Itaú BBA - Copom pronto para retomar ciclo, condicional à reforma

Conjuntura Macro

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Copom pronto para retomar ciclo, condicional à reforma

Julho 1, 2019

Projeções do BCB indicam novo ciclo de cortes da taxa Selic em 2019

A economia brasileira em junho de 2019

A ata da última reunião do Copom trouxe clara indicação de que, condicional a avanços concretos na agenda de reformas, o Copom retomará a flexibilização monetária em breve. A criação de empregos formais apresentou ritmo fraco em maio, consistente com o nível atual de confiança do empresário ainda baixo. A inflação em 12 meses do IPCA-15 desacelerou à medida que pressões recentes de itens voláteis começaram a se dissipar. Na esfera política, o mês seguiu marcado por discussões sobre a reforma da Previdência na Comissão Especial da Câmara.

Projeções do BCB indicam novo ciclo de cortes da taxa Selic em 2019

A decisão do Copom de junho de manter a taxa básica inalterada em 6,5% ao ano era amplamente esperada. O comunicado abre caminho para a retomada do ciclo de flexibilização monetária, já na reunião do dia 31 julho, desde que haja “avanços concretos” na agenda de reformas. O relatório de inflação de junho de 2019 mostra projeções de inflação consistentes com novos cortes de juros em 2019, embora não corroborem a visão de manutenção dos juros em novo patamar recorde de baixa nos anos subsequentes. De fato, as projeções que consideram a taxa Selic com a trajetória da pesquisa Focus (que embute cortes em 2019 e aumentos em 2020 e 2021), mostram inflação ligeiramente abaixo da meta em 2020 e ligeiramente acima da meta em 2021. 

De forma geral, as comunicações recentes reforçam nossa expectativa de que o Copom reiniciará o ciclo de flexibilização com um corte de 0,25 p.p. na reunião dos dias 30 e 31 de julho, condicionado ao progresso concreto no fronte da reforma. Cabe destacar que a decisão do Copom ocorrerá algumas horas após a divulgação da decisão do FOMC nos EUA, algo que pode ter algum peso sobre as deliberações locais.

Conselho Monetário Nacional define meta de inflação para 2022

O Conselho Monetário Nacional (CMN) estabeleceu meta de inflação de 3,50% para 2022 (com intervalo de tolerância de 1,50 ponto percentual para mais e para menos), ante 3,75% em 2021, 4,0% em 2020 e 4,25% em 2019. A decisão é mais um passo no processo de convergência da meta de inflação brasileira para padrões internacionais.

Mercado de trabalho segue em ritmo fraco

Segundo o Ministério do Trabalho, houve criação líquida de 32 mil empregos (Caged) em maio, resultado abaixo da nossa projeção (+55 mil) e mediana das expectativas de mercado (+66 mil). Dados livres de sazonalidade apontam para avanço de apenas 3 mil postos de trabalho, reduzindo a média móvel de 3 meses para 13 mil empregos, ante 26 mil no mês anterior. O ritmo ainda fraco da criação de emprego formal é consistente com o nível atual de confiança do empresário que aponta na direção de arrefecimento da atividade econômica.

Também referente ao mês de maio, a taxa de desemprego alcançou 12,3%, ante 12,7% no mesmo período do ano passado, resultado em linha com a nossa projeção e mediana das expectativas. De acordo com nosso ajuste sazonal, o desemprego recuou 0,1 p.p. para 11,8% em maio, ante o trimestre concluído em abril. Apesar da queda, a taxa segue em níveis historicamente elevados, devido principalmente ao ritmo ainda moderado de recuperação da atividade. Avaliamos que a criação de empregos com carteira assinada no setor privado na PNAD Contínua está acima do que o indicado pelos dados divulgados pelo Caged. Esta divergência acontece com frequência, mas normalmente se reverte com os dados da PNAD convergindo em direção à evolução do Caged. Finalmente, a massa salarial real subiu 2,4% na comparação anual e 0,2% na variação trimestral. Vale notar que a massa salarial possui boa correlação com as vendas no varejo restrito, que excluem veículos e materiais de construção.

Indicadores de confiança sobem em junho, exceto na indústria

A maior parte dos indicadores de confiança divulgados pela FGV para o mês de junho apresentou alta, interrompendo a sequência de quedas dos últimos meses. A exceção foi o indicador de confiança da indústria, que recuou 1,5 p.p. no mês – influenciado por quedas em ambos os componentes de expectativas e situação atual – atingindo o menor nível desde outubro de 2018. Além disso, a utilização da capacidade instalada na indústria voltou a recuar em junho (para 75%, ante 75,3% no mês anterior), reforçando o quadro de ociosidade dos fatores de produção. A confiança do consumidor subiu 1,9 p.p. no mês, após quatro quedas consecutivas. Cabe notar que o nível atual da confiança do consumidor é consistente com um crescimento do PIB de consumo das famílias em torno de 0,5% no trimestre (1,9% anualizado). Na mesma direção, a confiança do comércio subiu 1,8 p.p. e o indicador para construção civil 2,1 p.p. A confiança do setor de serviços subiu 2,2 p.p. no mês, influenciada por altas em ambos os componentes de expectativas (+3 p.p.) e situação atual (+1,2 p.p.). Apesar da melhora em junho, avaliamos que, sem novas altas, os níveis atuais dos indicadores de confiança são consistentes com interrupção do processo de recuperação da atividade econômica.

