Itaú BBA - Copom reduz taxa básica de juros para 6% ao ano

Conjuntura Macro

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Copom reduz taxa básica de juros para 6% ao ano

Agosto 1, 2019

Em meio à atividade fraca, inflação benigna e a primeira votação da reforma da previdência no Congresso, o Copom cortou a Selic em 0,50 p.p.

A economia brasileira em julho de 2019

Com a reforma da previdência votada em primeiro turno na câmara dos deputados, o banco central voltou a reduzir a taxa de juros em 0,50 p.p. em decisão unânime, apesar de sinais de estresse observados no mercado após a decisão do Fed que ocorreu algumas horas antes. A criação de empregos formais divulgada para junho seguiu em ritmo moderado e a taxa de desemprego ficou estável em patamares historicamente elevados. A inflação em 12 meses do IPCA-15 para julho desacelerou de 3,84% para 3,27%, reforçando seu comportamento benigno na margem. O governo anunciou novas medidas econômicas a fim de estimular o consumo e o investimento, como é o caso da liberação de saques do FGTS e PIS/Pasep, e o lançamento do Novo Mercado de Gás.

Copom reduz taxa Selic em 0,50 p.p. com aceno de outro corte de 0,50 p.p. adiante 

O Copom reduziu a taxa de juros em 0,50 p.p. em decisão unânime, apesar de sinais de estresse observados no mercado após a decisão do Fed que ocorreu algumas horas antes. O movimento foi em linha com nossa expectativa, mas não era o consenso de mercado. O regime de metas de inflação mira, na prática, nas projeções de inflação, e as projeções fornecidas no comunicado da reunião sugerem um orçamento total de flexibilização de cerca de 1,00 p.p. No entanto, isso também é condicional à retomada prevista da recuperação econômica, algo que ainda é incerto. A decisão de começar com um movimento de 0,50 p.p., assim como a linguagem usada no comunicado, indica que, por enquanto, um “ajuste” adicional de mesma magnitude é o cenário base para a próxima reunião, de modo que esperamos que o Copom reduza a taxa Selic para 5,5% na decisão de setembro. Por enquanto, dada a fraqueza da recuperação e as perspectivas benignas para a inflação, acreditamos que a taxa Selic chegará a 5% até o fim do ano. Em suma, parece que os fatores externos/internos dominam os riscos para cima/baixo ao redor da projeção em questão (desde que as reformas econômicas permaneçam no rumo certo). 

Câmara aprova texto base da reforma da Previdência

A Câmara dos Deputados aprovou em primeiro turno o texto base da reforma da previdência. Ao todo, a proposta contou com 379 votos a favor da proposta e 131 contrários, uma margem expressiva sobre os levantamentos anteriores à aprovação, que mostravam entre 330 e 350 votos favoráveis. Nas nossas estimativas, o texto aprovado trará uma economia de cerca de R$ 865 bilhões nos próximos dez anos.

Esperamos que a reforma tenha sua tramitação concluída no Congresso Nacional ao longo do terceiro trimestre, sem diluições adicionais frente à versão atual. A proposta deve ser aprovada em segundo turno na Câmara no início de agosto; e, no Senado, em setembro. Nossa confiança na aprovação da reforma deriva da existência de uma maioria nocional no Congresso que não se opõe conceitual ou ideologicamente à proposta, bem como do consenso, entre formadores de opinião e na sociedade, sobre a necessidade de se restaurar a sustentabilidade financeira do sistema previdenciário.

Inflação segue com comportamento benigno

A divulgação mais recente de inflação, o IPCA-15 de julho, mostrou alta nos preços de 0,09%, abaixo da nossa projeção (0,14%) e da mediana das expectativas do mercado (0,13%), ante 0,06% no mês anterior. Apesar da aceleração mensal, em termos anuais, a inflação recuou para 3,27%, de 3,84% em junho. Além do indicador do meio do mês, o IPCA de junho também registrou trajetória benigna, com alta mensal de 0,01%, ligeiramente acima da nossa projeção (-0,01%) e da mediana das expectativas de mercado (-0,03%). Na comparação anual, o IPCA recuou para 3,37% (de 4,66% no mês anterior), ante nossa projeção de 3,35% e do consenso de mercado, em 3,33%. Apesar da surpresa positiva, as medidas de núcleo da inflação continuaram em patamares confortáveis – o núcleo de serviços subjacentes, por exemplo, registrou alta de 0,2% no mês, e, com isso, o acumulado em 12 meses desacelerou de 3,9% para 3,7%.

Melhora na criação de empregos ainda é moderada

Houve criação líquida de 48,4 mil empregos (Caged) em junho, resultado acima da nossa projeção (+28 mil) e da mediana das expectativas de mercado (+29,5 mil). Dados livres de efeitos sazonais apontam para criação de 26 mil postos de trabalho, levando a média móvel de 3 meses para 30 mil empregos, ante 15 mil no mês anterior. Apesar da melhora na margem, o ritmo de criação de empregos formais segue moderado. Além disso, o nível atual de confiança do empresário não indica aceleração da criação de empregos nos próximos meses. 

A taxa de desemprego nacional alcançou 12,0% no trimestre concluído em junho, ante 12,4% no mesmo período do ano passado, segundo dados da PNAD Contínua. O resultado veio em linha com a nossa projeção e com a mediana das expectativas do mercado (ambas em 12,0%). Em termos dessazonalizados, a taxa de desemprego ficou estável em 11,9%, nível historicamente elevado, devido principalmente ao ritmo ainda moderado de recuperação da atividade. Vale notar que a criação de empregos com carteira assinada no setor privado na PNAD Contínua, que estava mais forte do que o indicado pela criação de empregos formais do Caged, apresentou forte recuo em junho.

