Itaú BBA - Estabilidade, mas até quando?

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Estabilidade, mas até quando?

Outubro 11, 2016

A economia global permanece estável. Porém, os riscos para a economia global aumentaram e precisam ser monitorados de perto.

Para os demais textos, acessar o pdf em anexo.

Economia global
China mais estável, mas riscos globais aumentaram

Na China, a estabilidade recente tende a se estender para 2017, uma vez que a transição política favorece estímulos ao crescimento e o mercado imobiliário deixou de ser um risco. Porém, os riscos para a economia global aumentaram.

América Latina
México se descola da América do Sul

Com a inflação em queda, a política monetária irá se tornar mais expansionista na região. A única exceção é o México, onde o banco central está subindo os juros em resposta à depreciação recente do peso.

Brasil
Começam as reformas

O destaque fica por conta das reformas fiscais. A aprovação dessas reformas é crucial para abrir caminho para um longo ciclo de flexibilização monetária e para recuperação sustentável da economia.

Argentina
Redefinindo metas       

O banco central definiu a meta de inflação para 2017: um intervalo de 12% a 17%. A meta ainda parece ambiciosa considerando a inércia nas negociações salariais e os novos aumentos potenciais de preços administrados.

México
Apreciação à frente?

Esperamos que a taxa de câmbio se aprecie para 17,5 pesos por dólar em 2016, caso haja derrota de Donald Trump nas eleições presidenciais nos EUA.

Chile
Menor ajuda fiscal, mais estímulo monetário

Um orçamento mais apertado para 2017 significa menor estímulo fiscal. A queda da inflação abre espaço para o banco central cortar os juros em 0,50 p.p. em 2017.

Peru
Urgência para aprovação de reformas estruturais

O Congresso concedeu poderes legislativos ao presidente durante 90 dias para que o governo possa realizar importantes reformas estruturais.

Colômbia
Acordo de paz fica mais difícil 

Os colombianos rejeitaram em plebiscito o acordo de paz com as Farc. O resultado aumenta as incertezas em relação aos próximos passos no processo de paz, ao futuro da reforma tributária estrutural e à economia.

Commodities
Opep surpreende com acordo preliminar         

A promessa de corte do cartel reforça nosso cenário de preços do petróleo entre US$ 50 e US$ 55 por barril em 2017, mas aumenta os riscos de overshooting dos preços, caso o corte ocorra e a reação dos produtores dos EUA demore a estabilizar os mercados globais.


 


Estabilidade, mas até quando?

A economia global permanece estável. O crescimento constante, mas fraco, tem sido a marca da atividade mundial neste ano e a norma desde a crise financeira global. Os EUA continuam apresentando expansão moderada, diminuindo a probabilidade do cenário de recessão, assim como o de superaquecimento. A política monetária também continua expansionista nas outras economias do G7. Na China, a estabilidade recente tende a se estender para 2017, uma vez que a transição política favorece estímulos ao crescimento e o mercado imobiliário deixou de ser um risco, entre outros fatores. Portanto, o ambiente externo continua favorável aos ativos de mercados emergentes.

Porém, os riscos para a economia global aumentaram e precisam ser monitorados de perto, uma vez que podem sinalizar uma piora súbita do ambiente favorável para ativos de mercados emergentes. No momento, os principais riscos são: i) eleições presidenciais nos EUA; ii) reação do mercado à provável elevação de juros pelo Fed (o banco central americano) em dezembro, além de sinais, por diversas razões, de menores estímulos monetários nas economias avançadas; e iii) problemas políticos e financeiros na Europa.

Até agora, as moedas latino-americanas tiveram um bom desempenho no ano. À frente, alguma depreciação é esperada, já que o Fed provavelmente irá elevar os juros. Esperamos recuperação da economia da região no ano que vem, impulsionada por Argentina e Brasil.

Com a evolução mais favorável das taxas de câmbio e do hiato do produto negativo, a inflação vem caindo em diversos países da América Latina. Nesse contexto, as posturas de política monetária estão se tornando mais expansionistas, exceto no México, onde o banco central está subindo os juros em razão da forte depreciação cambial.

No Brasil, o destaque fica por conta das reformas fiscais. Em outubro, a Câmara de Deputados votará a Proposta de Emenda Constitucional (PEC), que estabelece um teto para o crescimento dos gastos públicos. Depois disso, o governo enviará ao Congresso a proposta de reforma da Previdência. A nosso ver, a aprovação dessas reformas – que continua sendo nosso cenário base — é crucial para abrir caminho para um longo ciclo de flexibilização monetária e para uma recuperação sustentável da economia. Mantemos nosso cenário de que o banco central cortará os juros em 0,25 ponto percentual em outubro, e o crescimento do PIB será de 2,0% em 2017.

