longo de 2016.

No entanto, os eventos recentes mostram que temores em relação a um “pouso forçado” da China e ao crescimento global podem voltar ocasionalmente.

China – Preocupações mais recentes devem diminuir, mas os riscos relativos ao processo de reequilíbrio da economia permanecem

O ano começou com outro episódio de aversão a risco desencadeado por movimentos bruscos no yuan e nas ações chinesas. A Bolsa de Xangai caiu 7% no primeiro dia útil de 2016, ativando um recém-criado mecanismo de paralisação dos negócios (circuit-breaker). As perdas se acentuaram desde então. O banco central definiu uma taxa referencial para o yuan 1,5% mais depreciada com relação ao dólar desde o começo do ano, renovando os temores de uma desvalorização profunda da moeda.

Os investidores também tentam enxergar nas decisões das autoridades chinesas o estado da economia. A depreciação do yuan, por exemplo, é interpretada como sinal de fraqueza. 

Ainda assim, a queda dos preços dos ativos parece desvinculada dos indicadores econômicos de curto prazo. Em novembro, a produção industrial registrou alta interanual de 6,2%, e as vendas no varejo subiram 11,2%, melhorando um pouco em relação às taxas de 5,6% e 11,0% apuradas no mês anterior. O crescimento interanual do investimento fixo melhorou de 9,3% para 10,8%, de acordo com estimativas que calculamos a partir dos dados oficiais. Por fim, os índices apurados junto aos gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) sugerem que o crescimento subjacente se manteve estável até dezembro.

A nosso ver, a saída de capital atual reflete a recomposição de carteiras devido a mudanças recentes na regulação financeira implementadas pelas autoridades chinesas.

O Banco Popular da China (PBoC, o banco central chinês) alterou a política cambial em meados de dezembro, visando agora a estabilizar o yuan em relação a uma cesta de moedas (índice CFETS), e não apenas em relação ao dólar. Inicialmente, a decisão foi bem-vinda, mas aumentou a volatilidade da taxa de câmbio entre dólar e yuan, o que acabou desencadeando saídas de capital. A decisão também gerou preocupações em relação às verdadeiras intenções da autoridade monetária. Até agora, a depreciação recente do yuan em relação ao dólar tem sido consistente com estabilidade no índice CFETS (ver gráfico), mas ainda é fonte de incerteza, contribuindo para a aversão global a risco.

A queda acentuada das ações foi causada, aparentemente, pelas expectativas em relação ao término das restrições sobre a venda de ações por grandes acionistas. Essas restrições foram definidas em julho/agosto para conter a queda das ações a partir de níveis insustentáveis.

Entendemos que o banco central tem instrumentos e disposição para estabilizar a situação, reduzindo o “risco China” aos níveis observados no quarto trimestre de 2015. O país tem US$3,3 trilhões em reservas internacionais para absorver saídas de capital. Ademais, a volatilidade dos preços das ações tende a diminuir à medida que os múltiplos se tornem mais atraentes após a correção. E dificilmente essa correção terá impacto significativo sobre o consumo, porque o chamado efeito riqueza é pequeno na China.

Assim, mantemos a previsão de desaceleração do PIB de 6,9% em 2015 para 6,3% em 2016. A economia deve se manter em duas velocidades distintas, com crescimento mais forte dos serviços/consumo e indústria/investimentos mais fracos, consistentes com o movimento em curso de reequilíbrio da economia.

De todo modo, a recente saída de capitais é um lembrete oportuno dos riscos do processo de reequilíbrio da economia. Continua relevante a probabilidade de desaceleração mais acentuada, ao passo que o setor financeiro digere a alocação inadequada de capital (alavancagem excessiva das corporações privadas, má governança das estatais), e a capacidade do governo de impulsionar o crescimento diminui por causa das mesmas medidas de liberalização necessárias para reequilibrar a matriz econômica.

