Itaú BBA - Sinais de aceleração da atividade em ambiente de juros baixos

Conjuntura Macro

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Sinais de aceleração da atividade em ambiente de juros baixos

Janeiro 2, 2020

Corte da taxa Selic para o nível mínimo histórico e dados econômicos surpreendendo para cima foram o destaque do mês.

A economia brasileira em dezembro de 2019

Os dados econômicos começaram a melhorar de forma gradual: o consumo surpreendeu para cima, o investimento mostrou reação, a geração de empregos com carteira assinada acelerou e os juros continuaram caindo, formando um certo círculo virtuoso de notícias que contou mais recentemente com revisões positivas das expectativas de crescimento (as primeiras em muito tempo) e melhora da perspectiva da nota de crédito soberano pela agência S&P. Apesar da alta nos preços de alimentação entre novembro e dezembro, com destaque para carne bovina, os núcleos de inflação seguem em patamares benignos.

PIB reforça cenário de aceleração gradual da atividade econômica

O PIB cresceu 0,6% no 3T19 ante o trimestre anterior após ajuste sazonal, um pouco acima das expectativas do mercado (+0,4%) e da nossa projeção (+0,5%). Na comparação anual, o PIB avançou 1,2%. Do lado da oferta, a produção agropecuária (+1,3%) foi mais fraca do que projetávamos, mas a produção industrial (+0,8%) cresceu mais do que prevíamos. Os serviços expandiram 0,4% em relação ao trimestre anterior. Do lado da demanda, tanto o consumo (+0,8%) quanto os gastos do governo (-0,4%) foram mais fracos do que esperávamos, enquanto o investimento cresceu mais fortemente (+2,0%). As exportações caíram pelo terceiro trimestre consecutivo, como esperado. Após dois trimestres de quedas significativas, a indústria extrativa cresceu 12,0% na comparação trimestral, atingindo o maior nível histórico em termos dessazonalizados. Outro destaque foi o setor de construção, que aumentou 1,3% em relação ao trimestre anterior, segundo avanço consecutivo. Esse setor pesou negativamente no crescimento econômico nos últimos anos e agora está contribuindo positivamente. Em linhas gerais, os dados reforçam que a atividade econômica está acelerando gradualmente. 

Indicadores de atividade avançam no mês de outubro

A produção industrial (PIM) cresceu 0,8% com ajuste sazonal em outubro, resultado ligeiramente acima de nossa projeção (+0,7%) e abaixo das expectativas de mercado (+0,9%). Destaca-se a produção de bens de consumo duráveis, que avançou pelo segundo mês consecutivo (+1,3%), acumulando no ano um crescimento de 2,1% contra o mesmo período de 2018. Na mesma direção, as vendas no varejo ampliado (PMC) cresceram 0,8% na comparação mensal em outubro, enquanto o conceito restrito – que exclui veículos e material de construção – avançou 0,1%. Os ganhos foram generalizados entre componentes, com 8 de 10 categorias registrando alta no mês. No setor de serviços (PMS), a renda real de outubro avançou 2,7% na variação em 12 meses, acima das expectativas de mercado, reforçando o ritmo gradual de aceleração observado para a atividade econômica. Também referente a outubro, o índice de atividade do Banco Central (IBC-Br) registrou alta de 0,17% no mês, após ajuste sazonal. Com isso, a variação em 12 meses se manteve em 2,1%. Olhando à frente, nossa projeção preliminar para o PIB do 4T está em 0,8% na variação trimestral, com ajuste sazonal.

Taxa de desemprego recua em novembro

A taxa de desemprego alcançou 11,2% em novembro, abaixo da mediana do mercado e da nossa projeção (ambas 11,4%). De acordo com nosso ajuste sazonal, o desemprego recuou -0,2 p.p. para 11,7%. Também divulgado em novembro, segundo o Ministério do Trabalho, houve criação líquida de 99 mil empregos formais (Caged), resultado acima do teto das expectativas do mercado (+68 mil, nossa projeção e o consenso do mercado: +47 mil). Dados livres de efeitos sazonais apontam para criação de 103 mil postos de trabalho, levando a média móvel de 3 meses para 80 mil empregos, ante 60 mil no mês anterior. Tal resultado é consistente com um crescimento do PIB em ritmo de 2,8% anualizado, acelerando ante 2,1% no mês anterior e 1,4% três meses antes. Na composição setorial, uma aceleração significativa na criação de empregos foi observada nos setores de serviços e varejo, enquanto a indústria de transformação continua relativamente estagnada. 