Em nossa visão, o ambiente global continuará favorável para os mercados emergentes no horizonte de nossas projeções, mas é importante notar que a combinação de fatores de risco pode criar novos desafios para os países emergentes e, em particular, para a América Latina.


 


Economia global
China mais estável, mas riscos globais aumentaram

Esperamos que a estabilidade recente na China se estenda até 2017, visto que: (1) a transição política favorece políticas que impulsionam o crescimento; (2) o setor imobiliário se equilibrou e as políticas macroprudenciais parecem suficientes para evitar sinais localizados de superaquecimento; (3) a deflação está diminuindo; (4) a taxa de câmbio está mais próxima dos fundamentos; e (5) os indicadores de crédito estão elevados, mas ainda administráveis. Aumentamos nossas projeções do PIB de 6,5% para 6,6%, em 2016, e de 6,0% para 6,3%, em 2017.

A atividade na China e as taxas de juros baixas nas economias desenvolvidas sustentam um ambiente externo favorável para os ativos de mercados emergentes. 

Mas os riscos para a economia global aumentaram. Os principais riscos são: (1) eleições nos EUA; (2) reação do mercado ao provável aumento dos juros pelo Fed, o banco central dos EUA, em dezembro; e (3) questões políticas e financeiras na Europa.

China - Estabilidade deve se estender até 2017

Os dados recentes indicam crescimento mais estável. A produção industrial cresceu 6,3% em agosto sobre um ano atrás, ante 6,0% no mês anterior; as vendas no varejo melhoraram de 10,2% para 10,6% na mesma comparação; e os investimentos fixos aceleram para 8,2% sobre o ano anterior, comparados a 3,9% no mesmo período. Os índices de gerentes de compras (PMIs, na sigla em inglês) sugerem que esse desempenho favorável provavelmente continuará em setembro. Além disso, a dinâmica da inflação tem sido benigna, e tanto as saídas de capital quanto o ritmo de depreciação do renminbi diminuíram consideravelmente. Todos esses fatores ajudaram a reduzir as preocupações dos investidores com a economia, apesar dos desafios à médio prazo relacionados à dívida crescente e aos ativos ruins dos bancos.

Olhando à frente, esperamos que essa estabilidade do crescimento persista até meados de 2017, por cinco razões. 

Em primeiro lugar, a transição de liderança em meados de 2017 fará com que o governo priorize o crescimento de curto prazo por meio da manutenção de forte investimento em infraestrutura. O governo também está sinalizando cortes de impostos, enquanto reformas arriscadas (para o crescimento no curto prazo) estão sendo adiadas.

Em segundo lugar, a contribuição do setor imobiliário será neutra ou positiva, após ter sido um entrave em 2015. O setor sofreu um ajuste de estoques importante entre 2015 e o 1S16, e as fortes vendas no acumulado do ano devem resultar em um bom ritmo de novas edificações por algum tempo.

Um superaquecimento do mercado imobiliário poderia se tornar uma fonte de preocupação, mas a questão parece ser localizada e políticas macroprudenciais podem ser suficientes. Os preços de imóveis nas grandes cidades vêm subindo muito rapidamente (ver gráfico), criando preocupações a respeito do setor. No entanto, o processo está sendo tratado por uma postura cautelosa do banco central chinês (PBoC), por um lado, e medidas prudenciais adotadas pelos governos locais, por outro. Tais medidas tendem a afetar o ritmo das vendas e da atividade nas cidades em questão. No entanto, tais ações localizadas não serão suficientes para reduzir a atividade do setor como um todo para um ritmo mais fraco do que o crescimento econômico.

Em terceiro lugar, a diminuição da deflação medida pelo Índice de Preços ao Produtor (PPI, na sigla em inglês) deve continuar à frente. Esse movimento está ajudando a aumentar os lucros industriais, melhorando não só a capacidade de pagamento de dívida das empresas, como também possibilitando um maior investimento sem aumento de alavancagem financeira.

Em quarto lugar, o yuan chinês está mais ajustado aos fundamentos e enfraqueceu 8% em termos reais efetivos desde seu pico no início de 2015. Isso pode ajudar as exportações e melhorar o investimento fixo no setor manufatureiro.

