Itaú BBA - Crescimento global mais forte, mas (ainda) não na América Latina

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Crescimento global mais forte, mas (ainda) não na América Latina

Janeiro 20, 2017

O PIB mundial deve acelerar este ano, em meio a riscos na política econômica nos EUA e eleições e o Brexit na Europa.

Para os demais textos, acessar o pdf em anexo.

Economia global
Forte crescimento global em meio a riscos políticos
O crescimento do PIB global deve acelerar para 3,6% este ano, de 3,1% em 2016 e sondagens empresariais indicam viés de alta para essa projeção. Os principais riscos no momento são mudanças de política econômica nos EUA, as eleições e o Brexit na Europa.

América Latina
Recuperação econômica adiada
A atividade econômica na região ainda não está se recuperando. Reduzimos as projeções de crescimento em 2017 para Brasil, Colômbia, México e Peru.

Brasil
Inflação em queda abre espaço para antecipação do ciclo de corte de juros

A queda da inflação corrente e a atividade ainda fraca abrem espaço para antecipação do ciclo de corte de juros. Projetamos a taxa Selic em 9,75% no fim de 2017.

Argentina
Recuperando?
Os indicadores recentes indicam que a recuperação econômica teve início no 4T16. Projetamos um crescimento do PIB de 2,7% em 2017, seguido por uma expansão de 3% em 2018. 

México
Após o gasolinazo
A liberalização dos preços da gasolina beneficiará as contas fiscais, mas deteriorou as perspectivas de inflação e provocou agitação social seis meses antes das eleições regionais, que podem ter uma grande influência sobre o resultado das eleições presidenciais e legislativas em 2018.

Chile
Início do ciclo de flexibilização
O banco central iniciou um ciclo de cortes de juros em janeiro, em resposta ao crescimento baixo e à queda da inflação. Os últimos indicadores reforçam nossa projeção de corte total de 1 p.p. na taxa básica de juros neste ano.

Peru
Demanda doméstica ainda frágil
Revisamos para baixo nossa projeção de crescimento do PIB para 2017, uma vez que a demanda interna enfraqueceu ainda mais. Os termos de troca mais elevados, no entanto, devem ajudar o crescimento em 2017.

Colômbia
Quadro fiscal e contas externas melhoram, mas atividade enfraquece
O governo do presidente Juan Manuel Santos aprovou a reforma fiscal e ganhou autoridade para acelerar a legislação relacionada ao acordo de paz. Ao mesmo tempo, as contas externas estão melhorando e a inflação vem caindo.

Commodities
A festa continua, por ora
A perspectiva de curto prazo pode ser favorável para os preços das commodities. Ainda assim, projetamos quedas para os preços de metais e energia ao longo de 2017.


Crescimento global mais forte, mas (ainda) não na América Latina 

O crescimento do PIB mundial deve acelerar para 3,6% este ano, vindo de 3,1% em 2016, e há riscos de alta nessa projeção. A inflação global também está subindo, impulsionada pelo aumento dos preços das commodities. Com a melhora da perspectiva econômica, os juros tendem a subir nos países desenvolvidos. Esperamos agora que o Fed, o banco central dos EUA, realize três aumentos dos juros em 2017 (dois, anteriormente) e quatro aumentos em 2018. Os principais riscos neste momento são as mudanças de política econômica nos EUA, as eleições e o Brexit, na Europa. A China também traz riscos, mas antecipamos um ambiente de crescimento estável no 1T17.

Apesar do crescimento econômico mais sólido nas economias avançadas, a atividade ainda não se recuperou na América Latina. Reduzimos nossas projeções de crescimento de PIB para Brasil, Colômbia, México e Peru em 2017. No entatanto, os desequilíbrios externos e fiscais estão diminuindo. Diversos governos estão implementando medidas de ajuste fiscal, apesar da baixa popularidade. Crescimento fraco e inflação baixa permitem que os bancos centrais da América do Sul embarquem em ciclos de flexibilização monetária. Assim, reduzimos nossas previsões para as taxas básicas de juros no Brasil e na Colômbia. No caso do México, por outro lado, esperamos agora um aperto maior do que em nosso cenário anterior.