Cabe notar que, apesar da aceleração na criação de emprego formal (Caged), a taxa de desemprego permaneceu em níveis historicamente elevados nos últimos meses. Isto ocorre porque a criação de empregos informais está desacelerando, após fortes ganhos nos últimos anos. Acreditamos que essa tendência continuará e, portanto, projetamos apenas um declínio gradual da taxa de desemprego (11,9% até o final deste ano, 11,5% até o final de 2020), apesar da aceleração projetada da atividade econômica (crescimento do PIB de 1,2% este ano e 2,2% no ano que vem). 

Confiança registra alta difundida nos setores

Os indicadores de confiança da FGV para dezembro apresentaram altas expressivas na maior parte dos setores, com exceção do indicador para o comércio, que apresentou ligeira alta de 0,3 ponto.  O índice de confiança do consumidor avançou 2,7 pontos em dezembro, influenciado por ambos os componentes de situação atual (+1,5 pontos) e expectativas para o futuro (+3,3). Para o setor de serviços, o índice subiu 1,1 ponto (para 96,1 pontos), o maior nível desde fevereiro de 2019. Na mesma direção, a confiança do empresário industrial aumentou 3,2 pontos no período, para 99,5, e a confiança da construção registrou alta de 3,3 pontos para 92,3 – o maior nível desde junho de 2014. O nível de utilização da capacidade instalada recuou 0,2 p.p. para 75,1%, ainda mostrando elevada capacidade ociosa na indústria nacional. De acordo com a instituição, apesar desta ser a segunda queda consecutiva, o NUCI encerra 2019 0,8 p.p. acima do nível de janeiro desse ano (74,3%).

IPCA-15 acelera em dezembro, mas perspectivas seguem benignas

A inflação medida pelo IPCA-15 de dezembro ficou em 1,05%, um pouco acima da nossa projeção (0,99%) e do consenso do mercado (0,95%), avançando na comparação anual de 3,7% para 3,9%. Analisando os principais movimentos, os preços da carne bovina aumentaram 18,7%, contribuindo para o aumento de 3,62% na alimentação no domicílio. Exceto este movimento, os componentes do IPCA-15 tiveram comportamento benigno. Olhando para as medidas de núcleos, serviços subjacentes subiram acima do esperado devido à pressão da carne bovina sobre a alimentação fora de casa. Por outro lado, o núcleo de produtos industriais apresentou deflação de 0,03% no mês, provavelmente causada por descontos acima do esperado na Black Friday.

De maneira análoga, o IPCA de novembro registrou alta de 0,51%, acima da nossa projeção e da mediana das expectativas do mercado, ambas em 0,47%. O destaque do mês foi a alta de 1,01% em alimentação no domicílio (ante -0,03% em outubro), puxada pelos preços de carne bovina. Em 12 meses, o indicador acumula alta de 3,27%.

Comunicação do BC mantém espaço para cortes de juros

Como esperado, o Copom cortou a taxa Selic em 0,50 p.p., para 4,5% a.a. O comunicado do comitê não se compromete com cortes adicionais na taxa de juros, mas também não os exclui. De fato, o conjunto de previsões apresentado no comunicado, particularmente para 2020 (3,5% e 3,7% no cenário de mercado e híbrido, respectivamente, em comparação com uma meta de 4%) sugere que há margem para flexibilizações adicionais. Na mesma direção, o relatório de inflação de dezembro mostrou projeções consistentes, a nosso ver, com cortes adicionais da taxa Selic nas próximas reuniões do Copom. O documento também indica que a taxa Selic pode permanecer em nível próximo do mínimo por tempo considerável, com alta somente a partir de 2021.