Aparentemente, as últimas rodadas de aumento na aversão a risco são sintomas de desequilíbrios estruturais. Por exemplo, a combinação de taxas de retorno artificialmente baixas sobre a poupança das famílias e liquidez excessiva fez com que as ações fossem negociadas acima do que seria compatível com os fundamentos no primeiro semestre de 2015. Quando estourou a bolha no mercado acionário, o governo impôs diversas restrições à venda de papéis para conter a queda. Por fim, a depreciação acumulada em 2016 foi causada por temores em relação à retirada próxima de algumas restrições. Outro exemplo é a pressão causada pelas saídas de capital, parcialmente motivadas por controles de capital antigos e mau investimento da poupança doméstica.

EUA – Segunda alta de juros em março

Como esperado, o Comitê de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve subiu o intervalo da taxa dos Fed Funds em 0,25 p.p., para 0,25 - 0,50% em dezembro, na primeira alta de juros em uma década. Além disso, a projeção mediana entre os integrantes do comitê é de que quatro altas de juros são consistentes com as previsões econômicas para 2016. As projeções econômicas do Fomc para 2016 são: crescimento do PIB de 2,4%, núcleo do deflator do gasto do consumidor (PCE) em 1,6% e taxa de desemprego chegando a 4,7%.

A atividade econômica e as condições financeiras pioraram desde a reunião do Fomc em dezembro, mas o mercado de trabalho segue firme, e a perspectiva para a economia americana permanece praticamente inalterada. O crescimento do PIB provavelmente desacelerou para menos de 2,0% no segundo semestre de 2015. As condições financeiras também ficaram um pouco mais restritas em meio a incertezas maiores em relação à perspectiva para a economia chinesa.

Acreditamos que o desaquecimento recente da economia seja temporário. Primeiramente, a correção extraordinária dos estoques deve ter subtraído cerca de 0,6 p.p. da expansão do PIB na segunda metade de 2015. Em segundo lugar, a queda adicional do preço do petróleo e o fortalecimento adicional do dólar tiveram mais impacto negativo sobre os investimentos e a atividade manufatureira. Esses efeitos negativos devem ser atenuados no primeiro semestre de 2016, enquanto os efeitos positivos defasados do petróleo e do dólar sobre o gasto do consumidor devem ficar mais evidentes. Por fim, o mercado de trabalho continua bem forte. Na média, a criação mensal de empregos no quarto trimestre de 2015 chegou a 284 mil.

Portanto, nossas previsões econômicas ficaram praticamente inalteradas, próximas da estimativa mediana do Fomc em dezembro. Continuamos prevendo quatro aumentos de juros em 2016. Projetamos crescimento real do PIB de 2,2% em 2016, alta do núcleo do deflator do gasto do consumidor de 1,7% e recuo da taxa de desemprego para 4,6% no último trimestre deste ano.

No curto prazo, o progresso na direção dos objetivos econômicos do Fed será mais do que suficiente para justificar um segundo aumento na taxa básica de juros, na reunião do Fomc em 16 de março. A taxa de desemprego deve cair pelo menos 0,1 p.p., para menos de 5,0%, enquanto o núcleo do deflator do gasto do consumidor deve subir 0,20 p.p., para 1,5%, em 12 meses. Isso deve justificar um aumento de juros de 0,40 p.p., com base no histórico da função padrão de reação do Fed.

Zona do euro – Crescimento firme e inflação baixa

O crescimento na zona do euro permanece estável, sustentada pela boa perspectiva para a demanda doméstica. O suporte vem da política expansionista do Banco Central Europeu (BCE), que tem proporcionado custos de financiamento menores e algum crescimento do crédito. Os preços baixos do petróleo também continuam liberando renda para consumo, e a política fiscal deve ser marginalmente expansionista neste ano.

A inflação cheia permanecerá baixa por causa da cotação do petróleo. A queda adicional do barril (recuperação só é esperada no segundo semestre) significa que a inflação deve se manter pouco acima de 0% na primeira metade do ano. Efeitos de base de comparação e preços um pouco mais altos para o petróleo devem empurrar a inflação para mais de 1% no segundo semestre. Já o núcleo da inflação deve avançar lentamente, em vista da ociosidade ainda grande na região.