No Brasil, a atividade econômica decepcionou no fim de 2016. Esperamos agora uma recuperação menos intensa em 2017 devido ao carrego estatístico. A inflação terminou 2016 abaixo do esperado e seguirá em queda nos próximos meses. Nesse ambiente, há espaço para antecipação do ciclo de corte de juros. Projetamos a taxa Selic em 9,75% no fim de 2017, e em 8,5% em 2018. Diante do cenário externo ligeiramente mais favorável para os países emergentes, esperamos agora uma depreciação menos intensa do real.  Do lado fiscal, as reformas continuarão em foco neste ano. Esperamos aprovação da reforma da Previdência no segundo trimestre de 2017.


 


Economia global
Forte crescimento global em meio a riscos políticos

O crescimento do PIB global deverá acelerar para 3,6% este ano, de 3,1% em 2016. Pesquisas de confiança empresarial indicam riscos de alta para essa projeção.

A inflação global também está subindo, impulsionada pelo aumento dos preços das commodities. Nos EUA, o núcleo da inflação está se estabilizando, conforme a economia se aproxima do pleno emprego.

Com uma perspectiva econômica mais forte, as taxas de juros nos países desenvolvidos devem subir. Esperamos agora que o Fed, o banco central dos EUA, implemente três aumentos dos juros em 2017 (dois anteriormente) e quatro aumentos em 2018.

Os principais riscos no momento são as mudanças de política econômica nos EUA, as eleições e o Brexit, na Europa.

A China também apresenta riscos, mas antecipamos um ambiente de crescimento estável no 1T17.

Sinais de melhora na economia global

A economia mundial terminou 2016 em boa forma. A produção industrial cresceu 2,7% em novembro sobre o ano anterior, e o índice de gerentes de compras global atingiu 54,0 em dezembro ambos os índices em seus níveis mais elevados desde 2014.

Esperamos que o crescimento do PIB global acelere para 3,6% este ano, de 3,1% em 2016. A aceleração deve ocorrer tanto nas economias desenvolvidas quanto nas emergentes (ver gráfico).

A inflação global também está subindo. Nosso índice de inflação global ponderado pelo PIB deve subir para 2,8% em 2017, de 2,4% em 2016 (ver gráfico), favorecido pela melhora dos preços de commodities. Notamos que algumas economias desenvolvidas, particularmente os EUA, também estão próximas do pleno emprego, antecipando estabilização do núcleo da inflação.

EUA – Crescimento mais forte, taxas de juros mais elevadas, porém incerteza de política econômica

O crescimento da economia dos EUA acelerou para 3,0%, em termos anualizados, no 2S16. Os índices de confiança dos empresários e consumidores indicam uma dinâmica positiva da demanda doméstica, incluindo uma aceleração significativa do investimento corporativo. Melhora do crescimento global ajuda as exportações dos EUA.

Aumentamos nossa projeção de crescimento do PIB em 2017 para 2,3%, de 2,2%, e esperamos aceleração adicional para 2,4% em 2018.

A inflação foi mais moderada em novembro, mas consistente com uma estabilização gradual das medidas do núcleo. O núcleo do deflator do consumo deve fechar 2016 em 1,8%, comparado a 1,4% em 2015, e esperamos que permaneça em 1,8% no fim de 2017.

O crescimento mais forte e o aumento do investimento corporativo criam um risco de pressão salarial. Projetamos uma queda na taxa de desemprego para 4,3% no 4T17, 20 pontos-percentual abaixo da projeção do Fomc (sigla em inglês para Comitê Federal de Mercado Aberto).Vemos riscos de uma taxa de desemprego ainda mais baixa, uma vez que o investimento corporativo pode estimular um crescimento mais forte da criação de empregos. Com mercado de trabalho apertado, o crescimento de salários está acelerando.

Projetamos agora três aumentos dos juros pelo Fed em 2017, em vez de dois, e continuamos esperando quatro aumentos em 2018. Uma postura mais preventiva do Fed mitigaria o risco de uma taxa de desemprego mais acentuadamente abaixo da taxa Nairu (sigla em inglês para taxa de desemprego que não acelera a inflação) ao longo dos próximos anos.

Antecipamos a implementação de um conjunto moderado de políticas pela administração Trump, porém com um impulso fiscal significativo. Esperamos uma redução das alíquotas de impostos corporativos e de pessoa física, totalizando um estímulo fiscal ao redor de 1% do PIB, juntamente com aumentos de tarifas de importação, definidos numa base de país a país.

