Itaú BBA - Fraqueza temporária no mundo, efeitos na América Latina

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Fraqueza temporária no mundo, efeitos na América Latina

Maio 8, 2013

Há sinais de desaceleração na economia mundial no curto prazo.

Economia global
Desaceleração transitória
Crescimento global tem decepcionado, e os bancos centrais continuam estimulando suas economias. Esperamos que a economia global melhore no segundo semestre

Brasil
Menor crescimento, mais estímulos fiscais    
Reduzimos a projeção de superávit primário e de crescimento do PIB em 2013. A inflação deve desacelerar temporariamente, mas os núcleos de inflação devem permanecer altos

Argentina
Sob pressão
O peso segue depreciando rapidamente no mercado paralelo, e as reservas internacionais continuam caindo

México
Há ameaça para as reformas?
Estamos confiantes de que a atual administração vai aprovar as principais reformas no Congresso. Esperamos agora queda de juros no terceiro trimestre deste ano

Chile
Lidando com o preço mais baixo do cobre
A piora nos preços de exportação deve prejudicar a atividade, mas não antes de 2014. Reduzimos a nossa projeção de crescimento para 4,8% no ano que vem

Peru
O impacto da queda dos preços de metais na economia
Aumentamos a projeção de déficit em conta corrente e reduzimos marginalmente a de crescimento do PIB      

Colômbia
Qual é o impacto do pacote de medidas?
O crescimento permanece fraco, mas o pacote de estímulos do governo reduz os riscos para a retomada da atividade  

Commodities
Preços de metais seguirão baixos
Preços de commodities recuam em abril, com menor atividade global e apreciação do dólar. Fundamentos para metais são consistentes com preços mais baixos ao longo do ano


Fraqueza temporária no mundo, efeitos na América Latina

Há sinais de desaceleração na economia mundial no curto prazo. Estados Unidos e China divulgaram números piores do que o esperado no primeiro trimestre e, na Europa, indicadores antecedentes sugerem que a recessão ainda não terminou. Mas os sinais não alteram significativamente a projeção de crescimento mundial este ano. Esperamos crescimento mais forte no segundo semestre. Mesmo transitória, essa fraqueza está levando a mais estímulos monetários, da enorme expansão realizada pelo Banco do Japão à queda dos juros do Banco Central Europeu, passando pelo adiamento da retirada da expansão monetária pelo Fed (esperamos início a partir do final deste ano).

Nesse cenário de desaceleração, os preços das commodities têm sofrido, especialmente as metálicas, o que pode afetar algumas economias latino-americanas. Chile e Peru, grandes exportadores de metais, tendem a um déficit um pouco maior na conta corrente e crescimento econômico menos forte. Na Colômbia, o crescimento econômico continua a desapontar, levando o governo a lançar um novo pacote de estímulo.

No México, a continuidade das reformas alimenta a esperança de desempenho econômico favorável. Conflitos recentes na coalizão adicionaram incertezas ao cenário, mas não o suficiente para desviar o país do caminho das mudanças. A manutenção dos estímulos monetários no mundo reforça o cenário de apreciação da moeda e queda de juros. Estamos antecipando a projeção de queda de juros para o terceiro trimestre deste ano.

O Brasil tem reforçado as políticas estimulativas - principalmente a fiscal - para recuperar o crescimento econômico que continua a decepcionar. Estamos reduzindo nossa projeção de crescimento para ligeiramente abaixo de 3% em 2013. Ao mesmo tempo, a economia enfrenta uma inflação persistente. Como reagirá a política monetária? Nosso cenário é de alta total de 1,0 ponto percentual na taxa de juros em 2013, mas alguns membros do Copom podem votar por aumentos mais intensos.

Na Argentina, a pressão sobre a economia aumenta: forte desvalorização do peso no mercado paralelo, queda de reservas internacionais e mais controles de preços. A popularidade do governo segue caindo nas pesquisas e o governo enfrenta novas manifestações populares.

Economia global
Desaceleração transitória

  • Os indicadores de crescimento econômico globais têm decepcionado recentemente.

  • Vemos este como um período transitório de baixo crescimento antes que a economia global melhore no segundo semestre.

  • A desaceleração, mesmo sendo transitória, posterga ainda mais qualquer discussão sobre redução de estímulos monetários à frente.

