Itaú BBA - Após o temporal

Macro Latam Mensal

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Após o temporal

Março 11, 2016

Dados melhores nos EUA, câmbio mais estável na China e alguma retomada no preço do petróleo impulsionaram os ativos de risco. Há ainda incertezas remanescentes.

Para os demais textos, acessar o pdf em anexo.

Economia global
Riscos diminuem, mas juros e crescimento global também

O risco global caiu e acreditamos que continuará diminuindo. Ainda assim, as incertezas do começo do ano provavelmente afetaram a atividade econômica no mundo.

América Latina
Algum alívio

A postura mais expansionista da política monetária nas economias avançadas e a recuperação dos preços de commodities trouxeram algum alívio para as taxas de câmbio latino-americanas. Mas a atividade continua, em geral, fraca.

Brasil
Recessão se aprofunda, reformas urgem

O cenário mais provável é de continuidade dos problemas fiscais/políticos que mantêm a economia em dificuldade. Mas, à medida que as dificuldades persistem (e se aprofundem), aumenta a probabilidade de mudanças que levem à antecipação do cenário de ajustes e reformas.

Argentina
Pagando o custo do ajuste

Os ajustes continuam, incluindo o acordo com a maioria dos “holdouts” em Nova York. Mas os custos estão ficando claros. A depreciação da moeda e os preços mais altos de serviços públicos vêm pressionando a inflação e a confiança dos consumidores está em queda.

México
Suporte ao peso

O governo anunciou uma resposta coordenada para melhorar a confiança do mercado, levando à valorização do peso e queda no risco soberano. O Banco Central aumentou as taxas de juros e o Ministério da Fazenda cortou gastos em 0,7% do PIB.

Chile
Política fiscal mais apertada, juros estáveis

O governo revisou a premissa para os preços do cobre no longo prazo e anunciou cortes no orçamento deste ano.  Com a deterioração da atividade e a nossa expectativa de queda da inflação, não projetamos mais altas de juros.

Peru
Crescimento ganha força

Com a mineração superando as expectativas, projetamos agora crescimento do PIB de 4,0% neste ano (3,8%, anteriormente). Esperamos que a atividade cresça neste mesmo ritmo em 2017.

Colômbia
Ajuste fiscal é a saída

O governo reagiu de forma construtiva à perspectiva negativa de seu rating avaliado pela S&P, anunciando um corte significativo nos gastos públicos para atingir a meta de déficit orçamentário de 3,6% do PIB.

Commodities
Projetamos preços mais elevados de petróleo e menores de minério de ferro

Projetamos recuperação dos preços do petróleo para US$ 55 por barril no fim do ano, com reequilíbrio no mercado no segundo semestre. Os preços de minério de ferro reagiram recentemente, mas os fundamentos sugerem uma reversão deste tendência.


 


Após o temporal

Dados melhores nos EUA, câmbio mais estável na China e alguma retomada no preço do petróleo impulsionaram os ativos de risco. Há ainda incertezas remanescentes, mas continuamos acreditando numa recuperação gradual, mas não contínua, para um cenário econômico apenas moderado. 

Na China, no curto prazo, é essencial monitorar as saídas de capital, que poderiam provocar uma turbulência adicional.

Nas economias maduras, as taxas de juros devem permanecer baixas por mais tempo. Mesmo nos EUA, projetamos agora apenas duas altas de juros (em vez de três) por ano, em 2016 e 2017. 

Esse ambiente de riscos menores e maior liquidez beneficia a América Latina. Depois de um início de ano turbulento, as taxas de câmbio da região voltaram a se apreciar. A atividade econômica, no entanto, continua fraca, com melhora clara apenas no Peru. Reduzimos este mês nossa projeção de crescimento no México e no Chile.

Esperamos que a inflação na região caia, mas apenas lentamente, refletindo a depreciação passada e a inércia.

