Itaú BBA - O que vem depois do “choque Trump”

Macro Latam Mensal

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O que vem depois do “choque Trump”

Novembro 16, 2016

O resultado da eleição nos EUA provocará mudanças políticas. O risco de protecionismo é negativo para o crescimento global.

Para os demais textos, acessar o pdf em anexo.

Economia global
Nova realidade global pressiona mercados emergentes
O resultado da eleição presidencial americana provocará grandes alterações políticas. Expansão fiscal e taxas de juros mais altas nos EUA devem pressionar as moedas e os juros de países emergentes. Os riscos de protecionismo também são negativos para o crescimento global.

América Latina
Ajustando-se ao Trump
A vitória de Donald Trump na eleição presidential dos EUA pressiona as moedas de países emergentes, tornando a flexibilização monetária na região mais desafiadora.

Brasil
Lidando com um mundo mais incerto
Projetamos agora uma taxa de câmbio mais depreciada e um corte de juros de 0,25 p.p. em novembro, devido à maior incerteza gerada com o resultado das eleições americanas.

Argentina
Construindo credibilidade em um ambiente externo mais desafiador
A alta de juros nos EUA provavelmente irá encarecer o acesso da Argentina aos mercados de capitais internacionais, dificultando a desinflação e a flexibilização monetária.

México
Enfrentando a vitória de Trump
O resultado da eleição presidencial americana deteriorou o cenário para a economia mexicana. Esperamos uma alta de juros de 1,0 p.p. em novembro e projetamos crescimento de 1,8% em 2017.

Chile
Espaço para mais cortes de juros
Com a desinflação mais rápida do que o esperado e a atividade fraca, esperamos agora mais cortes de juros. Vemos o banco central levando a taxa básica para 2,5% em 2017.

Peru
Crescimento forte, mas demanda doméstica ainda fraca
Projetamos crescimento do PIB de 3,8% em 2016 e de 4,0% em 2017. A atividade econômica está sendo impulsionada por exportações, enquanto a demanda doméstica continua fraca.

Colômbia
Negociando uma reforma impopular
O Congresso começará a debater uma reforma tributária estrutural que visa compensar a perda de receitas derivadas do petróleo. Embora impopular, a reforma será fundamental para que o país possa manter seu rating de crédito em BBB.

Commodities
Trump ajuda os metais, mas não gera um novo boom
Revisamos para cima nossas projeções de metais, incorporando uma demanda mais forte e uma maior disciplina dos produtores. Mas, as perspectivas de mais gastos com infraestrutura nos EUA não são suficientes para gerar um outro boom nos preços de metais.


 


O que vem depois do “choque Trump”

A eleição presidencial nos EUA delineou um novo ambiente externo. Acreditamos que, com o apoio dos congressistas republicanos, o presidente Donald Trump terá capacidade para implementar um grande estímulo fiscal. Há incerteza sobre as políticas relacionadas a comércio exterior, imigração, desregulamentação e reformas microeconômicas, mas integrantes da equipe de transição enfatizaram que medidas do lado da oferta também farão parte do pacote inicial. Por ora, consideramos estes como fatores de risco ao nosso cenário. O efeito líquido do estímulo fiscal é expansionista, em uma economia que já está próxima ao pleno emprego. Essa mudança na política fiscal contribuirá para a tendência de alta dos juros americanos. Esperamos que o banco central eleve os juros em dezembro e mais duas vezes em 2017, mas o risco é de que ocorram três acréscimos. Para 2018, esperamos agora quatro altas de juros (duas, no cenário anterior). Para os mercados emergentes, a vitória de Trump é negativa de modo geral. Avaliamos que os juros mais altos nos EUA vão pressionar as moedas e os juros nos países emergentes. Ademais, os riscos associados a protecionismo e guerras tarifárias também são negativos.

