Itaú BBA - O que esperar de 2016?

Macro Latam Mensal

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O que esperar de 2016?

Dezembro 8, 2015

A incerteza política e econômica deve prosseguir em 2016.

Para os demais textos, acessar o pdf em anexo.

Economia global
Crescimento global melhor e menor risco de deflação em 2016
Projetamos que o crescimento mundial melhore em 2016, com os países desenvolvidos mantendo o ritmo moderado, e com sinais de estabilização nos mercados emergentes. A inflação deve aumentar, tornando os riscos mais equilibrados.

América Latina
2016 com menos turbulência    
Em 2016, esperamos recuperação do crescimento econômico na América Latina. As taxas de câmbio devem depreciar um pouco em relação ao dólar, mas muito menos do que em 2015.

Brasil
Incerteza política e recessão em 2016    
As incertezas políticas e econômicas do cenário doméstico estão entrelaçadas e devem continuar. Esperamos uma nova queda do PIB e que o desemprego continue a subir no próximo ano.

Argentina
2016 começará em 10 de dezembro
Mauricio Macri tomará posse em 10 de dezembro. A nova administração indicou mudanças positivas na política econômica. Há problemas de resolução fácil. Mas o governo herdará uma série de sérios desequilíbrios econômicos.

México
Maior crescimento e inflação baixa em 2016
A taxa de câmbio mais depreciada e a recuperação da economia americana provavelmente impulsionarão as exportações de manufaturas. A recuperação da demanda externa, combinada com a inflação baixa, deve ajudar a manter o ritmo sólido de crescimento do consumo privado.  

Chile
Crescimento deve permanecer baixo por mais um ano
Para 2016, esperamos uma recuperação mais suave da atividade econômica, de 2,3% (2,5%, anteriormente), comparados aos 2,0% esperados para este ano. Seria o terceiro ano consecutivo de crescimento baixo, na medida em que a economia chilena se ajusta aos preços baixos do cobre.

Peru
Leve recuperação em ano eleitoral
Esperamos que o crescimento acelere em 2016, impulsionado pela produção mineira mais forte, pela estabilização do investimento privado e pela melhor execução dos investimentos dos governos locais.

Colômbia
O ano da paz?
Esperamos que a economia continue se ajustando aos preços mais baixos do petróleo com crescimento de 2,8% em 2016, abaixo dos 3,0% projetados para este ano. A assinatura do acordo de paz com as Farc no próximo ano é provável.

Commodities
Queda dos preços chegou ao fim?
Projetamos ligeira recuperação dos preços das commodities em 2016, impulsionada pelo ajuste no mercado do petróleo no segundo semestre de 2016, pela redução de capacidade na China e pela perspectiva de demanda ainda robusta das commodities agrícolas.


 


O que esperar de 2016?

O ano de 2016 não deve ser de todo ruim para economia mundial. As principais economias maduras devem manter a atual tendência de recuperação, enquanto as economias emergentes se estabilizam. Esperamos ainda o fim da queda dos preços de commodities: alguma recuperação deve ocorrer, reduzindo o risco de deflação global e melhorando os termos de troca de muitas economias emergentes.

Mas os riscos permanecem. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) pode precisar subir os juros mais rapidamente do que o apreçado no mercado, o que tende a gerar volatilidade. Na China, apesar dos sinais de melhora, o risco continua sendo de desaceleração mais intensa do que o projetado.

Na América Latina, esperamos recuperação gradual do crescimento em 2016. As taxas de câmbio devem seguir se depreciando, mas num ritmo bem mais lento, e os déficits em conta corrente, melhorando. Projetamos inflações cadentes, mas ainda acima do centro das metas de inflação. Isso deve ainda levar alguns bancos centrais a subir moderadamente os juros.

O Brasil é exceção em várias dimensões. As incertezas fiscais e políticas devem continuar elevadas, reduzindo a previsibilidade na economia. Projetamos nova contração do PIB e desemprego em alta em 2016. A inflação deve continuar elevada devido aos custos de produção pressionados, mas em trajetória declinante. Esperamos que o Banco Central (BC) mantenha a taxa de juros estável, embora exista o risco de novas altas no ano que vem, dada a comunicação recente do BC e a votação dividida do Comitê de Política Monetária (Copom) de novembro.