No entanto, os riscos relacionados às políticas econômicas dos EUA aumentaram. 

Há incerteza em torno das medidas efetivas a serem adotadas pela nova administração.Os discursos e entrevistas realizados pelo presidente eleito Donald Trump, até o momento, não revelaram informações concretas sobre seus planos, enquanto suas nomeações de gabinete forneceram sinais mistos sobre as políticas a serem adotadas. Presidente Trump também intensificou sua retórica protecionista.O presidente Trump deu pouca ênfase ao "ajuste de fronteira" para impostos defendido pelo presidente da Câmara dos Deputados, Paul Ryan, mas mencionou impostos de 35% sobre as importações de automóveis mexicanos. Também pediu que empresas invistam e criem empregos nos EUA, e não no exterior.

Embora o presiente Trump tenha evitado mostrar apoio ao ajuste de fronteira para impostos, é possível que ele mude de ideia, o que consideramos o principal risco protecionista. Com o ajuste de fronteira, as empresas não pagariam impostos sobre exportação, mas pagariam imposto total sobre importação. Isso tem um efeito semelhante à imposição de tarifas de importação mais elevadas e tarifas de exportação mais baixas. O ajuste também pode ser visto como uma desvalorização fiscalmente induzida do dólar.

Notamos que o ajuste de fronteira para impostos poderia aumentar as receitas do governo. Ele pode ser usado para compensar parcialmente a queda nas receitas decorrente dos cortes de impostos corporativos e de pessoa física.

Os benefícios da medida seriam provavelmente nulos ou negativos no longo prazo. O dólar ponderado pelo comércio se ajustaria totalmente a esse novo regime fiscal, e os parceiros comerciais dos EUA poderiam aumentar tarifas de importação em retaliação, causando repercussões negativas no longo prazo.

Em suma, é provável que haja mudanças nas políticas americanas, e os riscos permanecem altos sobre o formato que as mesmas assumirão.

Europa – Atividade resiliente em meio a riscos políticos

Indicadores econômicos estão resilientes na Europa. Os indicadores antecedentes do 4T16 melhoraram, com os dados de crédito refletindo o efeito positivo das políticas de flexibilização do Banco Central Europeu (BCE). O resultado sólido da produção industrial em novembro,com alta de 1,5% sobre o mês anterior (ver gráfico), também sugere um crescimento mais forte do PIB no 4T16 (0,4%-0,5%).

A melhora das condições financeiras, a política fiscal ligeiramente expansionista e um ambiente externo mais ameno contribuem para um crescimento mais forte. Notamos que, apesar da recuperação da inflação, que atingiu 1,1% sobre o ano anterior em dezembro, o BCE deverá manter sua postura acomodatícia durante mais algum tempo. Isso significa que as taxas de juros reais devem cair, apoiando a atividade econômica.

Alguns riscos não se materializaram. Apesar da queda do governo reformista de Matteo Renzi na Itália, a rápida formação de um governo pró-sistema e o plano de resgate de 20 bilhões de euros para o sistema bancário italiano devem sustentar a frágil estabilidade do país por algum tempo.

Os riscos políticos, no entanto, permanecem no centro das atenções na Europa. No Reino Unido, as negociações do Brexit devem começar após o acionamento do Artigo 50 em março. Em nossa visão, os incentivos políticos favorecem um Brexit duro, dado que o Reino Unido quer ter controle sobre suas fronteiras e regulamentos, o que implica sua saída do mercado único europeu. A Holanda realizará eleições gerais em março, e o partido eurocético PVV continua subindo nas pesquisas.

Na França, o programa de políticas reformistas do ex-primeiro-ministro François Fillon, que também é conservador em questões de imigração, faz dele o favorito para vencer as eleições do próximo ano. Mas a candidata do partido eurocético Frente Nacional, Marine Le Pen, ainda tem uma boa chance de sair vitoriosa nas eleições do 2T17. Por fim, embora este não seja nosso cenário base, há uma possibilidade de eleições antecipadas na Itália.

Aumentamos nossa projeção do PIB para a zona do euro de 1,3% para 1,6% em 2017, e mantivemos nossa estimativa inalterada em 1,6% para 2016. Diante da probabilidade de os riscos políticos prejudicarem a confiança em 2018, projetamos uma desaceleração para 1,3% para o ano.