Nos países em que ainda não há melhora clara do quadro de inflação (Colômbia e Peru), os bancos centrais irão continuar subindo juros. No Chile e no México, onde as expectativas de inflação estão bem ancoradas e a atividade tem surpreendido negativamente, não esperamos altas adicionais de juros neste ano. No Brasil, as condições monetárias já são contracionistas, e a inflação dá sinais de queda. Assim, esperamos queda de juros no segundo semestre. 

O cenário atual para a economia brasileira é binário. O mais provável é que os problemas fiscais e políticos continuem, mantendo a economia em dificuldade e impedindo a aprovação de medidas e reformas necessárias. Mudanças mais profundas ocorreriam apenas num prazo mais longo. Mas, à medida que as dificuldades persistem (e se aprofundam), aumenta a probabilidade de mudanças que levem à antecipação do cenário de ajustes e reformas.

Já na Argentina, os ajustes avançam. O governo chegou a um acordo com a maioria dos “holdouts”, pendente agora apenas de aprovação do Congresso. Mas o peso argentino continuou enfraquecendo nos dois primeiros meses do ano, levando o banco central a elevar a taxa de juros paga em seus títulos de esterilização em quase 7 pontos percentuais. Os custos dos ajustes para a atividade já são visíveis.


 



 

Economia global
Riscos diminuem, mas juros e crescimento global também

Dados melhores nos EUA, câmbio mais estável na China e alguma retomada dos preços do petróleo impulsionaram os ativos de risco, apesar da elevada volatilidade e das incertezas remanescentes.

Acreditamos que esses riscos continuarão diminuindo. Em especial, esperamos uma diminuição das saídas de capital da China, reduzindo o risco de cenários extremos.

Ainda assim, as incertezas do começo do ano provavelmente afetaram a atividade econômica no mundo. Ajustamos a projeção de crescimento global, em 2016, de 3,3% para 3,2%.  

As taxas de juros globais devem permanecer baixas por mais tempo. Projetamos agora apenas duas altas de juros (e não três) por ano pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) em 2016 e 2017. 

Acreditamos que o dólar retomará a tendência de apreciação moderada (5% frente a uma cesta de moedas, até o fim de 2016).

Apesar da elevada volatilidade e das incertezas remanescentes, a maioria dos ativos de risco teve bom desempenho em fevereiro. As bolsas subiram, os spreads de crédito se estabilizaram e as moedas de países emergentes registraram leve apreciação (ver gráfico).

Os principais vetores do bom desempenho dos ativos de risco foram a melhora dos dados de atividade nos EUA, os sinais de que o preço do petróleo encontrou um piso e a taxa de câmbio estável na China. A nosso ver, os dois primeiros fatores continuarão presentes. Acreditamos que o yuan permanecerá estável em relação a uma cesta de moedas, beneficiado por saídas menores de capital, mas esperamos alguma depreciação frente ao dólar. Projetamos a taxa de câmbio em 6,75 yuans por dólar no fim do ano, em linha com a esperada tendência global de (ligeiro) fortalecimento do dólar.

Porém, as incertezas do começo do ano provavelmente prejudicaram o crescimento global. Ajustamos a projeção de PIB em 2016 de 3,3% para 3,2%. Reduzimos as previsões de crescimento para os EUA (de 2,2% para 2,0%), zona do euro (de 1,7% para 1,5%) e Japão (de 1,0% para 0,4%).

Nesse cenário, acreditamos que as taxas de juros globais permanecerão baixas por mais tempo. Projetamos agora apenas duas altas de juros (e não três) por ano nos EUA em 2016 e 2017. Enquanto isso, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês) provavelmente continuarão com políticas monetárias altamente expansionistas no futuro próximo.

Esperamos que o dólar retome a tendência de apreciação moderada. Acreditamos que a retomada da economia americana está em estágio mais avançado do que outras economias desenvolvidas, e continuamos vendo fragilidade nos mercados emergentes. Nesse cenário, projetamos apreciação do dólar de 5% em bases ponderadas pelos fluxos comerciais. Prevemos euro, iene e yuan em 1,05, 120 e 6,75, respectivamente, no fim deste ano.