Mas é na Argentina que se depositam as maiores esperanças de mudança. O presidente eleito, Mauricio Macri, vem indicando novas e bem-vindas políticas. No entanto, é grande o desafio de remover os desequilíbrios atuais.


 


Economia global

Crescimento global melhor e menor risco de deflação em 2016

• Projetamos que o crescimento mundial acelere de 3,1%, em 2015, para 3,3%, em 2016. Os países desenvolvidos devem manter o ritmo moderado, e há sinais de estabilização nos mercados emergentes. A inflação deve aumentar, tornando os riscos mais equilibrados.

• Nos EUA, o risco é de inflação mais alta em 2016. A nosso ver, o mercado está subestimando o ritmo de aumento de juros no ano que vem.

• Na zona do euro, a recuperação deve continuar, reforçada por estímulos do Banco Central Europeu (BCE).

• No Japão, esperamos uma trajetória contínua, porém ainda difícil, de fim da deflação.

• A China continuará sendo o principal risco para a economia global em 2016.

Em 2015, os mercados emergentes desaceleraram, afetando o crescimento mundial. O crescimento do PIB da China caiu pouco, de 7,3%, em 2014, para 6,9%, em 2015. Porém, a desaceleração foi mais intensa no setor industrial e no investimento agregado, com efeitos sobre a demanda global e os preços das commodities. E outros dois emergentes grandes, Rússia e Brasil, enfrentaram recessões profundas.

Em 2016, o crescimento global deve acelerar para 3,3% (ante 3,1% este ano), com os países desenvolvidos continuando a recuperação, e os emergentes dando sinais de estabilização. A projeção para 2016 é consistente com a média de 3,4% entre 2012 e 2014. O crescimento dificilmente será maior, uma vez que os países desenvolvidos já estão crescendo acima da tendência de longo prazo, a China continuará desacelerando e outros mercados emergentes ainda precisam encontrar um modelo de crescimento menos dependente das commodities. Em contrapartida, a recessão profunda em alguns grandes mercados emergentes (como a Rússia) pode ser atenuada.

Esperamos mudança no balanço de riscos para a inflação em 2016 em países desenvolvidos, com aumento dos índices de inflação cheia e contínua aceleração dos núcleos da inflação. Projetamos estabilização nos preços da maioria das commodities e pequena recuperação dos preços do petróleo no segundo semestre. Isso será suficiente para elevar os índices de inflação cheia por causa do efeito de base de comparação (ver gráfico). Além disso, a ociosidade no mercado de trabalho continua diminuindo nas economias desenvolvidas, colaborando para um lento avanço dos salários e núcleos da inflação (ver gráfico).

O cenário global será heterogêneo

Inflação e perspectiva de política monetária continuarão divergentes nos mercados desenvolvidos. O aumento da inflação nos EUA ficará mais claro, o que nos leva a projetar uma alta maior dos juros do que o mercado antecipa. Na Europa, a inflação subirá gradualmente, com a ajuda do BCE. No Japão, os riscos ainda são de baixa, e o desafio de terminar com a deflação continua..

Nos mercados emergentes, alguns países seguem em desaceleração, enquanto outros já dão sinais de estabilização. As políticas monetárias também diferem. O Brasil enfrentará mais um ano de profunda recessão. Nos demais países da América Latina, onde o crescimento está se estabilizando e os índices de inflação permanecem acima das metas, esperamos estabilidade ou alta de juros. Já na Ásia, a inflação segue contida e ainda há algum espaço para expansão monetária.

O dólar provavelmente se fortalecerá um pouco mais em 2016. Prevemos uma valorização de 5% do dólar contra uma cesta de moedas de mercados emergentes. É um movimento pequeno, comparado ao ganho de 38% acumulado desde 2012. Esperamos que o euro se aproxime da paridade com o dólar, à medida que a política monetária continua divergindo da adotada nos EUA, mas sem ficar abaixo do dólar graças ao avanço da recuperação econômica na zona do euro.

A China continuará sendo o maior risco para a economia global em 2016. O país ainda tem de reequilibrar sua economia, em meio a níveis elevados de endividamento no setor corporativo e entre os governos locais.