O BCE sinalizou que não vai mexer nos juros após afrouxar a política em dezembro. No entanto, achamos que essa postura pode mudar rapidamente se o cenário de inflação piorar. As principais medidas do BCE em dezembro – corte de 0,10 p.p. na taxa de depósito para -0,30% e prorrogação de seis meses na duração mínima do programa de afrouxamento quantitativo (QE) até março de 2017 – decepcionaram o mercado. Desde então, o BCE vem sugerindo que vai fazer vista grossa ao efeito da queda recente na cotação do petróleo e que só vai reagir se observar uma mudança mais fundamental na perspectiva de inflação. A nosso ver, os principais fatores dessa mudança seriam uma paralisação da atividade ou queda mais acentuada das expectativas de inflação.

Revisamos nossa previsão para a taxa de câmbio no fim do ano para 1,05 euro por dólar (anteriormente, 1,02) devido a uma postura menos agressiva do BCE. A projeção para 2017 continua em 1,02. Nossas estimativas de crescimento do PIB permanecem intactas: 1,5% em 2015, 1,7% em 2016 e 1,6% em 2017.

Japão – Riscos de inflação abaixo do esperado persistem

O enfraquecimento do gasto do consumidor em novembro gerou preocupações em relação à força da recuperação. As vendas no varejo e os gastos das famílias registraram quedas mensais de 2,5% e 1,8%, respectivamente. Esperamos que essa freada seja temporária, uma vez que a confiança do consumidor segue elevada e os salários estão aumentando gradualmente. Porém, baixamos nossa previsão para o PIB do quarto trimestre de 2015 para um crescimento trimestral anualizado com ajuste sazonal de 0,4% (1,0%, anteriormente).

Mas continuamos esperando crescimento acima do potencial, aperto gradual do mercado de trabalho e inflação atingindo a meta de 2% em 2017. Nossas previsões para o PIB seguem inalteradas em 1,0% em 2016, e 0,9% em 2017.

No entanto, se o balanço de riscos piorar e ameaçar a rodada de negociações salariais que começa em abril, o banco central pode relaxar ainda mais a política monetária. Especificamente, a queda adicional recente das commodities e das expectativas de inflação aumentou o risco para a missão do Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês). 

Commodities – Esperamos reversão parcial da queda de preços

Os preços das commodities ampliaram as perdas, recuando 11% desde o fim de novembro. O primeiro fator motivador foi o excesso de oferta no mercado de petróleo, intensificado pela falta de coordenação por parte da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que acabou provocando uma queda de 33% do barril do tipo Brent que contagiou outras commodities. O segundo fator foi o aumento das preocupações em relação à China, que afetou todos os ativos relacionados desde 4 de janeiro.

A partir dos níveis atuais, esperamos aumento dos preços das commodities de 27% até o fim do ano (majoritariamente devido à recuperação de 74% do petróleo). Nosso cenário se baseia em três hipóteses. Primeiramente, o mercado de petróleo deverá presenciar quedas adicionais de capex, reduzindo a oferta futura e equilibrando o balanço global no segundo semestre de 2016, mesmo com o aumento de exportações do Irã. Em segundo lugar, o “risco Chinaimplícito nos ativos globais retorna a níveis observados no quarto trimestre de 2015 (ver seção relacionada). Por fim, a China reduz o excesso de capacidade em diversos setores, retirando oferta do mercado ao fechar minas e fábricas não rentáveis. Esse ajuste está sendo discutido pelo governo e, se executado, será favorável para os preços internacionais de minério de ferro, cobre, alumínio e carvão.

Ainda assim, os preços atuais refletem riscos nos mercados de commodities não agrícolas, oriundos da China e a um corte menor que o esperado na oferta no mercado de petróleo. 

Por outro lado, o risco é de preços acima do esperado para as commodities agrícolas, devido a condições climáticas desfavoráveis ao final do fenômeno El Niño.


 


América Latina

Alta de juros em ambiente de crescimento baixo

As taxas de câmbio na América Latina voltaram a se depreciar recentemente, com a queda adicional nos preços das commodities, a incerteza relacionada à economia chinesa ainda elevada e a alta de juros nos EUA.

