Itaú BBA - Coronavírus avança globalmente

Conjuntura Macro

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Coronavírus avança globalmente

Abril 1, 2020

Governos de diversos países, inclusive o brasileiro, anunciam medidas de estímulo econômico.

A economia brasileira em março de 2020

Os mercados globais foram fortemente afetados por preocupações crescentes sobre a disseminação do novo coronavírus e, entre outros fatores, seu impacto negativo sobre a atividade econômica. No Brasil, os efeitos da epidemia começam a ser observados na queda generalizada dos indicadores de confiança para o mês de março. Sob a ótica da inflação, a divulgação do IPCA-15 de março corrobora a nossa visão de trajetória benigna para o indicador. Acreditamos que o choque atual é desinflacionário no curto prazo. Destacam-se alguns fatores nessa direção, em especial a forte queda observada no petróleo nas últimas semanas e o impacto da restrição de movimentação de pessoas (via menores reajustes/repasses de preços). Na frente política, governo e Congresso trabalham em agendas de estímulos e combate aos impactos do Covid-19.

Governos reagem à pandemia

Os principais destaques em termos de tendências globais para o coronavírus foram a aceleração expressiva no número de casos nos EUA, e os sinais de desaceleração na Itália, um dos países mais impactados pela pandemia, sugerindo que este último tenha alcançado seu pico nos últimos dias, algo que pode se repetir em breve no restante da Europa. No Brasil, o Ministério da Saúde confirma 240 óbitos e 6.836 casos até o momento da publicação deste relatório (veja mais no nosso monitor semanal do COVID-19 aqui.). 

Buscando enfrentar as consequências da disseminação da doença e das medidas de isolamento social adotadas, a maioria dos países vem anunciando medidas de estímulos econômicos. Como destaque, o governo e Congresso americano endereçaram pacotes equivalentes a US$ 2 trilhões (10% do PIB) em estímulos, com medidas de apoio para empresas, suporte para as companhias aéreas, além de transferência de renda para cidadãos americanos e expansão do seguro-desemprego. Além disso, o banco central americano aumentou a provisão de liquidez e ampliou o escopo e a efetividade de seu programa de compras de ativos, passando a comprar títulos de dívida corporativa em adição às tradicionais compras de títulos públicos. No contexto de liquidez externa, o Fed firmou um acordo que garante provisão de liquidez em dólares para outros bancos centrais, inclusive o brasileiro, por meio de linhas de swap de até US$ 60 bilhões. Na mesma direção, líderes do G-7 afirmam que vêm tomando e continuarão a avaliar ações necessárias para garantir a liquidez do sistema financeiro e mitigar os impactos econômicos da pandemia.

Governo brasileiro também anuncia medidas de estímulo 

Como forma de reagir aos impactos do coronavírus na economia brasileira, o Congresso aprovou o reconhecimento do estado de calamidade pública, a pedido do governo federal, permitindo a elevação do gasto público e descumprimento da meta fiscal prevista para este ano. Neste contexto, o ministério da economia avalia um pacote de cerca R$ 750 bilhões, com algumas medidas já anunciadas, a serem endereçadas pelo governo, bancos públicos e Banco Central, para fazer frente aos impactos econômicos da pandemia. As medidas atuam em diferentes frentes: fornecer apoio à população mais vulnerável; auxílio para trabalhadores informais e autônomos; flexibilização das leis trabalhistas; apoio financeiro para empresas, estados e municípios; ampliação da liquidez nos mercados, entre outros. Dentre as medidas fiscais já anunciadas, estimamos cerca de R$ 172 bilhões de impacto na economia em 2020, dos quais R$ 100 bilhões estão associados a gastos extraordinários, R$ 22 bilhões em renúncias fiscais, R$ 16 bilhões em transferências a estados e municípios, entre outras. Um pacote adicional de medidas (equivalente a R$ 118 bilhões), sem impacto fiscal direto, também foi anunciado.

A fim de oferecer suporte à renda e emprego, foi aprovado recentemente no Congresso um projeto prevendo a concessão, durante três meses, de auxílio emergencial de R$ 600 a trabalhadores informais (e R$ 1.200 para mães responsáveis pelo sustento da família), com impacto estimado em R$ 67 bilhões. Para o emprego formal, o presidente Jair Bolsonaro editou uma medida provisória que altera regras trabalhistas durante o período de calamidade pública. O objetivo, segundo o governo, é trazer flexibilidade a fim de garantir a preservação do emprego. Além disso, segundo o Ministério da Economia, todos os trabalhadores que recebem até dois salários mínimos e tiverem redução salarial e de jornada receberão uma antecipação de 25% do que receberiam mensalmente caso solicitassem o benefício do seguro-desemprego. O governo também antecipou a segunda parcela do 13º salário de aposentados e pensionistas do INSS para o mês de maio.