EUA – Risco passa a ser de inflação acima do esperado em 2016

O Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA)  está próximo de realizar a primeira alta de juros em quase dez anos, mas acreditamos que os preços dos ativos não refletem totalmente o ciclo de aperto que está prestes a começar. O comitê de política monetária (Fomc, na sigla em inglês) deve começar a subir a Fed Funds Rate (a principal taxa de juro norte-americana) na reunião de 16 de dezembro. Esperamos alta de 1 p.p. e em 2016, embora os contratos futuros de Fed Funds tenham embutido alta de apenas 0,65 p.p. Assim, vemos aumento do rendimento da Treasury de 2 anos de 1,0%, no fim deste ano, para 2,0%, no fim do ano que vem, ou cerca de 0,35 p.p. acima do que precifica a atual curva a termo. As cotações de mercado implicam apenas dois aumentos na taxa de juros em 2016. Ressaltamos que, nos últimos três ciclos de aperto monetário, a Fed Funds Rate subiu 1,75 – 2,5 p.p.. no primeiro ano.

Por que as cotações embutem um ritmo tão modesto de elevação dos juros?  Os investidores continuam defendendo a hipótese de “estagnação secular”, que a taxa real de juros de equilíbrio é estruturalmente baixa, acreditando que os riscos para a inflação tendem para baixo. De fato, a inflação implícita no título de 5 anos está em 1,3%, 0,70 p.p. abaixo da meta de inflação do Fed, de 2%.

Porém, acreditamos que o balanço de riscos vai mudar, com inflação acima do esperado em 2016. Os fatores de baixa para a inflação — como deflação dos preços de energia e apreciação do dólar — tendem a se dissipar, enquanto a dinâmica de salários domésticos deve exercer pressão de alta sobre a inflação, uma vez que o pleno emprego nos EUA deve ser atingido em meados de 2016.

Dois movimentos importantes ajudarão a redefinir as percepções dos investidores sobre a inflação.

Primeiro, a inflação deve subir e se aproximar dos núcleos de inflação no primeiro trimestre, já que a maior parte da deflação do preço da gasolina vai deixar de entrar na variação em 12 meses. A variação em 12 meses do deflator dos gastos de consumo (PCE, na sigla em inglês) vai se acelerar de 0,2%, até outubro, para 1,3%, no primeiro trimestre, num movimento importante, uma vez que vem limitando a compensação de inflação implícita nos rendimentos dos títulos públicos (ver gráfico).

Em segundo lugar, o deflator do PCE deve avançar de 1,3%, no fim deste ano, para 1,7%, no fim de 2016. A apreciação em 12 meses da taxa de câmbio nominal efetiva (NEER, na sigla em inglês) de 15%, no terceiro trimestre de 2015, tem segurado o núcleo da inflação (ver gráfico). Esse fator vai se dissipar com o fortalecimento da NEER em “apenas” 5% adicionais em 2016. Além disso, a inflação de salários deve avançar de 2,0 - 2,5%, em 2015, para 2,5 - 3,0%, em 2016, exercendo alguma pressão sobre a inflação de serviços.

Por fim, projetamos expansão do PIB de 2,2% em 2016, o suficiente para continuar diminuindo a ociosidade no mercado de trabalho e contribuir para a normalização da inflação. Indicadores econômicos sugerem crescimento anualizado com ajuste sazonal de 2,0% no segundo semestre de 2015. A indústria de transformação continua ajustando produção e estoques à demanda externa mais lenta. A demanda doméstica privada continua firme, embalada por condições financeiras expansionistas. Essa força deve continuar em 2016, uma vez que a taxa de juros permanecerá baixa, apesar das elevações esperadas. O gasto do governo federal também será um fator de leve contribuição em 2016, devido ao orçamento definido para o ano fiscal. As exportações líquidas devem continuar limitando a expansão do produto, mas o crescimento continuará acima da tendência, o que basta para continuar reduzindo a ociosidade da mão de obra.