Japão – Crescimento sustentado em 2017

As contas nacionais do Japão passaram por uma revisão geral. Consequentemente, o crescimento do PIB do 3T16 registrou 1,3% na comparação trimestral, com ajuste sazonal, impulsionado pelas exportações líquidas, que contribuíram 1,3 p.p. O consumo e as despesas do governo aumentaram 1,3% e 1,2% na mesma comparação, respectivamente.

A inflação finalmente deve acelerar em 2017. A inflação subiu para 0,5% sobre o ano anterior em novembro, vindo de 0,1%. Embora o efeito ainda tenha sido impulsionado pela recuperação dos preços de energia e pelo forte aumento dos preços de alimentos, esperamos seu repasse para o núcleo da inflação, conforme o Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês) mantém sua postura acomodatícia e as expectativas de inflação começam a subir.

Aumentamos nossas estimativas do PIB de 0,8% para 1,1% em 2016, e de 1,2% para 1,4% em 2017, devido à revisão metodológica das contas nacionais do Japão.

China – Ambiente de crescimento estável no 1T17

O crescimento econômico deve permanecer estável no 1T17. O crédito exibiu um ritmo sólido nos últimos meses, sugerindo ausência de aperto monetário apesar da retórica hawkish. O investimento continuará sendo apoiado pelos lucros corporativos mais altos (devido a uma moeda mais fraca e preços do produtor mais elevados) e pelo setor imobiliário ainda aquecido (as medidas prudenciais para desacelerar o setor devem afetar o investimento apenas após o 2T17).

A atividade econômica forte e a intervenção no mercado de câmbio provavelmente evitarão um novo choque da China como o ocorrido no início de 2016. No ano passado, o país enfrentava o desafio de combinar uma política monetária frouxa em um contexto de atividade fraca, liberalização dos fluxos financeiros e indexação da taxa de câmbio. Essa combinação impossível criou expectativas de uma depreciação forte do renminbi e gerou tensão no mercado financeiro global. Mas esses três fatores estão agora mais sutis. Em primeiro lugar, a melhora na dinâmica atividade/inflação levou a uma menor necessidade de política monetária frouxa. Em segundo lugar, uma das fontes de saída de capital (redução de passivos de carry trade) diminuiu, e o governo está apertando os controles de capital ao contrário do ano passado, quando estava liberalizando os fluxos financeiros. Finalmente, após depreciar 6,2% no acumulado do ano em relação à cesta CFETS (o novo foco da política cambial), a moeda parece menos sobrevalorizada do que em 2015.

Projetamos crescimento do PIB de 6,7% para 2016, 6,3% para 2017 e 5,8% para 2018.

Commodities – Estabilidade na China deve sustentar a alta dos preços de metais, por algum tempo

O Índice de Commodities Itaú (ICI) expandiu 7% desde o fim de novembro – com altas nos sub-índices de agricultura (5%), metais (5%) e energia (9%) –, na medida em que a atividade econômica global mantém um ritmo forte. Além disso, os sinais de que os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) estão cumprindo o acordo de corte de produção apoiam a visão de que o mercado mundial de petróleo já trabalha com um déficit pequeno, levando os preços do Brent a subir 8% desde 30 de novembro (dia em que o acordo foi anunciado).

A alta das commodities agrícolas foi impulsionada pela reversão das quedas anteriores. Reduzimos nossas projeções de preços para o café (safra brasileira mais forte em 2017) e trigo (assumindo continuidade do ambiente atual de prêmio menor para o milho). Além do café e do trigo, não houve alterações significativas na perspectiva da oferta, conforme o fenômeno La Niña diminui de forma atípica e as safras na América do Sul avançam sob condições normais.

Esperamos que a economia da China permaneça estável no 1T17, apoiando a alta dos preços de metais durante alguns meses. Não esperamos que aumentos da oferta em resposta aos preços atuais ocorram tão cedo.

Os preços do petróleo também devem permanecer altos por algum tempo, conforme o mercado assimila o corte coordenado de oferta e os indicadores globais mostram riscos de alta para um ambiente de crescimento já melhor.