EUA – Trajetória (ainda) mais gradual de aumentos de juros

Os temores dos investidores em relação a uma recessão nos EUA diminuíram em fevereiro, com sinais de retomada da demanda doméstica. Dados de vendas no varejo e bens duráveis em janeiro sugerem um crescimento robusto do consumo e do investimento no primeiro trimestre de 2016. A sondagem industrial ISM mostrou sinais de estabilização em fevereiro (ver gráfico). Os resultados são consistentes com um crescimento anualizado de 2,0% do PIB no primeiro trimestre, acelerando frente ao último trimestre do ano passado (1,0%).

Os temores de recessão tendem a diminuir ainda mais nos próximos meses, com a demanda doméstica se mantendo firme, mesmo diante da desaceleração global. Estimamos crescimento do consumo das famílias acima de 3%, no primeiro trimestre, e que o ritmo sólido de 2,5 - 3,0% se mantenha no restante do ano, impulsionado pelo mercado de trabalho forte (geração mensal de empregos acima de 200 mil), disponibilidade de crédito e confiança do consumidor em alta.

Ainda assim, as incertezas devem permanecer pelos próximos dois anos. O crescimento mundial baixo e o dólar forte devem reduzir a expansão do PIB americano em 0,6 ponto percentual em 2016. Com o crescimento baixo da produtividade americana e as políticas econômicas limitadas (especialmente a monetária), ficará cada vez mais difícil manter o crescimento doméstico firme, em meio a um mundo fraco.

Dessa forma, reduzimos as projeções de crescimento do PIB dos EUA em 0,2 p.p., para 2,0%, em 2016, e em 0,1 p.p., para 2,0%, em 2017.

Reduzimos também o ritmo de aumentos de juros pelo Federal Reserve. Projetamos duas elevações por ano (em vez de três) em 2016 e 2017. A menor divergência da política monetária entre os países avançados tende a reduzir a volatilidade nos mercados de câmbio, ajudando a atenuar os riscos de impactos negativos das incertezas sobre a economia. A alta mais gradual dos juros também deve colaborar para a desalavancagem nas economias emergentes, limitando o impacto negativo sobre as exportações líquidas americanas.

Europa - BCE precisa ser convincente para mitigar os riscos

Dados sugerem alguma perda de força da recuperação na zona do euro. A sondagem PMI (para indústria e serviços) da região recuou de 54,3, em janeiro, para 53,0, em fevereiro. A confiança de empresários e consumidores também caiu. O PIB registrou expansão trimestral de 0,3%, no quarto trimestre de 2015, ou 0,1 p.p. a menos do que prevíamos.

Os riscos de crescimento menor parecem ter aumentado. O referendo no Reino Unido sobre a permanência na União Europeia, os fluxos de imigrantes e subsequentes reações políticas, as incertezas sobre a política econômica nos países periféricos e as preocupações com o sistema financeiro geram incertezas para o futuro. Não esperamos que nenhum desses riscos se materialize e produza uma grande crise. Ainda assim, esses fatores afetam a confiança e tendem a impedir uma recuperação mais forte na região, que continua sustentada por políticas monetária (principalmente) e fiscal expansionista, e por ganhos na renda das famílias.

Revisamos nossa previsão de crescimento em 2016 de 1,7% para 1,5%. A estimativa para 2017 permanece em 1,6%.

Diante desses riscos crescentes, o BCE adotou medidas adicionais de expansão monetária. A instituição aumentou em 20 bilhões de euros (para 80 bilhões) o volume das compras mensais de ativos, adicionou títulos corporativos aos ativos que fazem parte do programa de compras, baixou o depósito compulsório em 0,1 p.p., para -0,40, e ofereceu mais operações de refinanciamento de longo prazo (TLTRO, na sigla em inglês) aos bancos, potencialmente com taxas negativas.