Na América Latina, a economia mexicana é a mais vulnerável (como refletido no desempenho ruim do peso ao longo do ano) e, assim, reduzimos nossa projeção de crescimento em 2017. O menor investimento no setor manufatureiro mexicano vai afetar o crescimento, uma vez que a incerteza com relação às políticas protecionistas deve permanecer por algum tempo. Países com maior fragilidade no balanço de pagamentos (como Argentina e Colômbia) também são mais vulneráveis. Por outro lado, o Chile, que exporta cobre (commodity que já se beneficia da expectativa de estímulo fiscal nos EUA) e tem um déficit em conta corrente baixo, está mais preparado para enfrentar o cenário externo mais adverso.

No Brasil, as reformas fiscais continuam avançando. Em outubro, a Câmara de Deputados aprovou a proposta de emenda constitucional que limita os gastos públicos. Os dados recentes de atividade econômica decepcionaram, mas os indicadores antecedentes e os fundamentos continuam sugerindo recuperação à frente, impulsionada pela indústria. A inflação vem consolidando uma trajetória de queda. Diante do novo ambiente externo, projetamos agora uma taxa de câmbio mais depreciada. O Banco Central provavelmente vai optar por proceder gradualmente, com outro corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) nos juros, em vez da redução de 0,50 p.p. que esperávamos antes, devido à maior incerteza gerada com o resultado das eleições americanas. 


 


Economia global
Nova realidade global pressiona mercados emergentes

O resultado das eleições presidenciais nos EUA provocará grandes alterações de política econômica. Acreditamos que Donald Trump será capaz de implementar um estímulo fiscal relevante, e incorporamos essa perspectiva em nossas projeções. Há muita incerteza em relação a sua agenda sobre comércio, imigração, regulação e micro-reformas. Por enquanto, tratamos essas questões como riscos para o cenário e vamos incluí-las nas projeções se e quando elas se materializarem.

Esperamos um estímulo fiscal de 0,8% do PIB nos próximos dois anos nos EUA e maior incerteza em relação às demais políticas. O efeito líquido é expansionista em uma economia próxima do pleno emprego.

Mantivemos nossa projeção do PIB de 1,5%, em 2016, aumentamos nossa estimativa de 2,1% para 2,2%, em 2017, e de 1,9% para 2,4%, em 2018. Ainda acreditamos que o Fed, o banco central americano, aumentará as taxas de juros em dezembro e mais duas vezes em 2017. Mas, agora, estimamos quatro altas (de duas, anteriormente) em 2018, e os riscos em 2017 tendem para três aumentos. Vemos os juros do título do Tesouro de 10 anos caminhando para 2,20%, 2,60% e 2,80%, no fim de 2016, 2017 e 2018, respectivamente.

Com as taxas de juros norte-americanas mais elevadas, esperamos agora o euro, o iene e o yuan, respectivamente, em 1,07 (de 1,10), 108 (de 105) e 6,90 (de 6,70), no fim de 2016, e em 1,03 (de 1,07), 120 (de 110) e 6,95 (de 6,75), no fim de 2017.

A Europa merece atenção, dado que a resiliência da atividade será testada por uma agenda política agitada.

Na China, um protecionismo agressivo do governo Trump é um novo risco, mas não o nosso cenário base. Continuamos esperando que o PIB expanda 6,6% e 6,3%, em 2016 e 2017, respectivamente.

Para as commodities, a expansão fiscal dos EUA beneficia os metais, mas não o suficiente para criar uma tendência de alta.

Para os mercados emergentes, a vitória de Trump é negativa. Taxas de juros mais altas nos EUA devem pressionar as moedas. Além disso, os riscos de protecionismo e guerra tarifária são negativos.

EUA Política monetária mais restritiva é necessária para compensar a expansão fiscal

A vitória de Donald Trump provocará grandes mudanças em termos de políticas econômicas. Como acreditamos que ele seja capaz de implementar um estímulo fiscal, incorporamos essa perspectiva em nossas projeções. 