Por fim, os riscos relacionados ao aumento da relação crédito/PIB e à existência de créditos inadimplentes escondidos terão de ser abordados em algum momento, mas acreditamos que tal ajuste pode e será adiado até o 2S17 ou posteriormente. De fato, há vários sinais de existência de ativos ruins dentro do setor bancário. No entanto, a estrutura de financiamento dos bancos – fortemente dependente de depósitos domésticos e capital próprio – sugere que não há necessidade de ajuste no curto prazo, e o crescimento acentuado da dívida reflete parcialmente a forte poupança interna.

Revisamos para cima nossas projeções de crescimento do PIB para 2016 (de 6,5% para 6,6%) e 2017 (de 6,0% para 6,3%).

EUA – Foco primeiro nas eleições, depois no Fed

O Comitê de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do Fed manteve a taxa de juros dos Fed Funds inalterada em setembro, mas sinalizou que um aumento é provável antes do fim do ano. O comunicado que acompanhou a decisão afirmou que "as condições para um aumento na taxa de juros ganhou força, mas o comitê decidiu aguardar mais evidências de progresso em direção ao cumprimento de suas metas". O comunicado revelou ainda que três membros do comitê votaram por um aumento já em setembro, e a maioria espera pelo menos um aumento das taxas de juros em 2016.

Entendemos que as condições econômicas e financeiras devem permitir um aumento dos juros, mas provavelmente apenas em dezembro. Os dados econômicos melhoraram em setembro, em comparação aos dados fracos de agosto, permanecendo consistentes com uma projeção de crescimento moderado do PIB (3T: 2,9%; 4T: 2,2%) no 2S16. A sondagem conjuntural ISM avançou para patamares acima de 50, indicando expansão tanto no setor de manufaturas quanto de serviços. A criação de empregos cresceu 156 mil, próximo de sua média de seis meses (169 mil por mês). Do lado da inflação, o deflator do núcleo dos gastos com consumo subiu para 1,7% em agosto, frente ao ano anterior, um pouco acima do 1S16 (1,6%). No entanto, não acreditamos que o Fomc aumentará as taxas de juros em sua próxima reunião, a apenas seis dias das eleições presidenciais no país.

Eleições em foco no curto prazo

No curto prazo, as eleições são um foco de risco maior do que o Fed. Uma vitória de Hillary Clinton é o cenário base, mas a corrida presidencial tem sido disputada e sujeita a viradas. A liderança média de Hillary Clinton sobre Donald Trump nas pesquisas nacionais subiu para oito pontos percentuais no início de agosto, após a Convenção Nacional Democrata. Em seguida, recuou para cerca de dois pontos percentuais no fim de setembro, após Hillary criticar duramente os eleitores de Trump e passar mal em evento público. Após o primeiro debate presidencial, no entanto, a diferença voltou a subir.

Se Hillary vencer, não esperamos nenhuma grande mudança nas perspectivas econômicas. A candidata vem apoiando um aumento temporário de US$ 50 bilhões por ano no investimento público ao longo dos próximos cinco anos, mas parcialmente financiado por impostos mais elevados sobre os americanos mais ricos, o que resulta em estímulo fiscal líquido relativamente pequeno. A incerteza sobre a política econômica deve diminuir, permitindo que o Fed aumente os juros em dezembro.

Se Trump for eleito, a perspectiva de política externa anticomércio, grande estímulo fiscal e de uma postura mais hawkish do Fed criam riscos para os mercados emergentes. A reação do mercado no curto prazo pode ser um movimento típico de aversão a risco em meio à maior incerteza sobre política econômica. A curva de juros tende a ficar mais inclinada e o dólar deve se fortalecer. As moedas dos mercados emergentes seriam negativamente afetadas.

Em relação à política externa, Trump vem prometendo renegociar os acordos de livre comércio, como o Nafta, e aumentar as tarifas de importação do México e da China. É da alçada do presidente dos EUA alterar acordos de livre comércio sem aprovação do Congresso. É necessário apenas emitir um aviso com seis meses de antecedência aos parceiros comerciais envolvidos.

Trump também propôs um grande estímulo fiscal, que aumentaria a dívida do governo federal em US$ 5 trilhões ao longo de dez anos. Seu plano é cortar impostos sobre indivíduos e empresas e aumentar os gastos do governo com infraestrutura em US$ 100 bilhões por ano, ao longo dos próximos cinco anos. Tudo indica que sua proposta fiscal, especialmente os cortes de impostos, acabaria sendo bastante alterada no Congresso. Ainda assim, sua política fiscal provavelmente seria mais expansionista do que a de Hillary. Vale ressaltar que, no caso de uma vitória de Trump, os republicanos provavelmente manterão a maioria em ambas as Câmaras.