  • No Japão, o afrouxamento quantitativo agressivo pode manter o iene mais fraco no médio prazo.

Os indicadores econômicos globais enfraqueceram recentemente. O PIB dos EUA cresceu 2,5% anualizado com ajuste sazonal no 1T13, abaixo da nossa previsão de 3,1%. Esperamos mais desaceleração para 1,3% no 2T13. Na China, o PIB cresceu 7,7% no 1T13, também abaixo da nossa previsão de 8,0%. E os principais indicadores sugerem que a recessão na zona do euro se estenderá para o 2T13. Revisamos para baixo nossas previsões de crescimento do PIB para 2013 para estas três economias (ver abaixo).

Acreditamos que a desaceleração será transitória e continuamos esperando um melhor crescimento no segundo semestre. Nos EUA, já esperávamos uma redução de ritmo, dada a contração fiscal que o governo vem implementando. Entendemos que é um quadro de crescimento temporariamente mais baixo nos próximos dois trimestres, ao invés de um enfraquecimento mais persistente. Na China, o crescimento no 2T13 já deve apresentar melhora sobre o 1T13. Só na Europa que a situação econômica continua mais delicada, com riscos de baixa persistentes para a recuperação no segundo semestre.

Quais as implicações de política econômica da desaceleração corrente?

Vemos apenas alterações pequenas na postura já expansionista da política monetária ao redor do mundo. O Banco Central Europeu (BCE) cortou sua taxa central de 0,75% para 0,50%. Nos EUA, o comunicado da reunião do FOMC de maio já mostrou alguma flexibilidade. Acreditamos que isso é consistente com a nossa visão de que o início da redução gradual do afrouxamento quantitativo ocorre no 4T13, ao invés do meio do ano, como sugerido na ata da reunião de março.

Para os mercados emergentes, isso significa uma extensão dos juros baixos, entradas de capital e cenário de apreciação cambial por mais tempo.

Em termos de política fiscal, o debate é intenso, mas não prevemos uma mudança de direção. Em nosso cenário, a contração fiscal atua como um freio importante à retomada este ano, mas este efeito deve diminuir substancialmente em 2014.

Na China, os condutores da política econômica parecem confortáveis ​​com a desaceleração no 1T13. Eles vêm enfatizando o processo atual de reestruturação econômica, que tende a ser consistente com um crescimento menor. Portanto, não vemos fortes estímulos à frente.

Por último, os preços dos metais básicos caíram em resposta aos dados globais mais fracos e alguns choques idiossincráticos. Estamos reduzindo nossas previsões de fim de ano.

EUA – Desaceleração cíclica à frente

Os indicadores de atividade nos EUA enfraqueceram. A desaceleração é consistente com nosso cenário em que, após uma expansão de 2,5% anual com ajuste sazonal no 1T13, a economia dos EUA vai passar por um enfraquecimento cíclico nos próximos dois trimestres. Reduzimos apenas ligeiramente nossa previsão do PIB para 1,8%, de 1,9%, devido ao crescimento menor que o esperado no 1T13.

Fatores transitórios que impulsionaram o crescimento no 1T13 estão se exaurindo, explicando parte da desaceleração. A acumulação de estoques contribuiu com 0,8 ponto percentual para o crescimento do PIB no 1T13 (ver gráfico). Este ritmo de acumulação de estoques não é compatível com os dados já conhecidos do 2T13. O componente de estoques do índice ISM do setor manufatureiro, por exemplo, já aponta para uma desaceleração.

O crescimento de 3,2% (anualizado, com ajuste sazonal) do consumo no 1T13 foi financiado por uma queda da poupança das famílias para 2,6% da renda disponível, frente a uma média de 3,6% em 2012. Acreditamos que essa queda na poupança não é sustentável. As vendas de veículos e o núcleo das vendas no varejo já desaceleraram, indicando que a taxa de poupança está convergindo de volta para 3,0%, consistente com um crescimento menor do consumo à frente.

Além disso, os cortes automáticos de gastos do governo federal (conhecido como “Sequestro”) devem se concentrar mais entre 2T13 e 3T13, levando a uma desaceleração em particular do crescimento do PIB neste período.