O Congresso deve apoiar um estímulo fiscal moderado. Na campanha eleitoral, Trump defendeu uma expansão fiscal significativa (1,5% do PIB) por meio de uma combinação de cortes de impostos (US$ 4 trilhões em dez anos) e aumento da despesa pública (US$ 500 bilhões em cinco anos). O Partido Republicano manteve a maioria simples, necessária para aprovar a legislação orçamentária em ambas as Casas. No entanto, até mesmo um Congresso controlado pelos republicanos deve limitar o excesso de estímulo fiscal, que poderia ser politicamente prejudicial no futuro. Esperamos um estímulo fiscal de 0,8% do PIB nos próximos dois anos. 

Incertezas sobre a agenda de para comércio e imigração são riscos para o cenário. Trump prometeu proteger a economia doméstica da concorrência estrangeira, aumentando tarifas de importação e impondo legislação mais rigorosa no que diz respeito à imigração. 

Esperamos que esses planos sejam suavizados, mas o risco permanece e a incerteza sobre as políticas deve se estender durante o primeiro trimestre de 2017. O presidente tem poderes para alterar as tarifas de importação e impor regras mais rígidas para a imigração. Ele provavelmente terá de apresentar algo nessa linha, tendo em vista suas promessas de campanha. Mas esperamos alguma cautela, uma vez que tais políticas podem provocar danos econômicos significativos, tanto no curto (inflação) quanto no longo prazo (redução da produtividade). De qualquer modo, a incerteza quanto às políticas permanecerá alta nos próximos dois trimestres.

O efeito líquido dos planos fiscais de Trump é expansionista (ver gráfico) em uma economia próxima do pleno emprego. Para o fim de 2018, projetamos agora a taxa de desemprego atingindo 4,1%, em vez de 4,5%, e o deflator do núcleo do consumo subindo para 2,1% (de 2,0%). Um leve overshooting em relação às metas do Fed, com riscos de alta adicional da inflação.

Essa mudança de política exige uma política monetária mais restritiva. Ainda acreditamos que o Fed aumentará as taxas de juros em dezembro, e mais duas vezes em 2017, já que o impulso fiscal será mais forte a partir do 2S17. Mas estimamos agora quatro aumentos das taxas de juros em 2018, e os riscos tendem para três aumentos em 2017.

Mantivemos nossa projeção do PIB de 1,5%, em 2016, e aumentamos nossa estimativa de 2,1% para 2,2%, em 2017, e de 1,9% para 2,4%, em 2018.

Além disso, aumentamos nossa projeção dos juros do título do Tesouro de 10 anos para 2,20%, 2,60% e 2,80%, respectivamente, ao fim de 2016, 2017 e 2018.

Europa Atividade resiliente em meio a riscos políticos

Os dados econômicos vêm se mostrando resilientes na Europa. A estimativa do PIB para o 3T16 permaneceu constante, em 0,3%, sobre o trimestre anterior. Os indicadores antecedentes para o 4T também estão fortes. Os indicadores de sentimento da Alemanha melhoraram, e os dados de crédito continuam mostrando o efeito positivo das políticas de flexibilização do Banco Central Europeu (BCE).

Com a atividade econômica resiliente, a necessidade de flexibilização monetária adicional diminui, mas a vitória de Trump abala as possibilidades de tapering. Ainda esperamos que o BCE anuncie em dezembro uma extensão do atual programa de compra de ativos (QE, na sigla em inglês) em cerca de 6 a 9 meses. Além disso, esperamos que o banco central altere os parâmetros do QE de maneira a manter os juros baixos na periferia, porém criando espaço para aumento dos juros de longo prazo dos países centrais (o que aliviaria a pressão sobre os bancos, principalmente na Alemanha). 

