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Conjuntura Macro

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Eventos políticos elevam incerteza sobre as reformas

Junho 1, 2017

Os acontecimentos levaram as agências de classificação de risco a mudarem a perspectiva da nota do Brasil para negativa

A economia brasileira em maio de 2017

O Supremo Tribunal Federal divulgou gravação de conversa – a partir de acordo de delação premiada no âmbito da investigação Lava Jato – envolvendo o presidente Michel Temer e empresário do setor privado, o que elevou incertezas no âmbito político e sobre as medidas de ajuste que tramitam no Congresso. Os acontecimentos levaram as agências de classificação de risco a mudarem a perspectiva da nota do Brasil para negativa.O Banco Central cortou a taxa de  juros em 1,0 p.p., para 10,25% a.a., e sinalizou uma redução moderada do ritmo de flexibilização monetária em sua próxima reunião.

Eventos políticos elevam as incertezas sobre a continuidade das reformas

O Supremo Tribunal Federal divulgou gravação de conversa – a partir de acordo de delação premiada no âmbito da investigação Lava Jato – envolvendo o presidente Michel Temer e empresário do setor privado, além de vídeos envolvendo outros políticos. Após a divulgação, houve manifestações contra o presidente nas principais capitais do país. Os acontecimentos contribuíram para elevar as incertezas políticas, e consequentemente sobre as medidas de ajuste que tramitam no Congresso, em especial a reforma da Previdência, essencial para o cumprimento do teto de gastos e a estabilização da dívida pública. Os eventos geraram volatilidade no mercado doméstico: no mês, a taxa de câmbio chegou a depreciar em torno de 10% no mês, atingindo 3.41 reais por dólar, mas fechou o mês em 3.24 reais por dólar, e o índice de ações Ibovespa recuou em torno de 12% durante o mês, mas como o câmbio, o movimento foi parcialmente revertido posteriormente.

Apesar das elevadas incertezas, houve progresso em algumas reformas no Congresso: o texto-base da reforma da Previdência foi aprovado na Comissão Especial da Câmara dos Deputados por 23 votos a favor e 14 contra, e está atualmente aguardando votação no plenário da Câmara, em que são necessários 308 votos para sua aprovação, ou 60% do número total de deputados da casa. O Senado aprovou o texto base do projeto de renegociação das dívidas dos estados, concluindo a tramitação desta medida no Congresso. A reforma trabalhista avançou na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado após ser aprovada pela Câmara dos deputados no mês passado, e segue para votação nesta comissão.

Substituições em cargos importantes do governo       

A presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Maria Silvia Bastos, apresentou carta de demissão ao presidente Michel Temer. Paulo Rabello de Castro foi nomeado pelo presidente para assumir a pasta. Houve troca também do comando do Ministério da Justiça, posição até então assumida por Osmar Serraglio, sendo substituído pelo ex-ministro da Transparência, Fiscalização e Controladoria-Geral da União, Torquato Jardim.

Agências de classificação de risco mudam perspectiva da nota do Brasil para negativa

Em meio aos acontecimentos recentes que contribuíram para elevar as incertezas na esfera política, gerando volatilidade no mercado doméstico, as agências de classificação de risco S&P e Moody’s mudaram suas perspectivas do rating soberano do Brasil – a nota de risco de crédito de longo prazo em moeda estrangeira - para negativa. As agências mencionaram os riscos sobre a agenda de implementação das reformas fiscais, fundamental para o reequilíbrio das contas públicas e o retorno ao crescimento econômico.

Copom mantém ritmo de corte de juros, mas sinaliza redução de ritmo adiante

O Copom cortou a Selic em 1,0 p.p., para 10,25% a.a., sem viés, em uma decisão unânime, em linha com o esperado. O comitê sinalizou que uma redução moderada do ritmo de flexibilização monetária em relação ao ritmo adotado hoje deve se mostrar adequada em sua próxima reunião. Esperamos que o Copom reduza a Selic para 9,5% a.a. em sua reunião de 25 e 26 de julho e leve a taxa básica para 8% até o final do ano. O texto torna claro que o principal fator de risco é a implementação da agenda de reformas, especialmente a da Previdência Social e a de leis trabalhistas, e assinala um custo econômico da maior incerteza política.