Trump vem anunciando que pretende substituir Janet Yellen, presidente do Fed, cujo mandato termina em fevereiro 2018. A escolha de Trump para substituir Yellen ainda não é conhecida. No entanto, parece bastante plausível que Trump busque um economista com perfil mais hawkish.

Sob a hipótese básica de vitória de Hillary, estimamos o crescimento do PIB dos EUA em 1,5%, em 2016, e 2,2%, em 2017.

Europa – Riscos políticos e financeiros

Riscos políticos estão se acumulando na Europa. No Reino Unido, a primeira-ministra Theresa May anunciou sua intenção de acionar o Artigo 50 em março de 2017. A discussão agora se volta para a possibilidade de um "Hard Brexit", processo de saída da União Europeia através do qual o Reino Unido renunciaria ao acesso ao Mercado Único Europeu em troca de maior controle sobre a imigração. Na Espanha, o líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, de centro-esquerda) foi forçado a renunciar ao cargo depois dos fracos resultados nas eleições regionais. Sua renúncia abre caminho para a formação de um governo de minoria de centro-direita. No entanto, este provavelmente será um governo fraco. Adicionalmente, a Catalunha anunciou que realizará um referendo separatista em setembro de 2017. Por fim, o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, anunciou que o referendo sobre a reforma constitucional será realizado em 4 de dezembro. Embora Renzi tenha descartado sua eventual renúncia em caso de perda, uma derrota no referendo prejudicaria o apoio a seu governo, dificultando a aprovação das reformas estruturais necessárias.

Enquanto isso, o sistema financeiro europeu continua sob pressão. As ações dos bancos estão próximas de seus níveis historicamente mais baixos (ver gráfico). O setor financeiro enfrenta desafios relacionados ao lento crescimento econômico, taxas de juros negativas ou muito baixas e, em alguns casos, modelos de negócios ultrapassados e riscos relacionados a litígios. Apesar de acreditarmos que o sistema financeiro europeu esteja mais bem capitalizado e tenha ampla liquidez quando comparado à crise financeira, a baixa rentabilidade dos bancos pode dificultar a transmissão eficaz da política monetária e representa um risco de baixa para a economia.

Mantemos nossa projeção do PIB da zona do euro em 1,5% e 1,3%, respectivamente, para 2016 e 2017.

Japão - BoJ transfere foco para a curva de juros para ganhar flexibilidade.

O Banco do Japão (BoJ) adotou uma "nova" estrutura chamada "QQE com Controle da Curva de Juros", após sua última reunião de política monetária. A estrutura se afasta da compra de títulos para se concentrar sobre os níveis das taxas de juros. Ela permite que o BoJ mantenha uma postura acomodatícia por mais tempo, evitando consequências não intencionais de taxas de juros muito baixas em títulos de longo prazo. O BoJ se concentrará agora sobre o título público de 10 anos, tendo estabelecido como meta que este flutue ao redor de 0,0%, mantendo as taxas de juros de curto prazo em -0,10%. O BoJ também manteve o ritmo de compras de títulos do governo japonês (JGB, na sigla em inglês) ao redor de 80 trilhões de ienes, mas com um maior grau de flexibilidade. Decisões futuras de política monetária devem focar em reduções das taxas de juros, enquanto o volume de compras de JGB deve cair ao longo do tempo.

Aumentamos ligeiramente nossa projeção do PIB de 0,5% para 0,6%, em 2016, devido a uma revisão no crescimento do 2T16 (de 0,2% para 0,7%, anualizado) causada por números mais fortes de investimento. Mantivemos nossa projeção de 0,7% para 2017.

Commodities - Surpresas da Opep

O Índice de Commodities Itaú (ICI) continuou subindo em setembro, ganhando 7% desde o fim de agosto e levando o crescimento acumulado no ano para 19%. A maioria das commodities registrou aumento no período, com surpresas altistas tanto do lado da oferta (por exemplo, a promessa de acordo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a Opep; o fechamento de minas nas Filipinas) quanto da demanda (a confiança crescente de que a economia da China permanecerá estável por algum tempo, índices PMI de manufatura melhores no mundo). As duas exceções notáveis foram soja (estável) e minério de ferro (-7%), dois dos produtos mais importantes para as exportações brasileiras.