Os riscos políticos continuam se multiplicando na Europa. No Reino Unido, o drama Brexit levará vários anos para se desenrolar. Na França, os partidos republicano e socialista realizarão eleições primárias antes das eleições presidenciais de 2017. O cenário mais provável é favorável ao mercado, com o ex-primeiro-ministro Alain Juppé se tornando o candidato republicano e o favorito para vencer as eleições no próximo ano. Mas há cenários alternativos em que as chances de Marine Le Pen, candidata "eurocética" da Frente Nacional, se tornar presidente aumentam. Na Alemanha, Angela Merkel deve confirmar sua intenção de se candidatar a um quarto mandato como chanceler, mas ainda há alguma chance de que tal não aconteça, e de que candidatos mais hawkish ganhem espaço (por exemplo, o atual ministro da Fazenda, Wolfgang Schäuble). Na Itália, o referendo de 4 de dezembro sobre a reforma constitucional está tendendo para uma derrota do governo do primeiro-ministro Matteo Renzi. Apesar de não esperarmos que Renzi renuncie, a derrota o deixaria em uma posição mais fraca para avançar a agenda pró-reforma necessária para impulsionar o PIB da Itália. Na Áustria, a repetição das eleições presidenciais está caminhando para uma vitória do candidato da extrema direita, Norbert Hofer. Apesar de as eleições parlamentares ocorrerem apenas em 2018, a legitimação de um chefe de Estado anti-establishment na Áustria deve contribuir para fortalecer a onda de ceticismo em relação ao euro.

Mantemos nossa projeção do PIB da área do euro em 1,5% e 1,3%, para 2016 e 2017, respectivamente.

China Protecionismo agressivo nos EUA é um novo risco, mas não o nosso cenário base

Os dados econômicos recentes reforçam o cenário de estabilidade do crescimento. O PIB real cresceu 6,7%, na comparação anual, no 3T16, o mesmo ritmo registrado nos dois trimestres anteriores, enquanto o PIB nominal acelerou ligeiramente para 7,8%, na comparação anual, de 7,3%, no segundo trimestre. Os dados de outubro mostraram produção industrial estável, em 6,1% (comparação anual), e investimentos fixos praticamente estáveis, em 8,8% (comparação anual), com o investimento privado no setor imobiliário compensando ligeira desaceleração no investimento público.

Esperamos que essa estabilidade do crescimento se estenda até 2017. Por quê? Vemos quatro razões: a transição de liderança em 2017; investimento imobiliário mais forte; lucros corporativos mais elevados devido à moeda mais depreciada e ao fim da deflação medida pelo índice de preços ao produtor; e a capacidade de controlar o timing dos ajustes dolorosos. A primeira fase da transição de liderança foi favorável às tentativas do presidente chinês, Xi Jinping, de consolidar o poder, mas ele pode precisar de uma economia forte para continuar a reprimir facções rivais dentro do Partido Comunista Chinês ao longo de todo o processo.

O principal risco de curto prazo é um superaquecimento no setor de imóveis residenciais, mas o problema parece ser localizado, e políticas macroprudenciais podem ser suficientes. Caso as políticas macroprudenciais localizadas não sejam suficientes para desacelerar esse setor nas principais cidades, o governo pode ser forçado a implementar um aperto das condições monetárias, afetando toda a economia. A experiência recente sugere que é um risco modesto. Tanto em 2010 quanto em 2013, o governo utilizou ferramentas macroprudenciais semelhantes, moderando com sucesso os preços de imóveis residenciais, sem causar desaceleração no crescimento.

Uma "guerra tarifária" entre os EUA e a China é um risco, mas não o nosso cenário base. Durante a campanha presidencial, foi mencionada a possibilidade de uma tarifa punitiva de 45% sobre os produtos chineses. Caso ocorra, a China poderia responder não apenas com tarifas recíprocas, mas também punindo empresas norte-americanas no mercado interno e desvalorizando sua moeda. Os efeitos se espalhariam para o resto do mundo, incluindo os EUA. As consequências são tão imprevisíveis que acreditamos que qualquer menção a alguma ação relacionada às tarifas constitui apenas uma tentativa de negociar condições melhores.

Mantemos nossas projeções do PIB em 6,6%, para 2016, e em 6,3%, para 2017.

Mercados emergentes Fundamentos melhores versus juros globais mais altos e novos riscos

As taxas de juros mais elevadas nos EUA devem pressionar as moedas e as taxas de juros locais dos mercados emergentes.