Europa – Recuperação avançará em 2016 com a ajuda do BCE

A recuperação econômica da zona do euro deve continuar em 2016, com a política expansionista do BCE. Ainda que não tenha sido forte, o crescimento foi mais estável em 2015, puxado pela demanda doméstica. Isso deve se repetir no ano que vem, com a ajuda das condições financeiras expansionistas, à medida que o BCE mantém os juros negativos, e com a continuação do programa de compra de ativos. A política monetária expansionista está afetando os tomadores finais de empréstimos, através de queda dos juros e aumento do crédito (ver gráfico).

Política fiscal marginalmente expansionista e preços baixos do petróleo também devem ajudar a recuperação. À frente, esperamos estabilização do preço do petróleo, mas a queda observada neste ano ainda será positiva para o consumo em 2016.

A inflação tende a se recuperar lentamente, mantendo o BCE alerta para riscos de resultados abaixo do esperado. A inflação deve ser maior do que 0% que deve ser registrado neste ano, à medida que o efeito base da queda do preço do petróleo se torna mais favorável. Porém, a inflação tende a ficar próxima a 1%, durante a maior parte de 2016, e só ganhará fôlego no fim do próximo ano. O núcleo da inflação deve subir apenas lentamente, por causa do amplo hiato do produto na região. Isso significa que o BCE continuará vendo riscos de resultados abaixo do esperado para a inflação e continuará pronto para adotar novas medidas, se necessário.

Porém, há riscos para a recuperação doméstica, relacionados à situação geopolítica e ao crescimento potencial fraco. O risco de novos ataques terroristas na Europa deve continuar relevante em 2016. Os últimos ataques em Paris devem ter efeito pequeno e transitório sobre o crescimento do PIB, porém a confiança de consumidores e empresários pode ficar abalada caso episódios similares se repetirem com mais frequência. O crescimento potencial fraco, que calculamos ao redor de 1%, pode ser ainda menor, uma vez que a perspectiva para reformas estruturais continua modesta.

Mantivemos nossas projeções para o crescimento do PIB inalteradas em 1,5% em 2015 e 1,7% em 2016. 

Japão – O banco central perdeu a batalha contra a deflação? O programa de reformas Abenomics chegou ao fim?

A economia japonesa enfrentou turbulência em 2015. O PIB caiu 0,5% no segundo trimestre, mas cresceu 1,0% no terceiro trimestre. Esperamos crescimento do PIB de 0,6% em 2015. Em termos de crescimento do PIB per capita, o resultado não é ruim (0,9%), mas a recuperação ainda é fraca, diante da variação nula de 2014 e da expansão de 1,2% que projetávamos no início do ano.

O progresso do combate à deflação também ficou menos claro. A inflação excluindo alimentos e energia subiu de 0,4%, em dezembro de 2014, para 0,7%, em outubro de 2015. No entanto, as expectativas de inflação de longo prazo começaram a cair novamente (ver gráfico), representando uma ameaça de retorno da mentalidade deflacionária no Japão.

Não esperamos progresso na parte estrutural do programa Abenomics. O programa de reformas promovido pelo primeiro-ministro Shinzo Abe já perdeu fôlego este ano, com pouco avanço na superação de desafios fiscais e estruturais. Não esperamos uma retomada em 2016 e, portanto, não antecipamos mudanças nas perspectivas de crescimento do Japão no longo prazo.

Mas acreditamos que o Japão continuará fazendo progressos contra a deflação e que o banco central irá permanecer pronto para reagir, se necessário. Em nossa visão, ocorrerá um aumento lento da inflação em 2016, alcançando a meta de 2% em 2017. Com expansão da economia acima da tendência em 2016 (projetamos crescimento do PIB de 1,0%), o mercado de trabalho continuará apertado e os salários vão subir. Isso deve elevar a inflação, à medida que o efeito de depreciação do yen se dissipa. Porém, os riscos ainda são de números abaixo do esperado. As negociações salariais do ano que vem, que começam em abril, serão fundamentais. Se os riscos globais ou domésticos ameaçarem os reajustes salariais durante as negociações, o banco central pode afrouxar ainda mais sua política extremamente expansionista.