Diante desta desaceleração cíclica, esperamos que o FOMC postergue qualquer redução na expansão dos estímulos monetários para o 4T13, em vez de meados do ano como a ata da reunião de março sinalizou. Já vimos o FOMC mais flexível no comunicado da reunião de maio, afirmando que está pronto para aumentar ou diminuir suas compras de títulos, dependendo de mudanças nas perspectivas do mercado de trabalho e da inflação.

Europa – Recessão continua; BCE responde com pequeno corte nos juros

Os principais indicadores mostram que a zona do euro deve continuar em recessão no 2T13. O índice dos gerentes de compras (PMI) permaneceu em 46,9 em abril, bem abaixo do limiar de 50, que separa expansão de contração. O dado é consistente com a contração de 0,15% para o PIB que estamos prevendo para o primeiro e segundo trimestre de 2013.

Ainda esperamos que o PIB volte a crescer no 2S13, mas os riscos de baixa continuam. Famílias e empresas nos países da periferia continuam pagando taxas de juros elevadas para contratar empréstimos. Empréstimos bancários para o setor privado em países como Espanha e Itália mantêm uma tendência de queda (ver gráfico). A confiança dos empresários e dos consumidores vem se recuperando muito lentamente frente aos níveis baixos alcançados no ano passado.

Como consequência, esperamos um crescimento ligeiramente menor no 2S13. Para o ano todo, reduzimos nossa previsão do PIB de -0,6% para -0,7% em 2013 e de 0,9% para 0,7% em 2014.

O BCE respondeu à fraqueza na atividade com uma redução da taxa básica para 0,50%, de 0,75% em maio. Em nossa opinião, a mudança sinaliza uma vontade de atuar mais, porém oferece muito pouco estímulo para a economia. Se o crescimento não retomar no segundo semestre, acreditamos que o banco central vai acabar expandindo seu balanço para facilitar o acesso ao crédito de pequenas e médias empresas dos países periféricos, ou cortar a taxa de depósito, atualmente em 0%, para um valor negativo.

China – Desaceleração no 1T13

Lentidão na indústria e a desaceleração do investimento reduziram o crescimento do PIB sobre o mesmo trimestre do ano anterior de 7,9% no 4T12 para 7,7% no 1T13, abaixo de nossa previsão de 8,0%. O movimento interrompe a retomada observada na economia chinesa durante o segundo semestre de 2012.

Atividade econômica continuou fraca em março. A produção industrial avançou 8,9% frente ao ano passado, taxa menor que a média de 9,9% registrada nos dois primeiros meses do ano. O crescimento anual do investimento em ativos fixos caiu de 21,2% para 20,7%. O investimento imobiliário caiu para 17,6%, de 22,8%, refletindo as restrições do governo. A exceção pelo lado positivo foram as vendas nominais no varejo, que subiram 12,6%, comparado a 12,3% nos dois meses anteriores.

Não esperamos uma nova desaceleração nos próximos trimestres. Na margem, a expansão trimestral anualizada do PIB deve se recuperar, dos 6,8% registrados no 1T13 para 7,8% no 2T13 e no 3T13. Revisamos para baixo nossa previsão do PIB em 2013 para 7,7%, de 8,0% anteriormente principalmente pela incorporação dos dados mais fracos do primeiro trimestre. Para 2014 mantivemos a projeção de 7,7%.

Não prevemos fortes reações de políticas econômicas em resposta aos dados mais fracos. Membros do governo afirmaram que o PIB e o emprego ainda estão dentro de um intervalo "razoável". Eles destacam que o país deve priorizar reformas e o reequilíbrio da economia, ao invés do crescimento no curto prazo. Os dados do primeiro trimestre mostram alguns sinais preliminares de progresso nesse sentido, com o consumo contribuindo 4,3 pontos percentuais para o crescimento do PIB, acima dos 2,3 pontos percentuais da formação de capital.

Japão – Os investidores japoneses vão inundar o resto do mundo com fluxos financeiros?

O banco central do Japão (BoJ) anunciou em 4 de abril um novo e mais agressivo programa de compra de ativos, com o objetivo de elevar a inflação para a sua nova meta de 2%. O programa consiste principalmente de compra de títulos do governo japonês.