A melhora nos fundamentos, em comparação ao passado recente, propicia alguma proteção. Em primeiro lugar, a vulnerabilidade externa dos mercados emergentes diminuiu desde o taper tantrum em 2013, com uma melhora dos saldos em conta corrente e aumento das reservas externas em proporção ao PIB. Em segundo, as perspectivas de maior crescimento devem continuar atraindo fluxos de capital para os mercados emergentes (ver gráfico). Por fim, as moedas de países com taxas de juros mais altas estão mais protegidas. Nesse aspecto, América Latina e Rússia se destacam, porque seus bancos centrais aumentaram as taxas de juros nos últimos dois anos para combater a inflação mais elevada.

Ainda assim, alguns países estão piores do que outros em sua posição externa e, portanto, mais vulneráveis ao aumento das taxas de juros nas economias desenvolvidas. Em termos relativos, Colômbia, Argentina, Turquia e África do Sul apresentam posições externas relativamente mais fracas. Do lado positivo, Brasil, Rússia e Indonésia reduziram sua vulnerabilidade externa em relação a 2013 (ver gráfico).

Além disso, o risco de protecionismo nos EUA é negativo para os mercados emergentes. Os países com maior superávit comercial contra os EUA (ver gráfico) são mais vulneráveis.

Commodities – Trump ajuda os metais, mas não o suficiente para gerar outro boom

O Índice de Commodities Itaú (ICI) aumentou 1% desde o fim de setembro, conforme um rally nos preços dos metais (19%) e a estabilidade nas commodities agrícolas foram parcialmente compensados por uma queda nos preços relacionados ao petróleo (ICI-energia: -9%). Os preços dos metais já estavam em alta antes do resultado das eleições dos EUA, e a vitória surpreendente de Trump causou mais um aumento (que afetou pouco o petróleo bruto e os preços agrícolas). Os preços do petróleo caíram com a queda nas expectativas sobre um acordo da Opep.

Revisamos para cima nossas projeções de preços de metais. O subíndice ICI-metais subiu 41% no acumulado do ano, uma enorme surpresa para um ano que começou com temores de crise global liderada pela China. De fato, há razões para se enxergar fundamentos melhores. A demanda doméstica de aço na China acelerou em 2016 (ganho de 3%, no acumulado do ano, contra -1,5%, no ano anterior), e os estoques de ferro parecem já estar ajustados. Em relação aos metais básicos, a recuperação na manufatura global e uma maior disciplina da oferta estão ajudando a prevenir um excesso de oferta no mercado. Por fim, as perspectivas de mais gastos com infraestrutura nos EUA são positivas para os preços dos metais. Portanto, revisamos para cima nossos preços do minério de ferro, no fim de 2017, para US$ 55/ton., de US$ 48/ton., anteriormente. Juntamente com as mudanças nos metais básicos, o efeito líquido é um aumento de 7,1% no ICI-metais projetado para o fim de 2017.

No entanto, ainda esperamos uma queda modesta nos preços dos metais ao longo de 2017. Nosso cenário se baseia em uma desaceleração do crescimento da demanda na China, dado que o mercado imobiliário deve moderar a partir de meados de 2017, e em reação à oferta de produtores marginais. Por fim, os gastos com infraestrutura prometidos pelos EUA provavelmente ficarão longe de substituir a China como o consumidor principal.

As perspectivas quanto ao acordo entre os membros da Opep ficam mais nebulosas com a incerteza sobre a estratégia geopolítica de Trump. No entanto, mantemos nosso cenário para os preços do Brent em US$ 54/bbl, no fim de 2017, assumindo que o cartel acabará fechando o acordo. A justificativa é que considerações fiscais devem incentivar os sauditas e os iranianos a elevar os preços para o limite superior da faixa (US$ 40/bbl a 60/bbl), que, se excedido, pode desencadear uma resposta significativa dos produtores norte-americanos. Em outras palavras, preços abaixo desse intervalo são fiscalmente ineficientes para esses fornecedores estratégicos.