China – Riscos continuarão sendo de baixa em 2016

A economia chinesa chega ao fim de 2015 com dados mistos de atividade, mas com alguma estabilização nos mercados financeiros. Depois da queda do mercado acionário e da mudança conturbada na política cambial na metade do ano, a condução de políticas tornou-se mais estável.  O Fundo Monetário Internacional (FMI) finalmente anunciou que o yuan entrará na cesta de moedas do sistema de Direitos Especiais de Saque, e os formuladores de política econômica da China continuam afirmando que visam uma moeda estável. Já os dados de atividade seguem mistos. A produção industrial subiu 5,6% em outubro, e as vendas no varejo cresceram 11,0% — resultados relativamente em linha com as variações de 5,7% e 10,9%, respectivamente, apuradas em setembro. O crescimento do investimento fixo subiu para 9,3%, vindo do patamar fraco de 6,8% no mês anterior. O Índice Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês) do setor industrial caiu de 49,8, em outubro, para 49,6, em novembro, porém, o PMI que exclui o setor industrial avançou de 53,1 para 53,6.

Mantemos nossa projeção de crescimento do PIB de 6,9% em 2015, mas a contribuição incomum do setor financeiro representa 0,3 p.p. dessa estimativa.

Para 2016, esperamos continuação do reequilíbrio gradual da economia e desaceleração do PIB para 6,3%, com a atividade ainda rodando em duas velocidades distintas. Do ponto de vista da demanda, o investimento tende a se desacelerar ainda mais, enquanto o consumo doméstico deve continuar a ter um ritmo forte de expansão. Do ponto de vista da oferta, o setor industrial crescerá menos do que o de serviços, mas a desaceleração deve ser menos acentuada do que em 2015. Entendemos que a contribuição incomum do setor financeiro se dissipará ao longo do ano. O crescimento “ajustado” do PIB será aproximadamente 0,3 p.p. menor do que em 2015 (e não 0,6 p.p., como sugere o resultado cheio).

Os riscos ainda serão de baixa, uma vez que os objetivos de reequilibrar a economia e conseguir um pouso suave representam desafios para a política econômica. A alavancagem excessiva da economia e medidas de liberalização podem reduzir a eficácia da política monetária, enquanto a campanha anticorrupção e as mudanças no financiamento dos governos locais afetam a política fiscal. A governança ruim de empresas estatais ainda é fonte de má alocação de capital, e a melhora nesse quesito tem sido lenta.

Commodities – Queda dos preços chegou ao fim?

Os preços das commodities recuaram mais em novembro. O Índice de Commodities Itaú (ICI) recuou 6,4% no período. A queda ainda é reflexo do excesso de oferta em diversos produtos e do contágio do petróleo nos custos de produção e transporte. Metais e energia caíram mais (8,9% e 7,6%, respectivamente), enquanto o ICI-agrícola recuou menos (-3,5%). O desempenho recente repete o padrão observado no ano: metais recuando mais (-32%), seguido por energia (-20%), enquanto as commodities agrícolas recuaram 11%. Avaliamos que diferenças no padrão de demanda explicam a divergência entre os componentes.

Reduzimos nossas projeções de metais e de soja para 2016. A revisão para baixo em metais incorpora a queda recente, sem fatores para uma recuperação. A revisão na soja é consequência da perspectiva de sua maior disponibilidade diante de novas políticas na Argentina.

No entanto, nosso cenário considera uma alta de 10% do Índice de Confiança da Indústria (ICI), em relação aos níveis atuais, até o fim de 2016, tendo em vista a recuperação parcial no petróleo, a redução do excesso de capacidade na China e um balanço favorável para as commodities agrícolas. O nível atual de preços do petróleo — que deve permanecer baixo por mais tempo por causa da reposição de estoques em curso — deve levar a cortes adicionais no investimento fixo no setor, reduzindo a oferta futura e equilibrando o mercado no segundo semestre de 2016. Uma recuperação do preço do petróleo afeta os custos (e preços) das commodities metálicas e agrícolas. A China deve continuar avançando na redução de excesso de capacidade, o que retira oferta do mercado. Por fim, o crescimento da demanda por commodities agrícolas continua forte, e questões climáticas podem voltar à tona após dois anos favoráveis no agregado.