Japão – Crescimento menor, mas ainda suficiente para combater a deflação

O PIB japonês recuou 1,1% no quarto trimestre de 2015. No ano, o crescimento foi de apenas 0,5%. Foi um ano turbulento, com a economia registrando apenas leve melhora, frente à estagnação de 2014. No quarto trimestre de 2015, o consumo teve queda trimestral de 3,4%, enquanto investimentos (alta trimestral de 6,3%) e exportações líquidas (contribuição de 0,6 p.p.) seguiram com desempenho positivo.

As indicações são de que o crescimento permaneceu fraco no primeiro trimestre de 2016, em meio a incertezas relacionadas ao “Abenomics”. O recuo das vendas no varejo (-1,1%) e dos gastos das famílias (-0,2%) em janeiro revela que o consumo seguiu fraco este ano. A decepção com a atividade e as preocupações com o impacto da política de juro negativo sobre as instituições financeiras aumentaram as dúvidas sobre o “Abenomics”, o programa econômico do Ministro Shinzo Abe, e levaram à apreciação do iene. Como resultado, o crescimento dos salários e a recuperação do consumo devem ser mais fracos em 2016.

Dessa forma, revisamos nossas projeções para o PIB de 1,0% para 0,4%, em 2016, e de 0,9% para 0,7%, em 2017.

No entanto, continuamos acreditando que o banco central conseguirá superar a deflação.  Mesmo com a falta de progresso quanto aos desafios estruturais da economia, o crescimento deve continuar acima do potencial, levando a um aperto adicional do mercado de trabalho. Os salários devem continuar subindo gradualmente, levando a inflação em direção à meta de 2% em 2017. Se confirmado, será um sucesso parcial, porém importante, para o “Abenomics”.

China – Fluxos de capital vão se estabilizar

Os temores de depreciação adicional do yuan diminuíram em fevereiro, após autoridades chinesas prometerem que não buscarão uma desvalorização competitiva e afirmarem que os fundamentos são consistentes com a estabilidade da taxa de câmbio em relação a uma cesta de moedas. Além disso, o ritmo de queda das reservas internacionais recuou de US$ 99 bilhões, em janeiro, para US$ 29 bilhões, em fevereiro (ver gráfico).

Em nossa opinião, a China conseguirá estabilizar as saídas de capital e atenuará a pressão sobre as reservas internacionais. O superávit em conta corrente elevado (2,7% do PIB) abre espaço para uma saída líquida de capitais, sem gerar perda de reservas. As expectativas de desvalorização cambial significativa também diminuíram. Acreditamos que uma fuga de capitais é pouco provável, uma vez que as obrigações externas diminuíram nos últimos meses. O governo abriu o mercado interbancário de títulos a investidores estrangeiros institucionais qualificados, em um movimento que pode gerar entrada de recursos. Nesse cenário, projetamos saída de capital de US$ 650 bilhões, em 2016, comparados a US$ 742 bilhões, em 2015.

Continuamos acreditando em uma desaceleração gradual do PIB de 6,9% em 2015 para 6,3%, em 2016.

Projetamos atividade mais lenta, mas que não deve ocasionar problemas no sistema bancário. É certo que há excesso de capacidade e alto endividamento em alguns setores. A dimensão exata dos problemas é difícil de estimar (especialmente no sistema bancário, no qual os ativos equivalem a 300% do PIB). Porém, os problemas se concentram em empreendimentos estatais e bancos estatais. E os bancos na China são financiados por depósitos domésticos. Portanto, a solução para as questões de crédito provavelmente passará pelo governo, que ainda tem capacidade fiscal, sem impor perdas aos credores dos bancos (em sua maioria, depositantes locais). Essa estrutura reduz os riscos ao sistema financeiro. De fato, não há sinais de fuga de depósitos dos bancos por ora. Infelizmente, o governo também tem sido lento para tratar das questões de excesso de capacidade, mantendo os investidores preocupados.