O ICI-agrícola operou de lado desde o fim de setembro. Estamos revisando novamente nossas projeções para o café, reconhecendo que as perspectivas de déficit global em 2017 podem sustentar os níveis de preços atuais. Ao mesmo tempo, a perspectiva geral para o excesso de oferta de grãos/soja foi reforçada com o plantio sob condições favoráveis na América do Sul, enquanto os riscos associados ao fenômeno La Niña pairam sobre as regiões de plantio mais ao sul.

Nossas estimativas implicam que o ICI subirá 3% no fim de 2016, em relação aos níveis atuais (devido a uma recuperação dos preços do petróleo) e, em seguida, permanecerá estável ao longo de 2017.


 


América Latina
Ajustando-se ao Trump

A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas pressiona as moedas dos mercados emergentes. Relativamente ao nosso cenário anterior, vemos as moedas da região mais fracas em relação ao dólar norte-americano.

Mesmo com o recente enfraquecimento, o desempenho da maioria das moedas da região está muito mais favorável este ano do que nos dois anos anteriores, contribuindo para o processo de desinflação. Ao mesmo tempo, o crescimento permanece fraco na América Latina e mais fraco do que o esperado em países como Brasil e Argentina. Revisamos nossas projeções de crescimento para baixo para Argentina, Colômbia e México, e reconhecemos um viés de baixa para as nossas projeções para o Brasil.

Em um contexto de crescimento fraco e inflação em queda, muitos bancos centrais estão entrando (ou estão prestes a entrar) em ciclos de afrouxamento monetário. No entanto, o novo ambiente externo provavelmente tornará os bancos centrais mais cautelosos. A divergência entre o Norte e a América do Sul deve continuar, e o banco central do México provavelmente aumentará mais os juros, em comparação ao que esperávamos antes das eleições norte-americanas. 

Novo cenário externo é mais desafiador

A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas gera pressão sobre as moedas dos mercados emergentes. Uma expansão fiscal significativa, como a defendida pelo presidente eleito em uma economia próxima do pleno emprego, está aumentando os juros pagos nos títulos do Tesouro americano, enfraquecendo as moedas latino-americanas. O risco de protecionismo também é negativo para os mercados emergentes, especialmente para o México, que tem laços comerciais fortes com os EUA. Não surpreendentemente, o peso mexicano foi a moeda que mais enfraqueceu após o anúncio do resultado das eleições. Países com uma posição de balanço de pagamentos frágil, como a Argentina (que tem reservas internacionais baixas) e a Colômbia (com um déficit em conta corrente elevado), também são vulneráveis. Os desequilíbrios internos também deixam a moeda brasileira exposta. Por outro lado, o Chile é o país menos vulnerável dentro de nossa cobertura, uma vez que é um exportador de cobre (uma commodity que já está se beneficiando da expectativa de estímulo fiscal nos EUA), e o que possui fundamentos sólidos (déficit em conta corrente baixo, volume considerável de ativos externos do setor público e dívida pública baixa). O Peru também exporta cobre, mas a dolarização parcial de seu sistema financeiro é uma vulnerabilidade a taxas de juros mais altas nos EUA.

Relativamente ao nosso cenário anterior, vemos as moedas latino-americanas mais fracas em relação ao dólar. Nossas revisões de projeção foram mais acentuadas para o peso mexicano, apesar de ainda acreditarmos ser possível alguma valorização durante 2017, caso os temores quanto ao protecionismo se dissipem. Em nossa visão, um acordo entre os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) ainda é provável, resultando em aumento dos preços do petróleo e contendo a desvalorização do peso colombiano. Por outro lado, esperamos alguma queda dos preços do cobre (embora para níveis mais elevados do que havíamos projetado), o que deve afetar negativamente o peso chileno. O real provavelmente terminará este ano e o próximo mais fraco do que em nossa expectativa anterior.