Déficit primário de R$15,3 bilhões em novembro 

O setor público consolidado registrou déficit primário de R$15,3 bilhões em novembro, melhor que a nossa projeção e o consenso de mercado (em R$ 16,2 bilhões e R$ 16,4 bilhões, respectivamente). No acumulado em 12 meses, o déficit primário consolidado oscilou para 1,2% do PIB (ante 1,3% no mês anterior). A dívida bruta do governo geral subiu de 77,3% para 77,7% do PIB entre outubro e novembro, já a dívida líquida recuou de 55,2% para 54,8% do PIB. Olhando à frente, o controle das despesas obrigatórias, a manutenção das agendas de contração parafiscal, a venda de ativos do governo, juros baixos e a aceleração do crescimento criam condições para que a dívida bruta recue nos próximos anos. Isso não significa que o ajuste fiscal em curso possa ser interrompido. A venda de ativos, juros abaixo do nível de equilíbrio e crescimento acima do potencial são fatores temporários. Portanto, a estabilização estrutural da dívida bruta requer melhora do resultado primário. Esperamos que esse movimento ocorra gradualmente, com o superávit primário alcançando o patamar de 1,0% do PIB em 2023.

Déficit em conta corrente abaixo do esperado em novembro

As transações em conta corrente registraram déficit de US$ 2,2 bilhões em novembro, abaixo da nossa expectativa (déficit de US$ 3,4 bilhões) e das expectativas de mercado (déficit de US$ 3,8 bilhões). A principal surpresa veio na conta de aluguel de equipamentos, que é tipicamente volátil. Acumulado em 12 meses, o déficit em conta corrente recuou para US$ 51,2 bilhões ou 2,8% do PIB (ante US$ 52,1 bilhões em outubro). De janeiro a novembro, no entanto, o déficit em conta corrente avançou para US$ 45 bilhões, ante US$ 35 bilhões registrados no mesmo período de 2018. O aumento se deve ao enfraquecimento da balança comercial, em particular à queda das exportações. Para os próximos anos, projetamos déficits em conta corrente em torno de 2,5%-3,0% do PIB, em linha com a retomada da economia. Apesar do patamar mais elevado, o déficit em conta corrente deve continuar sendo confortavelmente financiado por investimento estrangeiro direto.

S&P eleva perspectiva sobre rating brasileiro

A agência de classificação de riscos S&P reafirmou o rating soberano do Brasil em BB-, mas alterou a perspectiva para o rating soberano de estável para positivo. De acordo com a agência, melhoras adicionais no rating do país irão depender do progresso na consolidação fiscal em 2020 e das expectativas de recuperação da atividade econômica, que devem contribuir para as perspectivas do déficit primário e evolução da trajetória de endividamento do país.

Congresso aprova orçamento para 2020

O Congresso aprovou o projeto de lei do orçamento da União em 2020. Um ponto de destaque é o reajuste do salário mínimo, realizado de acordo com a inflação observada em 2019. Isso é importante para a continuidade do ajuste fiscal porque, como o salário mínimo define uma série de benefícios, entre eles o piso da previdência, ganhos em termos reais implicariam aumento dos gastos. Outro detalhe interessante do orçamento aprovado é que ele prevê economia de R$ 6 bilhões na segunda metade do ano que vem, partindo da hipótese de que a PEC emergencial – que traz mecanismos de controle dos gastos públicos – será aprovada até junho do próximo ano.

Ativos financeiros

Em dezembro, o Ibovespa avançou 6,8% em reais e 12,0% em dólares. O real apreciou 4,6%, encerrando o ano de 2019 em 4,03 reais por dólar. O risco-país medido pelo CDS de 5 anos recuou 26 p.b. e fechou 2019 em 99 p.b.

Próximos eventos

No Brasil, o ano de 2020 deve começar com o governo trabalhando por meio de medidas provisórias, uma vez que o recesso parlamentar se estenderá até no início de fevereiro. Após o retorno do Congresso à atividade, a agenda de reformas deve continuar no centro das atenções.

Do lado internacional, o mercado seguirá acompanhando de perto os avanços nas negociações entre EUA e China. A fase 1 do acordo comercial deve ser assinada por representantes de ambos os países em janeiro. Nos EUA, após a Câmara dos Deputados ter votado a favor do impeachment do presidente Trump, o Senado deve iniciar sua votação no mês de janeiro. Em relação ao Brexit, após aprovar o texto-base, a Câmara dos Comuns do Reino Unido tem até o dia 9 de janeiro para votar as mudanças finais do acordo. Na sequência, o texto seguirá para a Câmara dos Lordes, onde pode ser votado antes da data prevista para a efetivação do Brexit, em 31 de janeiro.


 

Para o relatório completo com gráficos e tabelas, favor acessar o pdf em anexo.



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