Em apoio às empresas, o governo suspendeu por três meses os pagamentos de encargos ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e o recolhimento da parcela da União no Simples Nacional, este último para o caso de micro e pequenas empresas. Na frente de apoio via bancos públicos, o BNDES anunciou a suspensão de cobrança de empréstimos por 6 meses, além de uma injeção de R$ 55 bilhões na economia para reforçar o caixa de empresas. Já a Caixa Econômica Federal anunciou redução dos juros e a possibilidade de suspensão, por 60 dias, nos pagamentos de prestações de contratos de empréstimo acertados por pessoas físicas e jurídicas, incluindo os habitacionais. Ainda nesta frente, o Banco Central anunciou uma linha de crédito emergencial para empresas que faturam de R$ 360 mil a R$ 10 milhões. O programa será exclusivo para folha de pagamento (limitado a dois salários) e terá duração de dois meses, sendo R$ 20 bilhões por mês (R$ 40 bilhões no total).

O Banco Central também anunciou um conjunto abrangente de medidas para oferecer liquidez ao sistema, que pode chegar a 16,7% do PIB. Isso se compara a 3,5% em 2008 (no entanto, naquele momento o BCB tinha mais margem de manobra na Selic do que tem agora). Dentre elas, destacam-se: a liberação adicional de R$ 68 bilhões em depósitos compulsórios; novo Depósito a Prazo com Garantias Especiais (NDPGE) para captações de bancos; empréstimo com lastro em debêntures, entre outras. Adicionalmente, foi encaminhado ao Congresso uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) permitindo a aquisição direta de títulos pelo Banco Central, aprimorando os instrumentos de intervenção da autoridade monetária, visando à normalização da liquidez nos diferentes segmentos dos mercados de financeiro e de capitais. 

Banco Central do Brasil reduz a taxa Selic para 3,75% a.a.

Em sua reunião de março, as autoridades acabaram por entregar o resultado que era, em grande medida, consistente com os preços de mercado – um corte de 0,50 p.p. na taxa de juros, em decisão unânime. Com isso, a taxa Selic recuou para 3,75% a.a. No comunicado de sua última reunião, o Copom indicou explicitamente que, neste momento, vê como adequada a manutenção da taxa Selic em seu novo patamar. Com um cenário particularmente incerto, a autoridade monetária ressaltou que reduções adicionais dos juros podem ser contraproducentes se resultarem em aperto das condições financeiras. 

Na ata de sua última reunião, o comitê trouxe uma análise dos efeitos da pandemia sobre a economia, na qual destacam três fatores. Um vem do lado da oferta, relacionado à disrupção das cadeias de suprimentos devido às medidas voltadas para impedir a propagação da doença. O segundo refere-se a mudanças nos preços de commodities e ativos financeiros, que podem ter efeitos ambíguos sobre a inflação de curto prazo (preços mais baixos do petróleo versus taxa de câmbio pressionada). O terceiro e, na visão do Copom, o mais importante, é um choque negativo de demanda. Esse choque, segundo as autoridades, justificaria um corte mais agressivo de juros, acima dos 0,50 p.p. vistos na decisão de março. No entanto, o Copom também alertou que as perspectivas para a política monetária dependem de continuidade das reformas econômicas, e observa que as taxas de juros neutras podem acabar subindo (se a resposta à crise levar a uma deterioração da política fiscal). 

Acreditamos que as autoridades devem voltar a reduzir a taxa Selic, quando a situação nos mercados se acalmar, levando a taxa para 3,25% a.a., mas não necessariamente na próxima reunião. Neste sentido, o relatório de inflação de março de 2020 mostra projeções indicando que a taxa Selic pode permanecer em nível próximo do mínimo por tempo considerável, com eventual alta somente a partir de 2021. Em paralelo, o crescimento do PIB foi revisado para 0% em 2020, valor acima de nossa projeção (-0,7%). Também foram apresentadas projeções de curto prazo para a inflação, para os meses de março a maio. Para este período, os números do Banco Central estão cerca de 0,30 p.p. acima dos nossos. Considerando ainda os riscos decorrentes da pandemia do novo coronavírus, fica evidente a possibilidade de o BCB acabar se deparando com uma inflação mais baixa do que projeta atualmente. 