Após o 1T17, esperamos que o ICI caia para um patamar 8% abaixo de seu nível atual no fim de 2017.Os dois principais fatores por trás dessa queda são a desaceleração esperada na China no 2S17 (que afetará principalmente os preços dos metais) e uma resposta de oferta por parte dos produtores de xisto nos EUA, que pode parcialmente compensar os cortes do cartel.


 


América Latina

Recuperação econômica adiada

A atividade econômica na região ainda não está se recuperando, e nós reduzimos as projeções de crescimento em 2017 para Brasil, Colômbia, México e Peru.

Mesmo enfrentando baixa popularidade e crescimento fraco, diversos governos estão adotando medidas de consolidação fiscal. 

Crescimento fraco e inflação baixa permitem que os bancos centrais da América do Sul embarquem em ciclos de flexibilização monetária. Assim, reduzimos nossas previsões para as taxas básicas de juros no Brasil e na Colômbia. No caso do México, agora esperamos altas de juros mais agressivas do que no cenário anterior.  

A atividade ainda está fraca…

Apesar do crescimento econômico mais sólido nas economias avançadas, a atividade ainda não se recuperou na região. No Brasil, os últimos dados apontam para outra contração do PIB na margem no quarto trimestre (a oitava consecutiva). No Chile e na Colômbia, a atividade ainda está perdendo fôlego, e o crescimento tem sido muito baixo em termos históricos. A economia do Peru – a que mais cresce dentro dos países sob nossa cobertura – também perdeu velocidade no quarto trimestre. A causa principal foi um ajuste fiscal temporário (o governo cortou gastos para cumprir a meta fiscal de 2016). Porém, a demanda privada ainda não reagiu à melhora da confiança desde a eleição do novo governo. Já no México, o crescimento tem estado resistente até agora (ao redor de 2,0%, na comparação anual, ritmo consistente com o potencial): as exportações de manufaturados começaram a se recuperar, em linha com a melhora dos dados da indústria americana, ao passo que o consumo privado ainda está firme. Na Argentina, o IGA (proxy para o PIB estimada pelo setor privado) sugere que a economia saiu da recessão no quarto trimestre.

Baixamos nossas previsões de crescimento em 2017 para Brasil, Colômbia, México e Peru. Os números de atividade recentes indicam um carrego estatístico menos favorável para 2017. Na Colômbia, a reforma fiscal que foi aprovada fortalece os fundamentos do país, mas provoca inflação maior no curto prazo e, consequentemente, deterioração no crescimento dos salários reais. A retórica do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, continua dura em relação a indústrias que operam no México. Nosso cenário básico não contempla mudanças significativas nas políticas comerciais nos EUA, mas o aumento das incertezas nessa esfera tende a impactar o investimento no México com maior intensidade do que esperávamos. Para o Peru, ainda acreditamos em recuperação da demanda doméstica (especialmente do investimento privado), mas a retomada não será forte o bastante para mais que compensar a desaceleração da produção do setor de mineração.

Para 2018, esperamos que o crescimento ganhe força na região, impulsionado, principalmente, pelo desempenho da economia brasileira.

…mas o balanço de pagamentos e a situação fiscal estão melhorando

Os desequilíbrios externos da região estão diminuindo. Os amplos déficits em conta corrente do Peru e da Colômbia estão agora menores. No México, os últimos dados de comércio internacional também sugerem uma redução do déficit em conta corrente. No Chile e no Brasil, os déficits em conta corrente permanecem baixos. Por outro lado, o déficit em conta corrente da Argentina está amplo (quase 3% do PIB), considerando a demanda interna fraca e a dependência de fluxos em carteira para o financiamento.

Além disso, diversos governos estão ajustando a política fiscal, apesar da baixa popularidade. Reajustes no preço da gasolina no México e a reforma tributária na Colômbia são exemplos recentes. Mesmo no Peru, onde o governo pretendia usar o espaço fiscal disponível, o corte no imposto sobre valor agregado foi bem menor do que o prometido durante a campanha presidencial e condicionado ao alcance de uma meta de arrecadação desafiadora. O governo argentino não tem pressa para reduzir o déficit fiscal, mas o resultado da anistia para ativos não declarados tem sido bem melhor do que o esperado (já foram declarados aproximadamente US$ 100 bilhões), permitindo que o governo cumpra as metas fiscais.  