Esse aumento esperado é pequeno em relação à queda de 50% acumulada desde 2012, mas é suficiente para melhorar os termos de troca dos exportadores de commodities e para reduzir as pressões deflacionárias globais.


 


América Latina

2016 com menos turbulência

Em 2016, esperamos recuperação do crescimento econômico na América Latina. As taxas de câmbio devem depreciar um pouco em relação ao dólar, mas muito menos do que em 2015. Com as moedas mais fracas, os déficits em conta corrente devem cair. A estabilização das taxas de câmbio contribuirá para trazer a inflação para baixo, mas, devido à inércia, os centros da meta dos bancos centrais não devem ser atingidos. Com a inflação ainda pressionada, alguns bancos centrais provavelmente continuarão aumentando as taxas de juros, mas esperamos pouca elevação. Também no próximo ano haverá eventos políticos importantes, como a evolução da crise fiscal/política no Brasil, as eleições presidenciais no Peru, o acordo de paz entre as Farc e o governo colombiano e a continuação do processo de reformas no Chile. Finalmente, na Argentina, 2016 começará em 10 de dezembro, quando o presidente recém-eleito Mauricio Macri tomar posse.

As economias da América Latina devem ter melhor desempenho no próximo ano, em relação a 2015. Para o Brasil, isso ainda significa contração em 2016 (embora menos intensa do que em 2015). No Peru, a recuperação será mais forte à medida que novos projetos de mineração entram em operação, o investimento privado se estabiliza e os gastos de capital público (um grande obstáculo para o crescimento este ano) aceleram. No Chile, a estabilização do investimento também deverá ajudar o crescimento. Na Colômbia, a economia este ano vem sendo sustentada pelo crescimento do crédito e investimento público. Como esses dois fatores não devem ter tanta influência no próximo ano (devido ao aperto das políticas macro), esperamos que a economia desacelere um pouco. No entanto, alguns fatores específicos (a refinaria de Cartagena e o programa de infraestrutura 4G) provavelmente sustentarão o crescimento. O México é o único país onde esperamos crescimento acima da média dos últimos anos. A recuperação da economia dos EUA, combinada ao peso mexicano mais fraco e, em menor medida, à implementação da reforma energética, provavelmente elevarão o crescimento.

As taxas de câmbio na América Latina provavelmente terão uma pequena desvalorização em relação ao dólar em 2016. Por um lado, esperamos que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) eleve os juros no próximo ano para um patamar um pouco acima do que o mercado está precificando. Por outro, esperamos alguma recuperação dos preços das commodities. O real provavelmente continuará apresentando desempenho inferior às demais moedas, com a permanência da incerteza sobre a situação política e fiscal. À medida que a incerteza sobre o cenário externo diminui, esperamos que muitos bancos centrais reduzam gradualmente a intervenção. De fato, a estabilização recente do peso mexicano incentivou a eliminação dos US$ 200 milhões oferecidos pelo banco central ao mercado sem preço mínimo, o que significa que, agora, as vendas de dólares só ocorrerão se a taxa de câmbio se depreciar pelo menos em 1%.

Com a demanda interna estabilizada e as exportações de commodities caindo ainda mais, os déficits em conta corrente de muitos países da América Latina deterioraram entre o 2T15 e o 3T15. No Brasil, onde a economia ainda não parou de contrair, o déficit em conta corrente continua diminuindo. De qualquer forma, esperamos que os déficits em conta corrente da maioria dos países da região caiam em 2016, impulsionados pelo impacto defasado da depreciação cambial.

Com as taxas de câmbio depreciando muito menos do que em 2015 e o crescimento ainda fraco, a inflação provavelmente cairá no próximo ano. No entanto, com exceção do México, não esperamos que a inflação atinja os respectivos centros da meta dos bancos centrais em 2016. Com a inflação acima do intervalo da meta por muitos meses em Brasil, Chile, Colômbia e Peru, esperamos uma convergência lenta da inflação para a meta.