Atividade em ritmo moderado no início do 2º trimestre

A produção industrial avançou 0,3% em abril na comparação mensal dessazonalizada. O resultado veio abaixo da mediana das expectativas (+0,7%) e próximo da nossa projeção (+0,2%). A indústria de transformação cresceu 1,2% com ajuste sazonal, enquanto a indústria extrativa recuou 9,7%, possivelmente refletindo a redução na produção de minério de ferro em razão do rompimento da barragem de Brumadinho. As vendas no varejo ampliado ficaram estáveis em abril (com ajuste sazonal), abaixo das expectativas de mercado (+0,3%) e da nossa projeção (+0,4%). Na comparação anual, o indicador cresceu 3,1%. Já as vendas no varejo restrito – que excluem veículos e materiais de construção – recuaram 0,6% com ajuste sazonal, também abaixo das expectativas de mercado (-0,1%) e da nossa projeção (-0,4%). Na comparação anual, houve alta de 1,7%. Ainda para o mês de abril, a receita do setor de serviços (PMS) subiu 0,3% no mês, após três quedas consecutivas. A variação anual do indicador recuou 0,8%, resultado levemente abaixo da mediana das expectativas de mercado (-0,6%) e nossa projeção (-0,5%).

Inflação do IPCA-15 recua para 3,84% em 12 meses

O IPCA-15 de junho registrou alta de 0,06%, em linha com a nossa projeção. Destaque no mês para a deflação em alimentos, tanto no domicílio (-0,82%), quanto fora do domicílio (-0,33%). Com o resultado, o IPCA-15 acumula alta de 3,84% em doze meses, ante 4,93% no mês anterior. Todas as medidas de núcleo seguem em patamar confortável. No mês de maio, o IPCA registrou alta de 0,13%, com a taxa em 12 meses alcançando 4,66%. Seguindo o movimento observado no IPCA-15, projetamos que a inflação acumulada em 12 meses para o IPCA irá desacelerar para 3,35% em junho (ante 4,66% no mês anterior), parte devido a uma inflação baixa esperada no mês (-0,01%) e parte devido ao fim do efeito base do ano passado, influenciado pela paralisação dos caminhoneiros em maio de 2018. Em linhas gerais, as divulgações recentes do índice reforçaram a nossa visão de que, após pressões de curto prazo no primeiro trimestre do ano, a inflação ao consumidor segue em trajetória benigna, resultado da elevada capacidade ociosa da economia, inércia favorável e expectativas ancoradas.

Déficit primário de R$ 13 bilhões em maio 

O setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 13 bilhões em maio, um pouco melhor que a nossa projeção e o consenso de mercado (ambos em R$ 14,4 bilhões). O governo central registrou déficit de R$ 14,7 bilhões, próximo à nossa expectativa de R$ 15,0 bilhões. No acumulado em 12 meses, o déficit primário consolidado permaneceu em 1,4% do PIB entre abril e maio. Acreditamos que o cumprimento da meta de resultado primário do ano de déficit de R$ 132 bilhões para o setor público exige disciplina, mas não deve constituir grande desafio, principalmente se houver sucesso no leilão dos campos de petróleo da cessão onerosa, previsto para outubro, que pode melhorar o resultado primário do ano em cerca de R$ 52 bilhões (0,7% do PIB).

A dívida líquida do setor público cresceu de 54,4% para 54,7% do PIB entre abril e maio, enquanto a dívida bruta do governo geral recuou na margem de 79,0% para 78,7% do PIB no mesmo período, com devoluções do BNDES ao Tesouro no mês. Cabe notar que um cenário fiscal favorável é estritamente dependente da aprovação de reformas, como a da Previdência, que sinalizem o retorno gradual a superávits primários compatíveis com a estabilização estrutural da dívida pública.

Superávit em conta corrente de US$ 664 milhões em maio

As transações em conta corrente registraram superávit de US$ 664 milhões em maio, próximo da nossa expectativa (superávit de US$ 850 milhões) e das expectativas de mercado (superávit de US$ 700 milhões). O déficit em conta corrente segue em patamar baixo, com o resultado acumulado em 12 meses em 0,7% do PIB. Para os próximos anos, mantemos a nossa visão de aumento gradual do déficit em conta corrente, mas sem comprometer a sustentabilidade das contas externas. O investimento direto no país continua sendo a principal fonte de financiamento do déficit em conta corrente.

Mercosul e União Europeia fecham acordo de livre comércio

Segundo o Ministério das Relações Exteriores, o Mercosul e a União Europeia concluíram um acordo de livre comércio entre os dois blocos. Segundo o noticiário, o tratado endereça questões tarifárias e regulatórias, abrangendo serviços, compras governamentais, facilitação de comércio, barreiras técnicas, medidas sanitárias e fitossanitárias e propriedade intelectual. Segundo nota conjunta divulgada pelos participantes, “a conclusão do acordo ressalta o compromisso dos dois blocos com a abertura econômica e o fortalecimento das condições de competitividade”.

Ativos financeiros

Em junho, o Ibovespa avançou 4,1% em reais e 7,0% em dólares. O risco-país medido pelo CDS de 5 anos caiu 31 pbs e fechou o mês em 150 pbs. A taxa de câmbio apreciou 2,8%, encerrando o mês em 3,83 reais por dólar.

Próximos eventos

No Brasil, há chances de que o parecer da reforma da Previdência na comissão especial seja votado na primeira semana de julho. O próximo passo é o encaminhamento da proposta ao plenário da Câmara dos Deputados. Segundo o noticiário, membros da Casa – inclusive o presidente da Câmara, Rodrigo Maia – articulam para avançar com a proposta e votá-la em primeiro turno antes do recesso parlamentar, previsto para os dias 17 até 31 de julho.

Do lado internacional, as atenções continuam voltadas para o andamento das negociações comerciais entre EUA e China. Apesar da trégua comercial acordada na última reunião do G20 ter trazido algum alívio na margem, não há prazo definido para que ambos os países cheguem a um acordo.


 



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