Confiança segue em níveis baixos

Os indicadores de confiança divulgados pela FGV apresentaram resultados ambíguos em julho. A confiança da indústria recuou 0,9 p.p., registrando a terceira queda consecutiva. Sob a ótica da utilização de capacidade instalada na indústria, o indicador avançou 0,5 p.p. para 75,5% no mês, ainda refletindo elevada ociosidade nos fatores de produção. A confiança do consumidor recuou 0,4 p.p., puxado pelo componente de expectativas para o futuro (-2,0 p.p.), mais que compensando a alta de 1,9 p.p. no componente de situação atual. Por outro lado, a confiança do setor de comércio subiu 2,3 p.p. para 95,5 em julho. Na mesma direção, o indicador de construção civil subiu 2,6 p.p. para 85,4, patamar ainda bem abaixo do nível de neutralidade (próximo a 100). O setor de serviços também apresentou alta no mês, de 2,2 p.p. Avaliamos que o desempenho recente dos indicadores de confiança, apesar da melhora em alguns setores, é consistente com ritmo moderado da atividade econômica na margem.

Fraqueza da atividade econômica no segundo trimestre de 2019

A produção industrial (PIM) recuou 0,6% com ajuste sazonal em junho, representando uma queda de 0,7% no segundo trimestre em relação ao 1T19. Na comparação anual, a produção industrial recuou 5,9%. Divulgados até o mês de maio, indicadores de atividade relacionados ao comércio (PMC) e serviços (PMS), assim como a PIM para o mês também mostraram fraqueza na margem. Apesar dos recuos nos indicadores setoriais, segundo o indicador mensal de atividade do banco central, IBC-Br, a economia cresceu 0,5% em maio. Foi a primeira melhora registrada no ano. Na comparação anual, o índice avançou 4,4%, impulsionado principalmente pela queda de atividade registrada no mesmo mês de 2018, devido à paralisação dos caminhoneiros. Apesar do crescimento, o número ainda é tímido, e reforça nossa visão de que o crescimento deve continuar fraco em 2019.

Déficit primário de R$ 12,7 bilhões em junho 

O setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 12,7 bilhões em junho, um pouco pior que a nossa projeção e o consenso de mercado (em R$ 11,6 bilhões e R$ 11,1 bilhões, respectivamente). No acumulado em 12 meses, o déficit primário consolidado permaneceu em 1,4% do PIB. Acreditamos que o cumprimento da meta de resultado primário do ano de déficit de R$ 132 bilhões para o setor público exige disciplina, mas não deve constituir grande desafio, principalmente se houver sucesso no leilão dos campos de petróleo da cessão onerosa, previsto para novembro, que pode melhorar o resultado primário do ano em cerca de R$ 52 bilhões (0,7% do PIB). A dívida líquida do setor público cresceu de 54,7% para 55,2% do PIB entre maio e junho, enquanto a dívida bruta do governo geral ficou estável em 78,7% do PIB no mesmo período. No acumulado em 12 meses, o déficit nominal, excluindo swaps, recuou de 6,8% para 6,6% do PIB. Um cenário fiscal favorável é estritamente dependente da aprovação de reformas, como a da Previdência, que sinalizem o retorno gradual a superávits primários compatíveis com a estabilização estrutural da dívida pública.

Governo anuncia liberação de saques do FGTS e PIS/Pasep

O governo anunciou a liberação de saques do FGTS de R$ 500 para contas ativas e inativas, aumento na remuneração do fundo e a opção, a partir de 2020, de saque anual de percentual do fundo. Também foi anunciada uma nova liberação para saques do fundo PIS/Pasep. Segundo o Ministério da Economia, as medidas devem injetar R$ 30 bilhões na economia este ano e garantir crescimento adicional de 0,35 p.p. em 12 meses.

Governo lança Novo Mercado de Gás

Em mais um conjunto de medidas para dar suporte à economia brasileira, o governo lançou o programa do Novo Mercado de Gás, com a finalidade de reduzir o preço do gás natural. Segundo o Ministério da Economia, a estimativa é que seja possível derrubar o preço do produto em cerca de 40% nos próximos dois anos, o que deve impactar, além do custo de geração de energia, alguns insumos industriais básicos.  Neste sentido, a expectativa do governo é que a oferta de gás natural mais barato contribua para a retomada do crescimento econômico, estimulando investimentos e garantindo competitividade para a indústria.

Ativos financeiros

Em julho, o Ibovespa avançou 0,8% em reais e 2,6% em dólares. O risco-país medido pelo CDS de 5 anos caiu 23 p.b. e fechou o mês em 127 p.b. A taxa de câmbio apreciou 1,8%, encerrando o mês em 3,76 reais por dólar.

Próximos eventos

No Brasil, a proposta de reforma da Previdência deve ser votada em segundo turno na Câmara dos Deputados no início de agosto e, caso aprovada, será encaminhada para o Senado. Além disso, as discussões sobre a reforma a tributária devem seguir avançando.

Do lado internacional, as atenções continuam voltadas para o andamento das negociações comerciais entre EUA e China. Nos EUA, a reunião anual em Jackson Hole entre os dias 22 até 24 de agosto discutirá os desafios para a condução da política monetária ao redor do mundo.



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