Apesar da queda recente, revisamos para cima nossos preços do minério de ferro em 2017, de US$ 45/t para US$ 48/t. Vemos o crescimento da China levando a um maior consumo de aço no país, dada a expansão forte do investimento em infraestrutura e um menor aumento da oferta a partir deste momento. Aumentamos também nossas projeções para o níquel, devido ao fechamento de minas nas Filipinas. O ajuste líquido resulta em um aumento de 3,5% na projeção do subíndice ICI de metais para o fim de 2017.

Membros da Opep atuam para reduzir risco de queda dos preços do petróleo. O cartel surpreendeu o mercado e anunciou um acordo preliminar para cortar a produção de petróleo. Faltam alguns detalhes, e o ajuste na oferta só será feito após a reunião formal de 30 de novembro, mas a nova estratégia é altista para os preços do petróleo, que devem ser negociados em torno de US$ 50/barril até o anúncio final. Mantemos nossas projeções para os preços do Brent em US$ 54/barril, para o fim de 2017, visto que o custo de equilíbrio dos fornecedores de óleo de xisto continuará sendo o fator determinante do equilíbrio, independentemente de uma queda na oferta da Opep. No entanto, o acordo aumentará o risco de overshooting dos preços e diminuirá consideravelmente o risco de queda nos próximos trimestres.

O subíndice ICI agrícola subiu 8% desde o fim de agosto, puxado pelos ganhos acumulados no ano do açúcar e pela recuperação parcial dos preços de milho/trigo em relação às fortes quedas registradas em agosto. Revisamos para cima nosso preço do café para incluir choques climáticos à oferta em 2017, e vemos riscos de alta para o açúcar. Ao mesmo tempo, a perspectiva geral para os grãos/soja permanece a mesma: safra de 2016/17 favorável nos EUA, fortes incentivos para o aumento da área plantada no Brasil e na Argentina, na próxima safra, e estoques globais elevados.

Nossas estimativas implicam que o ICI estará próximo dos níveis atuais, ao fim de 2016, subindo 3% em 2017.


 


América Latina

México se descola da América do Sul

A maioria das moedas latino-americanas continua com bom desempenho no ano, mas a valorização deverá perder força com a elevação dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA). O peso colombiano nos parece o mais sensível a esse movimento. Em contrapartida, o peso mexicano poderá se valorizar substancialmente se Donald Trump for derrotado nas eleições presidenciais americanas.

Continuamos projetando recuperação econômica em 2017, liderada por Argentina e Brasil.

Com a evolução mais favorável das moedas e o amplo hiato do produto, a inflação segue em queda na região. A política monetária vem se tornando mais expansionista, exceto no México, onde o banco central está subindo os juros em resposta à depreciação recente do peso. Esperamos agora corte de juros no Chile e mais afrouxamento na Argentina e na Colômbia do que projetávamos anteriormente.

Taxas de câmbio, em geral, bem comportadas

A maioria das moedas latino-americanas continua com bom desempenho no ano. A incerteza menor em relação à economia chinesa, a estabilização/recuperação dos preços das principais commodities e a política monetária expansionista no exterior criam um cenário favorável para os ativos de mercados emergentes. No Brasil, o real continua se beneficiando com a expectativa de reformas fiscais significativas, além dos juros altos e as contas externas ajustadas. As taxas de juros elevadas e as mudanças políticas vêm dando suporte também ao peso argentino. A exceção na região é o peso mexicano, afetado pela incerteza em relação às eleições presidenciais nos EUA.

Projetamos alguma depreciação das moedas latino-americanas em resposta ao provável aumento dos juros pelo Fed. O peso colombiano tende a se depreciar mais, devido ao elevado déficit em conta corrente, às incertezas em relação ao tratado de paz (os colombianos rejeitaram o acordo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Farc – no plebiscito de 2 de outubro) e aos prováveis cortes nos juros no ano que vem. Por outro lado, estimamos forte apreciação do peso mexicano em relação aos níveis atuais, condicionada à derrota de Trump nas eleições presidenciais dos EUA. As taxas de juros mais elevadas no México, o progresso em direção às metas de consolidação fiscal, a recuperação dos preços do petróleo e a melhora das contas externas (o déficit comercial está diminuindo na margem) também ajudarão a melhorar o sentimento em relação à moeda.