Desde o anúncio, temos nos perguntado se os investidores japoneses irão aumentar as compras de ativos em carteira no exterior. Rendimentos reais mais baixos no mercado interno poderiam tornar títulos estrangeiros mais atraentes. O movimento de investidores japoneses buscando rendimentos no exterior pode afetar os fluxos financeiros no mundo todo.

No entanto, os dados recentes mostram que os investidores japoneses continuam repatriando fundos. Dados semanais de transações com títulos internacionais mostram que os residentes venderam, em termos líquidos, cerca de 186 bilhões de ienes (1,9 bilhão de dólares) e 1,2 trilhões de ienes, respectivamente, em ativos estrangeiros (de renda fixa e ações) nas duas semanas após a reunião de abril (ver gráfico).

Evidências sugerem que saídas de capital japonês ainda podem acontecer. Parte da entrada contínua de capital é devida ao rebalanceamento de carteira e realização de lucros após a acentuada depreciação do iene. E amudança na política do BoJ é muito recente para ter gerado realocação significativa de ativos por parte de grandes investidores institucionais japoneses. Muitas das principais companhias de seguros e fundos de pensão japoneses sugeriram em seus planos de investimento para o ano fiscal de 2013 que devem considerar aumentos nos investimentos em títulos estrangeiros.

Commodities – Preços de metais devem permanecer baixos

Os preços das commodities caíram 4.0% (de acordo com o nosso Índice Itaú de preços de Commodities, ou ICI) na média de abril, como resultado de uma combinação de choques. Em primeiro lugar, as estimativas de estoques divulgadasno final de março sugeriram uma demanda mais fraca do que o esperado para grãos e oleaginosas, levando a queda nos preços dos produtos agrícolas (principalmente milho). Em segundo lugar, a venda em massa de metais preciosos nas ultimas semanas afetou outras classes de ativos, como metais básicos e energia. Por último,o crescimento chinês desapontou no primeiro trimestre, levando muitos analistas (inclusive nós) a rever para baixo suas estimativas do PIB do país para este ano.

Como nossas previsões de fim de ano mudam com a deterioração na perspectiva da demanda?

A principal revisão está em metais básicos, uma vez que o menor crescimento da China e a expansão observada da capacidade de oferta reduzem os preços ao longo do ano. Revisamos nossa previsão de fim de ano para o subíndice de metais básicos de uma alta de 5,1% para uma queda de 4,2% sobre o ano anterior. No entanto, não alteramos nossa previsão para o minério de ferro. Continuamos esperando que os preços caiam para cerca de US$ 125,0 por tonelada em dezembro, de uma média de US$ 137,7 em abril.

Revisamos para cima nossas previsões de fim de ano para o subíndice de energia, para 3,7% sobre o ano anterior, contra 2,6% anteriormente, apesar da forte queda nos preços do petróleo bruto causada pela perspectiva macro mais fraca e pelo balanço de curto prazo menos apertado. Este ajuste na projeção reflete os estoques menores de gás natural nos EUA, que levam a um aumento no preço do gás. Também mantivemos nossas previsões de fim de ano dos preços do barril de petróleo do tipo Brent em US$ 110, conforme a capacidade operacional das refinarias se recupera e a oferta de petróleo sofre algum impacto devido a questões geopolíticas.

Os preços e fundamentos das commodities agrícolas evoluíram razoavelmente em linha com nosso cenário, dado que já tínhamos incorporado o impacto da redução da demanda no nosso último relatório. No entanto, dois riscos devem ser vigiados de perto nas próximas semanas. Em primeiro lugar, o plantio de milho nos EUA está bem atrasado. Este atraso pode ser resolvido nas próximas semanas, mas a cultura pode ser menos resistente a condições climáticas adversas. Outra possibilidade é a mudança de área plantada para soja, o que alteraria as perspectivas de oferta tanto para a soja como para o milho. O segundo risco é a evolução da gripe aviária na China e seus efeitos sobre a demanda por milho e farelo de soja.

Brasil
Menor crescimento, mais estímulos fiscais

  • Reduzimos a projeção de superávit primário deste ano de 1,9% para 1,5% do PIB. Para 2014 mantemos a projeção de 0,9% do PIB.

  • Reduzimos a projeção de crescimento do PIB para este ano de 3,0% para 2,8%. A expansão no primeiro trimestre deve ter sido um pouco menor do que esperávamos, e há sinais de mais moderação no começo do segundo trimestre. Para 2014, reduzimos a projeção de crescimento do PIB de 3,5% para 3,3%.

