Itaú BBA - Brasil no centro das atenções globais

Conjuntura Macro

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Brasil no centro das atenções globais

Junho 1, 2020

Brasil ocupa a segunda posição global em total de casos de COVID-19

A economia brasileira em maio de 2020

Ao longo dos últimos dias, os casos de COVID-19 continuaram crescendo de forma expressiva no Brasil e outros emergentes, como Peru, México, Índia, África do Sul e países do oriente médio. O PIB teve queda de 1,5% no primeiro trimestre do ano, reflexo das medidas de distanciamento social iniciadas em meados de março. Para o mês de maio, os indicadores de confiança sugerem tímida recuperação. No mercado de trabalho, a contração de empregos formais foi disseminada entre os principais setores da economia, impactando de forma mais acentuada, como esperado, o setor de serviços, enquanto o setor agrícola foi o mais resiliente. Sob a ótica da inflação, as medidas de núcleo de inflação seguem em patamares baixos e desacelerando na margem. No fronte político, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a lei de auxílio financeiro a estados e municípios, além de vetar o trecho que abria a possibilidade de reajuste para servidores públicos.

Brasil ocupa a segunda posição global em total de casos de COVID-19

Ao longo dos últimos dias, os casos de COVID-19 continuaram crescendo de forma expressiva no Brasil e outros emergentes, como Peru, México, Índia, África do Sul e países do oriente médio. Enquanto isso, as curvas de novos casos seguiram recuando nos EUA e na Europa, inclusive na Rússia – país que o Brasil ultrapassou recentemente na contagem total de casos, assumindo assim a segunda pior posição global, agora atrás apenas dos EUA. 

Segundo o Ministério da Saúde, foram confirmados no Brasil 29.314 óbitos e 514.849 casos até o momento da publicação deste relatório. Dentre as medidas relacionadas ao enfrentamento às consequências do Covid-19 na economia brasileira, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a lei de auxílio financeiro a estados e municípios, além de vetar o trecho que abria a possibilidade de reajuste para servidores públicos. Na Câmara dos Deputados, foi aprovada a medida provisória 936, que permite a redução de salários e da jornada de trabalho ou a suspensão do contrato trabalhista durante o estado de calamidade pública relacionado ao coronavírus – com um adendo que prorroga o fim da desoneração da folha de pagamentos para determinados setores, de dezembro de 2020 para 31 de dezembro de 2021. O próximo passo da medida provisória é a sua apreciação pelo Senado.

PIB brasileiro recua 1,5% no 1T20

No 1T20, o PIB teve queda de 1,5% na comparação trimestral com ajuste sazonal, resultado em linha com as expectativas (mercado: -1,5%, Itaú: -1,4%). Como esperado, o setor agrícola foi o único a registrar crescimento, da ordem de 0,6% em relação ao trimestre anterior, enquanto indústria e serviços recuaram 1,4% e 1,6%, respectivamente, afetados pelas medidas de distanciamento social iniciadas em meados de março. Na abertura pelo lado da oferta, alguns setores se mostraram mais resilientes à crise atual, enquanto outros sofreram intenso impacto negativo. Do lado de serviços, os setores residencial, financeiro e de administração pública resistiram um pouco melhor, enquanto transporte e outros serviços (como serviços prestados a famílias: hotéis, restaurantes etc.) tiveram queda acentuada. Na indústria, a atividade das empresas de eletricidade e saneamento básico se manteve relativamente estável, enquanto indústria de transformação, construção civil e mineração registraram resultados negativos.

Do lado da demanda, o consumo caiu 2,0% no trimestre, com ajuste sazonal, enquanto as despesas do governo aumentaram 0,2% e o investimento subiu 3,1%, impulsionado pelas importações de máquinas e equipamentos principalmente para o setor de petróleo e gás. As exportações diminuíram 0,9%, enquanto as importações avançaram 2,8%. Para o 2T20, projetamos queda do PIB de 10,6% na comparação trimestral com ajuste sazonal (não anualizado), considerando a vigência das medidas de distanciamento social na maior parte do período. No entanto, dados preliminares indicam que o nível de atividade econômica pode ter atingido seu ponto mais baixo em abril e começou a se recuperar levemente em maio. Esperamos aceleração do PIB a partir do 3T20 e prevemos uma queda de 4,5% em 2020, seguida de um crescimento de 3,5% em 2021.