PIB avança 1,0% no 1T17, impulsionado pelo setor agrícola

O PIB apresentou crescimento de 1,0% no 1T17 ante o trimestre anterior, após ajuste sazonal, em linha com as expectativas. A alta interrompe a sequencia de oito trimestres consecutivos de contração, e foi influenciada por forte contribuição da produção agropecuária, além de um efeito estatístico favorável da produção industrial. Em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, houve contração de 0,4%. Com o resultado, o PIB acumulado em quatro trimestres avançou de -3,6% para -2,3%. Pela ótica da demanda, o resultado mostra fraqueza nos componentes domésticos. A formação bruta de capital fixo recuou 1,6% e o consumo das famílias caiu 0,1%. O resultado positivo no trimestre veio principalmente por forte contribuição positiva de estoques, além de avanço das exportações líquidas. Pela ótica da oferta, houve alta de 13,4% da agropecuária e de 0,9% da indústria ante o trimestre anterior. Já o setor de serviços ficou estável na margem após oito trimestres consecutivos em queda.

Criação líquida de emprego em abril, mas o desemprego permanece em tendência de alta

Segundo o Ministério do Trabalho, a criação de empregos formais (CAGED) foi de 59,9 mil em abril, acima das expectativas. Esse é o primeiro mês com criação líquida de empregos em abril (sem considerar ajuste sazonal) desde 2014, apesar de a variação dessazonalizada ser de destruição de 34 mil empregos. A taxa de desemprego nacional atingiu 13,6% no trimestre concluído em abril, contra 13,7% no 1T17. Usando nosso ajuste sazonal, o desemprego ficou estável em 13,2%.

Inflação continua em queda

A inflação do IPCA-15 ficou em 0,24% em maio, levemente acima das expectativas. Acumulada em 12 meses, a inflação recuou para 3,8%, ante 4,4% no mesmo período do mês anterior. Segundo o IBGE, este foi o menor resultado do IPCA-15 para o mês de maio desde 2000. O resultado segue em linha com a tendência de queda da inflação observada nos últimos meses, e continua a refletir a desaceleração disseminada entre seus componentes, reforçando o impacto da atividade ainda fraca.

Déficit nas contas públicas segue elevado

O setor público consolidado registrou superávit primário de R$ 13 bilhões em abril, acima das expectativas. O superávit do mês é explicado sobretudo pela arrecadação com royalties de petróleo e imposto de renda, que costumam ser favoráveis nessa época do ano. Com isso, em 12 meses, o déficit primário consolidado manteve-se em 2,3% do PIB. A aprovação e implementação das reformas fiscais (principalmente da Previdência) são fundamentais para reverter de forma consistente a trajetória ascendente da dívida pública.

Déficit em conta corrente no primeiro trimestre é o menor desde 2007

A conta corrente apresentou um superávit de US$ 1,2 bilhões em abril, a segunda alta mensal consecutiva. Acumulado em 12 meses, o déficit em conta corrente recuou para US$ 19,9 bi ou 1,1% do PIB. Os dados mais uma vez confirmam a continuidade do ajuste em conta corrente, em curso desde o ano passado, em função do câmbio mais depreciado e da atividade em ritmo mais lento. Do lado do financiamento, o investimento direto no país tem se mostrado resiliente, mas os fluxos para portfólio, tipicamente mais voláteis, recuaram por mais um mês.

Próximos eventos

No dia 6 de junho (terça-feira), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) irá retomar o julgamento da ação que pede a cassação da chapa Dilma-Temer.Além disto, a reforma trabalhista pode ser votada na Comissão e Assuntos Econômicos do Senado, e seguir para votação em plenário ainda em junho. O Copom irá divulgar a ata da reunião de maio na terça-feira, 6 de junho.


 

 



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