  • A inflação deve desacelerar, mas o quadro de núcleos elevados não deve se alterar. As projeções para o IPCA foram mantidas em 5,6% este ano e 6,0% em 2014.

  • Mantemos a projeção de aumento de 1 ponto percentual na taxa de juros Selic em 2013. No entanto, os estímulos existentes e a persistência da inflação devem levar alguns membros do Copom a votarem por aperto maior nos juros.

  • Reduzimos a projeção para o saldo comercial de 2013 de US$ 10 bilhões para US$ 6 bilhões. A projeção para o déficit em transações correntes subiu de 2,9% para 3,0% do PIB em 2013. Projetamos o câmbio em torno de 2,00 reais por dólar no fim deste e do próximo ano.

Política fiscal mais estimulativa em 2013

Decisões recentes confirmam a intenção de promover uma postura fiscal mais acomodatícia (pelo menos) em 2013. Os dados de março mostraram um pior desempenho fiscal, devolvendo o resultado atipicamente forte de janeiro. Os números acumulados no ano sinalizam um superávit primário menor em 2013, principalmente em função de desonerações tributárias. Para frente, a sinalização de novos cortes de impostos e a menor contribuição orçamentária de governos regionais indicam que o superávit fiscal deverá continuar baixo, e em tendência de queda.

Nossos cálculos indicam que o superávit primário recorrente (que exclui do resultado convencional receitas e despesas atípicas ou temporárias) caiu para 1,5% do PIB, o menor patamar desde abril de 2011. Em março, o setor público registrou o segundo menor resultado fiscal para o período desde o início da série histórica (2002), reflexo de desonerações e de maiores gastos com custeio. O superávit primário do mês ficou em 3,5 bilhões de reais, ou 0,9% do PIB. Em 12 meses, o superávit primário convencional caiu de 2,2% do PIB em fevereiro para 2,0% em março.

O Tesouro Nacional não precisará mais compensar resultados fiscais abaixo do previsto de governos regionais. Esta mudança de regra, proposta no projeto da lei de diretrizes orçamentárias (PLDO) de 2014, também será válida para este ano (após a aprovação pelo Congresso desta alteração na lei orçamentária de 2013).  Esta é uma sinalização de busca por maior flexibilidade e estímulo fiscal. Com esta mudança, criam-se novos incentivos para uma redução de esforço fiscal tanto de entes regionais como do próprio governo central.

Revisamos nossa projeção de superávit primário consolidado de 2013 de 1,9% para 1,5% do PIB. Reduzimos também nossas projeções de superávit primário para o governo central de 1,40% do PIB para 1,15%, com maior volume de desonerações e gastos com custeio. Estamos esperando ainda uma queda mais intensa no resultado primário de estados e municípios, que deverá atingir a marca de 0,3% do PIB em 2013 (projeção anterior: 0,4%), comparada aos 0,5% de 2012.

Para 2014, mantemos a projeção de saldo primário consolidado de 0,9% do PIB, com um resultado de 0,9% do governo central (exatamente na meta estipulada para fins de cumprimento da LDO) e um superávit primário praticamente nulo de governos regionais. Acreditamos que, no ano que vem, o governo central buscará novas desonerações tributárias, que deverão totalizar algo em torno de 90 bilhões de reais (1,7% do PIB), contra a expectativa de 60 bilhões de reais (1,2% do PIB) em 2013. Nossa estimativa conta ainda com uma velocidade de crescimento real de despesas da ordem de 5% no ano (ritmo parecido com nossa expectativa para 2013). Estas ações fiscais deverão fazer parte de uma estratégia de política econômica para estimular a retomada do crescimento da atividade.