Indicadores de confiança começam a refletir impactos do Covid-19 no Brasil 

Os indicadores de confiança divulgados para março apontam queda generalizada entre os setores, mostrando os primeiros efeitos da pandemia sobre a atividade econômica brasileira. O Índice de Confiança Empresarial da FGV caiu 6,5 pontos em março, para 89,5 pontos, menor nível desde setembro de 2017. Segundo a instituição, houve piora expressiva das expectativas em todos os setores, especialmente no comércio e serviços, enquanto a percepção sobre a situação corrente piorou relativamente pouco. Mesmo aqueles segmentos que estavam evoluindo favoravelmente no ano, como a indústria e construção, foram influenciados pela redução no ritmo da atividade econômica. 

Dentre as quebras setoriais, a confiança do comércio teve umas das quedas mais acentuadas no mês, de 11,7 pontos, a maior desde o início da série histórica. Esse movimento pode ser explicado pelo componente de expectativas para o futuro, que recuou 24,3 pontos, enquanto o índice de situação atual ainda apresentou uma evolução positiva de 1,3 ponto. No setor de serviços, o recuo foi similar, de 11,6 pontos (para 82,8), estendendo a percepção de fraqueza que já vinha sendo apontada pelas divulgações anteriores do indicador. A confiança do consumidor recuou 7,6 pontos (para 80,2), acentuando um movimento que já era observado nos dois meses anteriores. Vale notar que apesar de dois terços da coleta de dados (realizada entre 02 e 19 de março) terem ocorrido antes das medidas de restrição, já é possível notar impacto expressivo nas expectativas. Por fim, a confiança da indústria e construção também apresentaram desempenho negativo, de 3,9 e 2,0 pontos, respectivamente. Segundo a instituição, o nível de utilização da capacidade instalada na indústria – que recuou 0,9 p.p., para 75,3% – e a percepção dos empresários sobre a demanda e a situação dos negócios sugerem que a produção industrial pode já ter sido impactada pela efeitos econômicos da pandemia.

Crescimento gradual da atividade até fevereiro, taxa de desemprego estável 

Em fevereiro de 2020, a produção industrial avançou 0,5% na variação mensal (segundo mês consecutivo de alta), após ajuste sazonal, representando recuo de 0,4% na taxa em 12 meses. O desempenho dos ramos de atividade também apontava melhora na produção, com 15 dos 26 segmentos pesquisados mostrando expansão. Para o mês de janeiro, as vendas no varejo (PMC) e receita do setor de serviços (PMS) também apontavam que a economia brasileira seguia em processo de recuperação gradual. As vendas no varejo restrito recuaram 1,0% no mês, enquanto o conceito ampliado, que inclui veículos e material de construção, avançou 0,6%. No setor de serviços, o índice da PMS subiu 0,6% no mês, depois de apresentar dois resultados negativos nos meses anteriores. No entanto, essas divulgações não refletem os recentes impactos da pandemia de coronavírus na atividade econômica.

No mercado de trabalho, a taxa de desemprego alcançou 11,6% em fevereiro, em linha com as expectativas do mercado e nossa projeção (ambas em 11,6%). Com ajuste sazonal, a taxa de desemprego permaneceu em 11,5%, reflexo do crescimento de 0,1% tanto da população ocupada quanto da população economicamente ativa. Com relação às divulgações do número de empregos formais (Caged), o Ministério da Economia divulgou nota de esclarecendo a suspensão dessas divulgações por período indeterminado, enquanto busca retificar a prestação de informações sobre admissões e demissões por parte das empresas, que, diante de subdeclaração, inviabilizou a consolidação dos dados para os meses de janeiro e fevereiro.

IPCA-15 de março desacelera para 3,67% na variação em 12 meses

Segundo o IBGE, o IPCA-15 de março registrou ligeira alta de 0,02%, resultado próximo da nossa projeção e da mediana das expectativas do mercado, em 0,04% e 0,06%, respectivamente. Dentre os componentes, destaque para a queda nos preços dos combustíveis de veículos (-1,2%) e passagens aéreas (-16,9%). Nesse contexto, nossa projeção preliminar para o IPCA de março está em 0,1%. A inflação do mês contará com alívio no grupo de transportes, com deflação em combustíveis de veículos e passagens aéreas. Acreditamos que o impacto do choque atual é desinflacionário no curto prazo. Destacam-se alguns fatores nessa direção, em especial a queda vertiginosa observada no petróleo nas últimas semanas e o impacto da ampliação da restrição de movimentação de pessoas (via menores reajustes/repasses de preços). 