Ainda à espera da recuperação

A atividade segue fraca na América Latina, embora continuem surgindo sinais de estabilização no Brasil. Os estoques menores já estão contribuindo para uma recuperação da produção industrial no País (embora agosto tenha mostrado uma queda, possivelmente afetada pela Olimpíada). O investimento foi positivo no segundo trimestre, depois de dez quedas consecutivas, tendência que deve se consolidar com a desalavancagem das empresas e, mais importante, com o esperado avanço das reformas fiscais. Na Argentina, que também enfrenta recessão, os indicadores recentes sugerem estabilização da atividade. No Peru, a economia continua se expandindo em ritmo firme, impulsionada por fatores do lado da oferta (especificamente a maturação de importantes projetos de mineração). Por outro lado, as economias do Chile e da Colômbia continuam se desacelerando. No México, as exportações de manufaturados estão melhorando, o que é importante se considerarmos a elevada abertura da economia. Contudo, o ajuste das políticas macroeconômicas (especialmente fiscais) e a produção de petróleo fraca são um risco.

Projetamos uma retomada da atividade econômica em 2017, em grande parte resultado do fim da recessão no Brasil e na Argentina. Estimamos crescimento de 3,0% na Argentina, impulsionado por salários reais mais elevados e pela melhora da confiança dos empresários. No Brasil, esperamos crescimento de 2,0% em 2017, após contração de 3,2% neste ano. Também prevemos alguma aceleração de crescimento em México, Chile, Colômbia e Peru.

Política monetária mais expansionista, com exceção do México

A estabilidade do câmbio e o crescimento abaixo do potencial vêm colocando a inflação em trajetória de queda na região. A dissipação dos choques pelo lado da oferta, como o fenômeno climático El Niño, também contribui para a tendência de desinflação. Nesse cenário, a inflação está agora dentro do intervalo da meta no Chile e no Peru (próximo do centro da meta no Chile), enquanto, no México, a inflação está ligeiramente abaixo de 3%. No Brasil e na Colômbia, a inflação ainda está bastante acima do teto da meta, mas a desinflação em setembro foi mais rápida que esperada.

Nesse contexto, a política monetária está se tornando mais expansionista. A exceção é o México, onde o banco central continua elevando os juros, em resposta à depreciação recente da taxa de câmbio. O banco central do Chile vem discutindo a possibilidade de reduzir os juros. Na Colômbia, o ciclo contracionista chegou ao fim. No Peru, a comunicação do banco central indica conforto com a perspectiva para a inflação, embora, oficialmente, a autoridade monetária mantenha viés de aperto. Enquanto isso, o Banco Central do Brasil está cuidadosamente preparando o terreno para um ciclo de flexibilização monetária. O último relatório de inflação traz projeções de inflação na meta, ou abaixo dela, para 2017 e 2018, na maioria dos cenários apresentados. Assim, é legítimo concluir que um banco central operando no regime de metas de inflação esteja prestes a cortar juros. Finalmente, na Argentina, o banco central confirmou que buscará um intervalo de inflação de 12% a 17% no ano que vem. Considerando que as expectativas para 2017 na Argentina continuam um pouco acima de 20%, o banco central decidiu deixar as taxas das Letras do Banco Central (Lebac) inalteradas na última semana de setembro.

Esperamos cortes (ou mais cortes) de juros na Argentina, Chile, Colômbia e Brasil. No México, altas de juros adicionais são prováveis. Continuamos projetando um ciclo de cortes na Colômbia no ano que vem (levando a taxa de juros para 6,0%, comparado com 6,5% em nosso cenário anterior), embora o resultado do plebiscito sobre o acordo de paz represente uma nova fonte de incerteza (pode limitar a capacidade do governo de elevar impostos, levando a uma depreciação adicional do câmbio). Cortes nos juros são prováveis também no Brasil: projetamos um corte inicial de 0,25 ponto percentual em outubro, seguido de cortes de 0,50 p.p., que levariam a taxa Selic a 10% antes do fim de 2017. São prováveis também cortes adicionais nos juros na Argentina à medida que o processo desinflacionário avance, embora o cumprimento da meta para 2017 seja bastante desafiador. No Chile esperamos agora cortes de juros no 1T17 (totalizando 0,50%). No Peru, esperamos juros estáveis. O México é o único país que caminha na direção contrária: embora continue projetando crescimento fraco e inflação na meta, o banco central segue focado na evolução do câmbio e nas decisões do Fed. Acreditamos que o próximo aumento de juros no México ocorrerá em dezembro (0,25 p.p.). Uma vitória de Trump pode resultar em altas mais intensas e mais cedo do que o esperado.


 


 

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