Crescimento do PIB um pouco mais baixo

Reduzimos a projeção de crescimento do PIB no primeiro trimestre de 1,2% para 1,0%, na comparação com o quarto trimestre de 2012. A expansão de 0,7% da indústria em março ficou abaixo da nossa expectativa (1,3%). No trimestre, a indústria avançou 0,8% ante o trimestre anterior, após ajuste sazonal. Destaque para a fraqueza da extrativa mineral, devido ao recuo da produção de petróleo e de minério de ferro. Enquanto a extrativa mineral caiu 7,3% no primeiro trimestre, a indústria de transformação cresceu 1,5%. Porém, os primeiros sinais de abril são de arrefecimento. Os dados apontam para um crescimento moderado da atividade econômica nos próximos trimestres. A tendência de expansão da indústria ainda é gradual e com bastante oscilação. Além disso, o crescimento da economia continua pouco disseminado. As exportações estão fracas e as vendas no varejo mostram desaceleração.

O grande destaque do PIB do primeiro trimestre deve ter sido o aumento do investimento, mas indicadores de confiança dos empresários sugerem desaceleração. A queda dos índices de confiança da indústria e do setor de serviços aponta para um arrefecimento da formação bruta de capital fixo adiante. Isso reforça o cenário de retomada moderada da economia ao longo do ano.

Mercado de crédito mostra sinais de recuperação. As concessões de crédito do sistema, em termos reais, cresceram 12,8% em março deste ano na comparação o mesmo mês de 2012. Este ritmo supera o registrado no segundo semestre do ano passado. A taxa de inadimplência acima de 90 dias à pessoa física teve ligeira queda, passando de 5,42% em fevereiro para 5,35% em março, sexto mês consecutivo de recuo. A taxa de inadimplência à pessoa jurídica passou de 2,24%, para 2,20%. As taxas de juros e os spreads voltaram a decrescer.

Mercado de trabalho continua favorável, apesar do ritmo mais lento das contratações e da desaceleração dos salários. A taxa de desemprego ficou em 5,3% em março, e projetamos que deve continuar ao redor deste patamar ao longo do ano. As contratações, tanto formais quanto informais, mostram algum arrefecimento, mas não o suficiente para alterar a taxa de desemprego. Os salários reais desaceleraram. Aumentos nominais menores e inflação mais alta reduziram os ganhos reais. Com isto, houve uma desaceleração da massa salarial real. Apesar da perspectiva de um crescimento menor da renda, este fator ainda será uma fonte de sustentação do consumo em 2013, junto com os sinais de expansão do crédito.

Reduzimos a projeção de crescimento do PIB em 2013 de 3,0% para 2,8%, e em 2014 de 3,5% para 3,3%. A perspectiva de crescimento mais baixo no primeiro trimestre reduz o carrego estatístico para o ano. Além disso, os dados recentes reforçam o cenário de arrefecimento no segundo trimestre, que pode ser mais intenso do que o antecipado. Para 2014, os impulsos fiscais e para-fiscais devem ser maiores. Por isso, projetamos um crescimento mais forte do que neste ano. No entanto, com um avanço do PIB menor este ano, os investimentos devem crescer um pouco menos em 2014.

Alívio temporário na inflação, fundamentos iguais

A inflação se manteve pressionada no início do ano, fechando o primeiro trimestre com variação de 1,9%, contra 1,2% no mesmo período de 2012. Com este resultado, a taxa do IPCA em 12 meses atingiu 6,6%, superando o teto da meta de inflação. O alívio decorrente do desconto de 18% nas contas de energia elétrica (-0,60 p.p. no IPCA) não foi suficiente para compensar a forte pressão da alimentação, que subiu 4,6% no primeiro trimestre (1,10 p.p. no IPCA).

O quadro de inflação segue desfavorável; difusão e núcleos permanecem elevados, apesar de algum arrefecimento na margem. A inflação de serviços também segue pressionada, embora tenha variado no primeiro trimestre um pouco menos do que no mesmo período de 2012 (2,5%, ante 2,8%). Diversas mudanças de preços relativos têm afetado a inflação corrente. Por um lado, há o aumento da inflação de alimentos devido a choques de oferta. Por outro lado, há as desonerações tributárias, que devem ter reduzido a inflação em cerca de 1 p.p. nos últimos 12 meses. Uma medida de inflação que isola uma parte importante desses efeitos é o núcleo de médias aparadas com suavização. Esta medida acumulou uma alta de 6,2% nos últimos 12 meses, até março, indicando que de fato há uma tendência de inflação mais elevada.