Commodities – Projetamos petróleo em alta e minério de ferro em baixa

O Índice de Commodities Itaú (ICI) subiu 6,9% desde o fim de janeiro, impulsionado pela alta de preços dos metais (18%) e produtos relacionados ao petróleo (9,2%). O subíndice ICI-Agricultura caiu 1,2% no período.

Os preços dos metais acumulam ganho de 17,6% no ano, com a melhora do sentimento dos investidores e a reposição dos estoques de minério de ferro na China. O último fator representa impulso temporário. O sentimento dos investidores melhorou com a redução dos temores de recessão global.

A cotação do barril de petróleo voltou a superar US$ 40, apesar do excesso de oferta atual. A nosso ver, essa resistência foi proporcionada por notícias relativas a (alguma) coordenação entre Rússia e Arábia Saudita (que dificilmente levará a um efetivo corte da oferta) e por projeções menores de produção por diversas empresas.

Esperamos recuperação do barril do tipo Brent para US$ 55, no fim de 2016. O ajuste no setor energético está ocorrendo. Os investimentos no setor de petróleo de xisto nos EUA estão caindo rapidamente e começarão a afetar a produção de forma mais acentuada no terceiro trimestre. A projeção de produção menor por várias petrolíferas reforça nossa expectativa de que a oferta menor dos EUA compensará o aumento das exportações pelo Irã, equilibrando o mercado global em meados de 2016.

Por outro lado, esperamos queda de preços do minério de ferro. A cotação subiu de US$ 37/tonelada, em meados de janeiro, para US$ 60/tonelada, recentemente, impulsionada por fatores macro e microeconômicos. Mas acreditamos que o excedente global aumentará em 2016, com produção estável (produção maior na Austrália compensando cortes de capacidade na China e questões ambientais no Brasil) e queda da demanda. Portanto, mantemos nossa projeção de US$ 42/tonelada no fim do ano.

Prevemos ligeira recuperação dos preços de metais de base, uma vez que o aumento de preços do petróleo eleva os custos de refino e transporte.

Corte nas projeções para os preços de milho e trigo. Os preços agrícolas caíram um pouco em fevereiro, devido ao clima favorável, em importantes regiões produtoras, e a sinais de que a área plantada nos EUA não será reduzida na próxima safra de grãos. Baixamos as projeções para milho e trigo em aproximadamente 5%, reconhecendo que a próxima safra enfrentará uma combinação de estoques de passagem elevados e oferta abundante.

Preços maiores para petróleo, preços menores para o minério de ferro e pequenos aumentos nos preços agrícolas e de metais de base implicam alta de 17,2% no ICI a partir dos níveis atuais até o fim do ano.



 

América Latina

Algum alívio

A postura de política monetária mais expansionista nas economias avançadas, a recuperação dos preços de commodities e a reação dos bancos centrais da região trouxeram algum alívio para as taxas de câmbio latino-americanas.

A atividade na região permanece fraca, com apenas a economia peruana mostrando alguma recuperação. Reduzimos nossas projeções de crescimento para México e Chile, e aumentamos para o Peru.

Com queda nas receitas fiscais, os governos vêm reduzindo ainda mais os gastos, em uma tentativa de preservar seus ratings de crédito.

Apesar do crescimento fraco, as perspectivas para a inflação continuam um desafio em todas as economias da região, exceto no México. Não esperamos aumentos da taxa de juros no Chile, mas, na Colômbia e no Peru, esperamos agora taxas mais elevadas do que em nosso cenário anterior. No Brasil, continuamos esperando cortes nos juros à medida que a inflação comece a ceder mais claramente.

Na Argentina, o governo chegou a um acordo com a maioria dos “holdouts”. O Congresso precisará agora revogar algumas leis que impedem o governo de oferecer melhores condições financeiras para os “holdouts” do que as oferecidas nas trocas de títulos de 2005-2010. O peso argentino continuou enfraquecendo nos dois primeiros meses do ano, levando o banco central a elevar a taxa de juros em quase 6 pontos percentuais. À medida que os ajustes avançam, seus custos para a atividade aparecem.