O crescimento se estabilizou (em níveis baixos) em alguns países, melhorou um pouco em outros e continua negativo no Brasil.

Apesar do crescimento fraco, a inflação permanece sob pressão, levando os bancos centrais da região a deixar a política monetária mais contracionista.

Na Argentina, os ajustes macroeconômicos já começaram, com a remoção de muitos controles cambiais, desvalorização acentuada do peso e taxas de juros mais elevadas.

Queda das commodities antecipa depreciação esperada para o ano

Os preços mais baixos das commodities, a incerteza relacionada com a China e, em menor grau, as taxas de juros mais altas nos EUA, levaram a uma depreciação adicional das moedas latino-americanas desde o início de dezembro. O ciclo de alta de juros em muitos países e as intervenções no mercado ajudaram a suavizar a depreciação. O peso mexicano foi a moeda com o pior desempenho na região, um vez que o preço do petróleo vem caindo mais do que as outras commodities. A depreciação do peso colombiano, também muito correlacionado com o petróleo, foi mais limitada recentemente, em função da expectativa de entradas de capital com a privatização da geradora de energia Isagen. O real brasileiro continua sendo influenciado pela crise fiscal/política doméstica.

Esperamos agora taxas de câmbio em 2016 ligeiramente mais depreciadas do que em nosso cenário anterior no Chile, na Colômbia e no Peru. Para México e Brasil, nossas projeções permanecem inalteradas. No entanto, com exceção do Brasil, as taxas de câmbio devem terminar este ano não muito distantes dos níveis atuais, principalmente porque esperamos que os preços das commodities se recuperem (especialmente petróleo), compensando o impacto das taxas de juros mais altas nos EUA. Para 2017, esperamos as taxas de câmbio praticamente estáveis ​​em termos reais em relação aos valores projetados para o fim deste ano.

Crescimento: estabilização, menos no Brasil

O crescimento econômico vem se estabilizando na Colômbia e no Chile, e melhorado gradualmente no México e no Peru. Na Colômbia, no entanto, é provável uma desaceleração adicional á frente, tendo em vista o ciclo de alta de juros, o impacto da inflação mais elevada sobre a renda e o efeito negativo dos preços do petróleo sobre o investimento. A recuperação do México tem sido suportada pela demanda doméstica, mas vai exigir que o setor exportador também acelere. No Peru, a maturação dos projetos de mineração e seu impacto sobre a produção mineira constituem o motor do crescimento, enquanto os setores não primários (ou seja, aqueles mais ligados a fatores cíclicos) continuam fracos. No Chile, o crescimento gira em torno de 2%. Por fim, ainda não há sinais de que a contração econômica esteja próxima do fim.

Reduzimos nossa projeção de crescimento para a Colômbia neste ano. No Brasil, a recessão deve continuar. No Chile, no México e no Peru nossas projeções para este ano seguem inalteradas, o que significa uma recuperação gradual da atividade, consistente com uma aceleração modesta do crescimento global. Em 2017, as economias da região se beneficiarão de preços mais altos das commodities (contra os preços médios de 2016), e a expectativa é de que apresentem desempenho um pouco melhor.

Inflação ainda pressionada

Na maioria dos países da região, a inflação voltou a subir em dezembro e fechou o ano acima do limite superior do intervalo da meta. O nível elevado da inflação está adicionando pressão de alta sobre as expectativas de inflação na Colômbia, no Peru e no Brasil. Em 2016, esperamos que a inflação caia, conforme as taxas de câmbio se estabilizem (ou se depreciem muito menos do que em 2015), o hiato do produto permaneça negativo e os choques do lado da oferta que atualmente afetam os preços domésticos (como o El Niño na Colômbia e Peru ou a correção dos preços administrados no Brasil) se dissipem. Mesmo assim, a inércia deve evitar que a inflação caia rapidamente, de modo que em 2016 é improvável que a inflação alcance o centro da meta do banco central na maioria dos países.