No acumulado de 12 meses, a taxa do IPCA-15 recuou para 3,67% (de 4,02% em fevereiro). As medidas de núcleo de inflação, que excluem itens mais voláteis, seguem em patamares confortáveis. A inflação de serviços subjacente registrou ligeira deflação de 0,01% na variação mensal, levando o acumulado em doze meses para 3,2%. A média das medidas de núcleo em doze meses segue oscilando ao redor de 3%. Em linhas gerais, as divulgações recentes corroboram nossa visão de que a inflação segue em trajetória benigna. Contribuem neste sentido tanto o elevado nível de ociosidade na economia, quanto a própria inflação, seja ela na forma de inércia ou de expectativas bem ancoradas. Esperamos alta de 2,9% no IPCA este ano e 3,3% em 2021.

Déficit primário de R$ 20,9 bilhões em fevereiro

O setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 20,9 bilhões em fevereiro, próximo à nossa projeção e ao consenso de mercado (em R$ 21,2 bilhões e R$ 21,5 bilhões, respectivamente). No acumulado em 12 meses, o déficit primário consolidado permaneceu em 0,7% do PIB. A dívida bruta do governo geral subiu de 76,1% para 76,5% do PIB entre janeiro e fevereiro, enquanto a dívida líquida recuou de 54,1% para 53,5% do PIB, refletindo a desvalorização cambial no mês. Cabe notar que a contração da atividade econômica e as medidas tomadas para suavizar o impacto da crise do coronavírus levarão a uma forte piora nos resultados fiscais de 2020, mas é fundamental que não sejam criadas despesas permanentes, de modo que o ajuste fiscal gradual proporcionado pelo teto de gastos seja retomado de 2021 em diante.

Déficit em conta corrente de US$ 3,9 bilhões em fevereiro

As transações em conta corrente registraram déficit de US$ 3,9 bilhões em fevereiro de 2020, acima da nossa expectativa e das expectativas de mercado (ambos um déficit de US$ 3,3 bilhões). Acumulado em 12 meses, o déficit em conta corrente somou US$ 52,9 bilhões, ou 2,9% do PIB. Nos próximos meses, o déficit em conta corrente deve recuar com atividade econômica mais fraca e câmbio mais depreciado. Itens como viagens internacionais, transportes e lucros e dividendos devem ser os mais afetados. O impacto sobre a balança comercial ainda é dúbio uma vez que as importações devem recuar, mas as exportações também com a retração do comércio global. Para os próximos anos, projetamos déficits em conta corrente entre 2,5% e 3,0% do PIB. Apesar do patamar mais elevado, o déficit em conta corrente deve continuar sendo confortavelmente financiado por investimento estrangeiro direto.

Ativos financeiros

Em março, o Ibovespa recuou 29,9% em reais e 39,3% em dólares. O real depreciou 15,6%, encerrando o mês em 5,2 reais por dólar. Diante da elevada aversão ao risco nos mercados globais, o risco-país brasileiro medido pelo CDS de 5 anos subiu 144 p.b. e encerrou o mês em 276 p.b.

Próximos eventos

As atenções continuarão voltadas para o acompanhamento de novos casos de coronavírus ao redor do globo, seus impactos na saúde e rotina das famílias e empresas, e consequente reações de política econômica e sanitária por parte das autoridades nacionais. No Brasil, o Congresso Nacional, que vem funcionando em sistema remoto, estará focado em discutir e votar medidas relacionadas ao surto. O projeto de lei que regula o chamado Plano Mansueto, de recuperação fiscal dos estados poderá, ser votado em breve. A proposta, que possibilita a contratação de crédito por estados com situação financeira frágil, em troca de medidas de ajuste fiscal, também pode incluir dispositivos que dão suporte legal a medidas já anunciadas pelo governo em reação ao Covid-19. Duas PECs também podem ser votadas. Uma delas, conhecida como PEC do “Orçamento de Guerra”, promove a separação no Orçamento-Geral da União entre gastos para o combate ao coronavírus e demais despesas fiscais. A proposta também busca flexibilizar o manejo de recursos voltados ao controle da pandemia. A outra PEC permitiria a aquisição direta de títulos pelo Banco Central, com o objetivo de equilibrar o mercado em períodos de disfuncionalidade. É possível que essas propostas sejam unificadas em apenas um projeto.


 

Para o relatório completo com gráficos e tabelas, favor acessar o pdf em anexo.



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