Alívio nos mercados

A postura de política monetária mais expansionista nas economias avançadas e a recuperação dos preços de commodities (especialmente do petróleo) trouxeram algum alívio para as moedas da região. Do início de fevereiro até a primeira semana de março, o real apresentou o melhor desempenho. O peso colombiano (a moeda da região mais exposta ao petróleo) registrou uma apreciação de quase mesma magnitude.  

Fatores idiossincráticos também ajudaram as moedas. No Brasil, os mercados começaram a apreçar chances maiores de uma mudança de cenário. Em outros países, as moedas foram afetadas pela reação dos bancos centrais, especialmente no México. O governo mexicano anunciou uma resposta coordenada para melhorar as expectativas, levando a uma valorização do peso e redução no risco soberano. Em reunião extraordinária, a taxa de juros foi elevada em 0,50 p.p., e o governo anunciou cortes de despesas de 0,7% do PIB. Além disso, o banco central vendeu US$ 2,0 bilhões, fora dos leilões, no dia em que anunciou a nova política de intervenção. Os leilões de dólar com preço mínimo foram suspensos, mas as autoridades afirmaram que podem realizar vendas discricionárias, resultando em ações menos previsíveis. Na Colômbia, o banco central continua aumentando as taxas de juros e não vem sinalizando o fim do ciclo de alta. Além disso, o banco central colombiano decidiu reduzir o limite da depreciação da taxa de câmbio necessária para acionar os leilões de opções de compra de dólar (para uma depreciação de 3%, em relação à média móvel de 20 dias, de 5% anteriormente). No Peru, o banco central elevou a taxa de juros pelo terceiro mês consecutivo, em fevereiro, e continua vendendo dólares.

No entanto, continuamos esperando que as moedas enfraqueçam um pouco em relação a seus níveis atuais. A recuperação esperada dos preços do petróleo deverá compensar parcialmente o impacto dos juros mais elevadas nos EUA, no caso da Colômbia e do México, enquanto, no Chile, o preço mais alto do petróleo bruto significa uma deterioração dos termos de troca. No Brasil, as incertezas relacionadas ao cenário fiscal e político podem continuar pesando sobre a moeda. Nossas projeções para a taxa de câmbio permanecem inalteradas, significando, na maioria dos casos, um enfraquecimento em relação aos níveis atuais. No México, esperamos que a taxa de câmbio se mantenha praticamente estável.

Política fiscal mais limitada

Como resposta à queda nas receitas fiscais ligadas às commodities e ao crescimento menor, muitos governos estão reduzindo gastos para evitar um aumento excessivo do déficit público. No México, na Colômbia e no Chile houve recentemente anúncios de alguma consolidação fiscal. No Brasil, o baixo consenso político impede os ajustes fiscais, e as agências de rating voltaram a rebaixar a nota de crédito da economia. A Standard & Poor's também acrescentou uma perspectiva negativa sobre o rating soberano BBB da Colômbia, destacando que seriam necessárias medidas fiscais estruturais para corrigir o elevado déficit em conta corrente o “calcanhar de Aquiles” da economia. Se o governo da Colômbia não conseguir aprovar uma reforma tributária ainda este ano, um rebaixamento torna-se mais provável, embora o status de grau de investimento do país deva ser mantido.

Ainda sem recuperação clara

A atividade na região permanece fraca. No México, um dos poucos países da região que apresentam recuperação no crescimento, os dados recentes vêm decepcionando: o IGAE (proxy mensal para o PIB) perdeu força no 4T15; as exportações de manufaturados não estão respondendo ao peso mais fraco; a atividade de construção, que já vinha sofrendo com os cortes nas despesas de capital do setor público, enfrenta agora uma desaceleração da atividade imobiliária. No Chile, os dados recentes mostram que o crescimento econômico não conseguiu se estabilizar em 2%. A economia da Colômbia continuou resiliente no 4T15, mas a forte deterioração da confiança dos consumidores aponta para um enfraquecimento do consumo no início deste ano, ao mesmo tempo em que as empresas petrolíferas e o governo reduzem as despesas orçadas em um ambiente de preço baixo do petróleo. No Brasil, os indicadores coincidentes e antecedentes recentes não apontam para uma estabilização da atividade no curto prazo. Em contrapartida, a economia do Peru foi uma surpresa positiva: a produção mineira está expandindo mais rapidamente do que o esperado, conforme o investimento no setor amadurece, enquanto o investimento fixo bruto um grande entrave ao crescimento em 2015 parece estar se estabilizando.