A exceção é o México, onde a inflação continuou caindo recentemente e terminou o ano no limite inferior da meta – o menor nível já registrado. Mas provavelmente a inflação não continuará tão baixa. A contribuição menor da reforma de telecomunicações para a desinflação, os efeitos mais fortes da depreciação do peso sobre os preços domésticos e a inflação mais alta de produtos agrícolas são fatores que devem pressionar o índice de preços ao consumidor. Esperamos que a inflação termine este ano e o próximo no centro da meta (3%), que é um patamar baixo comparado ao passado do México.

Ciclo de aperto monetário será prolongado

Com os níveis altos ​​de inflação, os bancos centrais devem continuar aumentando as taxas de juros. Chile, Colômbia, México e Peru, elevaram a taxa de juros em 0,25 pontos percentuais em dezembro. Na Colômbia, o banco central aumentou a taxa de juros em todos os meses desde que começou o ciclo de aumentos, e não está sinalizando um fim no curto prazo para o ciclo. No Chile, o aumento da taxa de juros em dezembro (o segundo no ciclo) surpreendeu a maioria dos participantes do mercado, mas no relatório de inflação (publicado logo após a decisão), a trajetória para a taxa de juros no cenário base não está tão diferente daquela apresentada no relatório anterior. Assim, o banco central do Chile manteve juros em janeiro. O banco central do Peru realizou um terceiro aumento de juros em janeiro. O banco central do México começou a elevar os juros, apesar da recuperação incipiente e da inflação historicamente baixa, com a intenção de limitar o impacto potencial que o aumento dos juros nos EUA poderia ter sobre o peso mexicano e, consequentemente, sobre a inflação e as expectativas de inflação. Nos quatro países, um viés contracionista permanece. No Brasil, o banco central manteve a taxa de juros inalterada em sua última decisão de 2015, mas vem indicando que pode retomar o ciclo de aumentos.

Esperamos que o Banco Central do Brasil aumente os juros no início deste ano (com dois movimentos de 0,50 ponto percentual consecutivos na taxa de juros) e antecipamos agora mais aumentos nos juros do que esperávamos anteriormente no Chile, na Colômbia e no Peru. No México, nossa projeção para a taxa de juros no fim de 2016 continua em 4,0%, apesar do aumento que não esperávamos em dezembro de 2015. Em nossa opinião, o banco central mexicano irá se dessincronizar do Fed em 2016 (esperamos três aumentos das taxas de juros de 0,25 p.p. no México este ano, contra quatro aumentos da mesma magnitude nos EUA). No entanto, o comportamento do peso mexicano será um fator determinante para o momento das próximas altas de juros.

Governo Macri começa com mudanças importantes

Na Argentina, Mauricio Macri assumiu o cargo em dezembro, e os ajustes macroeconômicos começaram. O peso se desvalorizou acentuadamente, uma vez que muitos dos controles cambiais foram removidos. O novo presidente do banco central revelou planos para implementar um regime de metas de inflação e deixou as taxas de juros subirem. Aumentos das tarifas de energia são esperados e as negociações com os ‘holdouts’ estão avançando.

Em nossa visão, esses ajustes são positivos, embora dolorosos no curto prazo. Uma moeda mais depreciada permitirá que a economia recupere a competitividade, enquanto a eliminação dos controles cambiais aumenta a confiança dos empresários, melhora a oferta de bens intermediários e de capital e eleva o apetite por ativos argentinos. Na sequência da desvalorização recente, esperamos que a taxa de câmbio real permaneça relativamente estável em relação aos níveis registrados no fim de 2015.

A inflação deve permanecer elevada nos próximos meses devido ao repasse da depreciação e ao reajuste das tarifas de energia. À medida que o banco central combate a inflação, as taxas de juros também devem permanecer altas por algum tempo. Esperamos que o PIB recue 0,5% em 2016 (ante uma projeção revisada de 1% em 2015), devido ao impacto dos ajustes de preços relativos (energia e taxa de câmbio) sobre os salários reais, assim como a uma política monetária mais contracionista.

Os ajustes deverão formar a base para uma recuperação com desequilíbrios baixos. Esperamos uma recuperação econômica em 2017, com o PIB crescendo 3% e a inflação recuando para 25%.


 

Para os demais textos, acessar o pdf em anexo.


 

 



< Voltar