Tímida elevação da confiança em maio 

O índice de confiança empresarial da FGV subiu 9,8 pontos em maio, para 65,5 pontos, recuperando cerca de 1/4 da queda ocorrida no bimestre março-abril. Dentre seus componentes setoriais, a confiança de serviços subiu 9,4 pontos em maio (para 60,5 pontos), após atingir em abril, o menor nível da série histórica. O indicador recuperou cerca de 1/5 do recuo observado nos dois meses anteriores, reflexo de melhora no componente de expectativas para o futuro. A confiança no comércio, que chegou a recuar 26,9 pontos em abril, avançou 6,2 pontos em maio, para o patamar de 67,4 pontos. Na mesma direção, a confiança do consumidor avançou 3,9 pontos (para 62,1). Segundo a instituição, no presente momento, os consumidores sentem os impactos da pandemia e enxergam piora na situação econômica e financeira das famílias. No setor industrial, o índice de confiança subiu 3,2 pontos (acima da variação de 2,4 pontos indicada pela prévia da sondagem). Segundo a FGV, 10 dos 19 segmentos industriais pesquisados apresentaram aumento da confiança em maio, reflexo de alta em ambos os indicadores de expectativas para o futuro (+ 5,3 pontos) e situação atual (+1,2 ponto). O nível de utilização da capacidade instalada na indústria subiu 3,0 p.p. (para 60,3%), patamar muito baixo em termos históricos, mas mostrando alguma reação da indústria entre abril e maio. Por fim, a confiança na indústria avançou 3,0 pontos em maio, atingindo 68,0 pontos. Apesar do resultado positivo, o índice acumula queda de 26,2 pontos em relação a janeiro de 2020.

Intensa destruição de empregos em março e abril 

Segundo o Ministério da Economia, a criação de empregos formais (Caged) foi negativa em 241 mil postos de trabalho em março e 860 mil em abril. Ajustado sazonalmente, houve queda de 212 mil e 935 mil postos de trabalho em março e abril, respectivamente. A contração foi disseminada entre os principais setores da economia brasileira, impactando de forma mais acentuada, como esperado, o setor de serviços, enquanto o setor agrícola foi o mais resiliente. 

Segundo a PNAD Contínua, a taxa de desemprego atingiu 12,6% em abril, abaixo das expectativas do mercado (13,3%) e da nossa projeção (13,9%), devido a uma queda acentuada na taxa de participação (de 61,0% para 59,1%, com ajuste sazonal). Ajustada sazonalmente, a taxa de desemprego aumentou de 11,6% para 12,1%. Supondo a taxa de participação constante no nível de fevereiro, a taxa de desemprego teria atingido 16,0%, ajustada sazonalmente. A população ocupada em empregos formais recuou em 836 mil com ajuste sazonal em abril – perto do número divulgado pelo Ministério da Economia (Caged) – enquanto a população ocupada em empregos informais diminuiu em 2,3 milhões. Vale notar que o emprego formal, com salários mais altos, vem ganhando participação no emprego total, de modo que o salário real médio tem aumentado (+1,3% ajustado sazonalmente de março para abril, +2,7% na comparação com abril de 2019). Isto contribui positivamente para a massa salarial real (população ocupada multiplicada pela média do salário real), que declinou apenas 2,0% com ajuste sazonal em abril (-0,8% contra o mesmo período do ano passado).

IPCA-15 recua 0,59% em maio e atinge 2,0% em 12 meses

O IPCA-15 de maio registrou deflação de 0,59%, resultado próximo da nossa projeção (-0,56%) e abaixo do esperado pelo mercado (-0,48%). Destaque para queda nos preços dos combustíveis (-8,5%) e passagens aéreas (-27,1%). No sentido contrário, a maior contribuição de alta veio de alimentação no domicílio. No ano, o IPCA-15 acumula alta de 0,35%. Já no acumulado dos últimos 12 meses, a taxa recuou para 1,96% (de 2,92% até abril). As medidas de núcleo de inflação seguem em patamares baixos e desacelerando na margem. A inflação de industriais subjacente recuou 0,09%, com o acumulado em doze meses passando de 0,8% para 0,5%. A inflação de serviços subjacente também desacelerou nessa base de comparação, passando de 3,2% para 2,8%. Em nossa visão, as próximas leituras do IPCA devem seguir baixas. Projetamos deflação de 0,42% em maio e alta de 0,19% em junho e 0,36% em julho. Para o ano, esperamos alta de 2,0% no IPCA em 2020 e 3,0% em 2021.