Considerando que a inflação ainda está pressionada, alguns bancos centrais provavelmente continuarão aumentando as taxas de juros, mas esperamos que o ciclo de aperto termine no curto prazo. Enquanto o crescimento permanece fraco, a taxa de câmbio se estabiliza e a inflação cai gradualmente, é improvável que os bancos centrais aumentem muito mais as taxas de juros. No Brasil, onde a política monetária já está apertada, não esperamos movimentos nos juros: o nível alto da inflação e das expectativas de inflação impedem cortes nos juros, ao mesmo tempo em que a recessão profunda impede aumentos adicionais da taxa básica. Na Colômbia, apesar das expectativas de inflação em alta, o banco central reduziu o ritmo de aumentos da taxa de juros para 0,25 pontos percentuais em novembro e indicou que dois anos é um horizonte apropriado para trazer a inflação para a meta de 3%. Esperamos que o banco central colombiano termine o ciclo com um aumento de 0,25 p.p. na taxa de juros nas duas próximas reuniões. No Chile e no Peru, onde a inflação se estabilizou, o ciclo de aperto tem sido mais gradual (o banco central peruano manteve a taxa de juros inalterada em outubro e novembro, após optar por um aumento em setembro, enquanto o banco central chileno manteve a taxa de juros inalterada em novembro, depois de iniciar um ciclo de aperto no mês anterior). Esperamos apenas um aumento adicional de 0,25 p.p. no Chile e dois aumentos adicionais de 0,25 p.p. no Peru. Por fim, no México, acreditamos que o desempenho mais benigno do peso mexicano, em conjunto com as novas surpresas de baixa para a inflação, irá incentivar o comitê a atrasar aumentos das taxas de juros para o 1T16, após o início do ciclo de aperto do Fed em dezembro. Esperamos aumentos nos juros totalizando 100 pontos-base no México no próximo ano, a partir do 1T16.

Haverá eventos políticos importantes na região em 2016. Um acordo entre as Farc e o governo colombiano está previsto para março, seguido por um referendo sobre o acordo. No Peru, haverá eleições presidenciais em abril. Apesar de os principais candidatos serem percebidos como favoráveis ao mercado, alguma incerteza permanece, já que no passado as pesquisas não conseguiram capturar, nesta época do ano, o resultado das eleições. No Chile, o debate e aprovação das reformas controversas devem continuar. No Brasil, o foco continuará sobre a evolução da crise política/fiscal.

Na Argentina, 2016 começará em 10 de dezembro, quando Mauricio Macri, o candidato de centro-direita que venceu as eleições presidenciais, assumirá o cargo. Os nomes anunciados para a equipe econômica foram muito bem recebidos pelos mercados. Mas há desafios significativos para a próxima administração.

Vemos pouco espaço para o adiamento de uma desvalorização do peso argentino, dado o nível baixo das reservas internacionais e sua tendência de queda. Esperamos que a taxa de câmbio termine este ano em 13 pesos por dólar (depreciação de 34% em relação ao nível nominal atual).  Para conter as compras de dólares e evitar que a inflação suba demais, esperamos uma política monetária mais apertada. Esperamos que a taxa Badlar termine este ano em 35%. Também para reduzir a pressão sobre a taxa de câmbio, os controles sobre as operações de dólares não serão totalmente eliminados no curto prazo, embora esperamos que sejam afrouxados. Enquanto isso, o governo provavelmente tentará atrair fluxos de dólares (de estrangeiros ou de poupança de argentinos no exterior). Em 2016, esperamos que a taxa de câmbio termine o ano em 17,1 pesos por dólar, o que implica uma taxa de câmbio real praticamente estável em relação à nossa projeção para o fim de 2015.  A taxa de câmbio real continuaria forte em comparação à sua própria história. No entanto, a história pode não servir como guia. Com políticas mais favoráveis ​​ao mercado, a Argentina pode viver com um déficit em conta corrente maior do que nos últimos anos. Ainda assim, reconhecemos que a gestão da transição não será fácil, com riscos de que a taxa de câmbio se deprecie mais do que esperamos. 

Esperamos que a economia argentina contraia 0,5% em 2016. Esperamos que o impacto negativo da desvalorização sobre os salários reais e o aperto das políticas macro deverão mais do que compensar os benefícios do aumento da confiança no curto prazo. No médio prazo, os ajustes devem gerar resultado. Esperamos recuperação da atividade em 2017, com queda da inflação.

Para os demais textos, acessar o pdf em anexo.


 

 



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