Apesar da alta no início do ano, esperamos que a inflação recue nos próximos meses, sobretudo por conta do grupo alimentação. Os preços dos alimentos devem começar a reverter parte da alta de períodos anteriores, em função de algum efeito remanescente da desoneração da cesta básica e, principalmente, do repasse de baixas nos preços agrícolas. A forte queda recente nos preços dos grãos já repercute nos preços da carne suína e de frango. A normalização da oferta de alimentos in natura, após a escalada dos preços no início do ano, também deve trazer um alívio importante à inflação nos próximos meses. Entre maio e outubro, projetamos que a inflação oscilará entre 0,27% e 0,38% ao mês.

Os fundamentos, ditados pelo mercado de trabalho aquecido e pelas expectativas de inflação em persistente elevação, indicam um balanço de risco desfavorável para a inflação em prazos mais longos. Dessa forma, não vemos reversão desse quadro, dados os estímulos fiscais e monetários em vigor. Nossas projeções para o IPCA seguem apontando alta de 5,6% para 2013 e de 6,0% para 2014. As medidas de núcleo indicam que a inflação subjacente está em patamar um pouco acima dos 6,0%.

Copom dividido

O Banco Central iniciou um ajuste cauteloso dos juros. A inflação mais elevada e disseminada levou o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central a elevar os juros em abril. Para frente, o Copom indicou que “incertezas internas e, principalmente, externas”, recomendam que o aperto monetário seja feito com cautela. Em nossa visão, a sinalização é consistente com nosso cenário de um ciclo de aumento de 1 p.p. da taxa Selic, a passos de 0,25 p.p. por reunião.

O cenário global no curto prazo reforça a postura cautelosa do Copom de aumentos de juros de 0,25 p.p. por reunião. Os últimos números mostram um crescimento mais fraco nos principais blocos econômicos mundiais. Os preços das commodities estão se estabilizando em patamar mais baixo do que no final do ano passado. Internamente, a recuperação segue incerta. Há sinais de crescimento mais lento do que o esperado, e a inflação deve ceder temporariamente nos próximos meses.

A persistência da inflação, no entanto, pode levar a dissenso na próxima reunião do Copom. Mesmo não sendo maioria, alguns membros do Copom podem argumentar que não há alternativa a promover um aperto maior na política monetária para manter a inflação sob controle e trazê-la de volta à trajetória das metas.

Mantemos a projeção de um ciclo total de aumento de 1 p.p. na taxa Selic este ano.

Petróleo impacta negativamente o saldo comercial e eleva déficit em transações correntes

Reduzimos a projeção do saldo comercial deste ano de US$ 10 bilhões para US$ 6 bilhões. O saldo comercial de abril foi negativo em US$ 994 milhões. Do lado positivo, destacaram-se as exportações de 7,2 milhões de toneladas de soja. Por outro lado, as importações atrasadas de combustíveis refinados continuam prejudicando a balança. Além disso, o saldo comercial de petróleo bruto está negativo em US$ 1,5 bilhão no ano. Avaliando o expressivo recuo na produção dessa commodity, juntamente com o aumento do refino, estimamos que o petróleo bruto contribuirá com cerca de US$ 3 bilhões para o saldo comercial em 2013, contra uma estimativa anterior de US$ 7 bilhões (que foi a contribuição no ano passado).

A revisão no saldo comercial aumentou a nossa projeção de déficit em conta corrente de 2,9% para 3,0% do PIB ao fim de 2013. Esse déficit supera o investimento estrangeiro direto (IED). Em março, o déficit em conta corrente acumulado em doze meses somou US$ 67 bilhões, enquanto o IED atingiu US$ 64 bilhões. É a primeira vez desde 2010 que isso ocorre, reforçando nossa visão de uma deterioração do balanço de pagamentos em 2013. Com o déficit em conta corrente acima do IED, outras fontes de financiamento são necessárias. Senão, ou a taxa de câmbio se deprecia ou as reservas internacionais diminuem.

Mantemos nossa projeção de câmbio em 2,00 reais por dólar no fim de 2013 e de 2014. O afrouxamento da política fiscal e a piora das contas externas contribuem para a elevação do prêmio de risco. Isso significa fundamentos compatíveis com um câmbio mais depreciado do que anteriormente. Além disso, as sinalizações de política econômica são de que uma taxa ao redor de 2,00 reais por dólar é o desejado.

Para os demais textos, acessar o pdf em anexo.



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