Forte correção das contas externas em abril

As transações em conta corrente registraram superávit de US$ 3,8 bilhões em abril de 2020, acima da nossa expectativa (US$ 3,2 bilhões) e das expectativas de mercado (US$ 3 bilhões). Este foi o segundo mês consecutivo de superávit em conta corrente. Acumulado em 12 meses, o déficit em conta corrente recuou de US$ 50,1 bilhões em março para US$ 44,4 bilhões, ou 2,6% do PIB, em abril. Vale notar que a atividade econômica mais fraca e o câmbio mais depreciado, bem como o aumento do isolamento social, impactaram as transações correntes: houve recuo expressivo nos déficits de viagens internacionais e de lucros e dividendos. Os próximos meses devem ser marcados por continuidade da queda do déficit em conta corrente. Projetamos saldo em conta corrente perto de zero nos próximos anos. No que diz respeito ao financiamento da conta corrente, o investimento estrangeiro direto recuou, mas segue como principal fonte de financiamento da conta corrente e as saídas do mercado local de capitais foram menos intensas em abril.

Déficit primário de R$ 94,3 bilhões em abril

O setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 94,3 bilhões em abril, próximo ao consenso de mercado e a nossa projeção (em R$ 96,6 bilhões e R$ 95,0 bilhões, respectivamente). O governo central registrou déficit de R$ 92,9 bilhões pela metodologia do Tesouro Nacional (a partir da diferença entre receitas e despesas), melhor que nossa expectativa de R$ 111 bilhões. Excluindo as medidas de receitas e despesas para combate a crise do coronavírus, o déficit primário teria sido de R$ 4,8 bilhões. No acumulado em 12 meses, o déficit primário consolidado aumentou de 0,9% para 2,3% do PIB. A dívida bruta do governo geral subiu de 78,5% para 79,7% do PIB entre março e abril, e a dívida líquida subiu de 51,7% para 52,7% do PIB. Em linhas gerais, a contração da atividade econômica e as medidas tomadas para suavizar o impacto da crise do coronavírus levarão a uma forte piora nos resultados fiscais de 2020, mas é fundamental que não sejam criadas despesas permanentes, de modo que o ajuste fiscal gradual proporcionado pelo teto de gastos seja retomado de 2021 em diante.

Copom reduz taxa Selic para 3,00% a.a.

O Copom reduziu a taxa básica de juros para o mínimo histórico de 3,0% a.a., na reunião de 5 e 6 de maio de 2020. Isso aconteceu apesar da depreciação de mais de 20% do real desde a reunião anterior e após sinais de que a deterioração da política fiscal pode ser mais persistente que o esperado. Além disso, as autoridades indicaram que dois membros do comitê eram a favor de um corte ainda mais ousado e que a decisão de 0,75 p.p. foi um ajuste "moderado".

Ativos financeiros

Em maio, o Ibovespa subiu 8,6%, tanto em reais como em dólares, uma vez que a taxa de câmbio ficou praticamente estável em 5,42 reais por dólar. O risco-país brasileiro medido pelo CDS de 5 anos recuou 6 p.b. e encerrou o mês em 278 p.b. 

Próximos eventos 

No Brasil e no mundo, as atenções continuarão voltadas para a evolução dos novos casos de Covid-19, assim como as medidas dos governos em relação à duração das medidas de distanciamento social e planejamento de reabertura. Será importante acompanhar a evolução das taxas de reprodução do vírus, especialmente nos países desenvolvidos que já iniciaram o processo de reabertura e buscam assegurar que não haja uma segunda onda de contágio.
 

Para o relatório completo com gráficos e tabelas, favor acessar o pdf em anexo.



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