Taxas de câmbio estão ajudando a baixar a inflação na América do Sul

As moedas sul-americanas iniciaram o ano com bom desempenho, estendendo os ganhos apurados durante 2016. Já o peso mexicano continuou se desvalorizando diante do aumento dos riscos associados a potenciais mudanças nas políticas comerciais dos EUA. Atualizamos nossas estimativas para as taxas de câmbio de equilíbrio na América Latina. Considerando o patamar atual dos termos de troca, concluímos que o real, o peso chileno e o sol peruano estão próximos do valor justo, enquanto o peso colombiano parece sobrevalorizado e o peso mexicano, subvalorizado. Considerando a média dos termos de troca nos últimos 20 anos, o peso mexicano estaria ainda mais subvalorizado, e o peso chileno sobrevalorizado em relação aos fundamentos de médio prazo. O peso argentino também está sobrevalorizado, pois, historicamente, o déficit em conta corrente do país é baixo. Contudo, se o atual acesso da Argentina aos mercados internacionais for de fato um novo equilíbrio, o valor justo da moeda é mais apreciado do que estimamos neste exercício.

Nesse ambiente de crescimento fraco e taxas de câmbio bem-comportadas, a inflação está recuando na maioria dos países da América Latina, embora tenha terminado 2016 abaixo do centro da meta somente no Chile. O Índice Itaú de Surpresa Inflacionária ficou em -0,38 em dezembro, vindo de -0,37 em novembro. A tendência de baixa do indicador foi puxada pelo Brasil, além dos índices de preços abaixo do previsto na Colômbia e no Chile. Na outra ponta, México e Peru convivem com pressões inflacionárias maiores ultimamente, alimentadas pela depreciação cambial, no primeiro caso, e por fatores pontuais, no segundo.

Porém, houve piora recente nas expectativas de inflação para 2017 em Peru, Argentina, Colômbia e México. Nesse grupo, somente no Peru as expectativas estão abaixo do teto da meta do banco central. É no México que a perspectiva de inflação se deteriora mais acentuadamente. A depreciação adicional do peso mexicano, após a eleição de Trump, e o reajuste da gasolina são os maiores culpados, mas outros fatores (como o aumento do salário mínimo) também contribuirão para a deterioração da dinâmica de inflação neste ano. Na Colômbia, esperamos que os aumentos no imposto sobre valor agregado associados à reforma fiscal mantenham a inflação elevada durante 2017 (embora abaixo do resultado do ano passado). Por outro lado, as expectativas de inflação continuam melhorando no Brasil e no Chile.   

Juros devem cair mais na América do Sul, mas subirão no México

Diante do crescimento econômico fraco e da queda da inflação, os bancos centrais estão embarcando em ciclos de flexibilização monetária. No Brasil, o Banco Central (BC) acelerou o ritmo de cortes na Selic para 75 pontos-base por reunião. A autoridade monetária colombiana começou a reduzir os juros antes do que nós e o mercado prevíamos. No Chile, o ciclo de flexibilização começou neste mês. Já na Argentina, a recente deterioração das expectativas de inflação provocou uma pausa no ciclo de flexibilização desde a primeira semana de dezembro. No Peru, onde o crescimento é mais robusto e a inflação tem ficado acima do previsto, os juros estão parados. O banco central do México subiu os juros em 50 p.b. em dezembro (mais do que o mercado esperava). Em nossa opinião, em decisões de alta anteriores, o banco central do México agia principalmente para proteger o valor do peso, mas, agora, suas ações são mais focadas na evolução da inflação e das expectativas de inflação (que pioraram substancialmente), embora as decisões do Fed, o banco central dos EUA, continuem desempenhando papel importante.    

Reduzimos as projeções para os juros neste ano no Brasil (9,75%) e na Colômbia (5,5%). No México, esperamos mais aperto do que antes (125 p.b. de alta). No Chile, ainda prevemos um ciclo de flexibilização de 100 p.b. (acima da projeção de 50 p.b. do mercado e a sinalização do banco central em seu último relatório de política monetária), uma vez que os últimos dados de atividade e inflação são consistentes com cortes mais significativos nos juros. Vemos cortes adicionais de juros na Argentina, mesmo que a meta de inflação dificilmente seja atingida (12% a 17%). No Peru, a previsão é de manutenção dos juros.


 

Para os demais textos, acessar o pdf em anexo.

 



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