Mesmo com o enfraquecimento recente, a maioria das moedas latino-americanas está registrando ganhos no acumulado do ano em relação ao dólar norte-americano (com a óbvia exceção do peso mexicano), o que, aliado aos hiatos de produto negativos e à diminuição do impacto de alguns choques (como o fenômeno climático El Niño), está levando à desinflação na região. Na Colômbia, a inflação anual caiu rapidamente, com a inflação de alimentos ficando 7,2 pontos percentuais (p.p.) abaixo do pico registrado em julho (quando uma greve de caminhoneiros contribuiu para elevar os preços de alimentos). Ainda assim, a inflação colombiana permanece muito acima do intervalo ao redor da meta, assim como no Brasil, onde também ocorre um processo de desinflação. A inflação no Chile também foi uma surpresa positiva, com os preços ao consumidor ficando abaixo do centro da meta pela primeira vez desde janeiro de 2014 (com os preços dos bens comercializáveis abaixo do limite inferior do intervalo da meta). Na Argentina, o processo de desinflação vem progredindo bastante, apesar de o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) ter surpreendido para cima em outubro. No Peru e no México, a inflação também aumentou um pouco recentemente, influenciada em ambos os casos por fatores transitórios (no México, o enfraquecimento da taxa de câmbio tem sido particularmente importante).

Adiando a recuperação

O crescimento econômico continua fraco. No Brasil, os indicadores de atividade recentes decepcionaram, sugerindo uma nova contração forte no 3T16, na comparação trimestral. A Argentina também provavelmente permaneceu em recessão durante o 3T16. Não há recessão em Chile, Colômbia e México, mas o crescimento não está se recuperando. No México, as taxas de crescimento não estão longe das médias históricas, o que é decepcionante considerando-se todas as reformas aprovadas ao longo dos últimos anos. No Chile e na Colômbia, o crescimento está muito baixo para os padrões históricos. Apenas no Peru continuamos vendo um crescimento econômico sólido, mas isso deve-se a um aumento da produção mineira, enquanto os setores ex-commodities ainda não reagiram à melhora da confiança após a eleição de Pedro Pablo Kuczynski. 

Revisamos nossas projeções de crescimento para baixo para Argentina, Colômbia e México, e reconhecemos um viés de baixa para as nossas projeções para o Brasil. A incerteza relacionada ao protecionismo provavelmente será um entrave importante para o investimento no México (especialmente no setor de manufatura). Na Colômbia, além dos juros mais altos pagos nos títulos do Tesouro dos EUA, a reforma tributária proposta será negativa para o crescimento no curto prazo. Em relação ao Brasil, decidimos esperar os dados das contas nacionais no 3T16 antes de revisarmos nossas projeções. Enquanto isso, a melhora nos preços do cobre nos deixa mais confiantes quanto à nossa expectativa de alguma recuperação no Chile e no Peru.  

Um ambiente mais desafiador para política monetária

Em um contexto de crescimento fraco e inflação em queda, muitos bancos centrais estão entrando (ou estão prestes a entrar) em ciclos de flexibilização monetária. No entanto, o novo ambiente externo provavelmente tornará os bancos centrais mais cautelosos. O Banco Central (BC) iniciou um ciclo de flexibilização em outubro, com um movimento de 0,25 p.p., e agora esperamos um novo corte da mesma magnitude em novembro (anteriormente, esperávamos que o BC aumentasse o ritmo de cortes para 0,50 p.p., por reunião, já neste mês). Na Colômbia, esperamos agora que o ciclo de flexibilização tenha início apenas no 2T17 (em vez de 1T17). Na Argentina, é provável que ocorram mais cortes na taxa de juros, mas vemos menos espaço para flexibilização monetária do que anteriormente. Por outro lado, no Chile, vemos mais afrouxamento da política monetária do que anteriormente (esperamos agora um ciclo de 1,0 p.p. no próximo ano, em vez de 0,50%), devido à desinflação mais rápida do que o esperado e da economia ainda fraca. A divergência entre o Norte e a América do Sul deve continuar, e o banco central do México provavelmente aumentará mais os juros em relação ao que esperávamos antes das eleições norte-americanas. 


 

Para os demais textos, acessar o pdf em anexo.


 



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