Reduzimos nossas projeções de crescimento para o México e o Chile, mas aumentamos para o Peru. No Brasil, continuamos esperando uma recessão profunda. Também continuamos esperando desaceleração moderada da economia da Colômbia este ano, embora políticas macro mais apertadas representem riscos de queda para nossas projeções.

Inflação alta ainda é um desafio

As perspectivas para a inflação continuam desafiadoras em todas as economias da região, exceto no México. A depreciação recente da taxa de câmbio e outros ajustes de preços relativos ainda pressionam a inflação. A inércia também pesa, como mostra a inflação elevada de bens não comercializáveis.  Apenas no Chile e no México as expectativas de inflação estão bem comportadas.

Já não esperamos aumentos da taxa de juros no Chile. Já na Colômbia e no Peru, esperamos agora que os bancos centrais elevem mais os juros do que esperávamos anteriormente. Para México e Brasil, nossas projeções da taxa básica de juros permanecem inalteradas. No Chile, o enfraquecimento da economia, as expectativas de inflação bem ancoradas, a probabilidade de que a inflação inicie uma trajetória de queda no curto prazo e o tom mais preocupado do banco central em relação à atividade (doméstica e externa) respaldam nossa nova projeção para a taxa de juros. No Peru e na Colômbia, as expectativas de inflação seguem pressionadas, e os bancos centrais dos dois países não dão nenhum sinal de término do ciclo de alta dos juros no curto prazo. No Brasil, continuamos esperando cortes nos juros à medida que a inflação comece a ceder mais claramente. No México, o banco central explicitou que o aumento da taxa de juros na reunião extraordinária não representa o início de um ciclo, e que a evolução da taxa de câmbio será um determinante importante dos movimentos futuros de política monetária. Dada a nossa expectativa de estabilidade do peso, de deterioração da atividade e de expectativas de inflação baixas, não esperamos aumentos adicionais nos juros este ano. Mas reconhecemos que episódios de volatilidade poderiam levar a novas altas de juros ainda este ano.  

Argentina: ajustes avançam, e seus custos aparecem

Na Argentina, o governo chegou a um acordo com a maior parte dos “holdouts” em Nova York, incluindo os fundos hedge Elliott Management e Aurelius Capital Management. Esse acordo representa 85% de todas as ações judiciais em Nova York. A Argentina vai pagar as reivindicações em dinheiro, com um desconto de 25%. No entanto, antes de a Argentina realizar qualquer pagamento, o Congresso precisará revogar algumas leis que impedem o governo de oferecer melhores condições financeiras para os “holdouts” do que as que haviam sido oferecidas nos swaps de dívida de 2005-2010. Embora o governo não tenha maioria no Parlamento, esperamos que reúna as alianças necessárias para fazer as mudanças na legislação.

O peso argentino enfraqueceu cerca de 20% nos dois primeiros meses do ano (somando-se à desvalorização de 32% em dezembro). Com a moeda mais fraca e os preços mais altos de energia, as perspectivas para a inflação são mais desafiadoras. Como resposta, o banco central aumentou a taxa de juros paga sobre seus títulos de esterilização de 35 dias (Lebac) para 38%, de 31,2%.

Os custos de curto prazo dos ajustes estão aparecendo (taxas de juros altas, crescimento negativo, inflação mais elevada e salários reais mais baixos). A confiança dos consumidores vem se deteriorando. Assim, há riscos de baixa para nossa projeção para a atividade este ano (-0,5% sobre 2015).


 

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